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quinta-feira, 22 de junho de 2023

Antes de escolher os Apóstolos - Parte 3.1 - O Sermão da montanha


Neste estudo vamos iniciar a análise de um dos momentos em que o Senhor Jesus começa a explicar com mais detalhes alguns princípios importantes do Seu Reino para os seus discípulos e seguidores. 

Esse evento ficou conhecido como "O Sermão da Montanha" ou "O Sermão do Monte", porque aconteceu quando o Senhor estava acampado no sopé de um monte situado de frente para o mar da Galiléia, próximo da cidade de Carfanaum. Hoje esse lugar é chamado de Monte das Beatitudes ou Monte das Bem-aventuranças.

O Sermão da Montanha consta nos Evangelhos de Mateus e Lucas, e um pequeno trecho desse discurso também pode ser achado no evangelho de Marcos (Mc 9:41-50). Porém, esse ensino foi melhor detalhado pelo Apóstolo Mateus (o ex-publicano Levi), visto que ele seguiu Jesus no tempo de Seu ministério terreno.

Sempre é bom lembrar que o público para o qual Jesus Cristo estava se dirigindo em sua época era judeu em sua maioria. Não existia cristãos naquele momento nem a Bíblia como hoje a conhecemos. A linguagem que o Senhor usava para falar com aquelas pessoas estava de acordo com o conteúdo da Torah, e obviamente, acordava com a cultura e os costumes judaicos, que eram, e ainda hoje são, muito diferentes dos usos e costumes ocidentais atuais.

Então, quando se dirigiu ao povo, Cristo foi lhes passando as seguintes instruções:

"Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Seus discípulos aproximaram-se dele, e ele começou a ensiná-los, dizendo "Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus; bem-aventurados os que choram, pois serão consolados; bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos; bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia; bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus; bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus; bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês"."(Mateus 5:1-12)

No Evangelho de Lucas vamos ler o seguinte:

"Olhando para os seus discípulos, ele disse: "Bem-aventurados vocês os pobres, pois a vocês pertence o Reino de Deus. Bem-aventurados vocês, que agora têm fome, pois serão satisfeitos. Bem-aventurados vocês, que agora choram, pois haverão de rir. Bem-aventurados serão vocês, quando os odiarem, expulsarem e insultarem, e eliminarem o nome de vocês, como sendo mau, por causa do Filho do homem. "Regozijem-se nesse dia e saltem de alegria, porque grande é a recompensa de vocês no céu. Pois assim os antepassados deles trataram os profetas. "Mas ai de vocês, os ricos, pois já receberam sua consolação. Ai de vocês, que agora têm fartura, porque passarão fome. Ai de vocês, que agora riem, pois haverão de se lamentar e chorar. Ai de vocês, quando todos falarem bem de vocês, pois assim os antepassados deles trataram os falsos profetas"". (Lucas 6:20-26)

As palavras do Senhor no Sermão da Montanha estão especialmente relacionadas com alguns pontos da Lei mosaica e também com o que fora dito pelos profetas que haviam sidos chamados por Deus no passado para falar em Seu Nome ao povo de Israel. 

Nessa parte inicial do sermão, Ele confirma muito do que foi dito através do profeta Isaías (Veja os capítulos 5, 61, 65 e 66), como também alguns trechos do livro de Salmos (Veja Sl 24:3,4; Sl 107:8,9; Sl 72:1,2).

De fato, o discurso de Jesus ali já se inicia com uma novidade, chamando a atenção da multidão para a ligação que existe entre o que está nas escrituras e o Reino de Deus, lugar este que permaneceu ignorado pelos judeus por séculos. E especialmente naquele momento os líderes religiosos não conseguiam entender o que as escrituras falavam sobre esse lugar, e, portanto, jamais poderiam ensinar o povo sobre tal assunto.

Como o trabalho de Jesus era focado em anunciar o Seu Reino e a Sua reta justiça, fica mais fácil entender as "Bem-aventuranças" que Ele pontua nos trechos que estamos analisando em nosso estudo. Nelas Cristo está chamando a atenção para o fato de que a postura das pessoas que escolhem viver segundo os preceitos da reta justiça de Deus e rejeitam a maldade mundana leva esses indivíduos a serem abençoados, especialmente se sofrerem no mundo por causa desse comportamento diferenciado. 

Por exemplo, quando Ele fala que bem-aventurados são os "pobres em espírito", porque a eles pertencem o Reino de Deus, está deixando claro que todos os que não tiverem apego às riquezas seculares por valorizarem mais a realidade eterna, ainda que possuam bens materiais no mundo, são herdeiras do Seu Reino.

Da mesma forma, ao falar dos que choram, dos humildes, dos que tem fome e sede de justiça, dos misericordiosos, dos puros de coração, dos pacificadores e dos perseguidos, Cristo está se referindo a todas as pessoas que escolheram viver nesse mundo mau em função do Seu Reino e da Sua justiça, reconhecendo a autoridade que há em Seu Nome.

Algumas pessoas, ao lerem o discurso do Senhor Jesus no Sermão montanha, por não entenderem que ali Cristo está focando na realidade de Seu Reino e falando dos indivíduos que escolhem viver no mundo pelos preceitos desse lugar, podem interpretar erroneamente suas palavras.

Especialmente quando o Senhor fala dos que tem fome e sede de justiça, Ele não está se referindo aquelas pessoas que sofreram algum dano no mundo e estão se sentindo injustiçadas, mas está falando daqueles indivíduos que desejam ardentemente conhecer a Deus, que estão famintos e sedentos dele, ou de pessoas que estão em trevas mas desejam de todo o coração ser libertas (veja o contexto da escravidão do povo de Israel no Egito no Salmo 107).

Escolher andar segundo os preceitos do Reino de Deus no mundo não é uma decisão fácil, pois requer renuncia dos desejos carnais, das vaidades e até mesmo a renuncia da realização de alguns sonhos que foram nutridos no coração antes do indivíduo conhecer a Cristo de verdade. Além do fato de gerar uma forte repulsa dos que não creem em Deus, a ponto disso custar até mesmo a vida dos que creem nele.

Por isso, essa escolha leva a um sofrimento ao qual o Senhor Jesus ressalta que não será em vão, e terá grande recompensa. 

Porém, para aquelas pessoas que decidem viver segundo a justiça e a sabedoria do mundo, e estão acomodadas aos prazeres da realidade mundana e se satisfazendo com eles, virá juízo na eternidade; pois, quem escolhe viver pela realidade do mundo não se importa em vigiar sua conduta para se alinhar aos preceitos da justiça de Deus, e, portanto, não se arrepende de suas transgressões contra ela. Desta forma, o indivíduo se comporta como inimigo de Deus e está negando a Cristo publicamente.

Mas, apesar disso, Deus não deseja absolutamente o mal dessas pessoas e não deseja de forma alguma condená- las. Na verdade, Ele tem profunda compaixão de quem não o conhece e tem sofrido por causa disso, e essa misericórdia Cristo mostrou de forma palpável enquanto esteve andando entre nós. Muitos testemunharam o quanto Deus está disposto a nos perdoar e livrar. E até agora este perdão está disponível para quem desejar acessá-lo.

A verdade é que Deus deseja que todos enxerguem o que realmente está acontecendo, e o que estamos colhendo por agir de forma contrária aos preceitos estabelecidos desde a criação do universo, pois tudo o que fazemos contra a reta justiça divina é por ignorá-la totalmente. 

Também é importante saber que não é pelo fato de alguém frequentar uma igreja ou mesmo participar dos trabalhos eclesiásticos que será um real seguidor de Jesus Cristo. Uma pessoa religiosa necessariamente não é uma seguidora de Jesus. Os fariseus eram os que mais demonstravam guardar a Lei mosaica e cumprí-la, no entanto, seus corações não estavam em Deus e sim nos deleites que o mundo lhes proporcionava.

Para concluir nosso raciocínio, vejamos o que está escrito no Salmo 37, sobre "os humildes" aos quais Cristo se refere:

"Não se aborreça por causa dos homens maus e não tenha inveja dos perversos; pois como o capim logo secarão, como a relva verde logo murcharão. Confie no Senhor e faça o bem; assim você habitará na terra e desfrutará segurança. Deleite-se no Senhor, e ele atenderá aos desejos do seu coração. Entregue o seu caminho ao Senhor; confie nele, e ele agirá: Ele deixará claro como a alvorada que você é justo, e como o sol do meio-dia que você é inocente. Descanse no Senhor e aguarde por ele com paciência; não se aborreça com o sucesso dos outros, nem com aqueles que maquinam o mal. Evite a ira e rejeite a fúria; não se irrite: isso só leva ao mal. Pois os maus serão eliminados, mas os que esperam no Senhor receberão a terra por herança. Um pouco de tempo, e os ímpios não mais existirão; por mais que os procure, não serão encontrados. Mas os humildes receberão a terra por herança e desfrutarão pleno bem-estar." (Salmos 37:1-11)

Então, essas pessoas humildes são aquelas que, por causa do Nome de Jesus e de Seu Reino, escolhem não se aborrecer com a maldade dos homens e não invejar a prosperidade dos que pervertem a justiça de Deus. São aquelas que, por causa do Reino, perseveram em fazer o bem por confiar no Senhor, e se deleitam nele, entregando a Ele os seus caminhos. São aquelas que, para honrar o nome de Jesus, descansam em Deus aguardando por Ele com paciência e que, por isso, não agem movidos por ira ou fúria, e não se vingam de si mesmos dos que lhes fazem mal.

Missionária Oriana Costa.




segunda-feira, 13 de março de 2023

Antes de escolher os Apóstolos - parte 1 - Na sinagoga de Carfanaum


Aqui vamos dar início ao estudo dos eventos que se sucederam até o momento em que o Senhor Jesus finalmente separa dentre os seus seguidores aqueles que formariam sua equipe de doze apóstolos.

Por comparação, observamos que no Evangelho de Mateus há uma lacuna entre o momento em que Cristo passa a morar em Carfanaum e o episódio do Sermão da montanha, que acontece dias, semanas ou meses depois.

Portanto, neste e em estudos seguintes, iremos usar mais os outros três evangelhos, a fim de entendermos como as coisas foram acontecendo, até chegarmos ao momento do Sermão da montanha. Depois desse evento, portanto, passaremos a incluir o Evangelho de Mateus em nossas análises até chegarmos ao ponto onde o Senhor Jesus nomeia seus doze apóstolos.

No Evangelho de Marcos, lemos o seguinte:

Eles foram para Cafarnaum e, assim que chegou o sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Todos ficavam maravilhados com o seu ensino, porque lhes ensinava como alguém que tem autoridade e não como os mestres da lei. Justamente naquela hora, na sinagoga, um homem possesso de um espírito imundo gritou: "O que queres conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Sei quem tu és: o Santo de Deus!" "Cale-se e saia dele!", repreendeu-o Jesus. O espírito imundo sacudiu o homem violentamente e saiu dele gritando. Todos ficaram tão admirados que perguntavam uns aos outros: "O que é isto? Um novo ensino — e com autoridade! Até aos espíritos imundos ele dá ordens, e eles lhe obedecem!" As notícias a seu respeito se espalharam rapidamente por toda a região da Galiléia. (Marcos 1:21-28)

No Evangelho de Lucas (Lc 4:31-37) também encontramos um trecho similar, confirmando esse episódio. Ali, Cristo mostrou a todos a autoridade que tinha, expulsando um demônio de um homem que estava possesso dentro da sinagoga. Lembrando que o ato de expulsar demônios não é um milagre, e sim um sinal de autoridade.

No Evangelho de João há um breve trecho referente à mudança de residência de Jesus, de Nazaré para Carfanaum, mostrando que Ele não foi morar lá sozinho, mas sua família foi com ele, como também os muitos discípulos que Ele tinha o acompanharam. Veja em João 2:12.

Voltando a nossa análise, essa é a primeira descrição contida nos evangelhos na qual Jesus liberta pessoas endemoniadas. É interessante notar que, nesse evento, a pessoa possessa se dirigiu a Jesus gritando enquanto Ele ensinava na sinagoga naquele sábado, e que a reação do Senhor foi rápida, apenas ordenando para que a entidade saísse dela.

Muito provavelmente, a temática abordada por Cristo naquele momento era exatamente o ponto fraco daquele homem, e que estava dando ocasião para que aquele demônio encontrasse espaço para agir pela vida daquele indivíduo. 

Como lemos na narrativa de Marcos, Jesus Cristo ensinava com autoridade e não como os mestres da lei. Isso quer dizer que Ele conhecia profundamente o conteúdo que abordava, e o transmitia a todos com segurança no falar, de forma clara.

