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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Antes de escolher os apóstolos - Parte 3.2 - O sermão da montanha


Continuando nosso estudo do Evangelho de Mateus, agora no Sermão da Montanha, vamos analisar o momento em que o Senhor Jesus compara aqueles que escolhem segui-lo ao sal e à luz.

Vejamos o trecho que se encontra no Evangelho de Mateus:

Vocês são o sal da terra. Mas, se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens. Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E também ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Pelo contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus. (Mateus 5:13-16)

A comparação que o Senhor Jesus faz do seu povo com o sal e com a luz é, em primeiro lugar, um alerta para que aqueles que decidem segui-lo não recuem do seu chamado na anunciação do Seu Reino.

É muito comum que, em meio às perseguições e desafios na obra de Deus, surja a vontade de desistir, parar ou esconder-se. No entanto, Cristo deixa claro que aqueles que têm em seu coração a mensagem do evangelho jamais devem deixar de anunciá-la.

Muitos podem pensar que, quando o Senhor fala de "boas obras" nesse trecho, está se referindo apenas a obras de caridade. No entanto, essas boas obras também dizem respeito ao trabalho de anunciação da mensagem de salvação e do Reino de Deus. E Ele afirma que a realização desse trabalho faz com que outros glorifiquem a Deus.

A proclamação do Reino de Deus traz consigo a manifestação de sinais, prodígios e maravilhas, como curas, libertação de vícios e de diversas opressões, confirmando que a mensagem anunciada é verdadeira.

Além disso, o comportamento daqueles que anunciam o Reino chama a atenção por ser diferente do padrão do mundo: livre de preconceitos, religiosidade vazia, misticismo, soberba e impurezas, estando alinhado com a reta justiça de Deus, que é o Seu amor.

Quando o Senhor Jesus faz a comparação com o sal, ao se referir à postura daqueles que anunciam o Seu Reino, Ele também aponta para essa maneira diferenciada de viver, que evidencia misericórdia, perdão, imparcialidade, paciência, prudência, generosidade, honestidade, sinceridade e disposição para ajudar e socorrer — entre tantas outras virtudes do Espírito.

As Escrituras apresentam várias referências sobre essa postura, comparada ao sal. Uma delas se encontra na carta do apóstolo Paulo aos Colossenses:

Sejam sábios no procedimento para com os de fora; aproveitem ao máximo todas as oportunidades. O seu falar seja sempre agradável e temperado com sal, para que saibam como responder a cada um. (Colossenses 4:5-6)

Assim, ser sal e ser luz, de acordo com as palavras de Jesus Cristo, são características daqueles que verdadeiramente buscam alinhar-se ao Seu Reino e à Sua reta justiça, bem como anunciá-lo ao mundo.

No Evangelho de Marcos encontramos também:

O sal é bom, mas, se deixar de ser salgado, como restaurar o seu sabor? Tenham sal em vocês mesmos e vivam em paz uns com os outros. (Marcos 9:50)

Aqui, Cristo revela que, se tivermos "sal" em nossos corações, poderemos viver em paz uns com os outros. O sal, portanto, também aponta para o fruto do Espírito, que inclui, entre outras virtudes, a paz (veja Gálatas 5:22; Tiago 3:17-18).

Em relação ao trecho em que o Senhor Jesus fala sobre o sal perder o sabor, Ele chama a atenção para as consequências de conhecermos a mensagem do Reino de Deus e não a anunciarmos, seja por meio das nossas atitudes diárias, seja pelo cumprimento do chamado de Deus em nossas vidas.

Na realidade física, quando o sal perde o sabor, ele não se torna totalmente inútil, pois ainda pode ser usado, por exemplo, para ajudar a derreter neve em países frios. Esse efeito ocorre porque o sal diminui a temperatura de fusão da água.

Entretanto, no contexto ensinado por Jesus, a ênfase está no prejuízo de perder a principal função do sal. Da mesma forma, Deus espera que Seu povo faça a diferença onde estiver, refletindo o Seu Reino por meio das suas ações e anunciando-o conforme foi capacitado.

Quando esse fruto não é manifestado na vida de um cristão, ele deixa de usufruir das bênçãos relacionadas à vida no Reino e passa a colher as consequências de não andar em conformidade com a justiça de Deus.

Agora, falando da "luz" com a qual o Senhor compara o Seu povo, as Escrituras também apresentam diversas referências:

Porque antes vocês eram trevas, mas agora são luz no Senhor. Vivam como filhos da luz — pois o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade — e aprendam a discernir o que é agradável ao Senhor. (Efésios 5:8-10)

Esta é a mensagem que dele ouvimos e transmitimos a vocês: Deus é luz; nele não há treva alguma. Se afirmarmos que temos comunhão com ele, mas andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. (1 João 1:5-7)

Quem afirma estar na luz, mas odeia seu irmão, continua nas trevas. Quem ama seu irmão permanece na luz, e nele não há causa de tropeço. Mas quem odeia seu irmão está nas trevas, anda nas trevas e não sabe para onde vai, porque as trevas o cegaram. (1 João 2:9-11)

Ao analisarmos esses textos, percebemos que aqueles que são luz, segundo o ensino de Cristo, evidenciam alguns princípios fundamentais:

•Vivem em bondade, justiça e verdade, buscando discernir o que agrada ao Senhor — ou seja, vivem segundo a realidade do Reino de Deus, e não segundo o padrão do mundo.

•Buscam viver em comunhão com os irmãos em Cristo, compreendendo a importância da vida em unidade. O afastamento da comunhão tende a enfraquecer a fé, diminuir o confronto com a Palavra e, consequentemente, o arrependimento e a transformação.

•Amam seus irmãos, expressando esse amor por meio do cuidado, do perdão, da intercessão, da exortação e do suporte mútuo.

Que o nosso Deus continue falando aos nossos corações por meio da Sua Palavra, nos conduzindo a viver como sal da terra e luz do mundo, refletindo o Seu caráter e anunciando o Seu Reino com fidelidade, até que Ele seja glorificado em todas as coisas.


Missionária Oriana Costa.


segunda-feira, 13 de março de 2023

Antes de escolher os Apóstolos - parte 1 - Na sinagoga de Carfanaum


Aqui vamos dar início ao estudo dos eventos que se sucederam até o momento em que o Senhor Jesus finalmente separa dentre os seus seguidores aqueles que formariam sua equipe de doze apóstolos.

Por comparação, observamos que no Evangelho de Mateus há uma lacuna entre o momento em que Cristo passa a morar em Carfanaum e o episódio do Sermão da montanha, que acontece dias, semanas ou meses depois.

Portanto, neste e em estudos seguintes, iremos usar mais os outros três evangelhos, a fim de entendermos como as coisas foram acontecendo, até chegarmos ao momento do Sermão da montanha. Depois desse evento, portanto, passaremos a incluir o Evangelho de Mateus em nossas análises até chegarmos ao ponto onde o Senhor Jesus nomeia seus doze apóstolos.

No Evangelho de Marcos, lemos o seguinte:

Eles foram para Cafarnaum e, assim que chegou o sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Todos ficavam maravilhados com o seu ensino, porque lhes ensinava como alguém que tem autoridade e não como os mestres da lei. Justamente naquela hora, na sinagoga, um homem possesso de um espírito imundo gritou: "O que queres conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Sei quem tu és: o Santo de Deus!" "Cale-se e saia dele!", repreendeu-o Jesus. O espírito imundo sacudiu o homem violentamente e saiu dele gritando. Todos ficaram tão admirados que perguntavam uns aos outros: "O que é isto? Um novo ensino — e com autoridade! Até aos espíritos imundos ele dá ordens, e eles lhe obedecem!" As notícias a seu respeito se espalharam rapidamente por toda a região da Galiléia. (Marcos 1:21-28)

No Evangelho de Lucas (Lc 4:31-37) também encontramos um trecho similar, confirmando esse episódio. Ali, Cristo mostrou a todos a autoridade que tinha, expulsando um demônio de um homem que estava possesso dentro da sinagoga. Lembrando que o ato de expulsar demônios não é um milagre, e sim um sinal de autoridade.

No Evangelho de João há um breve trecho referente à mudança de residência de Jesus, de Nazaré para Carfanaum, mostrando que Ele não foi morar lá sozinho, mas sua família foi com ele, como também os muitos discípulos que Ele tinha o acompanharam. Veja em João 2:12.

Voltando a nossa análise, essa é a primeira descrição contida nos evangelhos na qual Jesus liberta pessoas endemoniadas. É interessante notar que, nesse evento, a pessoa possessa se dirigiu a Jesus gritando enquanto Ele ensinava na sinagoga naquele sábado, e que a reação do Senhor foi rápida, apenas ordenando para que a entidade saísse dela.

Muito provavelmente, a temática abordada por Cristo naquele momento era exatamente o ponto fraco daquele homem, e que estava dando ocasião para que aquele demônio encontrasse espaço para agir pela vida daquele indivíduo. 

Como lemos na narrativa de Marcos, Jesus Cristo ensinava com autoridade e não como os mestres da lei. Isso quer dizer que Ele conhecia profundamente o conteúdo que abordava, e o transmitia a todos com segurança no falar, de forma clara.

Isso acontecia porque aquilo que o Senhor Jesus falava não era somente os conteúdos da Lei e dos Profetas decorados, mas Ele aplicava esse conhecimento diretamente ao cotidiano das pessoas, expondo também a realidade espiritual envolvida nos mandamentos e avisos profeticos, assim mostrando claramente a todos qual era a vontade do Pai naqueles decretos e alertas.

A forma como Jesus expôs o conhecimento das escrituras contrariou em muitos aspectos a maneira como os judeus estavam acostumados a ver e usar aquele conteúdo, isso porque eles estavam enganados sobre o sentido dele. Essa realidade podemos ver claramente na abordagem que o Senhor faz no Sermão da montanha, por exemplo, mostrando as pessoas o verdadeiro sentido de alguns mandamentos contidos nos livros da Lei. Por isso, após ouvirem o Senhor falar, as pessoas se maravilhavam e achavam que Cristo estava trazendo a elas um novo conhecimento.

Desse modo, ao contrário dos fariseus e mestres da lei, que usavam as escrituras para forçar o povo a ficar debaixo de suas lideranças, trazendo medo e condenação a elas, Cristo somente lhes mostrava o verdadeiro sentido daquelas palavras, e isso fazia com que a realidade espiritual se manifestasse de uma forma intensa onde Ele estava, com operação de muitos prodígios e milagres.

Então, era dessa maneira que Ele apresentava a realidade do Seu Reino, levando aqueles que criam nEle ao arrependimento sincero de seus pecados. A importância do arrependimento de pecados está no fato de que somente essa ação leva as pessoas a fecharem a porta de suas vidas para entidades malignas entrarem e fazerem morada. Foi por esse motivo que o demônio se manifestou na hora em que Cristo estava ensinando, na tentativa de impedir aquele homem de se arrepender e ser liberto. 


Missionária Oriana Costa.



sábado, 5 de novembro de 2022

Sigam-me - Considerações sobre Mateus capítulo 4 - Parte 3


Dando continuidade ao nosso estudo do Evangelho de Mateus, vamos analisar o período em que o Senhor Jesus começa a formar sua equipe, fazendo seus primeiros discípulos e, em seguida, escolhendo dentre eles aqueles que dariam continuidade aos trabalhos de divulgação da mensagem do Reino e do cuidado daqueles que fossem se juntando à família de Deus.

Nessa fase Jesus viaja bastante, visita muitas cidades e povoados, entra nas sinagoas para ensinar, como também ensina às multidões em acampamentos, e, nesse processo, realiza muitos milagres por onde vai passando. Nos estudos seguintes veremos esses acontecimentos com mais detalhes.

Voltando para nossa análise, vamos entender como Jesus formou sua equipe de doze apóstolos. Mas, antes de prosseguir, é bom entendermos que a palavra "apóstolo" significa aquele que se dedica à defesa e propagação de uma doutrina ou de um ideal. E a palavra "discípulo" significa aprendiz, aluno receptivo a ensinamentos.

As palavras "apóstolo" e "discípulo" não são usadas unicamente no âmbito religioso, mas em quaisquer assuntos seculares em que alguém se dispõe a propagar determinados conceitos ou conhecimentos ainda desconhecidos ou não dominados pela maioria das pessoas, no caso do nome "apóstolo", e quando pessoas resolvem seguir determinado propagador de conceitos, doutrinas, filosofias ou conhecimentos, no caso do nome "discípulos".

Os apóstolos de Jesus Cristo, que também eram discípulos dele, foram preparados pelo Senhor para continuar a propagar oficialmente a mensagem do Reino de Deus como autoridades designadas pelo próprio Deus, depois de sua ascenção aos céus, e os demais discípulos, por conseguinte, seguiam aprendendo os preceitos do Reino e como praticá-los.

