sexta-feira, 17 de abril de 2026

Antes de escolher os apóstolos - Parte 3.5 - O Sermão da montanha


Dando continuidade ao nosso estudo do Evangelho de Mateus, agora prosseguimos com uma parte bastante sensível do ensino de Cristo no Sermão da Montanha, que trata da área do relacionamento conjugal.

Neste estudo, trataremos não apenas do adultério e do divórcio, que são os pontos centrais na fala de Jesus, mas também de outras situações relacionadas à castidade (para os solteiros) e à fidelidade conjugal.

No trecho a seguir, Jesus mostra a diferença entre como a Lei Mosaica lida com as questões relativas a esse assunto e como elas são tratadas segundo a constituição do Seu Reino:

Vocês ouviram o que foi dito: “Não adultere”. Mas eu digo que qualquer que olhar para uma mulher e desejá-la já cometeu adultério com ela no coração. Se o seu olho direito o induz a pecar, arranque-o e lance-o fora. Pois é melhor perder uma parte do seu corpo do que todo ele ser lançado no inferno. E, se a sua mão direita o induz a pecar, corte-a e lance-a fora. Pois é melhor perder uma parte do seu corpo do que todo ele ir para o inferno. ― Foi dito também: “Aquele que se divorciar da sua mulher deverá dar-lhe uma certidão de divórcio”. No entanto, eu digo que todo aquele que se divorciar da sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a divorciada comete adultério. (Mateus 5:27–32, NVI)

Lendo o trecho acima, percebemos novamente que o padrão pelo qual as coisas são julgadas no Reino de Deus é diferenciado e muito mais elevado em comparação ao padrão imposto pelo mundo. No Reino de Deus, que é espiritual, as intenções que motivam as ações da humanidade são plenamente conhecidas, e, por isso, não podemos escondê-las do nosso Criador. Assim, Ele julga as nossas ações com maior rigor, pois conhece aquilo que as motiva.

Jesus deixa claro que, antes do adultério, existe a cobiça, que procede do olhar que acende o desejo por outra pessoa que não é o cônjuge. Se não compreendemos o propósito da aliança conjugal por meio da sabedoria de Deus — que é o nosso Criador e também o instituidor dessa aliança —, certamente o nosso olhar, ainda que estejamos comprometidos pelo casamento, ficará à mercê dos impulsos da carne, constantemente influenciados pela maldade que nela habita.

Dessa forma, não seremos capazes de exercer domínio próprio para bloquear o desejo ou a atração despertados em nós, seja por um olhar, seja por um convívio inevitável.

Se, porém, compreendermos a realidade do Reino de Deus por meio do ensino de Cristo e nos esforçarmos para andar nessa realidade, até poderemos ver alguém fisicamente atraente ou conviver com pessoas que despertem algum tipo de desejo; contudo, exerceremos domínio próprio e jamais daremos espaço para que sentimentos contrários à reta justiça de Deus governem as nossas ações.

Quando Jesus diz: “Se o seu olho direito o induz a pecar, arranque-o e lance-o fora...” — Ele não está falando de forma literal, como se o indivíduo devesse mutilar o próprio corpo. Antes, Ele está advertindo que o desejo de trair o cônjuge não deveria sequer existir e, caso surja, deve ser combatido com firmeza.

Nas entrelinhas do seu discurso, Jesus deixa claro que, uma vez que o desejo passa a existir, bloqueá-lo exigirá grande esforço e poderá gerar sofrimento. Por isso, Ele compara essa luta à dor de perder um membro do corpo — algo extremamente doloroso e significativo.

No Antigo Testamento, temos um exemplo clássico desse tipo de situação na vida de José, filho de Jacó. Ele trabalhava como escravo na casa de Potifar, oficial do Faraó e capitão da guarda, no Egito.

José, sendo um jovem de boa aparência e ainda solteiro, foi colocado diante de uma situação extremamente tentadora. Mesmo assim, escolheu fugir para não pecar contra Deus nem trair a confiança do seu senhor. Contudo, sua atitude correta resultou em calúnia, perda do emprego e também da liberdade.

José era atraente e de boa aparência; depois de certo tempo, a mulher do seu senhor começou a olhar para ele com desejo e o convidou: ― Deite‑se comigo! Ele, porém, recusou e lhe disse: ― O meu senhor não se preocupa com coisa alguma da sua casa e deixou tudo o que tem aos meus cuidados. Não há ninguém nesta casa maior do que eu. Ele nada me negou, a não ser a senhora, porque é a mulher dele. Como poderia eu, então, cometer algo tão perverso e pecar contra Deus? Assim, embora ela insistisse com José dia após dia, ele se recusava a deitar‑se com ela e evitava ficar perto dela. Certo dia, ele entrou na casa para fazer as suas tarefas, e nenhum dos empregados se encontrava ali. Ela o agarrou pelo manto, dizendo: ― Deite‑se comigo! Ele, porém, fugiu da casa, deixando o manto na mão dela. Quando ela viu que, ao fugir, ele tinha deixado o manto na sua mão, chamou os empregados da casa e lhes disse: ― Vejam, este hebreu nos foi trazido para nos insultar! Ele se aproximou para abusar de mim, mas eu gritei. Quando me ouviu gritar por socorro, largou o seu manto ao meu lado e fugiu da casa. (...) Quando o senhor de José ouviu o que a sua mulher lhe disse: “Foi assim que o seu escravo me tratou”, ficou enfurecido. Mandou buscar José e lançou‑o na prisão em que eram postos os prisioneiros do rei. (Gênesis 39:6-20, NVI)