Isso acontecia porque aquilo que o Senhor Jesus falava não era somente os conteúdos da Lei e dos Profetas decorados, mas Ele aplicava esse conhecimento diretamente ao cotidiano das pessoas, expondo também a realidade espiritual envolvida nos mandamentos e avisos profeticos, assim mostrando claramente a todos qual era a vontade do Pai naqueles decretos e alertas.

A forma como Jesus expôs o conhecimento das escrituras contrariou em muitos aspectos a maneira como os judeus estavam acostumados a ver e usar aquele conteúdo, isso porque eles estavam enganados sobre o sentido dele. Essa realidade podemos ver claramente na abordagem que o Senhor faz no Sermão da montanha, por exemplo, mostrando as pessoas o verdadeiro sentido de alguns mandamentos contidos nos livros da Lei. Por isso, após ouvirem o Senhor falar, as pessoas se maravilhavam e achavam que Cristo estava trazendo a elas um novo conhecimento.

Desse modo, ao contrário dos fariseus e mestres da lei, que usavam as escrituras para forçar o povo a ficar debaixo de suas lideranças, trazendo medo e condenação a elas, Cristo somente lhes mostrava o verdadeiro sentido daquelas palavras, e isso fazia com que a realidade espiritual se manifestasse de uma forma intensa onde Ele estava, com operação de muitos prodígios e milagres.

Então, era dessa maneira que Ele apresentava a realidade do Seu Reino, levando aqueles que criam nEle ao arrependimento sincero de seus pecados. A importância do arrependimento de pecados está no fato de que somente essa ação leva as pessoas a fecharem a porta de suas vidas para entidades malignas entrarem e fazerem morada. Foi por esse motivo que o demônio se manifestou na hora em que Cristo estava ensinando, na tentativa de impedir aquele homem de se arrepender e ser liberto. 


Missionária Oriana Costa.



sábado, 5 de novembro de 2022

Sigam-me - Considerações sobre Mateus capítulo 4 - Parte 3


Dando continuidade ao nosso estudo do Evangelho de Mateus, vamos analisar o período em que o Senhor Jesus começa a formar sua equipe, fazendo seus primeiros discípulos e, em seguida, escolhendo dentre eles aqueles que dariam continuidade aos trabalhos de divulgação da mensagem do Reino e do cuidado daqueles que fossem se juntando à família de Deus.

Nessa fase Jesus viaja bastante, visita muitas cidades e povoados, entra nas sinagoas para ensinar, como também ensina às multidões em acampamentos, e, nesse processo, realiza muitos milagres por onde vai passando. Nos estudos seguintes veremos esses acontecimentos com mais detalhes.

Voltando para nossa análise, vamos entender como Jesus formou sua equipe de doze apóstolos. Mas, antes de prosseguir, é bom entendermos que a palavra "apóstolo" significa aquele que se dedica à defesa e propagação de uma doutrina ou de um ideal. E a palavra "discípulo" significa aprendiz, aluno receptivo a ensinamentos.

As palavras "apóstolo" e "discípulo" não são usadas unicamente no âmbito religioso, mas em quaisquer assuntos seculares em que alguém se dispõe a propagar determinados conceitos ou conhecimentos ainda desconhecidos ou não dominados pela maioria das pessoas, no caso do nome "apóstolo", e quando pessoas resolvem seguir determinado propagador de conceitos, doutrinas, filosofias ou conhecimentos, no caso do nome "discípulos".

Os apóstolos de Jesus Cristo, que também eram discípulos dele, foram preparados pelo Senhor para continuar a propagar oficialmente a mensagem do Reino de Deus como autoridades designadas pelo próprio Deus, depois de sua ascenção aos céus, e os demais discípulos, por conseguinte, seguiam aprendendo os preceitos do Reino e como praticá-los.

Então, voltando para a análise do Evangelho de Mateus, ao deixar Nazaré, a cidade onde morou desde a infância, para fixar residência em Carfanaum com sua mãe e seus irmãos (Mt 4:13-16), Jesus continua o trabalho de anunciação do Seu Reino, e segue atraindo muitos seguidores. 

Lembrando aqui que a cidade natal de Jesus não foi Nazaré, que ficava na província da Galiléia e sim Belém, situada na província da Judéia, e essa informação ficou esquecida durante o período do ministério de Jesus Cristo. Como Ele foi criado e morou até a fase adulta em Nazaré, era conhecido como Jesus de Nazaré e isso escondia dos judeus/fariseus que Ele era o Cristo, e que seu nascimento ocorreu conforme o que já estava predito nas escrituras em Miquéias 5:2.

Prosseguindo com nosso estudo, vejamos a seguir o que aconteceu no período em que Jesus sai de Nazaré para morar em Carfanaum:

"Daí em diante Jesus começou a pregar: "Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo". Andando à beira do mar da Galiléia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Eles estavam lançando redes ao mar, pois eram pescadores. E disse Jesus: "Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens". No mesmo instante eles deixaram as suas redes e o seguiram. Indo adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Eles estavam num barco com seu pai, Zebedeu, preparando as suas redes. Jesus os chamou, e eles, deixando imediatamente o barco e seu pai, o seguiram. E percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo. E a sua fama correu por toda a Síria, e traziam-lhe todos os que padeciam, acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos, e os paralíticos, e ele os curava. E seguia-o uma grande multidão da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia, e de além do Jordão."(Mateus 4:17-25)

Os outros três evangelhos fornecem informações complementares ao de Mateus, de como Cristo foi escolhendo dentre seus primeiros discípulos, aqueles que aprenderiam mais sobre o Reino de Deus a fim de anunciá-lo - veja em Marcos 1:14 até Marcos 3:19, Lucas 4:14 até Lucas 6:11 e João 1:35 até o capítulo 3.

Como os trechos para análise são muito longos, não serão todos transcritos aqui no nosso texto, mas vamos seguir comentando os acontecimentos por meio de uma comparação detalhada entre eles. 

O Evangelho de Marcos confirma o conteúdo do Evangelho de Mateus, onde Cristo, após deixar o deserto da Judéia, se dirigiu à região costeira da Galiléia a fim de chamar os dois irmãos filhos do pescador Jonas, André e Simão, e em seguida chamar mais outros dois irmãos, filhos do pescador Zebedeu, Tiago e João. 

Também nesse Evangelho vemos que Jesus chamou em Carfanaum a Levi (Mateus), filho de Alfeu, que era um publicano ou cobrador de impostos. No momento em que foi chamado por Cristo, Levi estava sentado na coletoria, o local onde os impostos dos israelitas eram recolhidos (veja também em Mt 9:9, Lc 5:27-29). 

Por fim, no capítulo 3 de Marcos, vemos que o Senhor Jesus sobe em um determinado monte para orar (o nome do monte não é falado no texto - veja também no capítulo 10 de Mateus e em Lucas 6:12-16) e ali nomeia oficialmente os seus doze apóstolos, dentre a multidão de discípulos que já o seguia voluntariamente, vindas de vários locais de Israel e de cidades circunvizinhas. 

Agora vejamos algumas curiosidades sobre como os discípulos que mais tarde formariam a equipe de 12 apóstolos foram chamados. De acordo com o relato dos Evangelhos, os nomes deles são Simão (Pedro, filho de Jonas) e seu irmão André, Tiago (filho de Zebedeu) e seu irmão João, Filipe, Bartolomeu (Natanael), Tomé (Dídimo), Mateus (Levi), Tiago (filho de Alfeu) e seu irmão Judas, Simão (Zelote) e Judas Iscariotes.

Ao lermos o Evangelho de João, encontraremos ainda outras informações adicionais, que detalham um pouco mais como foi que os primeiros discípulos conheceram o Senhor Jesus, e como passaram a seguir seus ensinamentos (sem ainda terem sido chamados pessoalmente por Ele):

"No dia seguinte João estava ali novamente com dois dos seus discípulos. Quando viu Jesus passando, disse: "Vejam! É o Cordeiro de Deus!" Ouvindo-o dizer isso, os dois discípulos seguiram a Jesus. Voltando-se e vendo Jesus que os dois o seguiam, perguntou-lhes: "O que vocês querem?" Eles disseram: "Rabi", (que significa Mestre), "onde estás hospedado?" Respondeu ele: "Venham e verão". Então foram, por volta das quatro horas da tarde, viram onde ele estava hospedado e passaram com ele aquele dia. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido o que João dissera e que haviam seguido a Jesus. O primeiro que ele encontrou foi Simão, seu irmão, e lhe disse: "Achamos o Messias" (isto é, o Cristo). E o levou a Jesus. Jesus olhou para ele e disse: "Você é Simão, filho de João. Será chamado Cefas" (que significa Pedro). No dia seguinte Jesus decidiu partir para a Galiléia. Quando encontrou Filipe, disse-lhe: "Siga-me". Filipe, como André e Pedro, era da cidade de Betsaida. Filipe encontrou Natanael e lhe disse: "Achamos aquele sobre quem Moisés escreveu na Lei, e a respeito de quem os profetas também escreveram: Jesus de Nazaré, filho de José". Perguntou Natanael: "Nazaré? Pode vir alguma coisa boa de lá?" Disse Filipe: "Venha e veja". Ao ver Natanael se aproximando, disse Jesus: "Aí está um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade"." (João 1:35-47)

Após uma leitura minuciosa dos quatro evangelhos vamos descobrir que Cristo não saiu chamando os seus discípulos mais  chegados sem conhecê-los previamente. Pelo menos dois deles, como é o caso dos filhos do pescador Jonas, André e Simão (Pedro), por exemplo, já conheciam Jesus pessoalmente antes dele passar os quarenta dias no deserto da Judéia, como sugere o Evangelho de João. 

Ao ler os evangelhos de Mateus e Marcos temos a impressão de que Jesus não tinha contato com seus primeiros discípulos antes de chamá-los, visto que o relato desse acontecimento se encontra bem resumido nesses dois primeiros evangelhos, com poucos detalhes. 

No entanto, conferindo o evangelho de Lucas, encontraremos um trecho interessante, mostrando como foi que André, Pedro, Tiago e João foram convencidos a deixar seus trabalhos de pescadores para atender o chamado de Jesus e seguí-lo. Vejamos o relato a seguir:

"Certo dia Jesus estava perto do lago de Genesaré, e uma multidão o comprimia de todos os lados para ouvir a palavra de Deus. Viu à beira do lago dois barcos, deixados ali pelos pescadores, que estavam lavando as suas redes. Entrou num dos barcos, o que pertencia a Simão, e pediu-lhe que o afastasse um pouco da praia. Então sentou-se, e do barco ensinava o povo. Tendo acabado de falar, disse a Simão: "Vá para onde as águas são mais fundas", e a todos: "Lancem as redes para a pesca". Simão respondeu: "Mestre, esforçamo-nos a noite inteira e não pegamos nada. Mas, porque és tu quem está dizendo isto, vou lançar as redes". Quando o fizeram, pegaram tal quantidade de peixe que as redes começaram a rasgar-se. Então fizeram sinais a seus companheiros no outro barco, para que viessem ajudá-lo; e eles vieram e encheram ambos os barcos, a ponto de quase começarem a afundar. Quando Simão Pedro viu isso, prostrou-se aos pés de Jesus e disse: "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!" Pois ele e todos os seus companheiros estavam perplexos com a pesca que haviam feito, como também Tiago e João, os filhos de Zebedeu, sócios de Simão. Então Jesus disse a Simão: "Não tenha medo; de agora em diante você será pescador de homens". Eles então arrastaram seus barcos para a praia, deixaram tudo e o seguiram." (Lucas 5:1-11)

O trecho acima mostra que os referidos discípulos já conheciam e seguiam Jesus antes desse acontecimento, sem, no entanto, serem muito próximos dele. 

Curiosamente, os Evangelhos de Mateus e Marcos passam a ideia de que logo após ser batizado por João Batista em Betânia, o Senhor foi para o deserto sem seguidores, e que, ao sair de lá, Ele soube que João estava preso e seguiu para Nazaré, cidade onde morava com sua família, e prosseguiu ainda sem seguidores. 

Porém, notamos que os evangelhos não deixam claro quanto tempo demorou entre o batismo de Jesus e sua ida ao deserto, e quanto tempo levou para que o Senhor ficasse sabendo que João tinha sido preso após ter saído do deserto da Judéia. Nesses intervalos, que podem ter durado uma semana ou mais, Jesus prosseguiu anunciando o Seu Reino e atraindo muitos seguidores onde passava.