Então, voltando para a análise do Evangelho de Mateus, ao deixar Nazaré, a cidade onde morou desde a infância, para fixar residência em Carfanaum com sua mãe e seus irmãos (Mt 4:13-16), Jesus continua o trabalho de anunciação do Seu Reino, e segue atraindo muitos seguidores. 

Lembrando aqui que a cidade natal de Jesus não foi Nazaré, que ficava na província da Galiléia e sim Belém, situada na província da Judéia, e essa informação ficou esquecida durante o período do ministério de Jesus Cristo. Como Ele foi criado e morou até a fase adulta em Nazaré, era conhecido como Jesus de Nazaré e isso escondia dos judeus/fariseus que Ele era o Cristo, e que seu nascimento ocorreu conforme o que já estava predito nas escrituras em Miquéias 5:2.

Prosseguindo com nosso estudo, vejamos a seguir o que aconteceu no período em que Jesus sai de Nazaré para morar em Carfanaum:

"Daí em diante Jesus começou a pregar: "Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo". Andando à beira do mar da Galiléia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Eles estavam lançando redes ao mar, pois eram pescadores. E disse Jesus: "Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens". No mesmo instante eles deixaram as suas redes e o seguiram. Indo adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Eles estavam num barco com seu pai, Zebedeu, preparando as suas redes. Jesus os chamou, e eles, deixando imediatamente o barco e seu pai, o seguiram. E percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo. E a sua fama correu por toda a Síria, e traziam-lhe todos os que padeciam, acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos, e os paralíticos, e ele os curava. E seguia-o uma grande multidão da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia, e de além do Jordão."(Mateus 4:17-25)

Os outros três evangelhos fornecem informações complementares ao de Mateus, de como Cristo foi escolhendo dentre seus primeiros discípulos, aqueles que aprenderiam mais sobre o Reino de Deus a fim de anunciá-lo - veja em Marcos 1:14 até Marcos 3:19, Lucas 4:14 até Lucas 6:11 e João 1:35 até o capítulo 3.

Como os trechos para análise são muito longos, não serão todos transcritos aqui no nosso texto, mas vamos seguir comentando os acontecimentos por meio de uma comparação detalhada entre eles. 

O Evangelho de Marcos confirma o conteúdo do Evangelho de Mateus, onde Cristo, após deixar o deserto da Judéia, se dirigiu à região costeira da Galiléia a fim de chamar os dois irmãos filhos do pescador Jonas, André e Simão, e em seguida chamar mais outros dois irmãos, filhos do pescador Zebedeu, Tiago e João. 

Também nesse Evangelho vemos que Jesus chamou em Carfanaum a Levi (Mateus), filho de Alfeu, que era um publicano ou cobrador de impostos. No momento em que foi chamado por Cristo, Levi estava sentado na coletoria, o local onde os impostos dos israelitas eram recolhidos (veja também em Mt 9:9, Lc 5:27-29). 

Por fim, no capítulo 3 de Marcos, vemos que o Senhor Jesus sobe em um determinado monte para orar (o nome do monte não é falado no texto - veja também no capítulo 10 de Mateus e em Lucas 6:12-16) e ali nomeia oficialmente os seus doze apóstolos, dentre a multidão de discípulos que já o seguia voluntariamente, vindas de vários locais de Israel e de cidades circunvizinhas. 

Agora vejamos algumas curiosidades sobre como os discípulos que mais tarde formariam a equipe de 12 apóstolos foram chamados. De acordo com o relato dos Evangelhos, os nomes deles são Simão (Pedro, filho de Jonas) e seu irmão André, Tiago (filho de Zebedeu) e seu irmão João, Filipe, Bartolomeu (Natanael), Tomé (Dídimo), Mateus (Levi), Tiago (filho de Alfeu) e seu irmão Judas, Simão (Zelote) e Judas Iscariotes.

Ao lermos o Evangelho de João, encontraremos ainda outras informações adicionais, que detalham um pouco mais como foi que os primeiros discípulos conheceram o Senhor Jesus, e como passaram a seguir seus ensinamentos (sem ainda terem sido chamados pessoalmente por Ele):

"No dia seguinte João estava ali novamente com dois dos seus discípulos. Quando viu Jesus passando, disse: "Vejam! É o Cordeiro de Deus!" Ouvindo-o dizer isso, os dois discípulos seguiram a Jesus. Voltando-se e vendo Jesus que os dois o seguiam, perguntou-lhes: "O que vocês querem?" Eles disseram: "Rabi", (que significa Mestre), "onde estás hospedado?" Respondeu ele: "Venham e verão". Então foram, por volta das quatro horas da tarde, viram onde ele estava hospedado e passaram com ele aquele dia. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido o que João dissera e que haviam seguido a Jesus. O primeiro que ele encontrou foi Simão, seu irmão, e lhe disse: "Achamos o Messias" (isto é, o Cristo). E o levou a Jesus. Jesus olhou para ele e disse: "Você é Simão, filho de João. Será chamado Cefas" (que significa Pedro). No dia seguinte Jesus decidiu partir para a Galiléia. Quando encontrou Filipe, disse-lhe: "Siga-me". Filipe, como André e Pedro, era da cidade de Betsaida. Filipe encontrou Natanael e lhe disse: "Achamos aquele sobre quem Moisés escreveu na Lei, e a respeito de quem os profetas também escreveram: Jesus de Nazaré, filho de José". Perguntou Natanael: "Nazaré? Pode vir alguma coisa boa de lá?" Disse Filipe: "Venha e veja". Ao ver Natanael se aproximando, disse Jesus: "Aí está um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade"." (João 1:35-47)

Após uma leitura minuciosa dos quatro evangelhos vamos descobrir que Cristo não saiu chamando os seus discípulos mais  chegados sem conhecê-los previamente. Pelo menos dois deles, como é o caso dos filhos do pescador Jonas, André e Simão (Pedro), por exemplo, já conheciam Jesus pessoalmente antes dele passar os quarenta dias no deserto da Judéia, como sugere o Evangelho de João. 

Ao ler os evangelhos de Mateus e Marcos temos a impressão de que Jesus não tinha contato com seus primeiros discípulos antes de chamá-los, visto que o relato desse acontecimento se encontra bem resumido nesses dois primeiros evangelhos, com poucos detalhes. 

No entanto, conferindo o evangelho de Lucas, encontraremos um trecho interessante, mostrando como foi que André, Pedro, Tiago e João foram convencidos a deixar seus trabalhos de pescadores para atender o chamado de Jesus e seguí-lo. Vejamos o relato a seguir:

"Certo dia Jesus estava perto do lago de Genesaré, e uma multidão o comprimia de todos os lados para ouvir a palavra de Deus. Viu à beira do lago dois barcos, deixados ali pelos pescadores, que estavam lavando as suas redes. Entrou num dos barcos, o que pertencia a Simão, e pediu-lhe que o afastasse um pouco da praia. Então sentou-se, e do barco ensinava o povo. Tendo acabado de falar, disse a Simão: "Vá para onde as águas são mais fundas", e a todos: "Lancem as redes para a pesca". Simão respondeu: "Mestre, esforçamo-nos a noite inteira e não pegamos nada. Mas, porque és tu quem está dizendo isto, vou lançar as redes". Quando o fizeram, pegaram tal quantidade de peixe que as redes começaram a rasgar-se. Então fizeram sinais a seus companheiros no outro barco, para que viessem ajudá-lo; e eles vieram e encheram ambos os barcos, a ponto de quase começarem a afundar. Quando Simão Pedro viu isso, prostrou-se aos pés de Jesus e disse: "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!" Pois ele e todos os seus companheiros estavam perplexos com a pesca que haviam feito, como também Tiago e João, os filhos de Zebedeu, sócios de Simão. Então Jesus disse a Simão: "Não tenha medo; de agora em diante você será pescador de homens". Eles então arrastaram seus barcos para a praia, deixaram tudo e o seguiram." (Lucas 5:1-11)

O trecho acima mostra que os referidos discípulos já conheciam e seguiam Jesus antes desse acontecimento, sem, no entanto, serem muito próximos dele. 

Curiosamente, os Evangelhos de Mateus e Marcos passam a ideia de que logo após ser batizado por João Batista em Betânia, o Senhor foi para o deserto sem seguidores, e que, ao sair de lá, Ele soube que João estava preso e seguiu para Nazaré, cidade onde morava com sua família, e prosseguiu ainda sem seguidores. 

Porém, notamos que os evangelhos não deixam claro quanto tempo demorou entre o batismo de Jesus e sua ida ao deserto, e quanto tempo levou para que o Senhor ficasse sabendo que João tinha sido preso após ter saído do deserto da Judéia. Nesses intervalos, que podem ter durado uma semana ou mais, Jesus prosseguiu anunciando o Seu Reino e atraindo muitos seguidores onde passava.

Então, a narrativa contida entre os versículos 35 e 39 do primeiro capítulo do Evangelho de João aponta para um possível acontecimento anterior ao momento do deserto, e, por conseguinte, mostra que André e Simão provavelmente tiveram um encontro prévio com Jesus antes de serem convidados pessoalmente pelo Senhor a seguí-lo de perto, à beira do lago de Genesaré.

Quando o Senhor foi chamando pessoalmente aqueles que iriam fazer parte de sua equipe oficial de discípulos, tais individuos, juntos a um grande grupo de pessoas, provavelmente já acompanhavam assiduamente o seu trabalho.

Para fechar nosso estudo, vejamos os trechos biblicos onde somos informados que Jesus Cristo, após ser batizado por João Batista, atraiu um grande número de seguidores e não saiu batizando-os diretamente, assim como João fazia. No entanto, o Senhor autorizou seus discípulos a batizarem, conforme vemos abaixo:  

"Depois disso Jesus foi com os seus discípulos para a terra da Judéia, onde passou algum tempo com eles e batizava. João também estava batizando em Enom, perto de Salim, porque havia ali muitas águas, e o povo vinha para ser batizado. (Isto se deu antes de João ser preso.) Surgiu uma discussão entre alguns discípulos de João e um certo judeu, a respeito da purificação cerimonial. Eles se dirigiram a João e lhe disseram: "Mestre, aquele homem que estava contigo no outro lado do Jordão, do qual testemunhaste, está batizando, e todos estão se dirigindo a ele"."(João 3:22-26)

"Os fariseus ouviram falar que Jesus estava fazendo e batizando mais discípulos do que João, embora não fosse Jesus quem batizasse, mas os seus discípulos. Quando o Senhor ficou sabendo disso, saiu da Judéia e voltou uma vez mais à Galiléia." (João 4:1-3)

Com todas essas informações, concluímos que Jesus Cristo realmente já estava atraindo muitos seguidores ou discípulos logo após ser batizado por João Batista, provavelmente antes mesmo de passar os quarenta dias no deserto ou de iniciar a realização de milagres, por causa do Seu ensino.

Missionária Oriana Costa 

Postagem publicada em 30/12/2022


  





terça-feira, 14 de junho de 2022

João Batista, a voz que clama - Considerações sobre Mateus capítulo 3 - Parte 1


Aqui vamos analisar o trecho do terceiro capítulo do Evangelho de Mateus onde João Batista é citado. 

Antes de seguirmos com nosso estudo, vamos falar um pouco da preparação para a chegada do bebê João Batista e lembrar como foi seu nascimento. Ele era primo em segundo grau de Jesus pelo lado materno, pois Isabel (ou Elisabete segundo a versão King James), sua mãe, era prima em primeiro grau de Maria, mãe de Jesus, segundo os relatos das versões King James e Almeida corrigida fiel. 