Mesmo tendo sido injustiçado, Deus abençoou José na prisão e, posteriormente, o elevou à posição de maior autoridade do Egito, abaixo apenas de Faraó. Sua história nos mostra que a fidelidade a Deus pode trazer sofrimento momentâneo, mas resulta em honra e propósito no tempo certo.

Assim, renunciar aos impulsos da carne pode, sim, nos causar perdas e dores, mas Deus abençoa profundamente aqueles que escolhem andar segundo a Sua justiça.

ATENÇÃO! Antes de continuar com o nosso estudo, existe algo que Jesus não falou diretamente em seu ensino, mas que deve ficar claro: pessoas que estão sofrendo abuso do cônjuge em qualquer área, ou que estão sofrendo violência doméstica, e isso é algo que está acontecendo repetidamente, DEVEM PROCURAR A AJUDA DAS AUTORIDADES, SE AFASTAR O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL DO CÔNJUGE, E SE DIVORCIAR COM URGÊNCIA, ainda que sejam um casal cristão e ainda que estejam trabalhando eclesiasticamente. Deus nunca aprovou nem aprovará um matrimônio onde existe OPERAÇÃO DA MALDADE por parte de um dos cônjuges, pondo em risco a saúde mental e física do seu parceiro(a), ou pondo em risco a vida do outro.

Dando continuidade à análise do ensino de Jesus, vejamos agora o que Ele fala sobre o divórcio. Para compreendermos melhor esse ponto, avançamos para Mateus 19.

Neste capítulo, vemos Jesus sendo posto à prova pelos fariseus que moravam na Judéia. Então, vejamos o trecho a seguir:

Alguns fariseus aproximaram-se dele para pô-lo à prova. E perguntaram-lhe: "É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?" Ele respondeu: "Vocês não leram que, no princípio, o Criador ‘os fez homem e mulher’ e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’? Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe". Perguntaram eles: "Então, por que Moisés mandou dar uma certidão de divórcio à mulher e mandá-la embora?" Jesus respondeu: "Moisés lhes permitiu divorciar-se de suas mulheres por causa da dureza de coração de vocês. Mas não foi assim desde o princípio." (Mateus 19:3-8)

Como podemos notar, a pergunta dos fariseus se referia ao divórcio, e Cristo, de maneira categórica, deixou-os sem palavras. Ao finalizar seu raciocínio, o Senhor lhes disse:

"Todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério." (Mateus 19:9)

Na Lei Mosaica está escrito o seguinte:

Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora. (Deuteronômio 24:1)

Jesus deixa claro que o mandamento referente à carta de divórcio vinha sendo distorcido por alguns, servindo como justificativa para práticas injustas, o que contrariava os princípios da justiça de Deus.

Apesar de tal mandamento parecer estar abrindo espaço para outros motivos de divórcio, Cristo afirma que a única circunstância pela qual um homem justo deve se divorciar de sua mulher é a imoralidade sexual, ou seja, se ele percebe que sua esposa está sendo sensual fora do casamento, atraindo a atenção dos outros homens propositalmente, ainda que não esteja tendo um relacionamento extraconjugal.

Quem realmente estava buscando a Deus de todo o coração deveria entender que o mandamento não estava dando ocasião para que os maridos deixassem suas esposas por qualquer motivo, porém somente se fosse o caso de "imoralidade sexual".

A pergunta que os fariseus fizeram a Cristo foi exatamente em cima dessa possível brecha de interpretação nesse mandamento da Lei: "É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher POR QUALQUER MOTIVO?" (Mateus 19:3)

De fato, muitos homens da sociedade judaica da época se respaldavam nesse estatuto para deixarem suas esposas por motivos quaisquer, por isso o Senhor falou:

"Moisés lhes permitiu divorciar-se de suas mulheres por causa da dureza de coração de vocês. Mas não foi assim desde o princípio." (Mateus 19:8)

Dessa maneira, Jesus estava mostrando ali que o mandamento sobre a carta de divórcio estava sendo usado como uma desculpa para que os homens cometessem adultério, e isso acabava tornando as mulheres adúlteras também (Mateus 5:31-32), assim contrariando os princípios da justiça de Deus.