Então, a narrativa contida entre os versículos 35 e 39 do primeiro capítulo do Evangelho de João aponta para um possível acontecimento anterior ao momento do deserto, e, por conseguinte, mostra que André e Simão provavelmente tiveram um encontro prévio com Jesus antes de serem convidados pessoalmente pelo Senhor a seguí-lo de perto, à beira do lago de Genesaré.

Quando o Senhor foi chamando pessoalmente aqueles que iriam fazer parte de sua equipe oficial de discípulos, tais individuos, juntos a um grande grupo de pessoas, provavelmente já acompanhavam assiduamente o seu trabalho.

Para fechar nosso estudo, vejamos os trechos biblicos onde somos informados que Jesus Cristo, após ser batizado por João Batista, atraiu um grande número de seguidores e não saiu batizando-os diretamente, assim como João fazia. No entanto, o Senhor autorizou seus discípulos a batizarem, conforme vemos abaixo:  

"Depois disso Jesus foi com os seus discípulos para a terra da Judéia, onde passou algum tempo com eles e batizava. João também estava batizando em Enom, perto de Salim, porque havia ali muitas águas, e o povo vinha para ser batizado. (Isto se deu antes de João ser preso.) Surgiu uma discussão entre alguns discípulos de João e um certo judeu, a respeito da purificação cerimonial. Eles se dirigiram a João e lhe disseram: "Mestre, aquele homem que estava contigo no outro lado do Jordão, do qual testemunhaste, está batizando, e todos estão se dirigindo a ele"."(João 3:22-26)

"Os fariseus ouviram falar que Jesus estava fazendo e batizando mais discípulos do que João, embora não fosse Jesus quem batizasse, mas os seus discípulos. Quando o Senhor ficou sabendo disso, saiu da Judéia e voltou uma vez mais à Galiléia." (João 4:1-3)

Com todas essas informações, concluímos que Jesus Cristo realmente já estava atraindo muitos seguidores ou discípulos logo após ser batizado por João Batista, provavelmente antes mesmo de passar os quarenta dias no deserto ou de iniciar a realização de milagres, por causa do Seu ensino.

Missionária Oriana Costa 

Postagem publicada em 30/12/2022


  





terça-feira, 13 de setembro de 2022

Jesus inicia seu ministério - Considerações sobre Mateus capítulo 4 - parte 2


Neste estudo vamos entender o que acontece com Cristo logo após o período de provação no deserto da Judéia (leia o estudo anterior Jejuando no deserto), onde Ele dá início ao seu ministério terreno.

Algum tempo depois do término de seu jejum, enquanto seguia anunciando o Seu Reino, o Senhor fica sabendo que João Batista tinha sido preso. Essa situação sinalizou para Cristo que o momento não era propício para Ele continuar na região da Judéia, pois, além de ser seu parente, a mensagem que seria anunciada por Jesus era similar a de João, e por causa disso Ele poderia ser igualmente detido por Herodes. 

Então, como ainda não havia chegado o tempo de ser preso e sacrificado, Cristo decidiu viajar de volta para Nazaré, na Galiléia, onde sua família estava, para lá continuar divulgando o Seu Reino, ensinando nas sinagogas e fazendo muitos milagres. 

Porém, antes de ir para Nazaré, o Senhor Jesus passou adiante e hospedou-se em Betsaida, uma cidade situada no litoral da Galiléia, onde Ele foi encontrar alguns homens que escolheria para serem seus discípulos mais chegados, que foram André e seu irmão, Simão Pedro, Filipe, Natanael, e os dois filhos de Zebedeu, Tiago e seu irmão João, como veremos nas informações a seguir:

"Andando à beira do mar da Galiléia, Jesus viu Simão e seu irmão André lançando redes ao mar, pois eram pescadores. E disse Jesus: "Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens". No mesmo instante eles deixaram as suas redes e o seguiram. Indo um pouco mais adiante, viu num barco Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, preparando as suas redes. Logo os chamou, e eles o seguiram, deixando Zebedeu, seu pai, com os empregados no barco." (Marcos 1:16-20)

Uma narrativa similar a esta de Marcos também pode ser encontrada no Evangelho de Mateus (Mt 4:18-22), confirmando os acontecimentos. Porém, o Evangelho de João nos fornece mais algumas informações complementares bem interessantes sobre esses momentos, dando detalhes de como e onde foi o encontro de Jesus com esses homens (Jo 1:35-51).

Vale salientar que no Evangelho de João não está claro que Jesus encontrou os discípulos depois de sair do deserto da Judéia. Nós podemos chegar a essa conclusão após fazermos uma boa comparação com as descrições similares contidas nos outros três evangelhos.

No entanto, há uma hipótese (o texto não deixa claro) de que os dois primeiros discípulos que Jesus encontrou, André e Simão, provavelmente já seguiam o Senhor à distância, antes dele ir para o deserto da Judéia. De acordo com o relato do Evangelho de João, esses dois irmãos eram discípulos de João Batista e, logo após o batismo de Jesus, viram João sinalizar que Ele era o cordeiro de Deus e começaram a seguí-lo (Jo 1:35-37). 

Continuando nosso estudo, após passar algum tempo em Nazaré, em seguida o Senhor Jesus vai para Carfanaum, dando continuidade ao Seu trabalho, como veremos no trecho abaixo:

"Quando Jesus ouviu que João tinha sido preso, voltou para a Galiléia. Saindo de Nazaré, foi viver em Cafarnaum, que ficava junto ao mar, na região de Zebulom e Naftali, para cumprir o que fora dito pelo profeta Isaías: "Terra de Zebulom e terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galiléia dos gentios; o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; sobre os que viviam na terra da sombra da morte raiou uma luz". Daí em diante Jesus começou a pregar: "Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo." (Mateus 4:12-17)

Nos Evangelhos de Marcos, Lucas e João também encontramos muitas informações complementares sobre o período inicial do trabalho de Cristo.

No Evangelho de Marcos, encontramos o seguinte:

"Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galiléia, proclamando as boas novas de Deus. "O tempo é chegado", dizia ele. "O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas!"" (Marcos 1:14,15)

Já no Evangelho de Lucas, encontramos um relato mais detalhado, como lemos abaixo:

"Então, pela virtude do Espírito, voltou Jesus para a Galiléia, e a sua fama correu por todas as terras em derredor. E ensinava nas suas sinagogas, e por todos era louvado. E, chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga, e levantou-se para ler. E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito: "O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados de coração, a pregar liberdade aos cativos, e restaurar a vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor." E, cerrando o livro, e tornando-o a dar ao ministro, assentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos. E todos lhe davam testemunho, e se maravilhavam das palavras de graça que saíam da sua boca; e diziam: Não é este o filho de José? E ele lhes disse: Sem dúvida me direis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo; faze também aqui na tua pátria tudo que ouvimos ter sido feito em Cafarnaum. E disse: Em verdade vos digo que nenhum profeta é bem recebido na sua pátria. Em verdade vos digo que muitas viúvas existiam em Israel nos dias de Elias, quando o céu se cerrou por três anos e seis meses, de sorte que em toda a terra houve grande fome; E a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a Sarepta de Sidom, a uma mulher viúva. E muitos leprosos havia em Israel no tempo do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o siro. E todos, na sinagoga, ouvindo estas coisas, se encheram de ira. E, levantando-se, o expulsaram da cidade, e o levaram até ao cume do monte em que a cidade deles estava edificada, para dali o precipitarem. Ele, porém, passando pelo meio deles, retirou-se. E desceu a Cafarnaum, cidade da Galiléia, e os ensinava nos sábados. E admiravam a sua doutrina porque a sua palavra era com autoridade." (Lucas 4:14-32)

Lucas nos mostra informações importantes sobre como se deu o início do ministério de Jesus Cristo. Somadas às narrativas dos outros Evangelhos, sabemos que o Senhor deixou o deserto da Judéia e foi para a Galiléia, dando início oficialmente ao seu ministério em uma sinagoga de Nazaré, já acompanhado de muitos seguidores, como veremos em estudos posteriores. 

E ali, apesar da sabedoria que demonstrou ter diante de todos e dos milagres que realizou por lá, as pessoas se enfureceram com ele ao serem confrontadas com a verdade dos fatos.

Vejamos abaixo onde está inserido o trecho do livro do profeta Isaías lido por Jesus Cristo na sinagoga de Nazaré:

"O Espírito do Soberano Senhor está sobre mim porque o Senhor ungiu-me para levar boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros, para proclamar o ano da bondade do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; para consolar todos os que andam tristes, e dar a todos os que choram em Sião uma bela coroa em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de pranto, e um manto de louvor em vez de espírito deprimido. Eles serão chamados carvalhos de justiça, plantio do Senhor, para manifestação da sua glória." (Isaías 61:1-3)

Após mencionar Isaías, Jesus lembrou a verdadeira situação dos israelitas diante de Deus, mostrando sua necessidade de arrependimento perante a desobediência e incredulidade que viviam. 

Por isso, seguiu falando da viúva da cidade de Sarepta, que ficava em Sidom, regiões do Império Fenício (veja a história em 1Reis 16:29-34, 1Reis 17) e de Naamã, comandante do exército Sírio (veja a história em 2Reis 5:1-19), que, apesar de serem de outras nações (gentios), foram abençoados no lugar dos israelitas por considerarem mais a Deus.

Então, ao iniciar a pregação da mensagem do Reino na cidade em que fora criado desde a mais tenra infância, onde residia até aquele momento, e num lugar onde todos conheciam sua família e sua boa reputação, Jesus foi rapidamente rejeitado e expulso simplesmente por falar a verdade. 

As pessoas não entenderam o que viram e ouviram de Jesus, pois estavam longe de Deus, com os corações endurecidos. Ele só não foi assassinado por ter sido livrado pelo Pai do ódio da multidão, passando pelo meio das pessoas sem ser visto. Essa foi a forma como o ministério terreno de Jesus Cristo começou.

Por causa da indignação dos judeus nazarenos, Jesus saiu daquela cidade e foi continuar seu trabalho em Carfanaum, se mudando com sua família e seus discípulos para lá. A ida de Jesus para essa cidade foi predita pelo profeta Isaias, como observamos na passagem do Evangelho de Mateus citada no início deste texto. Vejamos o trecho de Isaías completo:

"Mas a terra, que foi angustiada, não será entenebrecida; envileceu nos primeiros tempos, a terra de Zebulom, e a terra de Naftali; mas nos últimos tempos a enobreceu junto ao caminho do mar, além do Jordão, na Galiléia das nações. O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz." (Isaías 9:1,2)

Sobre os prodígios que Jesus fez enquanto ainda morava em Nazaré, no Evangelho de João encontramos um trecho que mostra o primeiro milagre feito por Jesus ao iniciar seu ministério, que ocorreu em um vilarejo daquela localidade: 

"No terceiro dia houve um casamento em Caná da Galiléia. A mãe de Jesus estava ali; Jesus e seus discípulos também haviam sido convidados para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: "Eles não têm mais vinho". Respondeu Jesus: "Que temos nós em comum, mulher? A minha hora ainda não chegou". Sua mãe disse aos serviçais: "Façam tudo o que ele lhes mandar". Ali perto havia seis potes de pedra, do tipo usado pelos judeus para as purificações cerimoniais; em cada pote cabia entre oitenta a cento e vinte litros. Disse Jesus aos serviçais: "Encham os potes com água". E os encheram até à borda. Então lhes disse: "Agora, levem um pouco do vinho ao encarregado da festa". Eles assim o fizeram, e o encarregado da festa provou a água que fora transformada em vinho, sem saber de onde este viera, embora o soubessem os serviçais que haviam tirado a água. Então chamou o noivo e disse: "Todos servem primeiro o melhor vinho e, depois que os convidados já beberam bastante, o vinho inferior é servido; mas você guardou o melhor até agora". Este sinal miraculoso, em Caná da Galiléia, foi o primeiro que Jesus realizou. Revelou assim a sua glória, e os seus discípulos creram nele." (João 2:1-11)

Caná era um pequeno vilarejo situado na cidade de Nazaré. As escrituras não deixam claro se Jesus fez esse milagre antes de ir à sinagoga naquela mesma cidade, onde leu o famoso trecho de Isaías (Is 61:1-3). 

Sobre o evento ocorrido no casamento em Caná, podemos fazer uma contextualização, para entendermos melhor o que ocorreu ali. 

Antes de mais nada, essa narrativa quebra um grande tabu sobre a ingestão de vinho (bebida alcoólica) dentre os cristãos, pois, de acordo com a história, Jesus realmente transformou água em vinho, que era a principal bebida servida nos casamentos judaicos daquela época. Se Cristo fosse contra a ingestão dessa bebida, e se realmente fosse pecado beber vinho, Ele jamais teria feito aquele prodígio.