Assim como Jesus foi gerado no ventre de Maria de forma sobrenatural, a concepção de João Batista também aconteceu pelo poder de Deus, pois sua mãe era estéril e já tinha idade avançada. E assim como Maria recebeu a visita de um anjo que veio avisá-la do que estava para acontecer, Zacarias, que era o pai de João, também recebeu a visita do mesmo anjo, que lhe falou sobre a gravidez de Isabel. Vejamos o relato abaixo, que é encontrado somente no Evangelho de Lucas:

"No tempo de Herodes, rei da Judéia, havia um sacerdote chamado Zacarias, que pertencia ao grupo sacerdotal de Abias; Isabel, sua mulher, também era descendente de Arão. Ambos eram justos aos olhos de Deus, obedecendo de modo irrepreensível a todos os mandamentos e preceitos do Senhor. Mas eles não tinham filhos, porque Isabel era estéril; e ambos eram de idade avançada. Certa vez, estando de serviço o seu grupo, Zacarias estava servindo como sacerdote diante de Deus. (...) Então um anjo do Senhor apareceu a Zacarias, à direita do altar do incenso. Quando Zacarias o viu, perturbou-se e foi dominado pelo medo. Mas o anjo lhe disse: "Não tenha medo, Zacarias; sua oração foi ouvida. Isabel, sua mulher, lhe dará um filho, e você lhe dará o nome de João. Ele será motivo de prazer e de alegria para você, e muitos se alegrarão por causa do nascimento dele, pois será grande aos olhos do Senhor. Ele nunca tomará vinho nem bebida fermentada, e será cheio do Espírito Santo desde antes do seu nascimento. Fará retornar muitos dentre o povo de Israel ao Senhor, o seu Deus. E irá adiante do Senhor, no espírito e no poder de Elias, para fazer voltar o coração dos pais a seus filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos, para deixar um povo preparado para o Senhor". Zacarias perguntou ao anjo: "Como posso ter certeza disso? Sou velho, e minha mulher é de idade avançada". O anjo respondeu: "Sou Gabriel, o que está sempre na presença de Deus. Fui enviado para lhe transmitir estas boas novas. Agora você ficará mudo. Não poderá falar até o dia em que isso acontecer, porque não acreditou em minhas palavras, que se cumprirão no tempo oportuno". (...) Depois disso, Isabel, sua mulher, engravidou e durante cinco meses não saiu de casa. E ela dizia: "Isto é obra que o Senhor fez! Agora ele olhou para mim com favor, para desfazer a minha humilhação perante o povo."(Lucas 1:5-25)

Quando Isabel estava no sexto mês de gestação, Maria, que era virgem e estava em Nazaré, engravidou pelo poder de Deus (Lc 1:26-38). E ela só soube da gravidez de sua prima por ter sido avisada pelo anjo Gabriel, que também lhe apareceu, assim como apareceu ao sacerdote Zacarias. Assim, Maria decidiu ir averiguar a situação, e viajou para a Judéia a fim de visitar sua prima, como veremos no trecho abaixo:

"Naqueles dias, Maria preparou-se e foi depressa para a uma cidade da região montanhosa da Judéia, onde entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o bebê agitou-se em seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Em alta voz exclamou: "Bendita é você entre as mulheres, e bendito é o filho que você dará à luz! Mas por que sou tão agraciada, a ponto de me visitar a mãe do meu Senhor? Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, o bebê que está em meu ventre agitou-se de alegria. Feliz é aquela que creu que se cumprirá aquilo que o Senhor lhe disse!" (Lucas 1:39-45)

João Batista, portanto, nasceu primeiro que Jesus. No dia da sua apresentação no templo e circuncisão, que segundo os costumes judaicos acontece ao oitavo dia de nascido dos meninos (veja em Gn 17:10-13), Zacarias, seu pai, voltou a falar sobrenaturalmente. Vejamos o trecho abaixo, segundo o relato de Lucas:

"Ao se completar o tempo de Isabel dar à luz, ela teve um filho. Seus vizinhos e parentes ouviram falar da grande misericórdia que o Senhor lhe havia demonstrado e se alegraram com ela. No oitavo dia foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias; mas sua mãe tomou a palavra e disse: "Não! Ele será chamado João". Disseram-lhe: "Você não tem nenhum parente com esse nome". Então fizeram sinais ao pai do menino, para saber como queria que a criança se chamasse. Ele pediu uma tabuinha e, para admiração de todos, escreveu: "O nome dele é João". Imediatamente sua boca se abriu, sua língua se soltou e ele começou a falar, louvando a Deus. Todos os vizinhos ficaram cheios de temor, e por toda a região montanhosa da Judéia se falava sobre essas coisas. Todos os que ouviam falar disso se perguntavam: "O que vai ser este menino?" Pois a mão do Senhor estava com ele. Seu pai, Zacarias, foi cheio do Espírito Santo e profetizou: (...) E você, menino, será chamado profeta do Altíssimo, pois irá adiante do Senhor, para lhe preparar o caminho, para dar ao seu povo o conhecimento da salvação, mediante o perdão dos seus pecados, por causa das ternas misericórdias de nosso Deus, pelas quais do alto nos visitará o sol nascente para brilhar sobre aqueles que estão vivendo nas trevas e na sombra da morte, e guiar nossos pés no caminho da paz". E o menino crescia e se fortalecia no espírito; e viveu no deserto, até aparecer publicamente a Israel. (Lucas 1:57-80)

Uma curiosidade: muito provavelmente, Maria esteve presente no nascimento de João Batista, e também testemunhou o que aconteceu no dia de sua apresentação no templo, pois a duração da visita que fez a sua prima foi cerca de três meses, que era o tempo que restava até que Isabel desse à luz o futuro profeta João Batista (veja em Lc 1:56). 

Agora, vamos analisar aquilo que o Evangelho de Mateus mostra sobre o ministério de João Batista, comparando também com as informações complementares contidas nos outros três evangelhos. Vejamos o trecho abaixo:

"Naqueles dias surgiu João Batista, pregando no deserto da Judéia. Ele dizia: "Arrependam-se, porque o Reino dos céus está próximo". Este é aquele que foi anunciado pelo profeta Isaías: "Voz do que clama no deserto: ‘Preparem o caminho para o Senhor, façam veredas retas para ele’". As roupas de João eram feitas de pêlos de camelo, e ele usava um cinto de couro na cintura. O seu alimento era gafanhotos e mel silvestre. A ele vinha gente de Jerusalém, de toda a Judéia e de toda a região ao redor do Jordão. Confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão. Quando viu que muitos fariseus e saduceus vinham para onde ele estava batizando, disse-lhes: "Raça de víboras! Quem lhes deu a idéia de fugir da ira que se aproxima? Dêem fruto que mostre o arrependimento! Não pensem que vocês podem dizer a si mesmos: ‘Abraão é nosso pai’. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo. "Eu os batizo com água para arrependimento. Mas depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de levar as suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele traz a pá em sua mão e limpará sua eira, juntando seu trigo no celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga." (Mateus 3:1-12)

Sobre o trecho do profeta Isaías que fala do momento em que João Batista anunciaria a chegada do Messias, vejamos abaixo:

"Consolem, consolem o meu povo, diz o Deus de vocês. Encoragem a Jerusalém e anunciem que ela já cumpriu o trabalho que lhe foi imposto, pagou por sua iniqüidade, e recebeu da mão do Senhor em dobro por todos os seus pecados. Uma voz clama: "No deserto preparem o caminho para o Senhor; façam no deserto um caminho reto para o nosso Deus. Todos os vales serão levantados, todos os montes e colinas serão aplanados; os terrenos acidentados se tornarão planos; as escarpas, serão niveladas. A glória do Senhor será revelada, e, juntos, todos a verão. Pois é o Senhor quem fala"." (Isaías 40:1-5)

Ainda nesse mesmo capítulo do livro do profeta Isaías, também podemos ler:

"Você, que traz boas novas a Sião, suba num alto monte. Você, que traz boas novas a Jerusalém, erga a sua voz com fortes gritos, erga-a, não tenha medo; diga às cidades de Judá: "Aqui está o seu Deus!" O Soberano Senhor vem com poder! Com seu braço forte ele governa. A sua recompensa com ele está, e seu galardão o acompanha. Como pastor ele cuida de seu rebanho, com o braço ajunta os cordeiros e os carrega no colo; conduz com cuidado as ovelhas que amamentam suas crias." (Isaías 40:9-11)

Assim como os trechos acima, existem outros no Antigo Testamento que falam da vinda de João Batista a fim de preparar Israel para receber o Cristo, como podemos ler em Salmos 85:12,13. Alguns parágrafos abaixo também veremos outra referência, no livro do profeta Malaquias, que também avisa sobre o mensageiro João.

João iniciou seu trabalho na cidade de Betânia, na região da Judéia, proclamando a chegada do Reino dos céus (ou Reino de Deus) para os israelitas, e isso tinha a ver com a proximidade da iniciação do ministério de Jesus em Israel. Até aquele momento, o Cristo vivia ocultado de todos, mas a partir da hora em que o profeta João passou a anunciá-lo, o nosso Salvador começou a ficar conhecido.

No Evangelho de Marcos, há um trecho similar ao que lemos em Mateus, com uma informação adicional:

"Conforme está escrito no profeta Isaías: "Enviarei à tua frente o meu mensageiro; ele preparará o teu caminho"— "voz do que clama no deserto: ‘Preparem o caminho para o Senhor, façam veredas retas para ele’ ". Assim surgiu João, batizando no deserto e pregando um batismo de arrependimento para o perdão dos pecados. A ele vinha toda a região da Judéia e todo o povo de Jerusalém. Confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão." (Marcos 1: 2-5)

No trecho acima, na verdade, não existe apenas a citação do profeta Isaías, que também aparece no Evangelho de Mateus, mas antes dela há uma citação do profeta Malaquias, que tanto se refere à vinda de João Batista quanto à chegada do Messias:

"Vejam, eu enviarei o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim. E então, de repente, o Senhor que vocês buscam virá para o seu templo; o mensageiro da aliança, aquele que vocês desejam, virá", diz o Senhor dos Exércitos." (Malaquias 3:1)

Lendo o Evangelho de Lucas, encontramos ainda outras informações sobre quem eram os governadores romanos de cada região de Israel, e quem eram os sumos sacerdotes no trabalho templário quando o profeta João Batista apareceu anunciando a vinda do Messias:

"No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia; Herodes, tetrarca da Galiléia; seu irmão Filipe, tetrarca da Ituréia e Traconites; e Lisânias, tetrarca de Abilene; Anás e Caifás exerciam o sumo sacerdócio. Foi nesse ano que veio a palavra do Senhor a João, filho de Zacarias, no deserto. Ele percorreu toda a região próxima ao Jordão, pregando um batismo de arrependimento para o perdão dos pecados. Como está escrito no livro das palavras de Isaías, o profeta: "Voz do que clama no deserto: ‘Preparem o caminho para o Senhor, façam veredas retas para ele. Todo vale será aterrado e todas as montanhas e colinas, niveladas. As estradas tortuosas serão endireitadas e os caminhos acidentados, aplanados. E toda a humanidade verá a salvação de Deus’"." (Lucas 3:1-6)

No trecho do Evangelho de Mateus que lemos alguns parágrafos acima, observamos que muitos israelitas estavam recebendo a mensagem de João, pois criam nas profecias que avisavam sobre a vinda do Messias. No meio dessas pessoas que vinham procurar o profeta, também estavam os fariseus e saduceus. 

Ao vê-los, João ficou indignado, chamando-os de "raça de viboras", porque eles agiam traiçoeiramente. Ao se declararem servos do Senhor, contudo, rejeitando e distorcendo muitas de suas ordenanças e ensinando o povo a fazer o mesmo, mais tarde eles iriam incitar as pessoas a odiar, perseguir e desejar a morte de Jesus. Contudo, não foram somente os fariseus e saduceus que procuraram o profeta, mas também os sacerdotes e levitas o fizeram, segundo observamos no Evangelho de João, como veremos a seguir.

"Esse foi o testemunho de João, quando os judeus de Jerusalém enviaram sacerdotes e levitas para lhe perguntarem quem ele era. Ele confessou e não negou; declarou abertamente: "Não sou o Cristo". Perguntaram-lhe: "E então, quem é você? É Elias?" Ele disse: "Não sou". "É o Profeta?" Ele respondeu: "Não". Finalmente perguntaram: "Quem é você? Dê-nos uma resposta, para que a levemos àqueles que nos enviaram. Que diz você acerca de si próprio?" João respondeu com as palavras do profeta Isaías: "Eu sou a voz do que clama no deserto: ‘Façam um caminho reto para o Senhor’ ". Alguns fariseus que tinham sido enviados interrogaram-no: "Então, por que você batiza, se não é o Cristo, nem Elias, nem o Profeta?" Respondeu João: "Eu batizo com água, mas entre vocês está alguém que vocês não conhecem. Ele é aquele que vem depois de mim, cujas correias das sandálias não sou digno de desamarrar". Tudo isso aconteceu em Betânia, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando." (João 1:19-28)

De fato, João era um profeta, conforme o próprio Cristo confirmou (Mateus 11:8,9), mas não "o profeta" ao qual os fariseus se referiam. Equivocadamente, as lideranças religiosas de Israel acreditavam que alguém semelhante ao próprio Moisés viria para anunciar a chegada do Messias, por causa de um determinado episódio que podemos ler no livro de Deuteronômio:

"O Senhor, o seu Deus, levantará do meio de seus próprios irmãos um profeta como eu; ouçam-no. Pois foi isso que pediram ao Senhor, ao seu Deus, em Horebe, no dia em que se reuniram, quando disseram: "Não queremos ouvir a voz do Senhor, do nosso Deus, nem ver o seu grande fogo, se não morreremos!" O Senhor me disse: "Eles têm razão! Levantarei do meio dos seus irmãos um profeta como você; porei minhas palavras na sua boca, e ele lhes dirá tudo o que eu lhe ordenar. Se alguém não ouvir as minhas palavras, que o profeta falará em meu nome, eu mesmo lhe pedirei contas." (Deuteronômio 18:15-19)

O problema dos fariseus com o trecho acima é que eles pensaram que "o profeta" ao qual Moisés se referiu era o mesmo mensageiro que viria antes do Messias para anunciar a Sua chegada. No entanto, esse profeta descrito em Deuteronômio está se referindo ao próprio Cristo.

