sábado, 6 de novembro de 2021

A prisão - Considerações sobre Mateus 26 - Parte 4


Nos momentos que antecederam sua crucificação, o Senhor Jesus é preso por um grupo, às ordens dos líderes judeus. Sendo traído pelo apóstolo Judas, e já prestes a passar pelo injusto julgamento, ainda opera dois sinais, à vista de todos.

Assim como outras passagens do Evangelho de Mateus, cujas análises se encontram aqui no blog, para ser bem entendido, o trecho que vamos estudar agora também carece ser comparado com as outras passagens relacionadas a esse mesmo episódio, contidas nos outros Evangelhos.

Vejamos a seguir:

"Levantem-se e vamos! Aí vem aquele que me trai!" Enquanto ele ainda falava, chegou Judas, um dos Doze. Com ele estava uma grande multidão armada de espadas e varas, enviada pelos chefes dos sacerdotes e líderes religiosos do povo. O traidor havia combinado um sinal com eles, dizendo-lhes: "Aquele a quem eu saudar com um beijo, é ele; prendam-no". Dirigindo-se imediatamente a Jesus, Judas disse: "Salve, Mestre!", e o beijou. Jesus perguntou: "Amigo, que é que o traz?" Então os homens se aproximaram, agarraram Jesus e o prenderam. Um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou a espada e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Disse-lhe Jesus: "Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão. Você acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos? Como então se cumpririam as Escrituras que dizem que as coisas deveriam acontecer desta forma?" Naquela hora Jesus disse à multidão: "Estou eu chefiando alguma rebelião, para que vocês venham prender-me com espadas e varas? Todos os dias eu estava ensinando no templo, e vocês não me prenderam! Mas tudo isso aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas". Então todos os discípulos o abandonaram e fugiram. Os que prenderam Jesus o levaram a Caifás, o sumo sacerdote, em cuja casa se haviam reunido os mestres da lei e os líderes religiosos. Mas Pedro o seguiu de longe até o pátio do sumo sacerdote, entrou e sentou-se com os guardas, para ver o que aconteceria. (Mateus 26:46-58)

Sobre o local em que Cristo estava quando foi encontrado por Judas, de acordo com o Evangelho de João, era um olival situado perto do vale do Cedrom. Esse vale – também chamado de Vale de Josafá – se estende ao longo do muro oriental de Jerusalém, separando o Monte do Templo do Monte das Oliveiras. Portanto, o Senhor e os Apóstolos não estavam mais no Getsêmani quando foram encontrados por Judas, mas num lugar ali próximo, provavelmente mais perto do Monte do Templo.

Outra informação importante, é que não era somente os Apóstolos que estavam com Jesus naquela hora. Havia, também, outras pessoas, e sabemos disso por causa do relato do Evangelho de Marcos, que cita o momento inusitado em que um jovem, que estava perto deles vestindo apenas um lençol de linho, perdeu sua veste e ficou nu, enquanto fugia, para não ser levado preso junto com Jesus.

Quanto às pessoas que vieram ao encontro de Jesus, os evangelhos de Mateus e Marcos relatam que era "uma multidão armada de espadas e varas, enviada pelos chefes dos sacerdotes, mestres da lei e líderes religiosos" (Mt 26:47, Mc 14:43).

No entanto, o Evangelho de Lucas mostra que, no momento em que foi encontrado, Jesus falou diretamente aos "chefes dos sacerdotes, aos oficiais da guarda do templo e aos líderes religiosos" (Lc 22:52) que tinham ido procurá-lo.

Já no Evangelho de João, está escrito que a multidão que seguiu Judas, para procurar Jesus, era composta de "um destacamento de soldados e alguns guardas enviados pelos chefes dos sacerdotes e fariseus" (Jo 18:3), que levavam tochas, lanternas e armas.

O consenso dessas informações nos leva a crer que aquela multidão, que saiu tarde da noite à procura de Jesus, era formada por representantes de alguns dos chefes dos sacerdotes, dos mestres da lei e dos demais líderes religiosos, como também algumas dessas autoridades em pessoa, somado aos oficiais da guarda do templo e um destacamento de soldados romanos, provavelmente composto por cerca de dez homens bem armados.