O segundo ponto, é que Maria ainda não cria em Jesus como Messias naquela ocasião, segundo o relato dos Evangelhos. Ela só veio crer em Jesus dessa forma quando já estava próximo o momento do sacrifício dele na cruz. Nas bodas de Caná, ela comentou com Jesus que o vinho tinha acabado por ele ser o chefe da família (José já havia falecido), e acreditou que ele ajudaria a resolver o problema junto com os outros homens que estavam ali. O que ela não esperava é que Jesus resolveria o problema fazendo um milagre.

Sobre a resposta que Jesus deu a sua mãe "Que temos nós em comum, mulher? A minha hora ainda não chegou" (versão NVI), a colocação das palavras pode soar como uma falta de respeito ou uma grosseria da parte de Jesus, mas não foi isso o que aconteceu ali. 

De fato, Jesus chamou a atenção para algo espiritual quando disse "minha hora ainda não chegou", pois há um significado profético entre a cerimônia de um casamento judaico e o sacrifício de Jesus, e que Maria certamente não teria como entender naquele momento.

No casamento judaico, o vinho entrava em duas ocasiões. No primeiro momento, entrava no início do contrato de casamento, onde o noivo e a noiva bebiam o vinho no mesmo cálice, selando o pacto do noivado. Após um ou dois anos de preparação, os noivos novamente se encontravam para confirmar definitivamente o acordo no casamento, e voltavam a beber o vinho no mesmo cálice no primeiro dia da cerimônia, e esse cálice logo em seguida era quebrado. 

Maria comentou com Jesus que o vinho tinha acabado, esperando que Ele ajudasse a resolver o problema junto com os outros homens que estavam na festa. Mas, Jesus não estava vendo aquela situação da mesma forma que sua mãe, por isso disse "o que temos nós em comum?". 

Na verdade, o que Jesus estava querendo mesmo dizer a sua mãe era o seguinte: "você quer ofertar vinho para essa festa, mas o meu sangue é o vinho que todos realmente precisam para entrarem em aliança com o Pai, contudo, ainda não chegou a hora do meu sacrifício".

O que aconteceu bem depois daquele evento foi que Jesus estabeleceu uma aliança entre Ele e a Sua Noiva, que é o Seu Povo ou a Sua Igreja, quando bebeu vinho no mesmo cálice com os Apóstolos no momento da celebração da última Páscoa, onde ficou estabelecido o mandamento da Santa Ceia. 

Por isso, a celebração da Santa Ceia é tão importante, pois traz à memória que Jesus vai retornar para consumar sua aliança de Vida Eterna com Seu Povo para sempre.

Para o povo de Israel, o milagre da transformação de água em vinho nas bodas de Caná foi um sinal claro de que o Seu Justificador havia chegado, mas, que eles não foram capazes de entender. Curiosamente, a água e o vinho eram dois dos demais elementos que faziam parte dos rituais ordenados por Deus a Moisés para a purificação dos sacerdotes e do povo (Êx 29:38-46, Êx 30:17-21)

Missionária Oriana Costa.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Jejuando no deserto - Considerações sobre Mateus capítulo 4 - parte 1


Neste texto vamos fazer a análise do momento em que Jesus Cristo vai para o deserto da Judéia, e ali passa por uma fase de provação antes de iniciar seu trabalho de anunciação do Reino de Deus, para, finalmente, se oferecer como sacrifício em nosso favor diante do Pai.

Esse momento foi curto, durou quarenta dias, porém, foi intenso, no qual Jesus foi provado até o limite da sua vida, ficando sem comer durante todo esse período. Chegando ao fim do jejum, já com o corpo bem enfraquecido, Ele precisou estar seguro com relação à vontade do Pai e ao conteúdo das escrituras, para não sair do plano no qual manter a sua integridade era fundamental.

Abaixo vamos ler o trecho do Evangelho de Mateus que relata essa fase especial da vida e ministério do Senhor Jesus:

"Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome. O tentador aproximou-se dele e disse: "Se você é o Filho de Deus, mande que estas pedras se transformem em pães". Jesus respondeu: "Está escrito: ‘Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus’". Então o diabo o levou à cidade santa, colocou-o na parte mais alta do templo e lhe disse: "Se você é o Filho de Deus, jogue-se daqui para baixo. Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra’". Jesus lhe respondeu: "Também está escrito: ‘Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus’". Depois, o diabo o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o seu esplendor. E lhe disse: "Tudo isto lhe darei, se você se prostrar e me adorar". Jesus lhe disse: "Retire-se, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus e só a ele preste culto’". Então o diabo o deixou, e anjos vieram e o serviram." (Mateus 4:1-11)

Um pouco antes de ir para o deserto e iniciar esse período de provação, o Senhor havia passado pelo batismo no Rio Jordão, como vimos no estudo anterior - O batismo de Jesus. E assim como o batismo de Jesus está ligado aos acontecimentos passados publicados no Antigo Testamento, o tempo em que Ele foi provado no deserto também está.

Estes dias que Jesus passou no deserto foi um sinal importante para os israelitas. Essa fase do ministério de Cristo se relacionou ao tempo  em que o povo de Israel passou quarenta anos no deserto do Sinai, até que finalmente pudessem entrar em Canaã, a terra prometida. 

A seguir, vejamos um trecho no livro de Salmos que nos revela o porquê do povo ter sido mantido no deserto por quatro décadas:

"Hoje, se vocês ouvirem a sua voz, não endureçam o coração, como em Meribá, como aquele dia em Massá, no deserto, onde os seus antepassados me tentaram, pondo-me à prova, apesar de terem visto o que eu fiz. Durante quarenta anos fiquei irado contra aquela geração e disse: "Eles são um povo de coração ingrato; não reconheceram os meus caminhos". Por isso jurei na minha ira: "Jamais entrarão no meu descanso"". (Salmos 95:7-11)

Depois que o povo foi liberto da escravidão no Egito, infelizmente não se manteve focado em Deus. Os israelitas endureceram o coração, se tornaram ingratos e não reconheceram os preceitos da reta justiça de Deus (não reconheceram seus caminhos, ou, não reconheceram sua autoridade), segundo o que lemos no trecho bíblico contido no parágrafo anterior. 

Então, o Senhor manteve o povo no deserto sem poder entrar em Canaã, até que aquela geração que havia sido liberta tivesse morrido. Somente a geração seguinte foi autorizada a conquistar a terra prometida a Moisés e possuí-la, exatamente porque reconheceu a autoridade de Deus. Assim, Deus falou o seguinte ao sucessor de Moisés:

"Depois da morte de Moisés, servo do Senhor, disse o Senhor a Josué, filho de Num, auxiliar de Moisés: "Meu servo Moisés está morto. Agora, pois, você e todo este povo, preparem-se para atravessar o rio Jordão e entrar na terra que eu estou para dar aos israelitas. Como prometi a Moisés, todo lugar onde puserem os pés eu darei a vocês. Seu território se estenderá do deserto ao Líbano, e do grande rio, o Eufrates, toda a terra dos hititas, até o mar Grande, no oeste. Ninguém conseguirá resistir a você, todos os dias da sua vida. (...) Tenha o cuidado de obedecer a toda a lei que o meu servo Moisés lhe ordenou; não se desvie dela, nem para a direita nem para a esquerda, para que você seja bem sucedido por onde quer que andar. Não deixe de falar as palavras deste Livro da Lei e de meditar nelas de dia e de noite, para que você cumpra fielmente tudo o que nele está escrito. Só então os seus caminhos prosperarão e você será bem sucedido. Não fui eu que lhe ordenei? Seja forte e corajoso! Não se apavore, nem se desanime, pois o Senhor, o seu Deus, estará com você por onde você andar". (Josué 1:1-9)

A relação entre o que aconteceu aos israelitas no deserto e a provação de Jesus num lugar semelhante é que, ao contrário do que sucedeu ao povo de Israel naqueles quarenta anos, estando eles num território inóspito (Dt 8:15,16), contudo, sem que Deus não lhes deixasse faltar nada (Nm 9:21) - ainda que muitas vezes desprezassem seus decretos (desdenhando sua autoridade) e não obedecessem a Ele como deveriam -, Jesus foi para o deserto da Judéia passar quarenta dias, porém, sendo tentado por Satanás e sem comer nada, sem estar numa casa ou numa tenda, e cercado de animais selvagens. 

Nos Evangelhos de Marcos e Lucas encontramos os trechos que complementam as informações contidas em Mateus:

"Logo após, o Espírito o impeliu para o deserto. Ali esteve quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Estava com os animais selvagens, e os anjos o serviam." (Marcos 1:12,13)

"Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde, durante quarenta dias, foi tentado pelo diabo. Não comeu nada durante esses dias e, ao fim deles, teve fome." (Lucas 4:1,2)

Jesus suportou passar quarenta dias sendo tentado pelo Diabo, sem comer, sem conforto, e cercado de perigos, por estar cheio do Espírito Santo, e estar convicto da vontade do Pai. Ele tinha uma missão especial a cumprir, e isso ia requerer dele uma postura incorruptível e plenamente justa, que o povo de Israel infelizmente não apresentou logo após ser liberto da escravidão no Egito. Por isso, Ele precisou ser provado dessa forma antes de começar a anunciar o Seu Reino.

Lembrando que tudo o que houve com Jesus, desde o momento em que Maria engravidou do Espírito Santo até a ressurreição, foi devidamente predito nas escrituras. Tudo o que aconteceu com Cristo estava intimamente relacionado ao início da criação, ao Dilúvio, aos mandamentos da Lei Mosaica e às palavras dos profetas, no entanto, se sucedendo de forma abreviada. 

Assim sendo, enquanto os israelitas passaram quarenta anos no deserto do Sinai sendo provados (Dt 8:2,3), Jesus passou quarenta dias. Cada dia de Cristo ali equivale a um ano dos israelitas no tempo de Moisés.

Retomando a análise da fase em que Cristo esteve no deserto jejuando, ao final de quarenta dias sem comer, Ele teve fome. Para quem nunca jejuou ou não tem conhecimento sobre jejum, pode parecer estranho que o Senhor só tenha sentido fome após todo esse tempo sem comer. 

Mas, o que ocorre normalmente é que, no início do jejum o indivíduo sente fome, contudo, à medida que o tempo passa, essa fome reduz e aquieta, de modo que a pessoa não sente mais o incômodo.

Porém, depois de algum tempo sem comer, só tomando água, isso varia de pessoa para pessoa - quarenta dias é o tempo máximo que um adulto pode suportar vivo sem se alimentar -, a fome volta de uma maneira muito forte, sinalizando que se a pessoa não repor as energias naquele momento, o corpo não vai mais aguentar vivo.

Então, foi sentindo a fome de uma inanição, com o corpo totalmente fraco, que Jesus suportou a pior tentação que Satanás lhe fez durante aqueles quarenta dias, lembrando que as escrituras esclarecem que Jesus foi tentado por Satanás durante todo o tempo do jejum (Mc 1:13 e Lc 4:2). 

Mesmo enfraquecido e com uma fome insuportável para um ser humano comum, Ele foi capaz de resistir às tentações, mantendo sua integridade diante do Pai, e adorando ao Pai (ou seja, mantendo-se totalmente submisso a Ele) sem se desviar do propósito para o qual sua vida estava designada desde o início da criação.

Observando os relatos dos Evangelhos, vemos que Satanás não tentou Jesus de qualquer forma, na sua última investida. Ele o fez com base em três pontos chaves da fé em Deus que estão contidos na Lei Mosaica, aquela mesma que foi entregue aos israelitas no deserto do Sinai e eles, movidos por seus desejos carnais, a desobedeceram. 

O Diabo estava na expectativa de que o Filho de Deus também a transgredisse em algum momento, movido pelo desespero, visto que seu corpo estava desconfortável e fraco, beirando a morte.

Vejamos abaixo, quais foram os três  mandamentos da Lei que o Maligno tentou fazer o Cristo infringir:

1-Ele tentou fazer Cristo desprezar a palavra de Deus.

Satanás aproveita o estado de fraqueza física do Senhor, e sugere a ele transformar pedras em pães (Mt 4:3 e Lc 4:3), para que, agindo por medo de morrer e pelo desespero da fome, colocasse a palavra de Deus em segundo plano. Porém, Cristo rebate citando um trecho do livro de Deuteronômio. 