Apesar de, segundo a Lei Mosaica, Deus considerar maldade o divórcio que acontece por qualquer outro motivo que não seja por imoralidade sexual, ao dar seu parecer da situação do ponto de vista da graça, o Apóstolo Paulo explica bem a questão do divórcio, especialmente quando se trata de um relacionamento entre uma pessoa crente e outra descrente. Leia mais sobre isso em 1 Coríntios 7.

Como já sabemos, antes de odiar o divórcio (Malaquias 2:16) Deus odeia a maldade (Habacuque 1:13) e exerce severo juízo sobre ela.

A afirmação de Cristo sobre o que realmente deveria motivar um divórcio, segundo a justiça de Deus, fez os discípulos acharem que seria melhor não casar. No entanto, Jesus ensina-lhes que ficar solteiro, sem se relacionar afetivamente com alguém, é algo para poucos, e que essa forma de viver exige do indivíduo uma motivação maior, que lhe proporcione continuar assim sem que isso lhe perturbe.

A palavra eunuco, que é usada pelo Senhor nessa passagem, onde Ele se refere a homens que não se casam, fala sobre aqueles que escolhem não terem relações sexuais, por terem sido castrados ou nascido com deficiência no órgão sexual. Naquele tempo, era comum a existência de casamentos poligâmicos, cujas esposas viviam em locais especiais denominados harens e permaneciam ali sendo vigiadas e cuidadas por eunucos.

O Mestre diz ainda que há apenas três condições que levam as pessoas à castidade: a primeira é que o indivíduo tenha nascido com deficiência que afete a área sexual; a segunda é que tenha sofrido castração, ou que esta condição lhe seja imposta por motivo de força maior; e a terceira é que tenha decidido permanecer solteiro e casto (ainda que não tenha nenhum problema na área sexual), para se dedicar inteiramente à anunciação do Reino de Deus. Para confirmar, vejamos o trecho abaixo:

Os discípulos lhe disseram: "Se esta é a situação entre o homem e sua mulher, é melhor não casar". Jesus respondeu: "Nem todos têm condições de aceitar esta palavra; somente aqueles a quem isso é dado. Alguns são eunucos porque nasceram assim; outros foram feitos assim pelos homens; outros ainda se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem puder aceitar isso, aceite". (Mateus 19:10-12)

O Senhor Jesus, por exemplo, se enquadra nessa terceira situação. Ele era um homem normal e não tinha qualquer problema na área sexual, mas escolheu não constituir família e permanecer casto por causa da missão para a qual fora enviado. O Apóstolo Paulo também fala acerca dessa questão em sua carta aos cristãos coríntios:

Irmãos, cada um deve permanecer diante de Deus na condição em que foi chamado. Quanto às pessoas virgens, não tenho mandamento do Senhor, mas dou meu parecer como alguém que, pela misericórdia de Deus, é digno de confiança. Por causa dos problemas atuais, penso que é melhor o homem permanecer como está. Você está casado? Não procure separar-se. Está solteiro? Não procure esposa. Mas, se vier a casar-se, não comete pecado; e, se uma virgem se casar, também não comete pecado. Mas aqueles que se casarem enfrentarão muitas dificuldades na vida, e eu gostaria de poupá-los disso. (1Corintios 7:24-28)

Paulo deixa claro que a melhor situação para quem está trabalhando na obra de Deus seria permanecer solteiro, pois assim o indivíduo se dedicaria melhor ao seu trabalho (1Corintios 7:32-34). Contudo, na primeira carta dele a Timóteo, há uma recomendação especial para aqueles que trabalham atendendo aos chamados de pastor ou diácono e são casados ou desejam casar-se:

É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher (...). Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus? (1Timóteo 3:2-5)

O diácono deve ser marido de uma só mulher e governar bem seus filhos e sua própria casa. (1Timóteo 3:12)

Como Cristo falou, permanecer solteiro atendendo ao chamado do Senhor não é para todos, apenas uma minoria consegue estar assim. A maioria das pessoas prefere estar casado na obra de Deus, por causa dos desejos da carne, e sobre isso também o Apóstolo Paulo comenta:

Quanto aos assuntos sobre os quais vocês escreveram, é bom que o homem não toque em mulher, mas, por causa da imoralidade, cada um deve ter sua esposa, e cada mulher o seu próprio marido. (1Corintios 7:1,2)

(...) é bom que permaneçam como eu. Mas, se não conseguem controlar-se, devem casar-se, pois é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo. (1Corintios 7:8,9)

É errado alguém que se declara seguidor de Cristo se relacionar sexualmente com outra pessoa fora do compromisso matrimonial. 

Algumas pessoas, por não conseguirem se conter nessa área, após adquirirem sua cidadania no Reino de Deus, decidem continuar atendendo os desejos da carne às escondidas, sem atentarem que essa prática lhes trará um sério juízo, além de trazer escândalo para a igreja e ser um mau testemunho para o mundo, dificultando a pregação e a aceitação do evangelho. 