Por causa desse equívoco, muitos acreditavam que Jesus Cristo era esse tal profeta que os fariseus imaginavam, ou mesmo mais outro enviado como um dos antigos profetas, como podemos ver em alguns trechos dos evangelhos (Mateus 21:10,11; Marcos 6:15), e não acreditavam que Jesus era o Messias que eles deveriam estar aguardando. 

No livro de Atos, um dos discípulos que ajudavam os Apóstolos no trabalho de distribuição de mantimentos para as viúvas e órfãos, chamado Estêvão, antes de ser assassinado por apedrejamento pelos fariseus, falou-lhes quem era o profeta sobre o qual Moisés se referiu:

"Este é aquele Moisés que disse aos filhos de Israel: O Senhor vosso Deus vos levantará dentre vossos irmãos um profeta como eu; a ele ouvireis." (Atos 7:37, ACF)

Agora vamos analisar algumas falas do profeta João Batista, como, por exemplo, "Ele traz a pá em sua mão e limpará sua eira, juntando seu trigo no celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga", ao falar de Jesus. Tais palavras não são necessariamente a citação de alguma profecia específica do Antigo Testamento, no entanto, é uma compilação de alguns trechos de várias partes proféticas das escrituras que se relacionam a Cristo. 

Duas palavras dadas aos israelitas, uma dada pelo profeta Malaquias e outra pelo profeta Oséias, se enquadram na mensagem da "pá e do fogo que nunca se apaga":

"Pois certamente vem o dia, ardente como uma fornalha. Todos os arrogantes e todos os malfeitores serão como palha, e aquele dia, que está chegando, ateará fogo neles", diz o Senhor dos Exércitos." (Malaquias 4:1)

"Por isso levarei o meu trigo quando ele ficar maduro, e o meu vinho quando ficar pronto. Arrancarei dela minha lã e meu linho, que serviam para cobrir a sua nudez." (Oséias 2:9)

Quanto as palavras "o machado está posto à raiz das árvores...", muito provavelmente está fazendo alusão a um trecho do livro do profeta Isaías, que diz:

"Vejam! O Soberano, o Senhor dos Exércitos, cortará os galhos com grande força. As árvores altivas serão derrubadas, as altas serão lançadas por terra. Com um machado ele ceifará a floresta; o Líbano cairá diante do Poderoso." (Isaías 10:33,34)

Com relação à vestimenta do profeta e seus hábitos alimentares, descritos em Mateus 3:4 e Marcos 1:6, são informações importantes para entendermos onde João Batista morava ou mesmo passava a maior parte do seu tempo. As roupas e alimentos consumidos pelo profeta eram característicos de alguém que vivia no campo, afastado da parte mais urbana das cidades da Judéia. Os pastores de ovelhas daquela época, por exemplo, tinham hábitos similares aos de João.

Algumas pessoas costumam interpretar que a palavra "gafanhotos" relacionada a um dos alimentos que João Batista comia regularmente, está se referindo a um alimento vegetal e não a um inseto, como a própria palavra sugere, e que o profeta era vegetariano. Porém, essas informações não são verdadeiras. Vejamos esse mesmo trecho de Mateus 3:4 na versão King James:

"E este João tinha as suas vestes de pelos de camelo, e um cinto de couro em torno de seus lombos, e o seu alimento era locustas e mel silvestre." 

O significado da palavra "locusta", de acordo com o Dicio (Dicionário On Line de Português) é "grande gafanhoto do gênero Locusta, com uma única espécie, largamente conhecido por destruir plantas e plantações; gafanhoto-do-deserto".

A palavra usada no original grego nesse trecho da escritura é ἀκρίς - cuja pronúncia é "akris", e signigica literalmente "gafanhoto", um inseto que é comum em países orientais e, quando infesta esses locais, é capaz de destruir plantações e árvores.

Então, as escrituras bíblicas nas suas mais variadas versões estão sendo claras em nossa língua, quando falam que o profeta João Batista comia realmente um inseto comum da sua região, chamado gafanhoto.

Para finalizar nosso estudo, agora vamos fazer uma análise sobre qual era a missão de João Batista, que estava diretamente ligada à mensagem que ele ia divulgando. Quando o anjo Gabriel apareceu a Zacarias para anunciar a gravidez de sua esposa Isabel, ele avisou para quê aquele bebê havia sido chamado por Deus:

"Ele nunca tomará vinho nem bebida fermentada, e será cheio do Espírito Santo desde antes do seu nascimento. Fará retornar muitos dentre o povo de Israel ao Senhor, o seu Deus. E irá adiante do Senhor, no espírito e no poder de Elias, para fazer voltar o coração dos pais a seus filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos, para deixar um povo preparado para o Senhor."(Lucas 1:15-17)

Ao falar com Zacarias naquele momento, o anjo cita um trecho do livro do profeta Malaquias, que diz:

"Vejam, eu enviarei a vocês o profeta Elias antes do grande e terrível dia do Senhor. Ele fará com que os corações dos pais se voltem para seus filhos, e os corações dos filhos para seus pais; do contrário eu virei e castigarei a terra com maldição." (Malaquias 4:5,6)

Portanto, a missão de João Batista era preparar os israelitas e também os prosélitos da fé judaica que estavam em Israel, para receber a justificação de seus pecados a fim de poderem entrar no Reino dos céus. Ele cumpria esse chamado avisando e conscientizando as pessoas de que todos estavam transgredindo a reta justiça de Deus, e que, por isso, precisavam se arrepender sinceramente, e buscar se adequar a ela de todo o coração. Abaixo segue um trecho do Evangelho de Lucas onde vemos um pouco do que o profeta dizia ao povo:

"João dizia às multidões que saíam para serem batizadas por ele: "Raça de víboras! Quem lhes deu a idéia de fugir da ira que se aproxima? Dêem frutos que mostrem o arrependimento. E não comecem a dizer a si mesmos: ‘Abraão é nosso pai’. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo". "O que devemos fazer então? ", perguntavam as multidões. João respondia: "Quem tem duas túnicas reparta-as com quem não tem nenhuma; e quem tem comida faça o mesmo". Alguns publicanos também vieram para serem batizados. Eles perguntaram: "Mestre, o que devemos fazer?" Ele respondeu: "Não cobrem nada além do que lhes foi estipulado". Então alguns soldados lhe perguntaram: "E nós, o que devemos fazer? " Ele respondeu: "Não pratiquem extorsão nem acusem ninguém falsamente; contentem-se com o seu salário". O povo estava em grande expectativa, questionando em seus corações se acaso João não seria o Cristo." (Lucas 3:7-18)

Lembrando que, complementando a descrição contida em Lucas, conforme vimos parágrafos acima no Evangelho de Mateus, João não chamou todos os que vinham até ele de "raça de viboras", mas somente aqueles que exerciam influência no meio do povo, que eram os fariseus e saduceus.

Como o profeta João era cheio do Espírito Santo e tinha a mesma unção do profeta Elias, ele não somente falava ao povo com ousadia e autoridade, como também certamente muitos sinais sobrenaturais aconteciam conforme ele seguia fazendo seu trabalho, e isso fazia com que o povo acreditasse nele, provavelmente pensando que ele fosse mesmo o Messias, apesar dele avisar que não era.

No Evangelho de João, encontramos também um trecho que confirma o chamado de Deus para João Batista:

"Surgiu um homem enviado por Deus, chamado João. Ele veio como testemunha, para testificar acerca da luz, a fim de que por meio dele todos os homens cressem. Ele próprio não era a luz, mas veio como testemunha da luz. (...) João dá testemunho dele. Ele exclama: "Este é aquele de quem eu falei: Aquele que vem depois de mim é superior a mim, porque já existia antes de mim". (...) Esse foi o testemunho de João, quando os judeus de Jerusalém enviaram sacerdotes e levitas para lhe perguntarem quem ele era. Ele confessou e não negou; declarou abertamente: Não sou o Cristo." (João 1:6-20)

O batismo feito por João nas águas do rio Jordão era um sinal de Deus dado através do profeta que apontava o momento em que as pessoas se arrependiam sinceramente de seus pecados, ao ouvirem João falar dos preceitos do Reino de Deus, e também que elas estavam se dispondo a receber o Messias que estava chegando ali naquele momento para justificá-los diante do Pai, perdoando-lhes, assim, os seus pecados.

O batismo nas águas, portanto, não tem poder de justificar qualquer pessoa diante do Pai, mas simboliza que esse alguém decidiu iniciar o processo de conversão da maldade do mundo para os preceitos da justiça de Deus, os quais embasam a fé cristã verdadeira.

No evangelho de João (Jo 3:22) consta a informação de que Jesus Cristo também seguiu com o ritual de batismo, fazendo descer às águas todos os que escolhiam seguí-lo, e isso sugere que os doze apóstolos de Jesus foram todos batizados por imersão, a maioria deles pelo próprio Jesus, na região da Judéia. Dois deles, que seguiam o profeta João Batista antes de seguirem a Cristo, certamente devem ter sido batizados pelo profeta João, e um deles era André, irmão de Pedro (veja em Jo 1:40)

Esse mesmo batismo por imersão continua sendo tradicionalmente feito até hoje, porém, como cumprimento de uma ordem dada pelo próprio Jesus Cristo ressurreto, antes de sua ascenção aos céus (veja em Mt 28:19). 

Desta forma, na maioria das denominações cristãs evangélicas, quando pessoas creem na mensagem de salvação e por isso se arrependem verdadeiramente dos seus pecados, decidindo receber o governo do Senhor Jesus sobre suas vidas, elas são batizadas mergulhando rapidamente todo o corpo em água, como testemunho público de suas conversões à fé cristã. 

Missionária Oriana Costa.

terça-feira, 10 de maio de 2022

Os magos do oriente - Considerações sobre Mateus capítulo 2 - Parte 1


Quando o Pai enviou Seu Filho Unigênito Jesus, não fez isso para que Ele justificasse e reinasse apenas sobre os israelitas, mas o enviou para justificar e reinar sobre todas as nações da terra. Abrão, que era caldeu, e sua descendência, que mais tarde formaria a nação de Israel, foram escolhidos por Deus para divulgar isso ao mundo, até que Jesus finalmente viesse. 

Assim, com o passar dos séculos, muitos estrangeiros acreditaram no Reino de Deus e permaneceram aguardando sua vinda, tanto por entrarem em contato com os profetas israelitas, quanto com os escritos que os profetas deixaram nas nações onde permaneceram cativos, como também estando em visitação a Israel, onde passavam a conhecer e assimilar os estatutos da Lei mosaica que os israelitas cumpriam, e que apontavam para a vinda de seu justificador no futuro. 

Desta forma, diversas pessoas de outras nações tornavam-se prosélitos da fé judaica, e muitos outros estrangeiros acabavam se convertendo ao judaimo mesmo, alicerçando sua fé na esperança de herdarem o Reino de Deus no futuro.

Os Magos do oriente, portanto, eram estrangeiros que esperavam o Reino de Deus, por conhecerem o pacto que Deus fez com Abrão e a promessa envolvida nessa aliança. Eles sabiam que o nascimento do Messias estava próximo, pois provavelmente analisaram as profecias que tiveram acesso fora de Israel, em suas próprias nações. 

Algumas das profecias, que extraordinariamente apontam o momento em que o Messias nasceria em Israel, foram feitas pelo profeta Daniel, no tempo em que os israelitas estiveram cativos na Babilônia (veja Daniel capítulos 7 e 8).

Vejamos abaixo o trecho do Evangelho de Mateus que mostra a chegada dos Magos a Israel:

"Depois que Jesus nasceu em Belém da Judéia, nos dias do rei Herodes, magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém e perguntaram: "Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo". Quando o rei Herodes ouviu isso, ficou perturbado, e com ele toda a Jerusalém. Tendo reunido todos os chefes dos sacerdotes do povo e os mestres da lei, perguntou-lhes onde deveria nascer o Cristo. E eles responderam: "Em Belém da Judéia; pois assim escreveu o profeta: ‘Mas tu, Belém, da terra de Judá, de forma alguma és a menor entre as principais cidades de Judá; pois de ti virá o líder que, como pastor, conduzirá Israel, o meu povo’ ". Então Herodes chamou os magos secretamente e informou-se com eles a respeito do tempo exato em que a estrela tinha aparecido. Enviou-os a Belém e disse: "Vão informar-se com exatidão sobre o menino. Logo que o encontrarem, avisem-me, para que eu também vá adorá-lo". Depois de ouvirem o rei, eles seguiram o seu caminho, e a estrela que tinham visto no Oriente foi adiante deles, até que finalmente parou sobre o lugar onde estava o menino. Quando tornaram a ver a estrela, encheram-se de júbilo. Ao entrarem na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Então abriram os seus tesouros e lhe deram presentes: ouro, incenso e mirra. E, tendo sido advertidos em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram a sua terra por outro caminho." (Mateus 2:1-12)

De acordo com o texto acima, os magos vindos do oriente perceberam uma luz incomum se movimentando no céu, que eles interpretaram como sendo um sinal de que o Rei dos judeus, aquele que viria para salvar o mundo da escravidão do pecado, teria nascido. Por isso, eles decidiram seguir a luz e viajar para encontrar o Cristo e adorá-lo, pois eles desejavam o seu governo. 

