quinta-feira, 19 de março de 2026

Antes de escolher os apóstolos - Parte 3.3 - O Sermão da montanha.



Dando continuidade ao estudo do Evangelho de Mateus, vamos analisar a parte do Sermão da Montanha em que o Senhor Jesus alerta sobre o cumprimento da Lei Mosaica.

Vejamos o trecho a seguir:

Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim aboli-los, mas cumpri-los. Em verdade lhes digo que, até que os céus e a terra desapareçam, de forma alguma desaparecerá da lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra. Portanto, todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no reino dos céus, mas todo aquele que praticar e ensinar esses mandamentos será chamado grande no reino dos céus. Pois eu digo que, se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e à dos mestres da lei, de modo nenhum entrarão no reino dos céus. (Mateus 5:17-20, NVI)

É importante que possamos compreender bem esse trecho, pois isso nos ajuda a enxergar o propósito pelo qual Cristo foi enviado a este mundo.

Nessa parte do Seu ensino, o Rei Jesus pontua quatro aspectos importantes:

•A Lei que Deus entregou aos israelitas por meio de Moisés será totalmente cumprida.

•Quem desobedecer a qualquer um dos mandamentos dessa Lei, ainda que dos menores, e ensinar outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus.

•Quem obedecer a todos os mandamentos e ensiná-los sem pervertê-los será chamado grande no Reino dos céus.

•Para entrar no Reino dos céus, é necessário ser muito mais justo do que os escribas e fariseus daquela época.

Muitas pessoas, por não compreenderem o verdadeiro propósito da Lei Mosaica, chegam a conclusões equivocadas tanto sobre o seu cumprimento quanto sobre o tipo de justiça a que o Senhor Jesus se refere.

É importante saber que é impossível obter justificação diante de Deus pelo cumprimento da Lei Mosaica. Deus a entregou ao povo de Israel não para justificar aquelas pessoas por meio dela — até porque ninguém consegue cumpri-la sem falhar em algum ponto —, mas com a finalidade de preparar o povo, ao longo dos séculos, para receber Aquele que pudesse cumpri-la em verdade, e, por meio dEle, finalmente, o povo receber a justificação dos seus pecados diante do Pai.

A Lei Mosaica, portanto, aponta a realidade do pecado que está sobre toda a humanidade e mostra a necessidade de uma intervenção divina para a justificação de todas as transgressões que cometemos contra a reta justiça de Deus.

Isso podemos confirmar nos trechos bíblicos abaixo:

Pois quem obedece a toda a lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna‑se culpado de quebrá‑la inteiramente. Porque aquele que disse: “Não adultere” também disse: “Não assassine”. Se você não comete adultério, mas comete assassinato, torna‑se transgressor da lei. (Tiago 2:10-11, NVI)

Nós, judeus de nascimento, não gentios pecadores, sabemos que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas sim pela fé em Jesus Cristo; assim, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, não pelas obras da lei, porque pelas obras da lei ninguém será justificado. (Gálatas 2:15-16, NVI)

Pois todos os que vivem na prática da lei estão debaixo de maldição, pois está escrito: “Maldito seja todo aquele que não persiste em praticar todas as coisas escritas no livro da lei”. É evidente que diante de Deus ninguém é justificado pela lei, pois “o justo viverá pela fé”. A LEI NÃO SE BASEIA NA FÉ, mas “o homem que praticar essas coisas viverá por meio delas”. Cristo nos redimiu da maldição da lei quando se tornou maldição no nosso lugar, pois está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado em um madeiro”. Isso para que, em Cristo Jesus, a bênção de Abraão chegasse também aos gentios, para que recebêssemos a promessa do Espírito por meio da fé. (Gálatas 3:10-14, NVI)

Jesus menciona os escribas e fariseus chamando a atenção para o requisito "justiça", justamente por causa da aparência de integridade que eles mantinham dentro da sociedade israelita.

Esses homens conheciam o conteúdo da Torah de forma profunda, faziam grande esforço para aparentar integridade aos olhos de todos, porém cumpriam os mandamentos sem entendê-los plenamente. 

Além disso, como o próprio Jesus apontou em outras falas ao longo de seu ministério terreno, não conseguiam cumpri-los à risca. Assim, o único que conseguiu cumprir todos os mandamentos da Lei Mosaica sem falhar foi Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus. 

Dessa forma, somente por meio da fé nEle temos acesso à verdadeira e única justificação dos pecados.

E agora, para encerrar esta parte do nosso estudo, surge uma pergunta importante: se a Lei Mosaica só pode ser cumprida por Cristo, e nós nunca conseguiríamos cumpri-la, existe alguma outra Lei ou mandamento que Deus tenha instituído para aqueles que estão recebendo a justificação de seus pecados pela fé em Jesus?

A resposta é: sim, existe. 

E nós podemos cumpri-la quando decidimos aprender e colocar em prática o ensino de Cristo, contido ao longo do Novo Testamento, nos evangelhos e nas cartas dos apóstolos.

O Senhor Jesus falou desse "novo mandamento" pouco antes de ser preso e crucificado, quando, reunido na celebração da sua última Páscoa com seus discípulos, explicava os acontecimentos que estavam prestes a ocorrer:

Depois que Judas saiu, Jesus disse: ― Agora o Filho do homem foi glorificado, e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, Deus também glorificará o Filho nele mesmo e o fará em breve. ― Meus filhinhos, estarei com vocês apenas um pouco mais. Vocês procurarão por mim e, como eu disse aos judeus, agora digo a vocês: Para onde eu vou, vocês não podem ir. ― Um novo mandamento dou a vocês: Amem uns aos outros. COMO EU OS AMEI, vocês devem amar uns aos outros. Deste modo todos saberão que são meus discípulos: se vocês amarem uns aos outros. (João 13:31-35, NVI)

Esse "amor" ao qual Cristo se refere não é apenas um sentimento, como normalmente entendemos, mas a expressão prática de princípios estabelecidos por Deus. Esses princípios revelam o caráter do próprio Deus e, portanto, também o caráter de Cristo. Tudo o que foi criado está debaixo dessa ordem, pois tudo existe e funciona por meio dela.

É importante compreender que esses mandamentos que formam o Amor de Deus constituem a realidade que governa o Reino de Deus, sendo o conhecimento deles essencial para todo aquele que, pela fé em Jesus Cristo, se torna cidadão desse Reino.