Por esses motivos, os servos de Deus devem estar dispostos a seguirem as regras determinadas por Deus para essa área, especialmente aqueles que estão à frente de um trabalho eclesiástico, pois só assim conseguirão êxito na anunciação do Reino de Deus e poderão usufruir plenamente da realidade perfeita desse lugar.

Por fim, compreendemos que tanto o casamento quanto a vida solteira são caminhos legítimos dentro do Reino de Deus, mas cada um exige responsabilidade, maturidade e compromisso com a vontade divina.

Diante de tudo isso, fica evidente que o padrão de Deus para a área afetiva e sexual não se limita a regras externas, mas alcança o interior do ser humano, tratando diretamente das intenções do coração. O Reino de Deus não é fundamentado apenas em comportamentos visíveis, mas em uma transformação profunda que começa nos pensamentos e desejos.

Seja no casamento, seja na vida solteira, o chamado de Deus é o mesmo: viver em santidade, exercendo domínio próprio e honrando a aliança que firmamos com Ele. Isso exige renúncia, vigilância e, muitas vezes, sacrifício — mas também produz vida, paz e comunhão verdadeira com o Senhor.

Portanto, mais do que evitar o pecado, o discípulo de Cristo deve buscar alinhar o seu coração à vontade de Deus, permitindo que o conhecimento da reta justiça de Deus governe seus desejos. Somente assim será possível viver de forma íntegra, dar bom testemunho e experimentar, de maneira plena, a realidade do Reino de Deus.

Missionária Oriana Costa.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Antes de escolher os Apóstolos - Parte 3.4 - O Sermão da montanha.


Seguindo com o nosso estudo do Evangelho de Mateus, vamos compreender mais uma das características do Reino de Deus, analisando o trecho abaixo:

Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: “Não assassine”, e “quem assassinar estará sujeito a julgamento”. Mas eu digo a vocês que qualquer que se irar contra o seu irmão estará sujeito a julgamento. Do mesmo modo, qualquer que disser a seu irmão: “Tolo!” será levado ao tribunal. E qualquer que disser: “Insensato!” corre o risco de ser lançado no fogo do inferno. Portanto, se você estiver apresentando a sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que o seu irmão tem algo contra você, deixe a sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com o seu irmão; depois, volte e apresente a sua oferta. Não demore para entrar em acordo com o adversário que pretende levar você ao tribunal. Faça isso enquanto ainda estiver com ele no caminho; caso contrário, ele poderá entregar você ao juiz, e o juiz entregá-lo ao guarda, e você poderá ser lançado na prisão. Em verdade lhe digo que você não sairá de lá enquanto não pagar o último centavo. (Mateus 5:21-26, NVI)

Nesse trecho, o Senhor Jesus Cristo chama a atenção para o sexto mandamento da Lei Mosaica — “não matarás” (Êxodo 20:13; Deuteronômio 5:17) — e para o juízo condenatório estabelecido sobre quem tira a vida de outro:

Se alguém tirar a vida de um ser humano, deverá ser executado. Quem tirar a vida de um animal fará restituição: vida por vida. Se alguém ferir o seu próximo, assim como fez lhe será feito: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente. Como feriu o outro, assim será ferido. Quem matar um animal fará restituição, mas quem matar um homem será morto. Vocês terão a mesma ordenança para o estrangeiro e para o nativo. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês.(Levítico 24:17-22, NVI)

No entanto, quando Cristo usa a expressão “eu, porém, digo a vocês...”, Ele revela que, não conforme a Lei Mosaica, mas segundo o rigor da constituição do Reino de Deus, o simples fato de alguém se irar contra o próximo — isto é, agir impulsionado por um acesso de raiva, sem domínio próprio e sem arrependimento — já o torna digno de juízo.

Matar movido por uma ira descontrolada é o extremo desse pecado. Contudo, na prática, os primeiros impulsos da ira geralmente se manifestam em palavras: ofensas, insultos e ridicularizações. Por isso Jesus afirma que qualquer que disser “Raca!” ou “Tolo!” ao seu irmão já se torna passível de julgamento segundo os padrões do Reino.

Curiosidade: a expressão “Raca” era um insulto comum na cultura judaica da época, com sentido depreciativo semelhante a “imbecil” ou “inútil”.

Assim, o pecado não está simplesmente em sentir ira, mas em permitir que ela governe nossas atitudes. A ira não tratada facilmente se transforma em pecado, pois nos leva a ferir outras pessoas com palavras e ações.

“Quando ficarem irados, não pequem”. Não permitam que o sol se ponha enquanto durar a ira de vocês e não deem lugar ao Diabo. (Efésios 4:26-27, NVI)

Por outro lado, Jesus também trata da situação em que somos nós que provocamos a ira nos outros, seja por atitudes injustas, seja por comportamentos inadequados. Nesse caso, Ele ensina que ainda há oportunidade de arrependimento e reparação.