Vejamos onde está inserida a resposta que o Senhor deu ao Diabo:

"Lembre-se de como o Senhor, o seu Deus, os conduziu por todo o caminho no deserto, durante estes quarenta anos, para humilhá-los e pô-los à prova, a fim de conhecer suas intenções, se iriam obedecer aos seus mandamentos ou não. Assim, ele os humilhou e os deixou passar fome. Mas depois os sustentou com maná, que nem vocês nem os seus antepassados conheciam, para mostrar-lhe que nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca do Senhor." (Deuteronômio 8:2,3)

Se Jesus tivesse cedido àquela tentação, não teria dado o sinal de integridade que o Pai esperava receber dele, que deveria contrariar o comportamento reprovável dos israelitas no passado.

2-Ele tentou fazer Cristo ficar confuso e duvidar do Pai.

Usando um trecho bem conhecido do livro de Salmos, e que é profético, o Diabo tenta persuadir o Cristo a duvidar que o Pai o livraria da morte, colocando-o no ponto mais alto do templo e sugerindo que ele testasse se realmente o Pai iria livrá-lo, se atirando de lá (Mt 4:5,6 e Lc 4:9-11):

"Porque a seus anjos ele dará ordens a seu respeito, para que o protejam em todos os seus caminhos; com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra." (Salmos 91:11,12)

E Jesus, mais uma vez, resiste à tentação com um trecho da Lei:

"Não ponham à prova o Senhor, o seu Deus, como fizeram em Massá. Obedeçam cuidadosamente aos mandamentos do Senhor, o seu Deus, e aos preceitos e decretos que ele lhes ordenou." (Deuteronômio 6:16,17)

Massá foi o lugar do deserto do Sinai onde os israelitas, após terem sido libertos da escravidão no Egito, se desesperaram por causa da sede que sentiam, e começaram a agir por incredulidade, colocando à prova se Deus realmente estava agindo em favor deles ou não:

"O povo estava sedento e reclamou a Moisés: "Por que você nos tirou do Egito? Foi para matar de sede a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?" Então Moisés clamou ao Senhor: "Que farei com este povo? Estão a ponto de apedrejar-me!" Respondeu-lhe o Senhor: "Passe à frente do povo. Leve com você algumas das autoridades de Israel, tenha na mão a vara com a qual você feriu o Nilo e vá adiante. Eu estarei à sua espera no alto da rocha que está em Horebe. Bata na rocha, e dela sairá água para o povo beber". Assim fez Moisés, à vista das autoridades de Israel. E chamou aquele lugar Massá e Meribá, porque ali os israelitas reclamaram e puseram o Senhor à prova, dizendo: "O Senhor está entre nós, ou não?" (Êxodo 17:3-7)

3-Ele tentou fazer Jesus desistir de ser sacrificado para justificar toda a humanidade.

Na última tentação, buscando fazer o homem Jesus desejar reinar sobre toda a terra sem ser sacrificado, o Maligno mostra-lhe todos os reinos do mundo, pois naquele momento eles estavam sob seu domínio. No entanto, a condição para que Jesus reinasse ali era reconher somente a autoridade do Diabo sobre sua vida, e não a do Pai, tão somente se inclinando com o rosto em terra em sinal de total submissão (Mt 4:8-10 e Lc 4:5-8).

A forma correta de adorar ou de se reconhecer uma autoridade suprema naquela época era reclinando o corpo de joelhos com a face totalmente voltada para o chão, sinalizando que ali aquela pessoa tinha pleno poder sobre sua vida, e confirmando total submissão a ela.

Se Jesus tivesse se deixado levar pela oferta, a humanidade não teria uma justificação disponível para seus pecados, e ele seria destruído pelo Pai junto com Satanás, pois, assim como foi a resposta de Cristo ao Diabo, a Lei declara:

"Temam o Senhor, o seu Deus, e só a ele prestem culto, e jurem somente pelo seu nome. Não sigam outros deuses, os deuses dos povos ao redor; pois o Senhor, o seu Deus, que está no meio de vocês, é Deus zeloso; a ira do Senhor, o seu Deus, se acenderá contra vocês, e ele os banirá da face da terra." (Deuteronômio 6:13-15)

Terminada a prova, Satanás deixou Jesus por algum tempo e os anjos vieram cuidar do Senhor, pois Ele estava muito fraco e isolado, longe das cidades e sem acesso à ajuda humana. Logo após sua reabilitação, Ele se dirigiu à Galiléia e ficou um pouco de tempo em Nazaré, onde iniciou seu trabalho de anunciação do Reino, e, logo após, foi morar em Carfanaum.

Missionária Oriana Costa.

terça-feira, 14 de junho de 2022

João Batista, a voz que clama - Considerações sobre Mateus capítulo 3 - Parte 1


Aqui vamos analisar o trecho do terceiro capítulo do Evangelho de Mateus onde João Batista é citado. 

Antes de seguirmos com nosso estudo, vamos falar um pouco da preparação para a chegada do bebê João Batista e lembrar como foi seu nascimento. Ele era primo em segundo grau de Jesus pelo lado materno, pois Isabel (ou Elisabete segundo a versão King James), sua mãe, era prima em primeiro grau de Maria, mãe de Jesus, segundo os relatos das versões King James e Almeida corrigida fiel. 

Assim como Jesus foi gerado no ventre de Maria de forma sobrenatural, a concepção de João Batista também aconteceu pelo poder de Deus, pois sua mãe era estéril e já tinha idade avançada. E assim como Maria recebeu a visita de um anjo que veio avisá-la do que estava para acontecer, Zacarias, que era o pai de João, também recebeu a visita do mesmo anjo, que lhe falou sobre a gravidez de Isabel. Vejamos o relato abaixo, que é encontrado somente no Evangelho de Lucas:

"No tempo de Herodes, rei da Judéia, havia um sacerdote chamado Zacarias, que pertencia ao grupo sacerdotal de Abias; Isabel, sua mulher, também era descendente de Arão. Ambos eram justos aos olhos de Deus, obedecendo de modo irrepreensível a todos os mandamentos e preceitos do Senhor. Mas eles não tinham filhos, porque Isabel era estéril; e ambos eram de idade avançada. Certa vez, estando de serviço o seu grupo, Zacarias estava servindo como sacerdote diante de Deus. (...) Então um anjo do Senhor apareceu a Zacarias, à direita do altar do incenso. Quando Zacarias o viu, perturbou-se e foi dominado pelo medo. Mas o anjo lhe disse: "Não tenha medo, Zacarias; sua oração foi ouvida. Isabel, sua mulher, lhe dará um filho, e você lhe dará o nome de João. Ele será motivo de prazer e de alegria para você, e muitos se alegrarão por causa do nascimento dele, pois será grande aos olhos do Senhor. Ele nunca tomará vinho nem bebida fermentada, e será cheio do Espírito Santo desde antes do seu nascimento. Fará retornar muitos dentre o povo de Israel ao Senhor, o seu Deus. E irá adiante do Senhor, no espírito e no poder de Elias, para fazer voltar o coração dos pais a seus filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos, para deixar um povo preparado para o Senhor". Zacarias perguntou ao anjo: "Como posso ter certeza disso? Sou velho, e minha mulher é de idade avançada". O anjo respondeu: "Sou Gabriel, o que está sempre na presença de Deus. Fui enviado para lhe transmitir estas boas novas. Agora você ficará mudo. Não poderá falar até o dia em que isso acontecer, porque não acreditou em minhas palavras, que se cumprirão no tempo oportuno". (...) Depois disso, Isabel, sua mulher, engravidou e durante cinco meses não saiu de casa. E ela dizia: "Isto é obra que o Senhor fez! Agora ele olhou para mim com favor, para desfazer a minha humilhação perante o povo."(Lucas 1:5-25)

Quando Isabel estava no sexto mês de gestação, Maria, que era virgem e estava em Nazaré, engravidou pelo poder de Deus (Lc 1:26-38). E ela só soube da gravidez de sua prima por ter sido avisada pelo anjo Gabriel, que também lhe apareceu, assim como apareceu ao sacerdote Zacarias. Assim, Maria decidiu ir averiguar a situação, e viajou para a Judéia a fim de visitar sua prima, como veremos no trecho abaixo:

"Naqueles dias, Maria preparou-se e foi depressa para a uma cidade da região montanhosa da Judéia, onde entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o bebê agitou-se em seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Em alta voz exclamou: "Bendita é você entre as mulheres, e bendito é o filho que você dará à luz! Mas por que sou tão agraciada, a ponto de me visitar a mãe do meu Senhor? Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, o bebê que está em meu ventre agitou-se de alegria. Feliz é aquela que creu que se cumprirá aquilo que o Senhor lhe disse!" (Lucas 1:39-45)

João Batista, portanto, nasceu primeiro que Jesus. No dia da sua apresentação no templo e circuncisão, que segundo os costumes judaicos acontece ao oitavo dia de nascido dos meninos (veja em Gn 17:10-13), Zacarias, seu pai, voltou a falar sobrenaturalmente. Vejamos o trecho abaixo, segundo o relato de Lucas:

"Ao se completar o tempo de Isabel dar à luz, ela teve um filho. Seus vizinhos e parentes ouviram falar da grande misericórdia que o Senhor lhe havia demonstrado e se alegraram com ela. No oitavo dia foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias; mas sua mãe tomou a palavra e disse: "Não! Ele será chamado João". Disseram-lhe: "Você não tem nenhum parente com esse nome". Então fizeram sinais ao pai do menino, para saber como queria que a criança se chamasse. Ele pediu uma tabuinha e, para admiração de todos, escreveu: "O nome dele é João". Imediatamente sua boca se abriu, sua língua se soltou e ele começou a falar, louvando a Deus. Todos os vizinhos ficaram cheios de temor, e por toda a região montanhosa da Judéia se falava sobre essas coisas. Todos os que ouviam falar disso se perguntavam: "O que vai ser este menino?" Pois a mão do Senhor estava com ele. Seu pai, Zacarias, foi cheio do Espírito Santo e profetizou: (...) E você, menino, será chamado profeta do Altíssimo, pois irá adiante do Senhor, para lhe preparar o caminho, para dar ao seu povo o conhecimento da salvação, mediante o perdão dos seus pecados, por causa das ternas misericórdias de nosso Deus, pelas quais do alto nos visitará o sol nascente para brilhar sobre aqueles que estão vivendo nas trevas e na sombra da morte, e guiar nossos pés no caminho da paz". E o menino crescia e se fortalecia no espírito; e viveu no deserto, até aparecer publicamente a Israel. (Lucas 1:57-80)

Uma curiosidade: muito provavelmente, Maria esteve presente no nascimento de João Batista, e também testemunhou o que aconteceu no dia de sua apresentação no templo, pois a duração da visita que fez a sua prima foi cerca de três meses, que era o tempo que restava até que Isabel desse à luz o futuro profeta João Batista (veja em Lc 1:56). 

Agora, vamos analisar aquilo que o Evangelho de Mateus mostra sobre o ministério de João Batista, comparando também com as informações complementares contidas nos outros três evangelhos. Vejamos o trecho abaixo:

"Naqueles dias surgiu João Batista, pregando no deserto da Judéia. Ele dizia: "Arrependam-se, porque o Reino dos céus está próximo". Este é aquele que foi anunciado pelo profeta Isaías: "Voz do que clama no deserto: ‘Preparem o caminho para o Senhor, façam veredas retas para ele’". As roupas de João eram feitas de pêlos de camelo, e ele usava um cinto de couro na cintura. O seu alimento era gafanhotos e mel silvestre. A ele vinha gente de Jerusalém, de toda a Judéia e de toda a região ao redor do Jordão. Confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão. Quando viu que muitos fariseus e saduceus vinham para onde ele estava batizando, disse-lhes: "Raça de víboras! Quem lhes deu a idéia de fugir da ira que se aproxima? Dêem fruto que mostre o arrependimento! Não pensem que vocês podem dizer a si mesmos: ‘Abraão é nosso pai’. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo. "Eu os batizo com água para arrependimento. Mas depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de levar as suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele traz a pá em sua mão e limpará sua eira, juntando seu trigo no celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga." (Mateus 3:1-12)

Sobre o trecho do profeta Isaías que fala do momento em que João Batista anunciaria a chegada do Messias, vejamos abaixo:

"Consolem, consolem o meu povo, diz o Deus de vocês. Encoragem a Jerusalém e anunciem que ela já cumpriu o trabalho que lhe foi imposto, pagou por sua iniqüidade, e recebeu da mão do Senhor em dobro por todos os seus pecados. Uma voz clama: "No deserto preparem o caminho para o Senhor; façam no deserto um caminho reto para o nosso Deus. Todos os vales serão levantados, todos os montes e colinas serão aplanados; os terrenos acidentados se tornarão planos; as escarpas, serão niveladas. A glória do Senhor será revelada, e, juntos, todos a verão. Pois é o Senhor quem fala"." (Isaías 40:1-5)

Ainda nesse mesmo capítulo do livro do profeta Isaías, também podemos ler:

"Você, que traz boas novas a Sião, suba num alto monte. Você, que traz boas novas a Jerusalém, erga a sua voz com fortes gritos, erga-a, não tenha medo; diga às cidades de Judá: "Aqui está o seu Deus!" O Soberano Senhor vem com poder! Com seu braço forte ele governa. A sua recompensa com ele está, e seu galardão o acompanha. Como pastor ele cuida de seu rebanho, com o braço ajunta os cordeiros e os carrega no colo; conduz com cuidado as ovelhas que amamentam suas crias." (Isaías 40:9-11)

Assim como os trechos acima, existem outros no Antigo Testamento que falam da vinda de João Batista a fim de preparar Israel para receber o Cristo, como podemos ler em Salmos 85:12,13. Alguns parágrafos abaixo também veremos outra referência, no livro do profeta Malaquias, que também avisa sobre o mensageiro João.