Por isso, quando ensinou seus seguidores no Sermão do Monte, Jesus incentivou-os a buscarem o entendimento do Reino de Deus e da sua justiça:

Portanto, não se preocupem, dizendo: “O que comeremos?”, “O que beberemos?” ou “O que vestiremos?”. Pois os gentios é que correm atrás dessas coisas, mas o Pai celestial de vocês sabe que precisam delas. Busquem, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês. (Mateus 6:31-33, NVI)

E o apóstolo Paulo reforça essa mesma direção:

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, dediquem‑se às coisas que são do alto, onde Cristo está, assentado à direita de Deus. Pensem nas coisas do alto, não nas coisas da terra. Pois vocês morreram, e a vida de vocês está escondida com Cristo em Deus. (Colossenses 3:1-3, NVI)

Aceitar Jesus Cristo como Senhor e Salvador e permanecer ignorante quanto à realidade do Reino de Deus leva o indivíduo a viver em constante transgressão. Embora isso não implique na perda da cidadania no Reino, pode resultar em consequências e disciplina, decorrentes de uma vida sem arrependimento genuíno.

Para finalizar nosso estudo, vejamos dois trechos que explicam essa realidade:

Examine cada um a si mesmo e, então, coma do pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor come e bebe para o seu próprio juízo. Por isso, há entre vocês muitos fracos e doentes, e vários já dormiram. Mas, se examinássemos a nós mesmos, não receberíamos juízo. Contudo, sendo julgados pelo Senhor, somos disciplinados para que não sejamos condenados com o mundo. (1Coríntios 11:28-32, NVI)

Meus filhinhos, escrevo a vocês estas coisas para que não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a expiação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. Desta forma sabemos que o conhecemos: se obedecemos aos seus mandamentos. Aquele que diz: “Eu o conheço”, mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele. Mas, se alguém obedece à sua palavra, nele verdadeiramente o amor de Deus está aperfeiçoado. Desta forma sabemos que estamos nele: quem afirma que permanece nele deve andar como ele andou. (1João 2:1-6, NVI)

Diante de tudo isso, fica claro que a nossa relação com Deus não está fundamentada na nossa capacidade de cumprir perfeitamente a Lei, mas na obra completa de Cristo.

No entanto, essa verdade não nos conduz à negligência, mas a uma vida de consciência, aprendizado e prática dos princípios do Reino.

Sabemos que falharemos em muitos momentos, pois estamos numa luta constante entre a carne e o espírito, mas também sabemos que não estamos desamparados. Temos um intercessor diante do Pai, Jesus Cristo, o Justo, e somos constantemente chamados ao arrependimento e à transformação.

Isso deve gerar em nós não medo, mas reverência; não insegurança, mas dependência de Deus.

Viver em conformidade com o Reino é, portanto, um caminho de crescimento contínuo, onde aprendemos a andar como Cristo andou, confiando que Aquele que começou a boa obra em nós é fiel para completá-la.

Missionária Oriana Costa.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Antes de escolher os apóstolos - Parte 3.2 - O sermão da montanha


Continuando nosso estudo do Evangelho de Mateus, agora no Sermão da Montanha, vamos analisar o momento em que o Senhor Jesus compara aqueles que escolhem segui-lo ao sal e à luz.

Vejamos o trecho que se encontra no Evangelho de Mateus:

Vocês são o sal da terra. Mas, se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens. Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E também ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Pelo contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus. (Mateus 5:13-16)

A comparação que o Senhor Jesus faz do seu povo com o sal e com a luz é, em primeiro lugar, um alerta para que aqueles que decidem segui-lo não recuem do seu chamado na anunciação do Seu Reino.

É muito comum que, em meio às perseguições e desafios na obra de Deus, surja a vontade de desistir, parar ou esconder-se. No entanto, Cristo deixa claro que aqueles que têm em seu coração a mensagem do evangelho jamais devem deixar de anunciá-la.

Muitos podem pensar que, quando o Senhor fala de "boas obras" nesse trecho, está se referindo apenas a obras de caridade. No entanto, essas boas obras também dizem respeito ao trabalho de anunciação da mensagem de salvação e do Reino de Deus. E Ele afirma que a realização desse trabalho faz com que outros glorifiquem a Deus.

A proclamação do Reino de Deus traz consigo a manifestação de sinais, prodígios e maravilhas, como curas, libertação de vícios e de diversas opressões, confirmando que a mensagem anunciada é verdadeira.

Além disso, o comportamento daqueles que anunciam o Reino chama a atenção por ser diferente do padrão do mundo: livre de preconceitos, religiosidade vazia, misticismo, soberba e impurezas, estando alinhado com a reta justiça de Deus, que é o Seu amor.

Quando o Senhor Jesus faz a comparação com o sal, ao se referir à postura daqueles que anunciam o Seu Reino, Ele também aponta para essa maneira diferenciada de viver, que evidencia misericórdia, perdão, imparcialidade, paciência, prudência, generosidade, honestidade, sinceridade e disposição para ajudar e socorrer — entre tantas outras virtudes do Espírito.

As Escrituras apresentam várias referências sobre essa postura, comparada ao sal. Uma delas se encontra na carta do apóstolo Paulo aos Colossenses:

Sejam sábios no procedimento para com os de fora; aproveitem ao máximo todas as oportunidades. O seu falar seja sempre agradável e temperado com sal, para que saibam como responder a cada um. (Colossenses 4:5-6)

Assim, ser sal e ser luz, de acordo com as palavras de Jesus Cristo, são características daqueles que verdadeiramente buscam alinhar-se ao Seu Reino e à Sua reta justiça, bem como anunciá-lo ao mundo.

No Evangelho de Marcos encontramos também:

O sal é bom, mas, se deixar de ser salgado, como restaurar o seu sabor? Tenham sal em vocês mesmos e vivam em paz uns com os outros. (Marcos 9:50)

Aqui, Cristo revela que, se tivermos "sal" em nossos corações, poderemos viver em paz uns com os outros. O sal, portanto, também aponta para o fruto do Espírito, que inclui, entre outras virtudes, a paz (veja Gálatas 5:22; Tiago 3:17-18).

Em relação ao trecho em que o Senhor Jesus fala sobre o sal perder o sabor, Ele chama a atenção para as consequências de conhecermos a mensagem do Reino de Deus e não a anunciarmos, seja por meio das nossas atitudes diárias, seja pelo cumprimento do chamado de Deus em nossas vidas.