Não adianta alguém afirmar que tem fé em Deus sem viver de acordo com essa fé. Na Lei Mosaica, o sacrifício no altar era um meio de expiação pelos pecados. No entanto, oferecer um sacrifício sem arrependimento genuíno e sem buscar reconciliação com quem foi ofendido torna esse ato vazio diante de Deus.

Da mesma forma, é incoerente declarar-se cidadão do Reino de Deus e não se arrepender sinceramente de atitudes que ferem o próximo — seja por falta de domínio próprio, seja por egoísmo.

Por isso, Jesus orienta:

“Portanto, se você estiver apresentando a sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que o seu irmão tem algo contra você, deixe a sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com o seu irmão; depois, volte e apresente a sua oferta”.

Nos versículos 25 e 26, Cristo amplia esse ensino ao mostrar que, mesmo diante de uma falta grave, ainda há oportunidade de evitar o juízo — desde que haja iniciativa de reconciliação e esforço para reparar o erro. O “adversário”, nesse contexto, representa alguém justamente ofendido, que carrega uma acusação legítima contra nós.

Com isso, Jesus ensina que aquele que entra no Reino de Deus não é isento de responsabilidade pelos erros cometidos, mas recebe a oportunidade de se alinhar com a justiça divina por meio do arrependimento e da restauração prática.

O nosso Criador é misericordioso e concede tempo para que aqueles que pertencem ao Seu Reino se arrependam e se reconciliem:

Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e misericordioso, tardio em irar-se e cheio de amor leal e fidelidade. (Salmos 86:15, NVI)

Entretanto, ao advertir sobre não demorar a entrar em acordo, Jesus deixa claro que essa oportunidade não é indefinida. Se não houver arrependimento e mudança de atitude, o juízo será inevitável.

Sobre isso, o apóstolo Paulo também ensina:

Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disso, há entre vocês muitos fracos e doentes, e vários já dormiram. Porque, se julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando somos julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo. (1Coríntios 11:28-32, ARC)

Diante disso, somos chamados a viver em constante vigilância, examinando o coração e alinhando nossa conduta com os valores do Reino de Deus, para não desonrarmos a aliança firmada por meio do sacrifício de Jesus Cristo. Precisamos sempre lembrar que Ele sofreu um martírio terrível em seu corpo por nossa causa, para nos livrar da condenação à morte eterna e nos dar a chance única de usufruirmos da maravilhosa realidade de Seu Reino ainda neste mundo.

Mais severo do que qualquer penalidade humana é o juízo que procede de Deus, pois Ele conhece profundamente o coração e discerne as intenções por trás de cada atitude. Nada pode ser ocultado dEle.

Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e as intenções do coração. Nada, em toda a criação, está oculto aos olhos de Deus. Tudo está descoberto e exposto diante daquele a quem havemos de prestar contas. (Hebreus 4:12-13, NVI)

Dessa forma, Jesus nos ensina que, no Reino de Deus, não basta evitar atos extremos como o homicídio; é necessário tratar a raiz do problema, que está no coração. A ira não dominada, as palavras ofensivas e a falta de reconciliação já nos colocam em desacordo com a justiça divina.

Ao mesmo tempo, há graça: Deus nos concede oportunidade de arrependimento e restauração. Porém, essa graça exige resposta — humildade para reconhecer o erro, disposição para se reconciliar e compromisso em viver de maneira alinhada com a realidade do Reino.

Portanto, viver como cidadão do Reino de Deus é assumir uma postura ativa de vigilância interior, domínio próprio e reconciliação com o próximo, sabendo que, no fim, todos prestaremos contas diante dAquele que vê não apenas as nossas ações, mas também as intenções do nosso coração.


Missionária Oriana Costa 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Antes de escolher os apóstolos - Parte 3.3 - O Sermão da montanha.



Dando continuidade ao estudo do Evangelho de Mateus, vamos analisar a parte do Sermão da Montanha em que o Senhor Jesus alerta sobre o cumprimento da Lei Mosaica.

Vejamos o trecho a seguir:

Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim aboli-los, mas cumpri-los. Em verdade lhes digo que, até que os céus e a terra desapareçam, de forma alguma desaparecerá da lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra. Portanto, todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no reino dos céus, mas todo aquele que praticar e ensinar esses mandamentos será chamado grande no reino dos céus. Pois eu digo que, se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e à dos mestres da lei, de modo nenhum entrarão no reino dos céus. (Mateus 5:17-20, NVI)

É importante que possamos compreender bem esse trecho, pois isso nos ajuda a enxergar o propósito pelo qual Cristo foi enviado a este mundo.

Nessa parte do Seu ensino, o Rei Jesus pontua quatro aspectos importantes:

•A Lei que Deus entregou aos israelitas por meio de Moisés será totalmente cumprida.