As escrituras não revelam se Deus os avisou que aquela estrela diferenciada no céu era um sinal, ou se eles mesmos discerniram que um sinal no céu lhes seria dado pelo conteúdo profético das escrituras.

Provavelmente, além de saberem quando o Messias iria nascer, através das profecias de Daniel, eles também conheciam as profecias de Balaão (no livro de Números) e Isaías, que falam sobre esse (provável) sinal do céu que apareceria em Israel:

"Eu o vejo, mas não agora; eu o avisto, mas não de perto. Uma estrela surgirá de Jacó; um cetro se levantará de Israel. Ele esmagará as frontes de Moabe e o crânio de todos os descendentes de Sete." (Números 24:17)

"Contudo, não haverá mais escuridão para os que estavam aflitos. No passado ele humilhou a terra de Zebulom e de Naftali, mas no futuro honrará a Galiléia dos gentios, o caminho do mar, junto ao Jordão. O povo que caminhava em trevas viu uma grande luz; sobre os que viviam na terra da sombra da morte raiou uma luz. (...) Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz. Ele estenderá o seu domínio, e haverá paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, estabelecido e mantido com justiça e retidão, desde agora e para sempre. O zelo do Senhor dos Exércitos fará isso. (Isaías 9:1-7)

O problema foi que quando aquela comissão procurou Herodes, este não conhecia a mensagem do Reino de Deus como aqueles visitantes, e por isso não gostou da ideia de ver Israel adquirindo autonomia e se libertando do domínio romano, pois foi essa a visão que ele teve do que poderia acontecer, caso as profecias se cumprissem. Em nenhum momento passou pela cabeça de Herodes que a missão de Jesus era justificar a humanidade de suas transgressões diante do Pai, salvando-a da morte eterna.

Tampouco, naquele momento, as lideranças religiosas de Israel desejavam ser libertas do império romano, pois, além de terem perdido o entendimento do sentido da Lei Mosaica e dos rituais que praticavam, eles se acostumaram a desfrutar de regalias e lucros para manterem o povo submisso ao governo de Roma. 

Portanto, o surgimento dos magos mostra uma situação bem inusitada, onde a grande maioria dos israelitas estava totalmente alheia ao nascimento do Messias que eles deveriam estar aguardando, enquanto pessoas de outras nações estavam vigilantes esperando a vinda daquele que pagaria o preço pelos pecados de toda a humanidade, e simplesmente chegaram em Israel para ADORAR o Rei dos judeus que eles JÁ SABIAM que tinha nascido. 

Então, qualquer semelhança com a situação dos cristãos no mundo inteiro hoje, sabendo e entendendo sobre o que as escrituras bíblicas dizem acerca de Cristo, e a ignorância de Israel sobre Ele, NÃO É MERA COINCIDÊNCIA. As coisas estão se repetindo, e agora tudo segue se processando de uma forma bem mais intensa.

Voltando a nossa análise, de fato, veremos no estudo seguinte que, quando os magos chegaram até Herodes, Jesus já devia estar próximo dos dois anos de idade.

Se o Pai não tivesse mandado os anjos avisarem os pastores israelitas que estavam nos campos próximos à cidade de Belém para virem testemunhar em primeira mão o nascimento do Cristo, as únicas pessoas que teriam testemunhado que o Cristo tinha nascido, cumprindo as profecias, seriam indivíduos vindos de outras nações, que por conhecerem e confiarem nas palavras proféticas contidas nas escrituras seguiram uma estrela no céu até chegar a Jesus.

Notamos no trecho de Mateus, que lemos parágrafos acima, que Herodes comunicou a chegada dos visitantes, e toda a Jerusalém ficou sabendo desse ocorrido. No entanto, apesar da notícia ter causado grande perturbação ao povo, os israelitas, e especialmente os líderes religiosos, não se moveram para ir junto com os magos a Belém verificar se realmente o Messias estava lá. Eles simplesmente ignoraram o evento.

De qualquer forma, essas coisas aconteceram para que as escrituras se cumprissem, e o Senhor Jesus realmente ficasse no anonimato até o início de seu ministério terreno.

Sobre os presentes que os magos entregaram, há uma grande ligação profética entre eles e os artefatos que eram usados no Templo em Jerusalém, que o tempo todo evocavam a necessidade de um justificador para o povo de Israel e para todas as outras nações da Terra. 

Muitos objetos usados no Templo eram de ouro (confira a partir de Êxodo 25), e também havia um altar onde o incenso era constantemente queimado (Êx 30:1), e a mirra era um dos componentes principais usados na confecção do óleo da unção usado no Templo pelos sacerdotes (Êx 30:22-29).

Para finalizar nosso estudo, vamos desfazer aqui alguns mitos em relação aos magos. Em primeiro lugar, os magos não eram necessariamente reis, apesar de entregarem a Jesus presentes caros, e de não encontrarem dificuldade de se dirigir a Herodes. Eles eram homens de posses, sábios, estudiosos daquele tempo, que muito provavelmente eram nativos de nações do oriente que ficavam próximas ou mesmo vizinhas a Israel naquela época, como Egito, Pérsia, etc.. 

Em nenhum momento encontramos qualquer palavra nas escrituras onde os magos sejam chamados de reis. Inclusive, na versão King James nós podemos ler o seguinte:

"Após o nascimento de Jesus em Belém da Judéia, nos dias do rei Herodes, eis que alguns sábios vindos do Oriente chegaram a Jerusalém. E, indagavam: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Pois do Oriente vimos a sua estrela e viemos adorá-lo."

Em segundo lugar, não consta nas escrituras que os magos eram um grupo de três indivíduos nem tampouco os nomes deles são citados. De fato, não se sabe quantos homens formavam a caravana de sábios que estiveram em Israel querendo conhecer o Cristo; no entanto, podemos acreditar que eram mais de três indivíduos de diferentes nacionalidades, compondo uma delegação com oito a dez representantes influentes de nações vizinhas ou próximas a Israel.

Missionária Oriana Costa.


quinta-feira, 14 de abril de 2022

O sepultamento - Considerações sobre o capítulo 27 de Mateus - Parte 5


Na parte final do capítulo 27 de Mateus, temos a narrativa do sepultamento de Cristo. Vejamos a passagem bíblica:

Ao cair da tarde chegou um homem rico, de Arimatéia, chamado José, que se tornara discípulo de Jesus. Dirigindo-se a Pilatos, pediu o corpo de Jesus, e Pilatos ordenou que lhe fosse entregue.José tomou o corpo, envolveu-o num limpo lençol de linho e o colocou num sepulcro novo, que ele havia mandado cavar na rocha. E, fazendo rolar uma grande pedra sobre a entrada do sepulcro, retirou-se.
Maria Madalena e a outra Maria estavam assentadas ali, em frente do sepulcro.
No outro dia, que era o seguinte ao da Preparação, os chefes dos sacerdotes e os fariseus dirigiram-se a Pilatos e disseram: "Senhor, lembramos que, enquanto ainda estava vivo, aquele impostor disse: ‘Depois de três dias ressuscitarei’. Ordena, pois, que o sepulcro dele seja guardado até o terceiro dia, para que não venham seus discípulos e, roubando o corpo, digam ao povo que ele ressuscitou dentre os mortos. Este último engano será pior do que o primeiro".
"Levem um destacamento", respondeu Pilatos. "Podem ir, e mantenham o sepulcro em segurança como acharem melhor". Eles foram e armaram um esquema de segurança no sepulcro; e além de deixarem um destacamento montando guarda, lacraram a pedra. 
(Mateus 27:57-66)

Como observamos no início do trecho acima, o homem que foi até Pilatos pedir o corpo de Jesus, se chamava José, e era natural de Arimatéia, uma cidade de Judá. Ele era um judeu rico que havia se tornado discípulo de Jesus.

Mas as escrituras fornecem outras informações interessantes acerca desse homem: de acordo com os evangelhos de Marcos (Mc 15:43), Lucas (Lc 23:50,51) e João (Jo 19:38), José também era membro de destaque do Conselho (Sinédrio) e tinha sido convocado para participar do julgamento de Jesus. Portanto, Ele acompanhou todo o processo do martírio de Cristo, desde sua prisão.

Nos evangelhos também podemos ver que José de Arimatéia tinha consciência do Reino de Deus (ele esperava a vinda do Reino), e por isso creu em Jesus Cristo, no entanto, ele seguia o Senhor em segredo, por medo dos judeus. No Evangelho de Lucas está escrito que ele era "um homem bom e justo, que não tinha consentido na decisão e no procedimento dos outros".

De fato, o fariseu Nicodemos, que conversou com Jesus numa certa noite sobre "nascer de novo" (Jo 3:1-5), e que também participou do sepultamento do Senhor, segundo o relato do Evangelho de João, estava na mesma situação de José. Nicodemos igualmente era membro do Conselho e, portanto, participou do julgamento de Jesus, esperava o Reino de Deus, e seguia Cristo secretamente.

Ele estava acompanhado de Nicodemos, aquele que antes tinha visitado Jesus à noite. Nicodemos levou cerca de trinta e quatro quilos de uma mistura de mirra e aloés. Tomando o corpo de Jesus, os dois o envolveram em faixas de linho, juntamente com as especiarias, de acordo com os costumes judaicos de sepultamento. (João 19:39,40)

A morte de Jesus aconteceu muito rápido, pois seu sofrimento fora abreviado pelo Pai. Tanto é que, no Evangelho de Marcos, lemos que quando José pediu o corpo de Jesus a Pilatos, esse ficou sem acreditar que ele já tinha falecido.

José de Arimatéia, membro de destaque do Sinédrio, que também esperava o Reino de Deus, dirigiu-se corajosamente a Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Pilatos ficou surpreso ao ouvir que ele já tinha morrido. Chamando o centurião, perguntou-lhe se Jesus já tinha morrido. Sendo informado pelo centurião, entregou o corpo a José. Então José comprou um lençol de linho, baixou o corpo da cruz, envolveu-o no lençol e o colocou num sepulcro cavado na rocha. Depois, fez rolar uma pedra sobre a entrada do sepulcro. Maria Madalena e Maria, mãe de José, viram onde ele fora colocado. (Marcos 15:43-47)

Segundo os Evangelhos de Mateus, Lucas e João, José de Arimatéia sepultou Jesus num lugar reservado para pessoas nobres na sociedade judaica, em um sepulcro que lhe pertencia e que nunca havia sido usado, e que estava localizado num "jardim" ali próximo. No livro do Profeta Isaías e no livro de Cantares há trechos referentes a esse acontecimento:

Pois ele foi eliminado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo ele foi golpeado. Foi-lhe dado um túmulo com os ímpios, e com os ricos em sua morte. (Isaías 53:8,9)

O meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros de especiarias, para descansar nos jardins e colher lírios. Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu; ele descansa entre os lírios. (Cânticos 6:2,3)

Fora José de Arimatéia e Nicodemos, houveram, pelo menos, mais duas testemunhas do sepultamento de Jesus, segundo o relato dos Evangelhos (Mt 27:61, Mc 15:47, Lc 23:55). "As mulheres que haviam acompanhado Jesus desde a Galiléia", que não eram poucas, viram onde o Senhor Jesus tinha sido sepultado, mas os nomes de duas mulheres são especialmente citados: Maria Madalena e Maria (Mãe de José de Arimatéia).

Além do local onde Cristo foi sepultado ter sido devidamente visualizado por várias pessoas, dentre judeus e romanos, o lugar também fora muito bem vigiado, conforme lemos em Mateus. Esses dados são importantes para que tenhamos certeza de que não houve ocasião para que o corpo de Jesus fosse levado para outro lugar, ou mesmo fosse roubado do túmulo após seu sepultamento, pois isso invalidaria sua ressurreição.

No estudo anterior (Está consumado - Considerações sobre o capítulo 27 de Mateus - Parte 4), nós observamos que vários eventos sobrenaturais aconteceram enquanto Jesus estava na cruz e também logo após sua morte, eventos esses que foram presenciados não somente por todos os que estavam envolvidos direta ou indiretamente no processo de crucificação, mas também por todos os habitantes do planeta, tamanha foi a intensidade desses acontecimentos.

Um deles, que foi mais pontual, deve realmente ter chamado a atenção (ou, pelo menos, deveria ter chamado) do Sumo sacerdote e dos levitas, como também dos fariseus e mestres da Lei, que foi encontrarem o véu do templo rasgado de cima abaixo, ao darem continuidade aos preparativos para os rituais das festas seguintes. E estando o véu do templo rasgado, não haveria como concluir alguns desses rituais.