Na realidade física, quando o sal perde o sabor, ele não se torna totalmente inútil, pois ainda pode ser usado, por exemplo, para ajudar a derreter neve em países frios. Esse efeito ocorre porque o sal diminui a temperatura de fusão da água.

Entretanto, no contexto ensinado por Jesus, a ênfase está no prejuízo de perder a principal função do sal. Da mesma forma, Deus espera que Seu povo faça a diferença onde estiver, refletindo o Seu Reino por meio das suas ações e anunciando-o conforme foi capacitado.

Quando esse fruto não é manifestado na vida de um cristão, ele deixa de usufruir das bênçãos relacionadas à vida no Reino e passa a colher as consequências de não andar em conformidade com a justiça de Deus.

Agora, falando da "luz" com a qual o Senhor compara o Seu povo, as Escrituras também apresentam diversas referências:

Porque antes vocês eram trevas, mas agora são luz no Senhor. Vivam como filhos da luz — pois o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade — e aprendam a discernir o que é agradável ao Senhor. (Efésios 5:8-10)

Esta é a mensagem que dele ouvimos e transmitimos a vocês: Deus é luz; nele não há treva alguma. Se afirmarmos que temos comunhão com ele, mas andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. (1 João 1:5-7)

Quem afirma estar na luz, mas odeia seu irmão, continua nas trevas. Quem ama seu irmão permanece na luz, e nele não há causa de tropeço. Mas quem odeia seu irmão está nas trevas, anda nas trevas e não sabe para onde vai, porque as trevas o cegaram. (1 João 2:9-11)

Ao analisarmos esses textos, percebemos que aqueles que são luz, segundo o ensino de Cristo, evidenciam alguns princípios fundamentais:

•Vivem em bondade, justiça e verdade, buscando discernir o que agrada ao Senhor — ou seja, vivem segundo a realidade do Reino de Deus, e não segundo o padrão do mundo.

•Buscam viver em comunhão com os irmãos em Cristo, compreendendo a importância da vida em unidade. O afastamento da comunhão tende a enfraquecer a fé, diminuir o confronto com a Palavra e, consequentemente, o arrependimento e a transformação.

•Amam seus irmãos, expressando esse amor por meio do cuidado, do perdão, da intercessão, da exortação e do suporte mútuo.

Que o nosso Deus continue falando aos nossos corações por meio da Sua Palavra, nos conduzindo a viver como sal da terra e luz do mundo, refletindo o Seu caráter e anunciando o Seu Reino com fidelidade, até que Ele seja glorificado em todas as coisas.


Missionária Oriana Costa.


quinta-feira, 22 de junho de 2023

Antes de escolher os Apóstolos - Parte 3.1 - O Sermão da montanha


Neste estudo vamos iniciar a análise de um dos momentos em que o Senhor Jesus começa a explicar com mais detalhes alguns princípios importantes do Seu Reino para os seus discípulos e seguidores. 

Esse evento ficou conhecido como "O Sermão da Montanha" ou "O Sermão do Monte", porque aconteceu quando o Senhor estava acampado no sopé de um monte situado de frente para o mar da Galiléia, próximo da cidade de Carfanaum. Hoje esse lugar é chamado de Monte das Beatitudes ou Monte das Bem-aventuranças.

O Sermão da Montanha consta nos Evangelhos de Mateus e Lucas, e um pequeno trecho desse discurso também pode ser achado no evangelho de Marcos (Mc 9:41-50). Porém, esse ensino foi melhor detalhado pelo Apóstolo Mateus (o ex-publicano Levi), visto que ele seguiu Jesus no tempo de Seu ministério terreno.

Sempre é bom lembrar que o público para o qual Jesus Cristo estava se dirigindo em sua época era judeu em sua maioria. Não existia cristãos naquele momento nem a Bíblia como hoje a conhecemos. A linguagem que o Senhor usava para falar com aquelas pessoas estava de acordo com o conteúdo da Torah, e obviamente, acordava com a cultura e os costumes judaicos, que eram, e ainda hoje são, muito diferentes dos usos e costumes ocidentais atuais.

Então, quando se dirigiu ao povo, Cristo foi lhes passando as seguintes instruções:

"Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Seus discípulos aproximaram-se dele, e ele começou a ensiná-los, dizendo "Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus; bem-aventurados os que choram, pois serão consolados; bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos; bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia; bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus; bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus; bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês"."(Mateus 5:1-12)

No Evangelho de Lucas vamos ler o seguinte:

"Olhando para os seus discípulos, ele disse: "Bem-aventurados vocês os pobres, pois a vocês pertence o Reino de Deus. Bem-aventurados vocês, que agora têm fome, pois serão satisfeitos. Bem-aventurados vocês, que agora choram, pois haverão de rir. Bem-aventurados serão vocês, quando os odiarem, expulsarem e insultarem, e eliminarem o nome de vocês, como sendo mau, por causa do Filho do homem. "Regozijem-se nesse dia e saltem de alegria, porque grande é a recompensa de vocês no céu. Pois assim os antepassados deles trataram os profetas. "Mas ai de vocês, os ricos, pois já receberam sua consolação. Ai de vocês, que agora têm fartura, porque passarão fome. Ai de vocês, que agora riem, pois haverão de se lamentar e chorar. Ai de vocês, quando todos falarem bem de vocês, pois assim os antepassados deles trataram os falsos profetas"". (Lucas 6:20-26)

As palavras do Senhor no Sermão da Montanha estão especialmente relacionadas com alguns pontos da Lei mosaica e também com o que fora dito pelos profetas que haviam sidos chamados por Deus no passado para falar em Seu Nome ao povo de Israel. 

Nessa parte inicial do sermão, Ele confirma muito do que foi dito através do profeta Isaías (Veja os capítulos 5, 61, 65 e 66), como também alguns trechos do livro de Salmos (Veja Sl 24:3,4; Sl 107:8,9; Sl 72:1,2).

De fato, o discurso de Jesus ali já se inicia com uma novidade, chamando a atenção da multidão para a ligação que existe entre o que está nas escrituras e o Reino de Deus, lugar este que permaneceu ignorado pelos judeus por séculos. E especialmente naquele momento os líderes religiosos não conseguiam entender o que as escrituras falavam sobre esse lugar, e, portanto, jamais poderiam ensinar o povo sobre tal assunto.