•Quem desobedecer a qualquer um dos mandamentos dessa Lei, ainda que dos menores, e ensinar outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus.

•Quem obedecer a todos os mandamentos e ensiná-los sem pervertê-los será chamado grande no Reino dos céus.

•Para entrar no Reino dos céus, é necessário ser muito mais justo do que os escribas e fariseus daquela época.

Muitas pessoas, por não compreenderem o verdadeiro propósito da Lei Mosaica, chegam a conclusões equivocadas tanto sobre o seu cumprimento quanto sobre o tipo de justiça a que o Senhor Jesus se refere.

É importante saber que é impossível obter justificação diante de Deus pelo cumprimento da Lei Mosaica. Deus a entregou ao povo de Israel não para justificar aquelas pessoas por meio dela — até porque ninguém consegue cumpri-la sem falhar em algum ponto —, mas com a finalidade de preparar o povo, ao longo dos séculos, para receber Aquele que pudesse cumpri-la em verdade, e, por meio dEle, finalmente, o povo receber a justificação dos seus pecados diante do Pai.

A Lei Mosaica, portanto, aponta a realidade do pecado que está sobre toda a humanidade e mostra a necessidade de uma intervenção divina para a justificação de todas as transgressões que cometemos contra a reta justiça de Deus.

Isso podemos confirmar nos trechos bíblicos abaixo:

Pois quem obedece a toda a lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna‑se culpado de quebrá‑la inteiramente. Porque aquele que disse: “Não adultere” também disse: “Não assassine”. Se você não comete adultério, mas comete assassinato, torna‑se transgressor da lei. (Tiago 2:10-11, NVI)

Nós, judeus de nascimento, não gentios pecadores, sabemos que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas sim pela fé em Jesus Cristo; assim, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, não pelas obras da lei, porque pelas obras da lei ninguém será justificado. (Gálatas 2:15-16, NVI)

Pois todos os que vivem na prática da lei estão debaixo de maldição, pois está escrito: “Maldito seja todo aquele que não persiste em praticar todas as coisas escritas no livro da lei”. É evidente que diante de Deus ninguém é justificado pela lei, pois “o justo viverá pela fé”. A LEI NÃO SE BASEIA NA FÉ, mas “o homem que praticar essas coisas viverá por meio delas”. Cristo nos redimiu da maldição da lei quando se tornou maldição no nosso lugar, pois está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado em um madeiro”. Isso para que, em Cristo Jesus, a bênção de Abraão chegasse também aos gentios, para que recebêssemos a promessa do Espírito por meio da fé. (Gálatas 3:10-14, NVI)

Jesus menciona os escribas e fariseus chamando a atenção para o requisito "justiça", justamente por causa da aparência de integridade que eles mantinham dentro da sociedade israelita.

Esses homens conheciam o conteúdo da Torah de forma profunda, faziam grande esforço para aparentar integridade aos olhos de todos, porém cumpriam os mandamentos sem entendê-los plenamente. 

Além disso, como o próprio Jesus apontou em outras falas ao longo de seu ministério terreno, não conseguiam cumpri-los à risca. Assim, o único que conseguiu cumprir todos os mandamentos da Lei Mosaica sem falhar foi Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus. 

Dessa forma, somente por meio da fé nEle temos acesso à verdadeira e única justificação dos pecados.

E agora, para encerrar esta parte do nosso estudo, surge uma pergunta importante: se a Lei Mosaica só pode ser cumprida por Cristo, e nós nunca conseguiríamos cumpri-la, existe alguma outra Lei ou mandamento que Deus tenha instituído para aqueles que estão recebendo a justificação de seus pecados pela fé em Jesus?

A resposta é: sim, existe. 

E nós podemos cumpri-la quando decidimos aprender e colocar em prática o ensino de Cristo, contido ao longo do Novo Testamento, nos evangelhos e nas cartas dos apóstolos.

O Senhor Jesus falou desse "novo mandamento" pouco antes de ser preso e crucificado, quando, reunido na celebração da sua última Páscoa com seus discípulos, explicava os acontecimentos que estavam prestes a ocorrer:

Depois que Judas saiu, Jesus disse: ― Agora o Filho do homem foi glorificado, e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, Deus também glorificará o Filho nele mesmo e o fará em breve. ― Meus filhinhos, estarei com vocês apenas um pouco mais. Vocês procurarão por mim e, como eu disse aos judeus, agora digo a vocês: Para onde eu vou, vocês não podem ir. ― Um novo mandamento dou a vocês: Amem uns aos outros. COMO EU OS AMEI, vocês devem amar uns aos outros. Deste modo todos saberão que são meus discípulos: se vocês amarem uns aos outros. (João 13:31-35, NVI)

Esse "amor" ao qual Cristo se refere não é apenas um sentimento, como normalmente entendemos, mas a expressão prática de princípios estabelecidos por Deus. Esses princípios revelam o caráter do próprio Deus e, portanto, também o caráter de Cristo. Tudo o que foi criado está debaixo dessa ordem, pois tudo existe e funciona por meio dela.