João iniciou seu trabalho na cidade de Betânia, na região da Judéia, proclamando a chegada do Reino dos céus (ou Reino de Deus) para os israelitas, e isso tinha a ver com a proximidade da iniciação do ministério de Jesus em Israel. Até aquele momento, o Cristo vivia ocultado de todos, mas a partir da hora em que o profeta João passou a anunciá-lo, o nosso Salvador começou a ficar conhecido.

No Evangelho de Marcos, há um trecho similar ao que lemos em Mateus, com uma informação adicional:

"Conforme está escrito no profeta Isaías: "Enviarei à tua frente o meu mensageiro; ele preparará o teu caminho"— "voz do que clama no deserto: ‘Preparem o caminho para o Senhor, façam veredas retas para ele’ ". Assim surgiu João, batizando no deserto e pregando um batismo de arrependimento para o perdão dos pecados. A ele vinha toda a região da Judéia e todo o povo de Jerusalém. Confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão." (Marcos 1: 2-5)

No trecho acima, na verdade, não existe apenas a citação do profeta Isaías, que também aparece no Evangelho de Mateus, mas antes dela há uma citação do profeta Malaquias, que tanto se refere à vinda de João Batista quanto à chegada do Messias:

"Vejam, eu enviarei o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim. E então, de repente, o Senhor que vocês buscam virá para o seu templo; o mensageiro da aliança, aquele que vocês desejam, virá", diz o Senhor dos Exércitos." (Malaquias 3:1)

Lendo o Evangelho de Lucas, encontramos ainda outras informações sobre quem eram os governadores romanos de cada região de Israel, e quem eram os sumos sacerdotes no trabalho templário quando o profeta João Batista apareceu anunciando a vinda do Messias:

"No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia; Herodes, tetrarca da Galiléia; seu irmão Filipe, tetrarca da Ituréia e Traconites; e Lisânias, tetrarca de Abilene; Anás e Caifás exerciam o sumo sacerdócio. Foi nesse ano que veio a palavra do Senhor a João, filho de Zacarias, no deserto. Ele percorreu toda a região próxima ao Jordão, pregando um batismo de arrependimento para o perdão dos pecados. Como está escrito no livro das palavras de Isaías, o profeta: "Voz do que clama no deserto: ‘Preparem o caminho para o Senhor, façam veredas retas para ele. Todo vale será aterrado e todas as montanhas e colinas, niveladas. As estradas tortuosas serão endireitadas e os caminhos acidentados, aplanados. E toda a humanidade verá a salvação de Deus’"." (Lucas 3:1-6)

No trecho do Evangelho de Mateus que lemos alguns parágrafos acima, observamos que muitos israelitas estavam recebendo a mensagem de João, pois criam nas profecias que avisavam sobre a vinda do Messias. No meio dessas pessoas que vinham procurar o profeta, também estavam os fariseus e saduceus. 

Ao vê-los, João ficou indignado, chamando-os de "raça de viboras", porque eles agiam traiçoeiramente. Ao se declararem servos do Senhor, contudo, rejeitando e distorcendo muitas de suas ordenanças e ensinando o povo a fazer o mesmo, mais tarde eles iriam incitar as pessoas a odiar, perseguir e desejar a morte de Jesus. Contudo, não foram somente os fariseus e saduceus que procuraram o profeta, mas também os sacerdotes e levitas o fizeram, segundo observamos no Evangelho de João, como veremos a seguir.

"Esse foi o testemunho de João, quando os judeus de Jerusalém enviaram sacerdotes e levitas para lhe perguntarem quem ele era. Ele confessou e não negou; declarou abertamente: "Não sou o Cristo". Perguntaram-lhe: "E então, quem é você? É Elias?" Ele disse: "Não sou". "É o Profeta?" Ele respondeu: "Não". Finalmente perguntaram: "Quem é você? Dê-nos uma resposta, para que a levemos àqueles que nos enviaram. Que diz você acerca de si próprio?" João respondeu com as palavras do profeta Isaías: "Eu sou a voz do que clama no deserto: ‘Façam um caminho reto para o Senhor’ ". Alguns fariseus que tinham sido enviados interrogaram-no: "Então, por que você batiza, se não é o Cristo, nem Elias, nem o Profeta?" Respondeu João: "Eu batizo com água, mas entre vocês está alguém que vocês não conhecem. Ele é aquele que vem depois de mim, cujas correias das sandálias não sou digno de desamarrar". Tudo isso aconteceu em Betânia, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando." (João 1:19-28)

De fato, João era um profeta, conforme o próprio Cristo confirmou (Mateus 11:8,9), mas não "o profeta" ao qual os fariseus se referiam. Equivocadamente, as lideranças religiosas de Israel acreditavam que alguém semelhante ao próprio Moisés viria para anunciar a chegada do Messias, por causa de um determinado episódio que podemos ler no livro de Deuteronômio:

"O Senhor, o seu Deus, levantará do meio de seus próprios irmãos um profeta como eu; ouçam-no. Pois foi isso que pediram ao Senhor, ao seu Deus, em Horebe, no dia em que se reuniram, quando disseram: "Não queremos ouvir a voz do Senhor, do nosso Deus, nem ver o seu grande fogo, se não morreremos!" O Senhor me disse: "Eles têm razão! Levantarei do meio dos seus irmãos um profeta como você; porei minhas palavras na sua boca, e ele lhes dirá tudo o que eu lhe ordenar. Se alguém não ouvir as minhas palavras, que o profeta falará em meu nome, eu mesmo lhe pedirei contas." (Deuteronômio 18:15-19)

O problema dos fariseus com o trecho acima é que eles pensaram que "o profeta" ao qual Moisés se referiu era o mesmo mensageiro que viria antes do Messias para anunciar a Sua chegada. No entanto, esse profeta descrito em Deuteronômio está se referindo ao próprio Cristo.

Por causa desse equívoco, muitos acreditavam que Jesus Cristo era esse tal profeta que os fariseus imaginavam, ou mesmo mais outro enviado como um dos antigos profetas, como podemos ver em alguns trechos dos evangelhos (Mateus 21:10,11; Marcos 6:15), e não acreditavam que Jesus era o Messias que eles deveriam estar aguardando. 

No livro de Atos, um dos discípulos que ajudavam os Apóstolos no trabalho de distribuição de mantimentos para as viúvas e órfãos, chamado Estêvão, antes de ser assassinado por apedrejamento pelos fariseus, falou-lhes quem era o profeta sobre o qual Moisés se referiu:

"Este é aquele Moisés que disse aos filhos de Israel: O Senhor vosso Deus vos levantará dentre vossos irmãos um profeta como eu; a ele ouvireis." (Atos 7:37, ACF)

Agora vamos analisar algumas falas do profeta João Batista, como, por exemplo, "Ele traz a pá em sua mão e limpará sua eira, juntando seu trigo no celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga", ao falar de Jesus. Tais palavras não são necessariamente a citação de alguma profecia específica do Antigo Testamento, no entanto, é uma compilação de alguns trechos de várias partes proféticas das escrituras que se relacionam a Cristo. 

Duas palavras dadas aos israelitas, uma dada pelo profeta Malaquias e outra pelo profeta Oséias, se enquadram na mensagem da "pá e do fogo que nunca se apaga":

"Pois certamente vem o dia, ardente como uma fornalha. Todos os arrogantes e todos os malfeitores serão como palha, e aquele dia, que está chegando, ateará fogo neles", diz o Senhor dos Exércitos." (Malaquias 4:1)

"Por isso levarei o meu trigo quando ele ficar maduro, e o meu vinho quando ficar pronto. Arrancarei dela minha lã e meu linho, que serviam para cobrir a sua nudez." (Oséias 2:9)

Quanto as palavras "o machado está posto à raiz das árvores...", muito provavelmente está fazendo alusão a um trecho do livro do profeta Isaías, que diz:

"Vejam! O Soberano, o Senhor dos Exércitos, cortará os galhos com grande força. As árvores altivas serão derrubadas, as altas serão lançadas por terra. Com um machado ele ceifará a floresta; o Líbano cairá diante do Poderoso." (Isaías 10:33,34)

Com relação à vestimenta do profeta e seus hábitos alimentares, descritos em Mateus 3:4 e Marcos 1:6, são informações importantes para entendermos onde João Batista morava ou mesmo passava a maior parte do seu tempo. As roupas e alimentos consumidos pelo profeta eram característicos de alguém que vivia no campo, afastado da parte mais urbana das cidades da Judéia. Os pastores de ovelhas daquela época, por exemplo, tinham hábitos similares aos de João.

Algumas pessoas costumam interpretar que a palavra "gafanhotos" relacionada a um dos alimentos que João Batista comia regularmente, está se referindo a um alimento vegetal e não a um inseto, como a própria palavra sugere, e que o profeta era vegetariano. Porém, essas informações não são verdadeiras. Vejamos esse mesmo trecho de Mateus 3:4 na versão King James:

"E este João tinha as suas vestes de pelos de camelo, e um cinto de couro em torno de seus lombos, e o seu alimento era locustas e mel silvestre." 

O significado da palavra "locusta", de acordo com o Dicio (Dicionário On Line de Português) é "grande gafanhoto do gênero Locusta, com uma única espécie, largamente conhecido por destruir plantas e plantações; gafanhoto-do-deserto".

A palavra usada no original grego nesse trecho da escritura é ἀκρίς - cuja pronúncia é "akris", e signigica literalmente "gafanhoto", um inseto que é comum em países orientais e, quando infesta esses locais, é capaz de destruir plantações e árvores.

Então, as escrituras bíblicas nas suas mais variadas versões estão sendo claras em nossa língua, quando falam que o profeta João Batista comia realmente um inseto comum da sua região, chamado gafanhoto.

Para finalizar nosso estudo, agora vamos fazer uma análise sobre qual era a missão de João Batista, que estava diretamente ligada à mensagem que ele ia divulgando. Quando o anjo Gabriel apareceu a Zacarias para anunciar a gravidez de sua esposa Isabel, ele avisou para quê aquele bebê havia sido chamado por Deus:

"Ele nunca tomará vinho nem bebida fermentada, e será cheio do Espírito Santo desde antes do seu nascimento. Fará retornar muitos dentre o povo de Israel ao Senhor, o seu Deus. E irá adiante do Senhor, no espírito e no poder de Elias, para fazer voltar o coração dos pais a seus filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos, para deixar um povo preparado para o Senhor."(Lucas 1:15-17)

Ao falar com Zacarias naquele momento, o anjo cita um trecho do livro do profeta Malaquias, que diz:

"Vejam, eu enviarei a vocês o profeta Elias antes do grande e terrível dia do Senhor. Ele fará com que os corações dos pais se voltem para seus filhos, e os corações dos filhos para seus pais; do contrário eu virei e castigarei a terra com maldição." (Malaquias 4:5,6)

Portanto, a missão de João Batista era preparar os israelitas e também os prosélitos da fé judaica que estavam em Israel, para receber a justificação de seus pecados a fim de poderem entrar no Reino dos céus. Ele cumpria esse chamado avisando e conscientizando as pessoas de que todos estavam transgredindo a reta justiça de Deus, e que, por isso, precisavam se arrepender sinceramente, e buscar se adequar a ela de todo o coração. Abaixo segue um trecho do Evangelho de Lucas onde vemos um pouco do que o profeta dizia ao povo:

"João dizia às multidões que saíam para serem batizadas por ele: "Raça de víboras! Quem lhes deu a idéia de fugir da ira que se aproxima? Dêem frutos que mostrem o arrependimento. E não comecem a dizer a si mesmos: ‘Abraão é nosso pai’. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo". "O que devemos fazer então? ", perguntavam as multidões. João respondia: "Quem tem duas túnicas reparta-as com quem não tem nenhuma; e quem tem comida faça o mesmo". Alguns publicanos também vieram para serem batizados. Eles perguntaram: "Mestre, o que devemos fazer?" Ele respondeu: "Não cobrem nada além do que lhes foi estipulado". Então alguns soldados lhe perguntaram: "E nós, o que devemos fazer? " Ele respondeu: "Não pratiquem extorsão nem acusem ninguém falsamente; contentem-se com o seu salário". O povo estava em grande expectativa, questionando em seus corações se acaso João não seria o Cristo." (Lucas 3:7-18)

Lembrando que, complementando a descrição contida em Lucas, conforme vimos parágrafos acima no Evangelho de Mateus, João não chamou todos os que vinham até ele de "raça de viboras", mas somente aqueles que exerciam influência no meio do povo, que eram os fariseus e saduceus.