Como o trabalho de Jesus era focado em anunciar o Seu Reino e a Sua reta justiça, fica mais fácil entender as "Bem-aventuranças" que Ele pontua nos trechos que estamos analisando em nosso estudo. Nelas Cristo está chamando a atenção para o fato de que a postura das pessoas que escolhem viver segundo os preceitos da reta justiça de Deus e rejeitam a maldade mundana leva esses indivíduos a serem abençoados, especialmente se sofrerem no mundo por causa desse comportamento diferenciado. 

Por exemplo, quando Ele fala que bem-aventurados são os "pobres em espírito", porque a eles pertencem o Reino de Deus, está deixando claro que todos os que não tiverem apego às riquezas seculares por valorizarem mais a realidade eterna, ainda que possuam bens materiais no mundo, são herdeiras do Seu Reino.

Da mesma forma, ao falar dos que choram, dos humildes, dos que tem fome e sede de justiça, dos misericordiosos, dos puros de coração, dos pacificadores e dos perseguidos, Cristo está se referindo a todas as pessoas que escolheram viver nesse mundo mau em função do Seu Reino e da Sua justiça, reconhecendo a autoridade que há em Seu Nome.

Algumas pessoas, ao lerem o discurso do Senhor Jesus no Sermão montanha, por não entenderem que ali Cristo está focando na realidade de Seu Reino e falando dos indivíduos que escolhem viver no mundo pelos preceitos desse lugar, podem interpretar erroneamente suas palavras.

Especialmente quando o Senhor fala dos que tem fome e sede de justiça, Ele não está se referindo aquelas pessoas que sofreram algum dano no mundo e estão se sentindo injustiçadas, mas está falando daqueles indivíduos que desejam ardentemente conhecer a Deus, que estão famintos e sedentos dele, ou de pessoas que estão em trevas mas desejam de todo o coração ser libertas (veja o contexto da escravidão do povo de Israel no Egito no Salmo 107).

Escolher andar segundo os preceitos do Reino de Deus no mundo não é uma decisão fácil, pois requer renuncia dos desejos carnais, das vaidades e até mesmo a renuncia da realização de alguns sonhos que foram nutridos no coração antes do indivíduo conhecer a Cristo de verdade. Além do fato de gerar uma forte repulsa dos que não creem em Deus, a ponto disso custar até mesmo a vida dos que creem nele.

Por isso, essa escolha leva a um sofrimento ao qual o Senhor Jesus ressalta que não será em vão, e terá grande recompensa. 

Porém, para aquelas pessoas que decidem viver segundo a justiça e a sabedoria do mundo, e estão acomodadas aos prazeres da realidade mundana e se satisfazendo com eles, virá juízo na eternidade; pois, quem escolhe viver pela realidade do mundo não se importa em vigiar sua conduta para se alinhar aos preceitos da justiça de Deus, e, portanto, não se arrepende de suas transgressões contra ela. Desta forma, o indivíduo se comporta como inimigo de Deus e está negando a Cristo publicamente.

Mas, apesar disso, Deus não deseja absolutamente o mal dessas pessoas e não deseja de forma alguma condená- las. Na verdade, Ele tem profunda compaixão de quem não o conhece e tem sofrido por causa disso, e essa misericórdia Cristo mostrou de forma palpável enquanto esteve andando entre nós. Muitos testemunharam o quanto Deus está disposto a nos perdoar e livrar. E até agora este perdão está disponível para quem desejar acessá-lo.

A verdade é que Deus deseja que todos enxerguem o que realmente está acontecendo, e o que estamos colhendo por agir de forma contrária aos preceitos estabelecidos desde a criação do universo, pois tudo o que fazemos contra a reta justiça divina é por ignorá-la totalmente. 

Também é importante saber que não é pelo fato de alguém frequentar uma igreja ou mesmo participar dos trabalhos eclesiásticos que será um real seguidor de Jesus Cristo. Uma pessoa religiosa necessariamente não é uma seguidora de Jesus. Os fariseus eram os que mais demonstravam guardar a Lei mosaica e cumprí-la, no entanto, seus corações não estavam em Deus e sim nos deleites que o mundo lhes proporcionava.

Para concluir nosso raciocínio, vejamos o que está escrito no Salmo 37, sobre "os humildes" aos quais Cristo se refere:

"Não se aborreça por causa dos homens maus e não tenha inveja dos perversos; pois como o capim logo secarão, como a relva verde logo murcharão. Confie no Senhor e faça o bem; assim você habitará na terra e desfrutará segurança. Deleite-se no Senhor, e ele atenderá aos desejos do seu coração. Entregue o seu caminho ao Senhor; confie nele, e ele agirá: Ele deixará claro como a alvorada que você é justo, e como o sol do meio-dia que você é inocente. Descanse no Senhor e aguarde por ele com paciência; não se aborreça com o sucesso dos outros, nem com aqueles que maquinam o mal. Evite a ira e rejeite a fúria; não se irrite: isso só leva ao mal. Pois os maus serão eliminados, mas os que esperam no Senhor receberão a terra por herança. Um pouco de tempo, e os ímpios não mais existirão; por mais que os procure, não serão encontrados. Mas os humildes receberão a terra por herança e desfrutarão pleno bem-estar." (Salmos 37:1-11)

Então, essas pessoas humildes são aquelas que, por causa do Nome de Jesus e de Seu Reino, escolhem não se aborrecer com a maldade dos homens e não invejar a prosperidade dos que pervertem a justiça de Deus. São aquelas que, por causa do Reino, perseveram em fazer o bem por confiar no Senhor, e se deleitam nele, entregando a Ele os seus caminhos. São aquelas que, para honrar o nome de Jesus, descansam em Deus aguardando por Ele com paciência e que, por isso, não agem movidos por ira ou fúria, e não se vingam de si mesmos dos que lhes fazem mal.

Missionária Oriana Costa.




quarta-feira, 15 de março de 2023

Antes de escolher os Apóstolos - Parte 2 - Na casa de Simão


Dando continuidade ao nosso estudo, prosseguiremos com a análise dos fatos ocorridos durante o tempo que antecedeu a escolha dos Apóstolos por Jesus. Neste texto vamos estudar o momento em que o Senhor deixa a sinagoga de Carfanaum e segue rumo à casa de Simão e André.