É importante compreender que esses mandamentos que formam o Amor de Deus constituem a realidade que governa o Reino de Deus, sendo o conhecimento deles essencial para todo aquele que, pela fé em Jesus Cristo, se torna cidadão desse Reino.

Por isso, quando ensinou seus seguidores no Sermão do Monte, Jesus incentivou-os a buscarem o entendimento do Reino de Deus e da sua justiça:

Portanto, não se preocupem, dizendo: “O que comeremos?”, “O que beberemos?” ou “O que vestiremos?”. Pois os gentios é que correm atrás dessas coisas, mas o Pai celestial de vocês sabe que precisam delas. Busquem, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês. (Mateus 6:31-33, NVI)

E o apóstolo Paulo reforça essa mesma direção:

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, dediquem‑se às coisas que são do alto, onde Cristo está, assentado à direita de Deus. Pensem nas coisas do alto, não nas coisas da terra. Pois vocês morreram, e a vida de vocês está escondida com Cristo em Deus. (Colossenses 3:1-3, NVI)

Aceitar Jesus Cristo como Senhor e Salvador e permanecer ignorante quanto à realidade do Reino de Deus leva o indivíduo a viver em constante transgressão. Embora isso não implique na perda da cidadania no Reino, pode resultar em consequências e disciplina, decorrentes de uma vida sem arrependimento genuíno.

Para finalizar nosso estudo, vejamos dois trechos que explicam essa realidade:

Examine cada um a si mesmo e, então, coma do pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor come e bebe para o seu próprio juízo. Por isso, há entre vocês muitos fracos e doentes, e vários já dormiram. Mas, se examinássemos a nós mesmos, não receberíamos juízo. Contudo, sendo julgados pelo Senhor, somos disciplinados para que não sejamos condenados com o mundo. (1Coríntios 11:28-32, NVI)

Meus filhinhos, escrevo a vocês estas coisas para que não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a expiação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. Desta forma sabemos que o conhecemos: se obedecemos aos seus mandamentos. Aquele que diz: “Eu o conheço”, mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele. Mas, se alguém obedece à sua palavra, nele verdadeiramente o amor de Deus está aperfeiçoado. Desta forma sabemos que estamos nele: quem afirma que permanece nele deve andar como ele andou. (1João 2:1-6, NVI)

Diante de tudo isso, fica claro que a nossa relação com Deus não está fundamentada na nossa capacidade de cumprir perfeitamente a Lei, mas na obra completa de Cristo.

No entanto, essa verdade não nos conduz à negligência, mas a uma vida de consciência, aprendizado e prática dos princípios do Reino.

Sabemos que falharemos em muitos momentos, pois estamos numa luta constante entre a carne e o espírito, mas também sabemos que não estamos desamparados. Temos um intercessor diante do Pai, Jesus Cristo, o Justo, e somos constantemente chamados ao arrependimento e à transformação.

Isso deve gerar em nós não medo, mas reverência; não insegurança, mas dependência de Deus.

Viver em conformidade com o Reino é, portanto, um caminho de crescimento contínuo, onde aprendemos a andar como Cristo andou, confiando que Aquele que começou a boa obra em nós é fiel para completá-la.

Missionária Oriana Costa.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Antes de escolher os apóstolos - Parte 3.2 - O sermão da montanha


Continuando nosso estudo do Evangelho de Mateus, agora no Sermão da Montanha, vamos analisar o momento em que o Senhor Jesus compara aqueles que escolhem segui-lo ao sal e à luz.

Vejamos o trecho que se encontra no Evangelho de Mateus:

Vocês são o sal da terra. Mas, se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens. Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E também ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Pelo contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus. (Mateus 5:13-16)

A comparação que o Senhor Jesus faz do seu povo com o sal e com a luz é, em primeiro lugar, um alerta para que aqueles que decidem segui-lo não recuem do seu chamado na anunciação do Seu Reino.

É muito comum que, em meio às perseguições e desafios na obra de Deus, surja a vontade de desistir, parar ou esconder-se. No entanto, Cristo deixa claro que aqueles que têm em seu coração a mensagem do evangelho jamais devem deixar de anunciá-la.

Muitos podem pensar que, quando o Senhor fala de "boas obras" nesse trecho, está se referindo apenas a obras de caridade. No entanto, essas boas obras também dizem respeito ao trabalho de anunciação da mensagem de salvação e do Reino de Deus. E Ele afirma que a realização desse trabalho faz com que outros glorifiquem a Deus.

A proclamação do Reino de Deus traz consigo a manifestação de sinais, prodígios e maravilhas, como curas, libertação de vícios e de diversas opressões, confirmando que a mensagem anunciada é verdadeira.