Como o profeta João era cheio do Espírito Santo e tinha a mesma unção do profeta Elias, ele não somente falava ao povo com ousadia e autoridade, como também certamente muitos sinais sobrenaturais aconteciam conforme ele seguia fazendo seu trabalho, e isso fazia com que o povo acreditasse nele, provavelmente pensando que ele fosse mesmo o Messias, apesar dele avisar que não era.

No Evangelho de João, encontramos também um trecho que confirma o chamado de Deus para João Batista:

"Surgiu um homem enviado por Deus, chamado João. Ele veio como testemunha, para testificar acerca da luz, a fim de que por meio dele todos os homens cressem. Ele próprio não era a luz, mas veio como testemunha da luz. (...) João dá testemunho dele. Ele exclama: "Este é aquele de quem eu falei: Aquele que vem depois de mim é superior a mim, porque já existia antes de mim". (...) Esse foi o testemunho de João, quando os judeus de Jerusalém enviaram sacerdotes e levitas para lhe perguntarem quem ele era. Ele confessou e não negou; declarou abertamente: Não sou o Cristo." (João 1:6-20)

O batismo feito por João nas águas do rio Jordão era um sinal de Deus dado através do profeta que apontava o momento em que as pessoas se arrependiam sinceramente de seus pecados, ao ouvirem João falar dos preceitos do Reino de Deus, e também que elas estavam se dispondo a receber o Messias que estava chegando ali naquele momento para justificá-los diante do Pai, perdoando-lhes, assim, os seus pecados.

O batismo nas águas, portanto, não tem poder de justificar qualquer pessoa diante do Pai, mas simboliza que esse alguém decidiu iniciar o processo de conversão da maldade do mundo para os preceitos da justiça de Deus, os quais embasam a fé cristã verdadeira.

No evangelho de João (Jo 3:22) consta a informação de que Jesus Cristo também seguiu com o ritual de batismo, fazendo descer às águas todos os que escolhiam seguí-lo, e isso sugere que os doze apóstolos de Jesus foram todos batizados por imersão, a maioria deles pelo próprio Jesus, na região da Judéia. Dois deles, que seguiam o profeta João Batista antes de seguirem a Cristo, certamente devem ter sido batizados pelo profeta João, e um deles era André, irmão de Pedro (veja em Jo 1:40)

Esse mesmo batismo por imersão continua sendo tradicionalmente feito até hoje, porém, como cumprimento de uma ordem dada pelo próprio Jesus Cristo ressurreto, antes de sua ascenção aos céus (veja em Mt 28:19). 

Desta forma, na maioria das denominações cristãs evangélicas, quando pessoas creem na mensagem de salvação e por isso se arrependem verdadeiramente dos seus pecados, decidindo receber o governo do Senhor Jesus sobre suas vidas, elas são batizadas mergulhando rapidamente todo o corpo em água, como testemunho público de suas conversões à fé cristã. 

Missionária Oriana Costa.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Está consumado - Considerações sobre Mateus 27 - Parte 4


Aqui faremos a penúltima parte da análise do capitulo 27 do Evangelho de Mateus. Neste estudo, iremos observar o que aconteceu naquela sexta-feira, do meio-dia em diante, no evento da crucificação de Jesus. Lembrando que Jesus foi preso na noite do dia anterior, por volta das 22:00 h, e levado ao Pretório, já nas primeiras horas do dia seguinte, para ser julgado por Pôncio Pilatos. Portanto, da quinta para a sexta-feira, Jesus Cristo não dormiu, não teve mais descanso.

Muito provavelmente este foi um dos julgamentos ou, talvez, o único de que se tenha notícia, que aconteceu de uma forma incrivelmente rápida: da prisão até o julgamento já concluído, passaram-se cerca de 10 horas. Vê-se aí que o tempo de sofrimento de Jesus nessa parte de seu martírio foi bem abreviado pelo Pai.

Dando início ao nosso estudo, vamos ler abaixo o trecho que finaliza o capítulo 27 do Evangelho de Mateus:

E houve trevas sobre toda a terra, do meio dia às três horas da tarde. Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: "Eloí, Eloí, lamá sabactâni?" que significa: "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?" Quando alguns dos que estavam ali ouviram isso, disseram: "Ele está chamando Elias". Imediatamente, um deles correu em busca de uma esponja, embebeu-a em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara e deu-a a Jesus para beber. Mas os outros disseram: "Deixem-no. Vejamos se Elias vem salvá-lo". Depois de ter bradado novamente em alta voz, Jesus entregou o espírito. Naquele momento, o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo. A terra tremeu, e as rochas se partiram. Os sepulcros se abriram, e os corpos de muitos santos que tinham morrido foram ressuscitados. E, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. Quando o centurião e os que com ele vigiavam Jesus viram o terremoto e tudo o que havia acontecido, ficaram aterrorizados e exclamaram: "Verdadeiramente este era o Filho de Deus!" Muitas mulheres estavam ali, observando de longe. Elas haviam seguido Jesus desde a Galiléia, para o servir. Entre elas estavam Maria Madalena; Maria, mãe de Tiago e de José; e a mãe dos filhos de Zebedeu." (Mateus 27:45-56)

Vamos observar alguns fatos interessantes que se sucederam nos últimos momentos de vida de Jesus e também logo após a sua morte. O primeiro deles foi que, entre o meio-dia e as três horas da tarde daquela sexta-feira, houve "trevas" em toda a terra. Essa escuridão começou a acontecer um pouco antes do meio-dia, segundo o Evangelho de Lucas.

Alguns pesquisadores afirmam que esse período de trevas, na verdade, foi um eclipse solar, outros dizem ter sido uma tempestade de poeira vinda das regiões desérticas que ficavam próximas dali, outros dizem que foram densas nuvens que se acumularam no céu naquele momento, dentre as muitas hipóteses do que poderia ter sido aquele evento. Contudo, não há um consenso entre os estudiosos sobre o que realmente foi esse período de escuridão.

Nos Evangelhos de Marcos (Mc 15:33) e de Lucas (Lc 23:44), podemos ler trechos com informações similares, falando sobre esse mesmo acontecimento descrito em Mateus. É interessante notar que o sol não brilhou POR TRÊS HORAS SEGUIDAS, e esse fenômeno pôde ser observado em TODO O PLANETA, segundo o que está escrito nos evangelhos. Portanto, por se tratar de um evento ímpar na natureza, que foge aos padrões conhecidos, muitos pesquisadores afirmam que foi algo sobrenatural.

No Antigo Testamento, podemos encontrar um trecho constante no livro de Êxodo, em que Deus envia densas trevas sobre o Egito por três dias:

Mas o Senhor endureceu o coração do faraó, e ele não deixou que os israelitas saíssem. O Senhor disse a Moisés: "Estenda a mão para o céu, e trevas cobrirão o Egito, trevas tais que poderão ser apalpadas". Moisés estendeu a mão para o céu, e por três dias houve densas trevas em todo o Egito. Ninguém pôde ver ninguém, nem sair do seu lugar durante três dias. Todavia, todos os israelitas tinham luz nos locais em que habitavam. (Êxodo 10:20-23)

A praga das trevas que veio sobre o Egito foi a penúltima, antes da morte dos primogênitos, e antes também do sacrifício de cordeiros que as famílias israelitas fizeram, cumprindo um mandamento, para, enfim, deixarem o território egípcio em segurança. 

Portanto, assim como os três dias de trevas sobre o Egito foram um sinal para o povo de Israel e para os egípcios, de que Deus estava interferindo para que os israelitas fossem libertos daquela escravidão, as três horas de trevas sobre toda a terra foi um sinal para toda a humanidade. Deus sinalizou que estava derramando o juízo pelo pecado sobre Jesus, para que todos os que n'Ele cressem pudessem ser libertados da escravidão do pecado.

Por volta das três horas da tarde, provavelmente enquanto ainda aquela escuridão prevalecia, Jesus pergunta ao Pai "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?".

Essa pergunta não significa que Jesus era ignorante acerca do motivo pelo o qual o Pai deixou que Ele passasse por tudo aquilo, mas nos mostra algo importante: que Jesus se separou do Pai por algumas horas, para se colocar no lugar de toda a humanidade naquele momento. Até aquele instante, todos os seres humanos (incluindo os próprios israelitas) ainda não tinham acesso à justificação de seus pecados diante de Deus e estavam em trevas, separados de seu Criador e se sentindo abandonados por Ele.

Assim, desde que o sangue de Jesus foi derramado na Sua morte, muitas pessoas começaram a se reconciliar espiritualmente com Deus ao serem informadas sobre seu Reino, saindo das trevas para a luz. Esse processo continua até agora e vai perdurar até a volta do Senhor.

A morte de Cristo estabeleceu uma aliança de paz com toda a humanidade, onde todo aquele que crê na mensagem do Reino e deseja fazer parte dele recebe a justificação de seus pecados pela fé nesse sacrifício, sendo livrado da condenação à morte eterna.

Com relação a esse momento em que Jesus pergunta ao Pai porque o abandonou, ele foi predito no livro de Salmos pelo Rei Davi:

Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? Por que estás tão longe de salvar-me, tão longe dos meus gritos de angústia? (Salmos 22:1)

O momento em que Jesus tem os lábios molhados com vinagre, por uma das pessoas que estavam ali zombando dele e presenciando seu martírio, acontece logo após essa fala do Senhor, sendo, também, predito no Antigo Testamento, no livro de Salmos:

Tu bem sabes como sofro zombaria, humilhação e vergonha; conheces todos os meus adversários. A zombaria partiu-me o coração; estou em desespero! Supliquei por socorro, nada recebi, por consoladores, e a ninguém encontrei. Puseram fel na minha comida e para matar-me a sede deram-me vinagre. (Salmos 69:19-21)

Então Moisés convocou todas as autoridades de Israel e lhes disse: "Escolham um cordeiro ou um cabrito para cada família. Sacrifiquem-no para celebrar a Páscoa! Molhem um feixe de hissopo no sangue que estiver na bacia e passem o sangue na viga superior e nas laterais das portas. Nenhum de vocês poderá sair de casa até o amanhecer. Quando o Senhor passar pela terra para matar os egípcios, verá o sangue na viga superior e nas laterais da porta e passará sobre aquela porta; e não permitirá que o destruidor entre na casa de vocês para matá-los. (Êxodo 12:21-23)

O vinagre chegou até os lábios de Jesus através de uma vara que continha um molho de hissopo na ponta. O hissopo é uma erva muito parecida com lavanda que era usada em alguns rituais descritos na Lei Mosaica (veja em Lv:14 e Nm:19), especialmente os que se destinavam à purificação. E, nesses eventos, ele servia para fazer aspersões, que é respingar com os líquidos usados no ritual os objetos a serem purificados. 

Então, quando aquele judeu levou o hissopo embebido com vinagre até a boca de Jesus, ele cumpriu, sem se dar conta, a profecia e o mandamento que se referia à libertação do povo da escravidão no Egito, como lemos há pouco. E sabemos desse detalhe graças ao Evangelho de João:

Depois disso, sabendo Jesus que todas as coisas já estavam terminadas, para que pudesse se cumprir a escritura, disse: "Tenho sede". Ora, estava ali um vaso cheio de vinagre; e embeberam uma esponja de vinagre, e pondo-a sobre um hissopo, a colocaram na sua boca. (João 19:28,29 - versão King James Fiel)

Em seguida, Jesus grita bem alto suas últimas palavras e vai a óbito (Mt 27:50, Mc 15:37). Através dos Evangelhos de Lucas e João, podemos saber o que Cristo falou nesse momento:

Jesus bradou em alta voz: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". Tendo dito isso, expirou. (Lucas 23:46)

Tendo-o provado, Jesus disse: "Está consumado!" Com isso, curvou a cabeça e entregou o espírito. (João 19:30)

Se juntarmos as informações contidas nos quatro evangelhos, veremos que o momento da morte de Jesus aconteceu da seguinte forma: logo após ter recebido o hissopo molhado com vinagre, Jesus gritou bem alto: "Está consumado! Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito!"