Vejamos o trecho abaixo:

"Logo que saíram da sinagoga, foram com Tiago e João à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre, e falaram a respeito dela a Jesus. Então ele se aproximou dela, tomou-a pela mão e ajudou-a a levantar-se. A febre a deixou, e ela começou a servi-los. Ao anoitecer, depois do pôr-do-sol, o povo levou a Jesus todos os doentes e os endemoninhados. Toda a cidade se reuniu à porta da casa, e Jesus curou muitos que sofriam de várias doenças. Também expulsou muitos demônios; não permitia, porém, que estes falassem, porque sabiam quem ele era. De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus levantou-se, saiu de casa e foi para um lugar deserto, onde ficou orando. Simão e seus companheiros foram procurá-lo e, ao encontrá-lo, disseram: "Todos estão te procurando!" Jesus respondeu: "Vamos para outro lugar, para os povoados vizinhos, para que também lá eu pregue. Foi para isso que eu vim". Então ele percorreu toda a Galiléia, pregando nas sinagogas e expulsando os demônios. (Marcos 1:29-39)

No Evangelho de Lucas também encontramos um trecho similar (Lc 4:38-44), que traz algumas informações complementares. 

Após a leitura desse trecho, sabemos que a febre que a sogra de Simão tinha era alta, e que Jesus repreendeu a febre antes de ajudar aquela senhora a se levantar. Esse trecho também mostra que Jesus estava curando os enfermos impondo as mãos sobre eles, e que quando os demônios saiam após a ordem do Senhor, alguns gritavam anunciando "Tu és o Filho de Deus", pois sabiam que Ele era o Cristo.

Nesse trecho também observamos que não foi somente Simão e seus companheiros que saíram à procura de Jesus, mas, na realidade, as multidões saíram à procura dEle, após Ele ter se afastado para um local deserto a fim de orar. As pessoas estavam ansiosas por cura e libertação, coisas que os médicos daquela época, os fariseus e mestres da lei, tampouco o império romano poderia lhes dar.

No entanto, nesse episódio podemos notar que, apesar de poder curar as pessoas e libertar os endemoniados, esse trabalho não era a prioridade de Jesus Cristo. O Senhor não estava sendo insensível ou ficou muito cansado, por ter se afastado previamente das multidões que iriam lhe procurar ali. 

Ele sabia da necessidade das pessoas e do sofrimento delas, mas tinha uma tarefa ainda maior e mais importante a realizar, que era a anunciação das boas novas de Seu Reino e, depois disso, entregar seu corpo em sacrifício pela justificação de todos espiritualmente. 

De fato, quando alguém se arrepende de seus pecados e entra no Reino de Deus pela fé em Jesus Cristo, passa a ter manifesta em sua vida a realidade desse lugar: saúde, paz, provisão, segurança, alegria, liberdade no espírito, ou seja, a vida abundante que há nesse lugar se manifesta no indivíduo; e isso o Senhor Jesus ensinava sempre, apesar de que a maioria não entendia bem o que Ele dizia.

O Senhor Jesus deixou claro que tinha sido enviado para "pregar", naquele momento em que estava entre nós fisicamente. Os milagres e prodígios que aconteciam, portanto, eram para testificar que a mensagem anunciada por Ele era verdadeira, e que o Pai estava realmente cumprindo sua promessa com relação à salvação da humanidade.


Missionária Oriana Costa.








segunda-feira, 13 de março de 2023

Antes de escolher os Apóstolos - parte 1 - Na sinagoga de Carfanaum


Aqui vamos dar início ao estudo dos eventos que se sucederam até o momento em que o Senhor Jesus finalmente separa dentre os seus seguidores aqueles que formariam sua equipe de doze apóstolos.

Por comparação, observamos que no Evangelho de Mateus há uma lacuna entre o momento em que Cristo passa a morar em Carfanaum e o episódio do Sermão da montanha, que acontece dias, semanas ou meses depois.

Portanto, neste e em estudos seguintes, iremos usar mais os outros três evangelhos, a fim de entendermos como as coisas foram acontecendo, até chegarmos ao momento do Sermão da montanha. Depois desse evento, portanto, passaremos a incluir o Evangelho de Mateus em nossas análises até chegarmos ao ponto onde o Senhor Jesus nomeia seus doze apóstolos.

No Evangelho de Marcos, lemos o seguinte:

Eles foram para Cafarnaum e, assim que chegou o sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Todos ficavam maravilhados com o seu ensino, porque lhes ensinava como alguém que tem autoridade e não como os mestres da lei. Justamente naquela hora, na sinagoga, um homem possesso de um espírito imundo gritou: "O que queres conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Sei quem tu és: o Santo de Deus!" "Cale-se e saia dele!", repreendeu-o Jesus. O espírito imundo sacudiu o homem violentamente e saiu dele gritando. Todos ficaram tão admirados que perguntavam uns aos outros: "O que é isto? Um novo ensino — e com autoridade! Até aos espíritos imundos ele dá ordens, e eles lhe obedecem!" As notícias a seu respeito se espalharam rapidamente por toda a região da Galiléia. (Marcos 1:21-28)

No Evangelho de Lucas (Lc 4:31-37) também encontramos um trecho similar, confirmando esse episódio. Ali, Cristo mostrou a todos a autoridade que tinha, expulsando um demônio de um homem que estava possesso dentro da sinagoga. Lembrando que o ato de expulsar demônios não é um milagre, e sim um sinal de autoridade.

No Evangelho de João há um breve trecho referente à mudança de residência de Jesus, de Nazaré para Carfanaum, mostrando que Ele não foi morar lá sozinho, mas sua família foi com ele, como também os muitos discípulos que Ele tinha o acompanharam. Veja em João 2:12.

Voltando a nossa análise, essa é a primeira descrição contida nos evangelhos na qual Jesus liberta pessoas endemoniadas. É interessante notar que, nesse evento, a pessoa possessa se dirigiu a Jesus gritando enquanto Ele ensinava na sinagoga naquele sábado, e que a reação do Senhor foi rápida, apenas ordenando para que a entidade saísse dela.

Muito provavelmente, a temática abordada por Cristo naquele momento era exatamente o ponto fraco daquele homem, e que estava dando ocasião para que aquele demônio encontrasse espaço para agir pela vida daquele indivíduo. 

Como lemos na narrativa de Marcos, Jesus Cristo ensinava com autoridade e não como os mestres da lei. Isso quer dizer que Ele conhecia profundamente o conteúdo que abordava, e o transmitia a todos com segurança no falar, de forma clara.

Isso acontecia porque aquilo que o Senhor Jesus falava não era somente os conteúdos da Lei e dos Profetas decorados, mas Ele aplicava esse conhecimento diretamente ao cotidiano das pessoas, expondo também a realidade espiritual envolvida nos mandamentos e avisos profeticos, assim mostrando claramente a todos qual era a vontade do Pai naqueles decretos e alertas.