Mesmo assim, nenhum desses acontecimentos foi suficiente para fazer a maior parte da liderança religiosa de Israel entender o que aconteceu ali, tamanha era sua cegueira espiritual.

E achando esses que os discípulos de Jesus Cristo poderiam forjar uma falsa ressurreição, por causa do que o Senhor tinha prometido, pediram a Pilatos para colocar soldados vigiando o sepulcro até o terceiro dia, e não satisfeitos com isso, ainda lacraram a pedra que fechava a entrada do túmulo.

Apesar de estarem cegos pelo ódio que sentiam de Jesus, o que aqueles homens fizeram só ajudou a provar que a ressurreição do Senhor foi simplesmente verdadeira, como veremos no estudo seguinte.

De fato, Jesus cumpriu à risca todos os requisitos que a Lei Mosaica ordena, para que a humanidade fosse liberta da escravidão do pecado, e isso tudo diante dos olhos do povo de Israel. Contudo, para que os fariseus e mestres da Lei enxergassem isso, não bastava apenas serem bons conhecedores da Lei e das palavras dos profetas, mas também era preciso ter um entendimento claro de para quê eles serviam e para onde apontavam (Veja a explicação do Apóstolo Paulo em Gálatas capítulo 3).

Missionária Oriana Costa

Revisão: Wendell Costa

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Está consumado - Considerações sobre Mateus 27 - Parte 4


Aqui faremos a penúltima parte da análise do capitulo 27 do Evangelho de Mateus. Neste estudo, iremos observar o que aconteceu naquela sexta-feira, do meio-dia em diante, no evento da crucificação de Jesus. Lembrando que Jesus foi preso na noite do dia anterior, por volta das 22:00 h, e levado ao Pretório, já nas primeiras horas do dia seguinte, para ser julgado por Pôncio Pilatos. Portanto, da quinta para a sexta-feira, Jesus Cristo não dormiu, não teve mais descanso.

Muito provavelmente este foi um dos julgamentos ou, talvez, o único de que se tenha notícia, que aconteceu de uma forma incrivelmente rápida: da prisão até o julgamento já concluído, passaram-se cerca de 10 horas. Vê-se aí que o tempo de sofrimento de Jesus nessa parte de seu martírio foi bem abreviado pelo Pai.

Dando início ao nosso estudo, vamos ler abaixo o trecho que finaliza o capítulo 27 do Evangelho de Mateus:

E houve trevas sobre toda a terra, do meio dia às três horas da tarde. Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: "Eloí, Eloí, lamá sabactâni?" que significa: "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?" Quando alguns dos que estavam ali ouviram isso, disseram: "Ele está chamando Elias". Imediatamente, um deles correu em busca de uma esponja, embebeu-a em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara e deu-a a Jesus para beber. Mas os outros disseram: "Deixem-no. Vejamos se Elias vem salvá-lo". Depois de ter bradado novamente em alta voz, Jesus entregou o espírito. Naquele momento, o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo. A terra tremeu, e as rochas se partiram. Os sepulcros se abriram, e os corpos de muitos santos que tinham morrido foram ressuscitados. E, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. Quando o centurião e os que com ele vigiavam Jesus viram o terremoto e tudo o que havia acontecido, ficaram aterrorizados e exclamaram: "Verdadeiramente este era o Filho de Deus!" Muitas mulheres estavam ali, observando de longe. Elas haviam seguido Jesus desde a Galiléia, para o servir. Entre elas estavam Maria Madalena; Maria, mãe de Tiago e de José; e a mãe dos filhos de Zebedeu." (Mateus 27:45-56)

Vamos observar alguns fatos interessantes que se sucederam nos últimos momentos de vida de Jesus e também logo após a sua morte. O primeiro deles foi que, entre o meio-dia e as três horas da tarde daquela sexta-feira, houve "trevas" em toda a terra. Essa escuridão começou a acontecer um pouco antes do meio-dia, segundo o Evangelho de Lucas.

Alguns pesquisadores afirmam que esse período de trevas, na verdade, foi um eclipse solar, outros dizem ter sido uma tempestade de poeira vinda das regiões desérticas que ficavam próximas dali, outros dizem que foram densas nuvens que se acumularam no céu naquele momento, dentre as muitas hipóteses do que poderia ter sido aquele evento. Contudo, não há um consenso entre os estudiosos sobre o que realmente foi esse período de escuridão.

Nos Evangelhos de Marcos (Mc 15:33) e de Lucas (Lc 23:44), podemos ler trechos com informações similares, falando sobre esse mesmo acontecimento descrito em Mateus. É interessante notar que o sol não brilhou POR TRÊS HORAS SEGUIDAS, e esse fenômeno pôde ser observado em TODO O PLANETA, segundo o que está escrito nos evangelhos. Portanto, por se tratar de um evento ímpar na natureza, que foge aos padrões conhecidos, muitos pesquisadores afirmam que foi algo sobrenatural.

No Antigo Testamento, podemos encontrar um trecho constante no livro de Êxodo, em que Deus envia densas trevas sobre o Egito por três dias:

Mas o Senhor endureceu o coração do faraó, e ele não deixou que os israelitas saíssem. O Senhor disse a Moisés: "Estenda a mão para o céu, e trevas cobrirão o Egito, trevas tais que poderão ser apalpadas". Moisés estendeu a mão para o céu, e por três dias houve densas trevas em todo o Egito. Ninguém pôde ver ninguém, nem sair do seu lugar durante três dias. Todavia, todos os israelitas tinham luz nos locais em que habitavam. (Êxodo 10:20-23)

A praga das trevas que veio sobre o Egito foi a penúltima, antes da morte dos primogênitos, e antes também do sacrifício de cordeiros que as famílias israelitas fizeram, cumprindo um mandamento, para, enfim, deixarem o território egípcio em segurança. 

Portanto, assim como os três dias de trevas sobre o Egito foram um sinal para o povo de Israel e para os egípcios, de que Deus estava interferindo para que os israelitas fossem libertos daquela escravidão, as três horas de trevas sobre toda a terra foi um sinal para toda a humanidade. Deus sinalizou que estava derramando o juízo pelo pecado sobre Jesus, para que todos os que n'Ele cressem pudessem ser libertados da escravidão do pecado.

Por volta das três horas da tarde, provavelmente enquanto ainda aquela escuridão prevalecia, Jesus pergunta ao Pai "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?".

Essa pergunta não significa que Jesus era ignorante acerca do motivo pelo o qual o Pai deixou que Ele passasse por tudo aquilo, mas nos mostra algo importante: que Jesus se separou do Pai por algumas horas, para se colocar no lugar de toda a humanidade naquele momento. Até aquele instante, todos os seres humanos (incluindo os próprios israelitas) ainda não tinham acesso à justificação de seus pecados diante de Deus e estavam em trevas, separados de seu Criador e se sentindo abandonados por Ele.

Assim, desde que o sangue de Jesus foi derramado na Sua morte, muitas pessoas começaram a se reconciliar espiritualmente com Deus ao serem informadas sobre seu Reino, saindo das trevas para a luz. Esse processo continua até agora e vai perdurar até a volta do Senhor.

A morte de Cristo estabeleceu uma aliança de paz com toda a humanidade, onde todo aquele que crê na mensagem do Reino e deseja fazer parte dele recebe a justificação de seus pecados pela fé nesse sacrifício, sendo livrado da condenação à morte eterna.

Com relação a esse momento em que Jesus pergunta ao Pai porque o abandonou, ele foi predito no livro de Salmos pelo Rei Davi:

Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? Por que estás tão longe de salvar-me, tão longe dos meus gritos de angústia? (Salmos 22:1)

O momento em que Jesus tem os lábios molhados com vinagre, por uma das pessoas que estavam ali zombando dele e presenciando seu martírio, acontece logo após essa fala do Senhor, sendo, também, predito no Antigo Testamento, no livro de Salmos:

Tu bem sabes como sofro zombaria, humilhação e vergonha; conheces todos os meus adversários. A zombaria partiu-me o coração; estou em desespero! Supliquei por socorro, nada recebi, por consoladores, e a ninguém encontrei. Puseram fel na minha comida e para matar-me a sede deram-me vinagre. (Salmos 69:19-21)

Então Moisés convocou todas as autoridades de Israel e lhes disse: "Escolham um cordeiro ou um cabrito para cada família. Sacrifiquem-no para celebrar a Páscoa! Molhem um feixe de hissopo no sangue que estiver na bacia e passem o sangue na viga superior e nas laterais das portas. Nenhum de vocês poderá sair de casa até o amanhecer. Quando o Senhor passar pela terra para matar os egípcios, verá o sangue na viga superior e nas laterais da porta e passará sobre aquela porta; e não permitirá que o destruidor entre na casa de vocês para matá-los. (Êxodo 12:21-23)

O vinagre chegou até os lábios de Jesus através de uma vara que continha um molho de hissopo na ponta. O hissopo é uma erva muito parecida com lavanda que era usada em alguns rituais descritos na Lei Mosaica (veja em Lv:14 e Nm:19), especialmente os que se destinavam à purificação. E, nesses eventos, ele servia para fazer aspersões, que é respingar com os líquidos usados no ritual os objetos a serem purificados. 

Então, quando aquele judeu levou o hissopo embebido com vinagre até a boca de Jesus, ele cumpriu, sem se dar conta, a profecia e o mandamento que se referia à libertação do povo da escravidão no Egito, como lemos há pouco. E sabemos desse detalhe graças ao Evangelho de João:

Depois disso, sabendo Jesus que todas as coisas já estavam terminadas, para que pudesse se cumprir a escritura, disse: "Tenho sede". Ora, estava ali um vaso cheio de vinagre; e embeberam uma esponja de vinagre, e pondo-a sobre um hissopo, a colocaram na sua boca. (João 19:28,29 - versão King James Fiel)

Em seguida, Jesus grita bem alto suas últimas palavras e vai a óbito (Mt 27:50, Mc 15:37). Através dos Evangelhos de Lucas e João, podemos saber o que Cristo falou nesse momento:

Jesus bradou em alta voz: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". Tendo dito isso, expirou. (Lucas 23:46)

Tendo-o provado, Jesus disse: "Está consumado!" Com isso, curvou a cabeça e entregou o espírito. (João 19:30)

Se juntarmos as informações contidas nos quatro evangelhos, veremos que o momento da morte de Jesus aconteceu da seguinte forma: logo após ter recebido o hissopo molhado com vinagre, Jesus gritou bem alto: "Está consumado! Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito!"

No livro de Salmos, há também um trecho relacionado ao momento em que Jesus entrega seu espírito ao Pai:

Em ti, Senhor, me refugio; nunca permitas que eu seja humilhado; livra-me pela tua justiça. Inclina os teus ouvidos para mim, vem livrar-me depressa! Sê minha rocha de refúgio, uma fortaleza poderosa para me salvar. Sim, tu és a minha rocha e a minha fortaleza; por amor do teu nome, conduze-me e guia-me. Tira-me da armadilha que me prepararam, pois tu és o meu refúgio. Nas tuas mãos entrego o meu espírito; resgata-me, Senhor, Deus da verdade. (Salmos 31:1-5)

Assim que o Senhor Jesus falece, acontecem três fatos que são considerados sobrenaturais: o véu do templo se rasga de cima para baixo (Mt 27: 51,52, Mc 15:38, Lc 23:45), o planeta treme e rochas se partem, e os sepulcros se abrem. Provavelmente também é nesse momento que a escuridão que tomou o céu em todo o planeta termina. 

Sobre o véu do templo ter se partido de cima abaixo, precisamos entender para que esse "véu" servia, a fim de podermos mensurar o grau de relevância desse acontecimento. Esse véu era uma espessa cortina feita de linho, que servia para separar duas salas especiais dentro do tabernáculo. Vejamos suas especificações:

Faça um véu de linho fino trançado e de fios de tecido azul, roxo e vermelho, e mande bordar nele querubins. Pendure-o com ganchos de ouro em quatro colunas de madeira de acácia revestidas de ouro e fincadas em quatro bases de prata. Pendure o véu pelos colchetes e coloque atrás do véu a arca da aliança. O véu separará o Lugar Santo do Lugar Santíssimo. (Êxodo 26:31-33)

O texto acima refere-se ao tabernáculo construído por Moisés, mas o templo edificado por Salomão era semelhante, possuindo, também, três divisões. No Átrio, que era a parte externa, ficava o altar do sacrifício e a pia de bronze. No meio do Átrio, havia a área coberta, dividida em duas partes: o Lugar Santo e o Lugar Santíssimo.

No Lugar Santo, os sacerdotes ministravam e apresentavam os sacrifícios de animais que haviam sido feitos pelos pecados do povo e por seus próprios pecados. Ali estavam o altar do incenso, a mesa dos pães da propiciação e o candelabro, que eram necessários para o cumprimento de todo o ritual. 