No Antigo Testamento há trechos que indiretamente falam acerca do momento em que o Senhor Jesus é encontrado e levado preso. O beijo de Judas, por exemplo, é profetizado no livro de Provérbios:

Quem fere por amor mostra lealdade, mas o inimigo multiplica beijos. (Pv 27:6)

O momento em que Jesus é encontrado pela multidão, que queria prendê-lo e matá-lo, também foi profetizado pelo Rei Davi em um de seus Salmos:

As cordas da morte me enredaram; as torrentes da destruição me surpreenderam. As cordas do Sheol me envolveram; os laços da morte me alcançaram. (Salmos 18:4,5)

Depois que o Senhor Jesus é encontrado, Ele ainda realiza dois sinais miraculosos diante dos seus Apóstolos, de seus seguidores e da multidão que veio prendê-lo. O primeiro sinal se dá quando Ele sai do olival e se dirige à multidão, perguntando pela primeira vez a quem eles estavam procurando. Quando a multidão responde "a Jesus de Nazaré", e Ele responde "Sou Eu", todas aquelas pessoas são lançadas para trás e caem sem forças no chão (Jo 18:4-7). Esse acontecimento é encontrado somente no Evangelho de João.

O segundo sinal acontece depois que Pedro se defende, com uma espada, dos que estavam tentando prender Jesus, decepando a orelha direita de um servo do sumo sacerdote. O Senhor Jesus, ao ver o que tinha acontecido, repreende Pedro e cura o homem, recolocando a orelha no lugar. O ferimento do servo do sumo sacerdote, que se chamava Malco, pode ser lido nos quatro evangelhos, porém, o momento em que Jesus coloca a orelha do homem no lugar encontra-se descrito somente no Evangelho de Lucas (Lc 22:51).

Quando o Senhor foi preso, os Apóstolos e todos os seus seguidores fugiram para não serem presos junto com Ele. Essa situação já havia sido predita por Jesus naquela mesma noite, durante o jantar de celebração da Páscoa (Mt 26:31). Mas, apesar da fuga dos discípulos ser um ato de covardia da parte deles, o fato deles conseguirem fugir foi o cumprimento de uma petição que o Senhor Jesus fez ao Pai a respeito deles (Jo 18:8,9), minutos antes de ser preso, no momento em que, orando, intercedia pela igreja no Getsêmani:

Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um. Enquanto estava com eles, eu os protegi e os guardei pelo nome que me deste. Nenhum deles se perdeu, a não ser aquele que estava destinado à perdição, para que se cumprisse a Escritura. Agora vou para ti, mas digo estas coisas enquanto ainda estou no mundo, para que eles tenham a plenitude da minha alegria. (João 17:11-13)

Ainda que temendo a situação, dois discípulos decidiram ficar por perto, para observar o que iria acontecer com Seu Mestre. Apesar dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas informarem que apenas Pedro seguiu o Senhor após sua prisão, de acordo com o Evangelho de João, foram dois homens, e um deles era Pedro; o outro não tem seu nome revelado, mas muito provavelmente era o próprio apóstolo João.

E, para concluir, o primeiro lugar para onde Jesus foi levado após sua prisão não foi para a casa de Caifás, o Sumo Sacerdote, mas foi para a casa do sogro dele, o fariseu Anás, segundo o relato do Evangelho de João. Vejamos, abaixo, o trecho desse Evangelho, que confirma os dois discípulos que acompanharam o Senhor após sua prisão e o momento em que Cristo é levado até Anás:

Assim, o destacamento de soldados com o seu comandante e os guardas dos judeus prenderam Jesus. Amarraram-no e o levaram primeiramente a Anás, que era sogro de Caifás, o sumo sacerdote naquele ano. Caifás era quem tinha dito aos judeus que seria bom que um homem morresse pelo povo. Simão Pedro e outro discípulo estavam seguindo Jesus. Por ser conhecido do sumo sacerdote, este discípulo entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote, mas Pedro teve que ficar esperando do lado de fora da porta. O outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, voltou, falou com a moça encarregada da porta e fez Pedro entrar. (João 18:12-16)

Missionária Oriana Costa

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