A forma como Jesus expôs o conhecimento das escrituras contrariou em muitos aspectos a maneira como os judeus estavam acostumados a ver e usar aquele conteúdo, isso porque eles estavam enganados sobre o sentido dele. Essa realidade podemos ver claramente na abordagem que o Senhor faz no Sermão da montanha, por exemplo, mostrando as pessoas o verdadeiro sentido de alguns mandamentos contidos nos livros da Lei. Por isso, após ouvirem o Senhor falar, as pessoas se maravilhavam e achavam que Cristo estava trazendo a elas um novo conhecimento.

Desse modo, ao contrário dos fariseus e mestres da lei, que usavam as escrituras para forçar o povo a ficar debaixo de suas lideranças, trazendo medo e condenação a elas, Cristo somente lhes mostrava o verdadeiro sentido daquelas palavras, e isso fazia com que a realidade espiritual se manifestasse de uma forma intensa onde Ele estava, com operação de muitos prodígios e milagres.

Então, era dessa maneira que Ele apresentava a realidade do Seu Reino, levando aqueles que criam nEle ao arrependimento sincero de seus pecados. A importância do arrependimento de pecados está no fato de que somente essa ação leva as pessoas a fecharem a porta de suas vidas para entidades malignas entrarem e fazerem morada. Foi por esse motivo que o demônio se manifestou na hora em que Cristo estava ensinando, na tentativa de impedir aquele homem de se arrepender e ser liberto. 


Missionária Oriana Costa.



sábado, 5 de novembro de 2022

Sigam-me - Considerações sobre Mateus capítulo 4 - Parte 3


Dando continuidade ao nosso estudo do Evangelho de Mateus, vamos analisar o período em que o Senhor Jesus começa a formar sua equipe, fazendo seus primeiros discípulos e, em seguida, escolhendo dentre eles aqueles que dariam continuidade ao trabalho de divulgação da mensagem do Reino e do cuidado daqueles que fossem se juntando à família de Deus.

Nessa fase Jesus viaja bastante, visita muitas cidades e povoados, entra nas sinagoas para ensinar, como também ensina às multidões em acampamentos, e, nesse processo, realiza muitos milagres por onde vai passando. Nos estudos seguintes veremos esses acontecimentos com mais detalhes.

Voltando para nossa análise, vamos entender como Jesus formou sua equipe de doze apóstolos. Mas, antes de prosseguir, é bom entendermos que a palavra "apóstolo" significa aquele que se dedica à defesa e propagação de uma doutrina ou de um ideal. E a palavra "discípulo" significa aprendiz, aluno receptivo a ensinamentos.

As palavras "apóstolo" e "discípulo" não são usadas unicamente no âmbito religioso, mas em quaisquer assuntos seculares em que alguém se dispõe a propagar determinados conceitos ou conhecimentos ainda desconhecidos ou não dominados pela maioria das pessoas, no caso do nome "apóstolo", e quando pessoas resolvem seguir determinado propagador de conceitos, doutrinas, filosofias ou conhecimentos, no caso do nome "discípulos".

Os apóstolos de Jesus Cristo, que também eram discípulos dele, foram preparados pelo Senhor para continuar a propagar oficialmente a mensagem do Reino de Deus como autoridades designadas pelo próprio Deus, depois de sua ascenção aos céus, e os demais discípulos, por conseguinte, seguiam aprendendo os preceitos do Reino e como praticá-los.

Então, voltando para a análise do Evangelho de Mateus, ao deixar Nazaré, a cidade onde morou desde a infância, para fixar residência em Carfanaum com sua mãe e seus irmãos (Mt 4:13-16), Jesus continua o trabalho de anunciação do Seu Reino, e segue atraindo muitos seguidores. 

Lembrando aqui que a cidade natal de Jesus não foi Nazaré, que ficava na província da Galiléia e sim Belém, situada na província da Judéia, e essa informação ficou esquecida durante o período do ministério de Jesus Cristo. Como Ele foi criado e morou até a fase adulta em Nazaré, era conhecido como Jesus de Nazaré e isso escondia dos judeus/fariseus que Ele era o Cristo, e que seu nascimento ocorreu conforme o que já estava predito nas escrituras em Miquéias 5:2.

Prosseguindo com nosso estudo, vejamos a seguir o que aconteceu no período em que Jesus sai de Nazaré para morar em Carfanaum:

"Daí em diante Jesus começou a pregar: "Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo". Andando à beira do mar da Galiléia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Eles estavam lançando redes ao mar, pois eram pescadores. E disse Jesus: "Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens". No mesmo instante eles deixaram as suas redes e o seguiram. Indo adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Eles estavam num barco com seu pai, Zebedeu, preparando as suas redes. Jesus os chamou, e eles, deixando imediatamente o barco e seu pai, o seguiram. E percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo. E a sua fama correu por toda a Síria, e traziam-lhe todos os que padeciam, acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos, e os paralíticos, e ele os curava. E seguia-o uma grande multidão da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia, e de além do Jordão."(Mateus 4:17-25)

Os outros três evangelhos fornecem informações complementares ao de Mateus, de como Cristo foi escolhendo dentre seus primeiros discípulos, aqueles que aprenderiam mais sobre o Reino de Deus a fim de anunciá-lo - veja em Marcos 1:14 até Marcos 3:19, Lucas 4:14 até Lucas 6:11 e João 1:35 até o capítulo 3.

Como os trechos para análise são muito longos, não serão todos transcritos aqui no nosso texto, mas vamos seguir comentando os acontecimentos por meio de uma comparação detalhada entre eles. 

O Evangelho de Marcos confirma o conteúdo do Evangelho de Mateus, onde Cristo, após deixar o deserto da Judéia, se dirigiu à região costeira da Galiléia a fim de chamar os dois irmãos filhos do pescador Jonas, André e Simão, e em seguida chamar mais outros dois irmãos, filhos do pescador Zebedeu, Tiago e João. 

Também nesse Evangelho vemos que Jesus chamou em Carfanaum a Levi (Mateus), filho de Alfeu, que era um publicano ou cobrador de impostos. No momento em que foi chamado por Cristo, Levi estava sentado na coletoria, o local onde os impostos dos israelitas eram recolhidos (veja também em Mt 9:9, Lc 5:27-29). 