O Lugar Santíssimo – também chamado de Santo dos santos – era o local mais interno do templo, onde ficava a arca da aliança. Somente o sumo sacerdote poderia entrar ali. O véu, por conseguinte, separava a presença de Deus, manifesta naquele local, dos demais participantes do ritual e também do povo que estivesse na área mais externa do templo.

O véu rasgado de alto a baixo, no momento da morte de Jesus, indicou que aquilo veio do próprio Deus, pois, se fosse rasgado por um ser humano, isso teria sido feito de baixo para cima. Portanto, foi um evento sobrenatural.

O véu partido também foi um sinal de que daquele momento em diante Deus estaria acessível a todas as pessoas sem precisar de rituais com a mediação de um sacerdote mortal, pois o próprio Cristo ali assumiu a posição de mediador entre Deus e os homens (cf. 1Timóteo 2:1-6).

Dessa forma, todos aqueles rituais destinados a expiação de pecados já não eram mais necessários, porque Cristo acabara de ser sacrificado pelas transgressões de toda a humanidade em todas as eras, e de uma vez por todas, cumprindo a promessa que o Pai fizera aos antepassados israelitas (cf. Gálatas 3:8-25).

Sobre o tremor de terra que atingiu todo o planeta e levou as rochas a se partirem, foi um sinal de que o Pai estava consumando o juízo (ou ira) sobre os pecados da humanidade em Cristo:

Dos céus pronunciaste juízo, e a terra tremeu e emudeceu, quando tu, ó Deus, te levantaste para julgar, para salvar todos os oprimidos da terra. (Salmos 76:8,9)

O Senhor jurou contra o orgulho de Jacó: "Jamais esquecerei coisa alguma do que eles fizeram". Acaso não tremerá a terra por causa disso, e não chorarão todos os que nela vivem? Toda esta terra se levantará como o Nilo; será agitada e depois afundará como o ribeiro do Egito". "Naquele dia", declara o SENHOR, o Soberano: "Farei o sol se pôr ao meio-dia e em plena luz do dia escurecerei a terra." (Amós 8:7-9)

Quanto aos mortos que ressuscitaram, assim que Jesus morreu, foi um sinal sobrenatural e extraordinário, onde o Pai trouxe à vida algumas pessoas que faleceram naquela época. Esses indivíduos viveram crendo que Deus realmente enviaria o Messias para justificá-los de seus pecados, a fim de lhes devolver a cidadania em seu Reino (cf. Hebreus 11:13-16).

Portanto, aquelas pessoas "viveram pela fé", apesar de não terem visto o Messias vir. Elas cumpriram até o último dia de vida os mandamentos da Lei, porém conscientes de para quê eles serviam e para onde eles apontavam, sem se deixarem enganar pelas falsas doutrinas do farisaismo (Mt 27:52,53).

Podemos ler um trecho constante no livro do Profeta Isaías relacionado a esse evento:

Como a mulher grávida prestes a dar à luz se contorce e grita de dor, assim estamos nós na tua presença, ó Senhor. Nós engravidamos e nos contorcemos de dor, mas demos à luz o vento. Não trouxemos salvação à terra; não demos à luz os habitantes do mundo. Mas os teus mortos viverão; seus corpos ressuscitarão. Vocês, que voltaram ao pó, acordem e cantem de alegria. O teu orvalho é orvalho de luz; a terra dará à luz os seus mortos. (Isaías 26:17-19)

Um evento similar a esse acontecerá na segunda vinda de Jesus, onde os que estiverem mortos, até aquele momento, tendo vivido pela fé verdadeira, cumprindo os mandamentos do Reino de Deus ensinados por Cristo, terão seus corpos ressuscitados para herdarem a vida eterna (cf. 1 Coríntios 15:50-58 e 1 Tessalonicenses 4:13-18).

No livro do Profeta Daniel há também um trecho relativo à este grande acontecimento que presenciaremos num futuro que, agora, já não está tão distante:

Naquela ocasião Miguel, o grande príncipe que protege o seu povo, se levantará. Haverá um tempo de angústia tal como nunca houve desde o início das nações e até então. Mas naquela ocasião o seu povo, todo aquele cujo nome está escrito no livro, será liberto. Multidões que dormem no pó da terra acordarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha, para o desprezo eterno. (Daniel 12:1,2)

O dia em que Jesus morreu era uma sexta-feira, momento em que o povo de Israel devia se preparar para o descanso do Sábado do Senhor. Portanto, no "Dia da Preparação", como era conhecido para os israelitas, os judeus tinham que deixar tudo pronto para o dia seguinte, como os serviços domésticos, trabalhos no campo, etc., pois, no Sábado, eles deveriam se consagrar a Deus e não realizarem trabalho algum, segundo a Lei Mosaica (Levítico 23:3).

Além disso, a Lei Mosaica ditava o seguinte, sobre indivíduos que fossem mortos "pendurados num madeiro" ou pendurados em estacas de madeira:

Se um homem culpado de um crime que mereça a morte for morto e pendurado num madeiro, não deixem o corpo no madeiro durante a noite. Enterrem-no naquele mesmo dia, porque qualquer que for pendurado num madeiro está debaixo da maldição de Deus. Não contaminem a terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá por herança. (Deuteronômio 21:22,23)

Por isso, os líderes judeus pediram a Pilatos para acelerar a morte dos crucificados (pois poderiam continuar vivos até o dia seguinte), para que, antes do pôr do sol, seus corpos fossem retirados das cruzes, segundo relata o Evangelho de João:

Esse era o Dia da Preparação, e o dia seguinte seria um sábado especialmente sagrado. Por não quererem que os corpos permanecessem na cruz durante o sábado, os judeus pediram a Pilatos que ordenasse que lhes quebrassem as pernas e os corpos fossem retirados. Vieram, então, os soldados e quebraram as pernas do primeiro homem que fora crucificado com Jesus e em seguida as do outro. Mas quando chegaram a Jesus, percebendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas. Em vez disso, um dos soldados perfurou o lado de Jesus com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que o viu, disso deu testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que está dizendo a verdade, e dela testemunha para que vocês também creiam. Estas coisas aconteceram para que se cumprisse a Escritura: "Nenhum dos seus ossos será quebrado", e, como diz a Escritura noutro lugar: "Olharão para aquele que traspassaram". (João 19:31-37)

Quanto aos ossos de Jesus não terem sido quebrados, isso foi um cumprimento do que já estava especificado na Lei sobre o cordeiro que seria sacrificado para a celebração do Shabbat (Êx 12:46, Nm 9:12), e também, cumprimento de uma profecia feita pelo Rei Davi, devidamente registrada no livro de Salmos:

O justo passa por muitas adversidades, mas o Senhor o livra de todas; protege todos os seus ossos; nenhum deles será quebrado. (Salmos 34:19,20)

No livro do Profeta Zacarias, lemos o trecho que se refere ao momento em que Jesus é perfurado no lado do seu corpo e a tristeza que sua morte causou entre todos os que creram n'Ele:

Olharão para mim, aquele a quem traspassaram, e chorarão por ele como quem chora a perda de um filho único, e lamentarão amargamente por ele como quem lamenta a perda do filho mais velho. Naquele dia muitos chorarão em Jerusalém, como os que choraram em Hadade-Rimon no vale de Megido. (Zacarias 12:10,11)

E para finalizar nosso estudo, ainda com relação ao momento que Jesus foi perfurado na cruz, onde, em seguida, saiu sangue e água, isso foi um sinal de Deus para todos os presentes, especialmente os que conheciam a Lei, de que Cristo é capaz de purificar de toda a transgressão contra a justiça de Deus (ou purificar do pecado) todos aqueles que crerem n'Ele.

Sangue e água eram dois dos seis itens usados no processo de purificação de uma casa infestada com mofo, como podemos ler em Levítico:

Para purificar a casa, ele pegará duas aves, um pedaço de madeira de cedro, um pano vermelho e hissopo. Depois matará uma das aves numa vasilha de barro com água da fonte. Então pegará o pedaço de madeira de cedro, o hissopo, o pano vermelho e a ave viva, e os molhará no sangue da ave morta e na água da fonte, e aspergirá a casa sete vezes. Ele purificará a casa com o sangue da ave, com a água da fonte, com a ave viva, com o pedaço de madeira de cedro, com o hissopo e com o pano vermelho. Depois soltará a ave viva em campo aberto, fora da cidade. Assim fará propiciação pela casa, que ficará pura. (Levítico 14:48-53)

O mofo era algo muito difícil de lidar, podendo levar uma casa à destruição, segundo as especificações da Lei (assim como o pecado não justificado leva um indivíduo à morte eterna):

Se as manchas tornarem a alastrar-se na casa depois de retiradas as pedras e de raspada e rebocada a casa, o sacerdote irá examiná-la, e, se as manchas se espalharam pela casa, é mofo corrosivo; a casa está impura. Ela terá que ser demolida: as pedras, as madeiras e todo o reboco da casa; tudo será levado para um local impuro, fora da cidade. (Levítico 14:43-45)

Se observarmos os itens usados pelo sacerdote na purificação, veremos que todos eles estavam bem representados do julgamento até a morte de Jesus: o pano vermelho (capa vermelha de rei colocada sobre Jesus), a madeira de cedro (a cruz), o hissopo (o feixe de hissopo usado para molhar os lábios de Jesus com vinagre), a água da fonte e o sangue da ave morta (sangue e água que saíram do corpo de Jesus), a ave viva (o espírito de Cristo, que deixou o corpo do homem Jesus, voltando para o Pai).

Missionária Oriana Costa

Revisão: Wendell Costa

sábado, 26 de março de 2022

A Crucificação - Considerações sobre Mateus 27 - Parte 3


Depois que Barrabás foi solto, e o Senhor foi açoitado em um outro espaço fora do Pretório, os soldados romanos levaram Jesus de volta àquele lugar, para iniciar os preparativos para a crucificação dos condenados à morte naquele dia. Em seguida, obrigando-o a levar sua própria cruz, conduziram-no ao Gólgota, para ser, finalmente, crucificado.

Vejamos a seguir o trecho do Evangelho de Mateus que narra esses acontecimentos:

Então, os soldados do governador levaram Jesus ao Pretório e reuniram toda a tropa ao seu redor. Tiraram-lhe as vestes e puseram nele um manto vermelho; fizeram uma coroa de espinhos e a colocaram em sua cabeça. Puseram uma vara em sua mão direita e, ajoelhando-se diante dele, zombavam: "Salve, rei dos judeus!" Cuspiram nele e, tirando-lhe a vara, batiam-lhe com ela na cabeça. Depois de terem zombado dele, tiraram-lhe o manto e vestiram-lhe suas próprias roupas. Então o levaram para crucificá-lo. Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e o forçaram a carregar a cruz. Chegaram a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer Lugar da Caveira, e lhe deram para beber vinho misturado com fel; mas, depois de prová-lo, recusou-se a beber. Depois de o crucificarem, dividiram as roupas dele, tirando sortes. E, sentando-se, vigiavam-no ali. Por cima de sua cabeça colocaram por escrito a acusação feita contra ele: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS. Dois ladrões foram crucificados com ele, um à sua direita e outro à sua esquerda. Os que passavam lançavam-lhe insultos, balançando a cabeça e dizendo: "Você que destrói o templo e o reedifica em três dias, salve-se! Desça da cruz, se é Filho de Deus!" Da mesma forma, os chefes dos sacerdotes, os mestres da lei e os líderes religiosos zombavam dele, dizendo: "Salvou os outros, mas não é capaz de salvar a si mesmo! E é o rei de Israel! Desça agora da cruz, e creremos nele. Ele confiou em Deus. Que Deus o salve agora, se dele tem compaixão, pois disse: ‘Sou o Filho de Deus!’" Igualmente o insultavam os ladrões que haviam sido crucificados com ele. (Mateus 27:27-44)

Antes de ser morto, o Senhor Jesus foi duramente castigado. Provavelmente, Cristo foi o único dos condenados a ser severamente açoitado, além de escarnecido publicamente e obrigado a levar a própria cruz onde seria crucificado, que era de madeira maciça e, por isso, muito pesada. 

No livro do profeta Isaías há um relato que confirma algumas das coisas que o Messias haveria de passar até sua morte:

Ele não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse, nada em sua aparência para que o desejássemos. Foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de tristeza e familiarizado com o sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima. Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças, contudo nós o consideramos castigado por Deus, por ele atingido e afligido. Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. Todos nós, tal qual ovelhas, nos desviamos, cada um de nós se voltou para o seu próprio caminho; e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. Ele foi oprimido e afligido, contudo não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado para o matadouro, e como uma ovelha que diante de seus tosquiadores fica calada, ele não abriu a sua boca. (Isaías 53:2-7)

Não há relatos em nenhum dos Evangelhos de que os outros condenados foram submetidos a tamanha tortura e crueldade. Em Marcos 15:16-20, encontramos uma narrativa similar à constante no Evangelho de Mateus 27:27-31, sobre esse acontecimento brutal.