No livro de Salmos, há também um trecho relacionado ao momento em que Jesus entrega seu espírito ao Pai:

Em ti, Senhor, me refugio; nunca permitas que eu seja humilhado; livra-me pela tua justiça. Inclina os teus ouvidos para mim, vem livrar-me depressa! Sê minha rocha de refúgio, uma fortaleza poderosa para me salvar. Sim, tu és a minha rocha e a minha fortaleza; por amor do teu nome, conduze-me e guia-me. Tira-me da armadilha que me prepararam, pois tu és o meu refúgio. Nas tuas mãos entrego o meu espírito; resgata-me, Senhor, Deus da verdade. (Salmos 31:1-5)

Assim que o Senhor Jesus falece, acontecem três fatos que são considerados sobrenaturais: o véu do templo se rasga de cima para baixo (Mt 27: 51,52, Mc 15:38, Lc 23:45), o planeta treme e rochas se partem, e os sepulcros se abrem. Provavelmente também é nesse momento que a escuridão que tomou o céu em todo o planeta termina. 

Sobre o véu do templo ter se partido de cima abaixo, precisamos entender para que esse "véu" servia, a fim de podermos mensurar o grau de relevância desse acontecimento. Esse véu era uma espessa cortina feita de linho, que servia para separar duas salas especiais dentro do tabernáculo. Vejamos suas especificações:

Faça um véu de linho fino trançado e de fios de tecido azul, roxo e vermelho, e mande bordar nele querubins. Pendure-o com ganchos de ouro em quatro colunas de madeira de acácia revestidas de ouro e fincadas em quatro bases de prata. Pendure o véu pelos colchetes e coloque atrás do véu a arca da aliança. O véu separará o Lugar Santo do Lugar Santíssimo. (Êxodo 26:31-33)

O texto acima refere-se ao tabernáculo construído por Moisés, mas o templo edificado por Salomão era semelhante, possuindo, também, três divisões. No Átrio, que era a parte externa, ficava o altar do sacrifício e a pia de bronze. No meio do Átrio, havia a área coberta, dividida em duas partes: o Lugar Santo e o Lugar Santíssimo.

No Lugar Santo, os sacerdotes ministravam e apresentavam os sacrifícios de animais que haviam sido feitos pelos pecados do povo e por seus próprios pecados. Ali estavam o altar do incenso, a mesa dos pães da propiciação e o candelabro, que eram necessários para o cumprimento de todo o ritual. 

O Lugar Santíssimo – também chamado de Santo dos santos – era o local mais interno do templo, onde ficava a arca da aliança. Somente o sumo sacerdote poderia entrar ali. O véu, por conseguinte, separava a presença de Deus, manifesta naquele local, dos demais participantes do ritual e também do povo que estivesse na área mais externa do templo.

O véu rasgado de alto a baixo, no momento da morte de Jesus, indicou que aquilo veio do próprio Deus, pois, se fosse rasgado por um ser humano, isso teria sido feito de baixo para cima. Portanto, foi um evento sobrenatural.

O véu partido também foi um sinal de que daquele momento em diante Deus estaria acessível a todas as pessoas sem precisar de rituais com a mediação de um sacerdote mortal, pois o próprio Cristo ali assumiu a posição de mediador entre Deus e os homens (cf. 1Timóteo 2:1-6).

Dessa forma, todos aqueles rituais destinados a expiação de pecados já não eram mais necessários, porque Cristo acabara de ser sacrificado pelas transgressões de toda a humanidade em todas as eras, e de uma vez por todas, cumprindo a promessa que o Pai fizera aos antepassados israelitas (cf. Gálatas 3:8-25).

Sobre o tremor de terra que atingiu todo o planeta e levou as rochas a se partirem, foi um sinal de que o Pai estava consumando o juízo (ou ira) sobre os pecados da humanidade em Cristo:

Dos céus pronunciaste juízo, e a terra tremeu e emudeceu, quando tu, ó Deus, te levantaste para julgar, para salvar todos os oprimidos da terra. (Salmos 76:8,9)

O Senhor jurou contra o orgulho de Jacó: "Jamais esquecerei coisa alguma do que eles fizeram". Acaso não tremerá a terra por causa disso, e não chorarão todos os que nela vivem? Toda esta terra se levantará como o Nilo; será agitada e depois afundará como o ribeiro do Egito". "Naquele dia", declara o SENHOR, o Soberano: "Farei o sol se pôr ao meio-dia e em plena luz do dia escurecerei a terra." (Amós 8:7-9)

Quanto aos mortos que ressuscitaram, assim que Jesus morreu, foi um sinal sobrenatural e extraordinário, onde o Pai trouxe à vida algumas pessoas que faleceram naquela época. Esses indivíduos viveram crendo que Deus realmente enviaria o Messias para justificá-los de seus pecados, a fim de lhes devolver a cidadania em seu Reino (cf. Hebreus 11:13-16).

Portanto, aquelas pessoas "viveram pela fé", apesar de não terem visto o Messias vir. Elas cumpriram até o último dia de vida os mandamentos da Lei, porém conscientes de para quê eles serviam e para onde eles apontavam, sem se deixarem enganar pelas falsas doutrinas do farisaismo (Mt 27:52,53).

Podemos ler um trecho constante no livro do Profeta Isaías relacionado a esse evento:

Como a mulher grávida prestes a dar à luz se contorce e grita de dor, assim estamos nós na tua presença, ó Senhor. Nós engravidamos e nos contorcemos de dor, mas demos à luz o vento. Não trouxemos salvação à terra; não demos à luz os habitantes do mundo. Mas os teus mortos viverão; seus corpos ressuscitarão. Vocês, que voltaram ao pó, acordem e cantem de alegria. O teu orvalho é orvalho de luz; a terra dará à luz os seus mortos. (Isaías 26:17-19)

Um evento similar a esse acontecerá na segunda vinda de Jesus, onde os que estiverem mortos, até aquele momento, tendo vivido pela fé verdadeira, cumprindo os mandamentos do Reino de Deus ensinados por Cristo, terão seus corpos ressuscitados para herdarem a vida eterna (cf. 1 Coríntios 15:50-58 e 1 Tessalonicenses 4:13-18).

No livro do Profeta Daniel há também um trecho relativo à este grande acontecimento que presenciaremos num futuro que, agora, já não está tão distante:

Naquela ocasião Miguel, o grande príncipe que protege o seu povo, se levantará. Haverá um tempo de angústia tal como nunca houve desde o início das nações e até então. Mas naquela ocasião o seu povo, todo aquele cujo nome está escrito no livro, será liberto. Multidões que dormem no pó da terra acordarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha, para o desprezo eterno. (Daniel 12:1,2)

O dia em que Jesus morreu era uma sexta-feira, momento em que o povo de Israel devia se preparar para o descanso do Sábado do Senhor. Portanto, no "Dia da Preparação", como era conhecido para os israelitas, os judeus tinham que deixar tudo pronto para o dia seguinte, como os serviços domésticos, trabalhos no campo, etc., pois, no Sábado, eles deveriam se consagrar a Deus e não realizarem trabalho algum, segundo a Lei Mosaica (Levítico 23:3).

Além disso, a Lei Mosaica ditava o seguinte, sobre indivíduos que fossem mortos "pendurados num madeiro" ou pendurados em estacas de madeira:

Se um homem culpado de um crime que mereça a morte for morto e pendurado num madeiro, não deixem o corpo no madeiro durante a noite. Enterrem-no naquele mesmo dia, porque qualquer que for pendurado num madeiro está debaixo da maldição de Deus. Não contaminem a terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá por herança. (Deuteronômio 21:22,23)

Por isso, os líderes judeus pediram a Pilatos para acelerar a morte dos crucificados (pois poderiam continuar vivos até o dia seguinte), para que, antes do pôr do sol, seus corpos fossem retirados das cruzes, segundo relata o Evangelho de João:

Esse era o Dia da Preparação, e o dia seguinte seria um sábado especialmente sagrado. Por não quererem que os corpos permanecessem na cruz durante o sábado, os judeus pediram a Pilatos que ordenasse que lhes quebrassem as pernas e os corpos fossem retirados. Vieram, então, os soldados e quebraram as pernas do primeiro homem que fora crucificado com Jesus e em seguida as do outro. Mas quando chegaram a Jesus, percebendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas. Em vez disso, um dos soldados perfurou o lado de Jesus com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que o viu, disso deu testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que está dizendo a verdade, e dela testemunha para que vocês também creiam. Estas coisas aconteceram para que se cumprisse a Escritura: "Nenhum dos seus ossos será quebrado", e, como diz a Escritura noutro lugar: "Olharão para aquele que traspassaram". (João 19:31-37)

Quanto aos ossos de Jesus não terem sido quebrados, isso foi um cumprimento do que já estava especificado na Lei sobre o cordeiro que seria sacrificado para a celebração do Shabbat (Êx 12:46, Nm 9:12), e também, cumprimento de uma profecia feita pelo Rei Davi, devidamente registrada no livro de Salmos:

O justo passa por muitas adversidades, mas o Senhor o livra de todas; protege todos os seus ossos; nenhum deles será quebrado. (Salmos 34:19,20)

No livro do Profeta Zacarias, lemos o trecho que se refere ao momento em que Jesus é perfurado no lado do seu corpo e a tristeza que sua morte causou entre todos os que creram n'Ele:

Olharão para mim, aquele a quem traspassaram, e chorarão por ele como quem chora a perda de um filho único, e lamentarão amargamente por ele como quem lamenta a perda do filho mais velho. Naquele dia muitos chorarão em Jerusalém, como os que choraram em Hadade-Rimon no vale de Megido. (Zacarias 12:10,11)

E para finalizar nosso estudo, ainda com relação ao momento que Jesus foi perfurado na cruz, onde, em seguida, saiu sangue e água, isso foi um sinal de Deus para todos os presentes, especialmente os que conheciam a Lei, de que Cristo é capaz de purificar de toda a transgressão contra a justiça de Deus (ou purificar do pecado) todos aqueles que crerem n'Ele.

Sangue e água eram dois dos seis itens usados no processo de purificação de uma casa infestada com mofo, como podemos ler em Levítico:

Para purificar a casa, ele pegará duas aves, um pedaço de madeira de cedro, um pano vermelho e hissopo. Depois matará uma das aves numa vasilha de barro com água da fonte. Então pegará o pedaço de madeira de cedro, o hissopo, o pano vermelho e a ave viva, e os molhará no sangue da ave morta e na água da fonte, e aspergirá a casa sete vezes. Ele purificará a casa com o sangue da ave, com a água da fonte, com a ave viva, com o pedaço de madeira de cedro, com o hissopo e com o pano vermelho. Depois soltará a ave viva em campo aberto, fora da cidade. Assim fará propiciação pela casa, que ficará pura. (Levítico 14:48-53)

O mofo era algo muito difícil de lidar, podendo levar uma casa à destruição, segundo as especificações da Lei (assim como o pecado não justificado leva um indivíduo à morte eterna):

Se as manchas tornarem a alastrar-se na casa depois de retiradas as pedras e de raspada e rebocada a casa, o sacerdote irá examiná-la, e, se as manchas se espalharam pela casa, é mofo corrosivo; a casa está impura. Ela terá que ser demolida: as pedras, as madeiras e todo o reboco da casa; tudo será levado para um local impuro, fora da cidade. (Levítico 14:43-45)

Se observarmos os itens usados pelo sacerdote na purificação, veremos que todos eles estavam bem representados do julgamento até a morte de Jesus: o pano vermelho (capa vermelha de rei colocada sobre Jesus), a madeira de cedro (a cruz), o hissopo (o feixe de hissopo usado para molhar os lábios de Jesus com vinagre), a água da fonte e o sangue da ave morta (sangue e água que saíram do corpo de Jesus), a ave viva (o espírito de Cristo, que deixou o corpo do homem Jesus, voltando para o Pai).

Missionária Oriana Costa

Revisão: Wendell Costa

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