Por fim, no capítulo 3 de Marcos, vemos que o Senhor Jesus sobe em um determinado monte para orar (o nome do monte não é falado no texto - veja também no capítulo 10 de Mateus e em Lucas 6:12-16) e ali nomeia oficialmente os seus doze apóstolos, dentre a multidão de discípulos que já o seguia voluntariamente, vindas de vários locais de Israel e de cidades circunvizinhas. 

Agora vejamos algumas curiosidades sobre como os discípulos que mais tarde formariam a equipe de 12 apóstolos foram chamados. De acordo com o relato dos Evangelhos, os nomes deles são Simão (Pedro, filho de Jonas) e seu irmão André, Tiago (filho de Zebedeu) e seu irmão João, Filipe, Bartolomeu (Natanael), Tomé (Dídimo), Mateus (Levi), Tiago (filho de Alfeu) e seu irmão Judas, Simão (Zelote) e Judas Iscariotes.

Ao lermos o Evangelho de João, encontraremos ainda outras informações adicionais, que detalham um pouco mais como foi que os primeiros discípulos conheceram o Senhor Jesus, e como passaram a seguir seus ensinamentos (sem ainda terem sido chamados pessoalmente por Ele):

"No dia seguinte João estava ali novamente com dois dos seus discípulos. Quando viu Jesus passando, disse: "Vejam! É o Cordeiro de Deus!" Ouvindo-o dizer isso, os dois discípulos seguiram a Jesus. Voltando-se e vendo Jesus que os dois o seguiam, perguntou-lhes: "O que vocês querem?" Eles disseram: "Rabi", (que significa Mestre), "onde estás hospedado?" Respondeu ele: "Venham e verão". Então foram, por volta das quatro horas da tarde, viram onde ele estava hospedado e passaram com ele aquele dia. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido o que João dissera e que haviam seguido a Jesus. O primeiro que ele encontrou foi Simão, seu irmão, e lhe disse: "Achamos o Messias" (isto é, o Cristo). E o levou a Jesus. Jesus olhou para ele e disse: "Você é Simão, filho de João. Será chamado Cefas" (que significa Pedro). No dia seguinte Jesus decidiu partir para a Galiléia. Quando encontrou Filipe, disse-lhe: "Siga-me". Filipe, como André e Pedro, era da cidade de Betsaida. Filipe encontrou Natanael e lhe disse: "Achamos aquele sobre quem Moisés escreveu na Lei, e a respeito de quem os profetas também escreveram: Jesus de Nazaré, filho de José". Perguntou Natanael: "Nazaré? Pode vir alguma coisa boa de lá?" Disse Filipe: "Venha e veja". Ao ver Natanael se aproximando, disse Jesus: "Aí está um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade"." (João 1:35-47)

Após uma leitura minuciosa dos quatro evangelhos vamos descobrir que Cristo não saiu chamando os seus discípulos mais  chegados sem conhecê-los previamente. Pelo menos dois deles, como é o caso dos filhos do pescador Jonas, André e Simão (Pedro), por exemplo, já conheciam Jesus pessoalmente antes dele passar os quarenta dias no deserto da Judéia, como sugere o Evangelho de João. 

Ao ler os evangelhos de Mateus e Marcos temos a impressão de que Jesus não tinha contato com seus primeiros discípulos antes de chamá-los, visto que o relato desse acontecimento se encontra bem resumido nesses dois primeiros evangelhos, com poucos detalhes. 

No entanto, conferindo o evangelho de Lucas, encontraremos um trecho interessante, mostrando como foi que André, Pedro, Tiago e João foram convencidos a deixar seus trabalhos de pescadores para atender o chamado de Jesus e seguí-lo. Vejamos o relato a seguir:

"Certo dia Jesus estava perto do lago de Genesaré, e uma multidão o comprimia de todos os lados para ouvir a palavra de Deus. Viu à beira do lago dois barcos, deixados ali pelos pescadores, que estavam lavando as suas redes. Entrou num dos barcos, o que pertencia a Simão, e pediu-lhe que o afastasse um pouco da praia. Então sentou-se, e do barco ensinava o povo. Tendo acabado de falar, disse a Simão: "Vá para onde as águas são mais fundas", e a todos: "Lancem as redes para a pesca". Simão respondeu: "Mestre, esforçamo-nos a noite inteira e não pegamos nada. Mas, porque és tu quem está dizendo isto, vou lançar as redes". Quando o fizeram, pegaram tal quantidade de peixe que as redes começaram a rasgar-se. Então fizeram sinais a seus companheiros no outro barco, para que viessem ajudá-lo; e eles vieram e encheram ambos os barcos, a ponto de quase começarem a afundar. Quando Simão Pedro viu isso, prostrou-se aos pés de Jesus e disse: "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!" Pois ele e todos os seus companheiros estavam perplexos com a pesca que haviam feito, como também Tiago e João, os filhos de Zebedeu, sócios de Simão. Então Jesus disse a Simão: "Não tenha medo; de agora em diante você será pescador de homens". Eles então arrastaram seus barcos para a praia, deixaram tudo e o seguiram." (Lucas 5:1-11)

O trecho acima mostra que os referidos discípulos já conheciam e seguiam Jesus antes desse acontecimento, sem, no entanto, serem muito próximos dele. 

Curiosamente, os Evangelhos de Mateus e Marcos passam a ideia de que logo após ser batizado por João Batista em Betânia, o Senhor foi para o deserto sem seguidores, e que, ao sair de lá, Ele soube que João estava preso e seguiu para Nazaré, cidade onde morava com sua família, e prosseguiu ainda sem seguidores. 

Porém, notamos que os evangelhos não deixam claro quanto tempo demorou entre o batismo de Jesus e sua ida ao deserto, e quanto tempo levou para que o Senhor ficasse sabendo que João tinha sido preso após ter saído do deserto da Judéia. Nesses intervalos, que podem ter durado uma semana ou mais, Jesus prosseguiu anunciando o Seu Reino e atraindo muitos seguidores onde passava.

Então, a narrativa contida entre os versículos 35 e 39 do primeiro capítulo do Evangelho de João aponta para um possível acontecimento anterior ao momento do deserto, e, por conseguinte, mostra que André e Simão provavelmente tiveram um encontro prévio com Jesus antes de serem convidados pessoalmente pelo Senhor a seguí-lo de perto, à beira do lago de Genesaré.

Quando o Senhor foi chamando pessoalmente aqueles que iriam fazer parte de sua equipe oficial de discípulos, tais individuos, juntos a um grande grupo de pessoas, provavelmente já acompanhavam assiduamente o seu trabalho.