Como o Senhor Jesus já estava bem debilitado, devido aos requintes de crueldade que havia sofrido, os guardas observaram que Ele não aguentaria carregar muito tempo o peso da cruz. Então, obrigaram a um homem que vinha passando ali no momento, voltando do campo, a carregar a cruz no lugar de Cristo.

O nome do homem era Simão, um judeu natural de Cirene, e ele tinha dois filhos, que se chamavam Alexandre e Rufo (Marcos 15:21). Cirene era uma cidade grega situada na Líbia, que naquele momento estava debaixo do domínio romano.

Sobre os filhos de Simão, não é à toa que estão listados no Evangelho de Marcos. Esses dois rapazes estiveram diretamente envolvidos na igreja do Senhor, alguns anos depois. Rufo, converteu-se a Cristo e fez parte da igreja de Roma. Lá ajudou ao Apóstolo Paulo, e isso vemos na carta de Paulo aos romanos, onde este lhe envia uma carinhosa saudação (Romanos 16:13).

Já Alexandre, era latoeiro/ferreiro (fabricava objetos de latão e ferro) e também era um dos judeus que acompanhavam os ensinamentos de Paulo na cidade de Éfeso (Atos 19:33,34). Apesar de passar cerca de dois anos ouvindo a mensagem do Evangelho, Alexandre, tempos depois, acabou endurecendo seu coração e causando muitos males ao Apóstolo, conforme podemos ler nas cartas de Paulo a Timóteo (1Timóteo 2:20, 2Timóteo 4:14)

Retomando nossa análise, vamos incluir aqui uma fala de Jesus, que acontece logo após o momento em que sua cruz é passada para Simão de Cirene. Esse momento encontra-se registrado apenas no Evangelho de Lucas.

Observando as mulheres que o seguiam, e que lamentavam por causa dele, Cristo se dirige a elas profetizando o que haveria de acontecer a Jerusalém quatro décadas após aquele dia:

Um grande número de pessoas o seguia, inclusive mulheres que lamentavam e choravam por ele. Jesus voltou-se e disse-lhes: "Filhas de Jerusalém, não chorem por mim; chorem por vocês mesmas e por seus filhos! Pois chegará a hora em que vocês dirão: ‘Felizes as estéreis, os ventres que nunca geraram e os seios que nunca amamentaram!’ "Então dirão às montanhas: ‘Caiam sobre nós!’ e às colinas: ‘Cubram-nos!’ Pois, se fazem isto com a árvore verde, o que acontecerá quando ela estiver seca?" (Lucas 23:27-31)

Nesta fala, Cristo cita um trecho do livro do Profeta Oséias, que profetiza a destruição de Jerusalém no futuro:

Os altares da impiedade, que foram os pecados de Israel, serão destruídos. Espinhos e ervas daninhas crescerão e cobrirão os seus altares. Então eles dirão aos montes: "Cubram-nos!", e às colinas: "Caiam sobre nós!" (Oséias 10:8)

Ele chama a atenção das mulheres para o severo juízo que aconteceria a Jerusalém, por causa da impiedade dos israelitas. Ao dizer "se fazem isto com a árvore verde, o que acontecerá quando ela estiver seca?", o Senhor está avisando que, se Ele estava presente ali e a situação de Israel já estava ruim, debaixo do domínio do Império Romano, uma situação muito pior se levantaria no futuro, quando Ele já não estivesse mais presente (fisicamente).

Esse ato de Jesus também foi profetizado por Jeremias, como veremos abaixo:

O que eu enxergo enche-me a alma de tristeza, de pena de todas as mulheres da minha cidade. (Lamentações 3:51)

Após esse episódio, Cristo chega ao local onde seria crucificado. Ali, segundo a narrativa constante no Evangelho de Marcos (Mc 15:23), antes de crucificarem Jesus, foi oferecida a ele uma porção de vinho misturado com mirra (em Mateus lemos "vinho com fel"), para diminuir o sofrimento dele na hora da crucificação, pois essa mistura iria deixá-lo entorpecido. No entanto, Cristo se recusa a beber, porque escolheu passar por todo o sofrimento decretado pelo Pai, por causa dos pecados de toda a humanidade.

Depois os soldados romanos tiraram novamente as roupas de Jesus (a primeira vez foi no Pretório, quando foi humilhado pelos soldados - Mt 27:28-31) e o crucificaram, totalmente despido.

Enquanto estava sendo crucificado, o Senhor pediu que o Pai perdoasse as pessoas que o estavam condenando e crucificando, pois não sabiam o que estavam fazendo: "Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo". (Lucas 23:34) Certamente, os líderes religiosos de Israel, o povo, Pilatos e seus soldados, não tinham ideia de quem Jesus realmente era.

Especialmente os líderes religiosos de Israel poderiam ter discernido o Cristo por causa do conhecimento que tinham das Escrituras, mas não conseguiram associar aquilo que foi profetizado acerca do Messias a Jesus. Seus corações estavam longe do Reino de Deus, e suas almas estavam totalmente ignorantes sobre esse lugar. Por terem se enchido de um conhecimento misturado com falsas doutrinas criadas entre eles mesmos, seu entendimento dos mandamentos instituídos por Deus foi pervertido e, consequentemente, sua percepção do Reino de Deus foi bloqueada.

Os doze Apóstolos, bem como os demais discípulos de Jesus, naquele momento, também não conseguiam ligar a pessoa de Jesus ao que estava escrito sobre Ele, por estarem na mesma situação dos líderes religiosos de Israel, ignorando a realidade e os preceitos do Reino de Deus, apesar de crerem na mensagem que Jesus anunciava.

De fato, mesmo após todos os avisos que Jesus lhes dera em dias anteriores, sobre o que iria acontecer, eles ficaram confusos, sem entender o que estavam presenciando. Somente após a ressurreição de Jesus, quando este reaparece entre eles, é que passam a entender o que aconteceu (Lucas 24:41-45).

A crucificação aconteceu às nove horas da manhã, segundo o relato do Evangelho de Marcos (Mc 15:25). As roupas de Jesus foram repartidas entre os soldados romanos, e sua túnica foi tomada por sorteio. No Evangelho de João encontramos esse momento descrito com detalhes:

Tendo crucificado Jesus, os soldados tomaram as roupas dele e as dividiram em quatro partes, uma para cada um deles, restando a túnica. Esta, porém, era sem costura, tecida numa única peça, de alto a baixo. "Não a rasguemos", disseram uns aos outros. "Vamos decidir por sorteio quem ficará com ela." Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura que diz: "Dividiram as minhas roupas entre si, e tiraram sortes pelas minhas vestes". Foi o que os soldados fizeram. (João 19:23,24)

No livro de Salmos podemos ler o que foi profetizado pelo Rei Davi sobre esse momento que Cristo passaria:

Cães me rodearam! Um bando de homens maus me cercou! Perfuraram minhas mãos e meus pés. Posso contar todos os meus ossos, mas eles me encaram com desprezo. Dividiram as minhas roupas entre si, e tiraram sortes pelas minhas vestes. (Salmos 22:16-18)

Na parte superior da cruz onde Cristo estava, os soldados colocaram uma placa, a mando de Pilatos, onde estava escrito "ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS" (Mt 27:37), em três idiomas. Esta placa deveria conter a acusação pela qual aquele réu havia sido condenado à morte, no entanto, Pilatos ordenou que a frase fosse escrita não como acusação, e sim como título, pois ele reconheceu que Jesus tinha realmente a autoridade de um rei.

Isso desagradou os líderes religiosos de Israel, pois soou como se eles estivessem cometendo um erro grave, condenando à morte aquele que deveria ser o rei deles. Esse momento está descrito no Evangelho de João:

Pilatos mandou preparar uma placa e pregá-la na cruz, com a seguinte inscrição: JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS. Muitos dos judeus leram a placa, pois o lugar em que Jesus foi crucificado ficava próximo da cidade, e a placa estava escrita em aramaico, latim e grego. Os chefes dos sacerdotes dos judeus protestaram junto a Pilatos: "Não escrevas ‘O Rei dos Judeus’, mas sim que esse homem se dizia rei dos judeus". Pilatos respondeu: "O que escrevi, escrevi". (João 19:19-22)

Um pouco depois de ter sido crucificado, algumas pessoas conhecidas estavam ali perto, e o Senhor Jesus percebeu que sua mãe também estava ali, e falou algo muito importante para ela. Essa fala de Cristo também está registrada no Evangelho de João:

Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã dela, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: "Aí está o seu filho", e ao discípulo: "Aí está a sua mãe". Daquela hora em diante, o discípulo a levou para casa. (João 19:25-27)

Jesus, ali, se despediu de sua mãe e passou a sua "filiação humana" oficialmente para o Apóstolo João. Os irmãos e irmãs de Jesus, naquele momento, não acreditavam nele, por isso Ele escolheu um de seus discípulos para receber em casa e cuidar de Maria, que era viúva e já não teria a presença do seu primogênito para cuidar dela.

Ele precisou agir dessa forma, pois, como Cristo existe desde antes dos seres humanos existirem, tendo inclusive participado da criação do homem, teria que se apartar da situação mortal na qual fora inserido de forma provisória e sobrenaturalmente (Cristo foi gerado no útero de uma jovem virgem), a fim de cumprir todas as exigências e mandamentos contidos nas escrituras para, só então, poder se entregar em sacrifício pelos pecados da humanidade.

O Senhor Jesus foi crucificado com dois outros homens, que eram ladrões: um estava a sua direita, e o outro a sua esquerda. Os evangelhos de Mateus e Marcos pontuam que os dois o insultaram, junto com as autoridades israelitas e outras pessoas que ali passavam (Mt 27:38-44, Mc 15:27-32).

Porém, no Evangelho de Lucas, observamos que um dos ladrões creu na mensagem do Reino de Deus, e, provavelmente, também creu que Jesus era o Messias, pois mesmo sabendo que Jesus ia morrer ali, pediu-lhe para que "lembrasse dele ao entrar no Seu Reino":

Um dos criminosos que ali estavam dependurados lançava-lhe insultos: "Você não é o Cristo? Salve-se a si mesmo e a nós!" Mas o outro criminoso o repreendeu, dizendo: "Você não teme a Deus, nem estando sob a mesma sentença? Nós estamos sendo punidos com justiça, porque estamos recebendo o que os nossos atos merecem. Mas este homem não cometeu nenhum mal". Então ele disse: "Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino". Jesus lhe respondeu: "Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso". (Lucas 23:39-43)

A fé que esse ladrão teve provavelmente foi a mais convicta de todas, visto que ele não duvidou da veracidade da mensagem do Reino, apesar de Jesus estar diante dele sem realizar nenhum milagre visível, além de vê-lo ser violentado, humilhado e ridicularizado diante de todos. Por isso, Jesus considerou as palavras daquele ladrão, e lhe deu a famosa resposta "eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso".

Quanto aos insultos que Jesus recebeu, assim como tantas outras coisas que aconteceram com Ele, esses também foram preditos no Antigo Testamento, no livro de Salmos:

Mas eu sou verme, e não homem, motivo de zombaria e objeto de desprezo do povo. Caçoam de mim todos os que me veem; balançando a cabeça, lançam insultos contra mim, dizendo: "Recorra ao Senhor! Que o Senhor o liberte! Que ele o livre, já que lhe quer bem!" Contudo, tu mesmo me tiraste do ventre; deste-me segurança junto ao seio de minha mãe. Desde que nasci fui entregue a ti; desde o ventre materno és o meu Deus. Não fiques distante de mim, pois a angústia está perto e não há ninguém que me socorra. Muitos touros me cercam, sim, rodeiam-me os poderosos de Basã. Como leão voraz rugindo escancaram a boca contra mim. (Salmos 22:6-13)

Para finalizar nosso estudo, gostaria de expor uma curiosidade: é muito comum vermos imagens e pinturas famosas de Jesus carregando a cruz com uma coroa de espinhos na cabeça e um manto vermelho sobre suas roupas. Outras exibem Jesus crucificado com um pano envolvendo as partes intimas e uma coroa de espinhos na cabeça.

Contudo, se analisarmos os textos dos evangelhos, vamos observar que antes dos sodados colocarem a cruz para Cristo carregar, eles tiraram dele o manto vermelho (ou manto de púrpura) de rei e o vestiram com suas próprias roupas (Mateus 27:27-31, Marcos 15:16-20). Isso quer dizer que muito provavelmente os outros acessórios que colocaram nele também foram retirados (a coroa de espinhos e o cetro improvisado).

Um outro detalhe é que, além de Cristo ter sido crucificado sem a coroa de espinhos sobre a cabeça, Ele estava nu, pois toda a sua roupa foi retirada (as quatro partes de sua roupa, mais a túnica! - veja em João 19:23). 

Missionária Oriana Costa

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