Além disso, o comportamento daqueles que anunciam o Reino chama a atenção por ser diferente do padrão do mundo: livre de preconceitos, religiosidade vazia, misticismo, soberba e impurezas, estando alinhado com a reta justiça de Deus, que é o Seu amor.

Quando o Senhor Jesus faz a comparação com o sal, ao se referir à postura daqueles que anunciam o Seu Reino, Ele também aponta para essa maneira diferenciada de viver, que evidencia misericórdia, perdão, imparcialidade, paciência, prudência, generosidade, honestidade, sinceridade e disposição para ajudar e socorrer — entre tantas outras virtudes do Espírito.

As Escrituras apresentam várias referências sobre essa postura, comparada ao sal. Uma delas se encontra na carta do apóstolo Paulo aos Colossenses:

Sejam sábios no procedimento para com os de fora; aproveitem ao máximo todas as oportunidades. O seu falar seja sempre agradável e temperado com sal, para que saibam como responder a cada um. (Colossenses 4:5-6)

Assim, ser sal e ser luz, de acordo com as palavras de Jesus Cristo, são características daqueles que verdadeiramente buscam alinhar-se ao Seu Reino e à Sua reta justiça, bem como anunciá-lo ao mundo.

No Evangelho de Marcos encontramos também:

O sal é bom, mas, se deixar de ser salgado, como restaurar o seu sabor? Tenham sal em vocês mesmos e vivam em paz uns com os outros. (Marcos 9:50)

Aqui, Cristo revela que, se tivermos "sal" em nossos corações, poderemos viver em paz uns com os outros. O sal, portanto, também aponta para o fruto do Espírito, que inclui, entre outras virtudes, a paz (veja Gálatas 5:22; Tiago 3:17-18).

Em relação ao trecho em que o Senhor Jesus fala sobre o sal perder o sabor, Ele chama a atenção para as consequências de conhecermos a mensagem do Reino de Deus e não a anunciarmos, seja por meio das nossas atitudes diárias, seja pelo cumprimento do chamado de Deus em nossas vidas.

Na realidade física, quando o sal perde o sabor, ele não se torna totalmente inútil, pois ainda pode ser usado, por exemplo, para ajudar a derreter neve em países frios. Esse efeito ocorre porque o sal diminui a temperatura de fusão da água.

Entretanto, no contexto ensinado por Jesus, a ênfase está no prejuízo de perder a principal função do sal. Da mesma forma, Deus espera que Seu povo faça a diferença onde estiver, refletindo o Seu Reino por meio das suas ações e anunciando-o conforme foi capacitado.

Quando esse fruto não é manifestado na vida de um cristão, ele deixa de usufruir das bênçãos relacionadas à vida no Reino e passa a colher as consequências de não andar em conformidade com a justiça de Deus.

Agora, falando da "luz" com a qual o Senhor compara o Seu povo, as Escrituras também apresentam diversas referências:

Porque antes vocês eram trevas, mas agora são luz no Senhor. Vivam como filhos da luz — pois o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade — e aprendam a discernir o que é agradável ao Senhor. (Efésios 5:8-10)

Esta é a mensagem que dele ouvimos e transmitimos a vocês: Deus é luz; nele não há treva alguma. Se afirmarmos que temos comunhão com ele, mas andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. (1 João 1:5-7)

Quem afirma estar na luz, mas odeia seu irmão, continua nas trevas. Quem ama seu irmão permanece na luz, e nele não há causa de tropeço. Mas quem odeia seu irmão está nas trevas, anda nas trevas e não sabe para onde vai, porque as trevas o cegaram. (1 João 2:9-11)

Ao analisarmos esses textos, percebemos que aqueles que são luz, segundo o ensino de Cristo, evidenciam alguns princípios fundamentais:

•Vivem em bondade, justiça e verdade, buscando discernir o que agrada ao Senhor — ou seja, vivem segundo a realidade do Reino de Deus, e não segundo o padrão do mundo.

•Buscam viver em comunhão com os irmãos em Cristo, compreendendo a importância da vida em unidade. O afastamento da comunhão tende a enfraquecer a fé, diminuir o confronto com a Palavra e, consequentemente, o arrependimento e a transformação.

•Amam seus irmãos, expressando esse amor por meio do cuidado, do perdão, da intercessão, da exortação e do suporte mútuo.

Que o nosso Deus continue falando aos nossos corações por meio da Sua Palavra, nos conduzindo a viver como sal da terra e luz do mundo, refletindo o Seu caráter e anunciando o Seu Reino com fidelidade, até que Ele seja glorificado em todas as coisas.


Missionária Oriana Costa.


Antes de escolher os apóstolos - Parte 3.5 - O Sermão da montanha

Dando continuidade ao nosso estudo do Evangelho de Mateus, agora prosseguimos com uma parte bastante sensível do ensino de Cristo no Sermão ...