Para fechar nosso estudo, vejamos os trechos biblicos onde somos informados que Jesus Cristo, após ser batizado por João Batista, atraiu um grande número de seguidores e não saiu batizando-os diretamente, assim como João fazia. No entanto, o Senhor autorizou seus discípulos a batizarem, conforme vemos abaixo:  

"Depois disso Jesus foi com os seus discípulos para a terra da Judéia, onde passou algum tempo com eles e batizava. João também estava batizando em Enom, perto de Salim, porque havia ali muitas águas, e o povo vinha para ser batizado. (Isto se deu antes de João ser preso.) Surgiu uma discussão entre alguns discípulos de João e um certo judeu, a respeito da purificação cerimonial. Eles se dirigiram a João e lhe disseram: "Mestre, aquele homem que estava contigo no outro lado do Jordão, do qual testemunhaste, está batizando, e todos estão se dirigindo a ele"."(João 3:22-26)

"Os fariseus ouviram falar que Jesus estava fazendo e batizando mais discípulos do que João, embora não fosse Jesus quem batizasse, mas os seus discípulos. Quando o Senhor ficou sabendo disso, saiu da Judéia e voltou uma vez mais à Galiléia." (João 4:1-3)

Com todas essas informações, concluímos que Jesus Cristo realmente já estava atraindo muitos seguidores ou discípulos logo após ser batizado por João Batista, provavelmente antes mesmo de passar os quarenta dias no deserto ou de iniciar a realização de milagres, por causa do Seu ensino.

Missionária Oriana Costa 

Postagem publicada em 30/12/2022


  





terça-feira, 13 de setembro de 2022

Jesus inicia seu ministério - Considerações sobre Mateus capítulo 4 - parte 2


Neste estudo vamos entender o que acontece com Cristo logo após o período de provação no deserto da Judéia (leia o estudo anterior Jejuando no deserto), onde Ele dá início ao seu ministério terreno.

Algum tempo depois do término de seu jejum, enquanto seguia anunciando o Seu Reino, o Senhor fica sabendo que João Batista tinha sido preso. Essa situação sinalizou para Cristo que o momento não era propício para Ele continuar na região da Judéia, pois, além de ser seu parente, a mensagem que seria anunciada por Jesus era similar a de João, e por causa disso Ele poderia ser igualmente detido por Herodes. 

Então, como ainda não havia chegado o tempo de ser preso e sacrificado, Cristo decidiu viajar de volta para Nazaré, na Galiléia, onde sua família estava, para lá continuar divulgando o Seu Reino, ensinando nas sinagogas e fazendo muitos milagres. 

Porém, antes de ir para Nazaré, o Senhor Jesus passou adiante e hospedou-se em Betsaida, uma cidade situada no litoral da Galiléia, onde Ele foi encontrar alguns homens que escolheria para serem seus discípulos mais chegados, que foram André e seu irmão, Simão Pedro, Filipe, Natanael, e os dois filhos de Zebedeu, Tiago e seu irmão João, como veremos nas informações a seguir:

"Andando à beira do mar da Galiléia, Jesus viu Simão e seu irmão André lançando redes ao mar, pois eram pescadores. E disse Jesus: "Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens". No mesmo instante eles deixaram as suas redes e o seguiram. Indo um pouco mais adiante, viu num barco Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, preparando as suas redes. Logo os chamou, e eles o seguiram, deixando Zebedeu, seu pai, com os empregados no barco." (Marcos 1:16-20)

Uma narrativa similar a esta de Marcos também pode ser encontrada no Evangelho de Mateus (Mt 4:18-22), confirmando os acontecimentos. Porém, o Evangelho de João nos fornece mais algumas informações complementares bem interessantes sobre esses momentos, dando detalhes de como e onde foi o encontro de Jesus com esses homens (Jo 1:35-51).

Vale salientar que no Evangelho de João não está claro que Jesus encontrou os discípulos depois de sair do deserto da Judéia. Nós podemos chegar a essa conclusão após fazermos uma boa comparação com as descrições similares contidas nos outros três evangelhos.

No entanto, há uma hipótese (o texto não deixa claro) de que os dois primeiros discípulos que Jesus encontrou, André e Simão, provavelmente já seguiam o Senhor à distância, antes dele ir para o deserto da Judéia. De acordo com o relato do Evangelho de João, esses dois irmãos eram discípulos de João Batista e, logo após o batismo de Jesus, viram João sinalizar que Ele era o cordeiro de Deus e começaram a seguí-lo (Jo 1:35-37). 

Continuando nosso estudo, após passar algum tempo em Nazaré, em seguida o Senhor Jesus vai para Carfanaum, dando continuidade ao Seu trabalho, como veremos no trecho abaixo:

"Quando Jesus ouviu que João tinha sido preso, voltou para a Galiléia. Saindo de Nazaré, foi viver em Cafarnaum, que ficava junto ao mar, na região de Zebulom e Naftali, para cumprir o que fora dito pelo profeta Isaías: "Terra de Zebulom e terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galiléia dos gentios; o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; sobre os que viviam na terra da sombra da morte raiou uma luz". Daí em diante Jesus começou a pregar: "Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo." (Mateus 4:12-17)

Nos Evangelhos de Marcos, Lucas e João também encontramos muitas informações complementares sobre o período inicial do trabalho de Cristo.

No Evangelho de Marcos, encontramos o seguinte:

"Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galiléia, proclamando as boas novas de Deus. "O tempo é chegado", dizia ele. "O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas!"" (Marcos 1:14,15)

Já no Evangelho de Lucas, encontramos um relato mais detalhado, como lemos abaixo:

"Então, pela virtude do Espírito, voltou Jesus para a Galiléia, e a sua fama correu por todas as terras em derredor. E ensinava nas suas sinagogas, e por todos era louvado. E, chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga, e levantou-se para ler. E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito: "O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados de coração, a pregar liberdade aos cativos, e restaurar a vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor." E, cerrando o livro, e tornando-o a dar ao ministro, assentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos. E todos lhe davam testemunho, e se maravilhavam das palavras de graça que saíam da sua boca; e diziam: Não é este o filho de José? E ele lhes disse: Sem dúvida me direis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo; faze também aqui na tua pátria tudo que ouvimos ter sido feito em Cafarnaum. E disse: Em verdade vos digo que nenhum profeta é bem recebido na sua pátria. Em verdade vos digo que muitas viúvas existiam em Israel nos dias de Elias, quando o céu se cerrou por três anos e seis meses, de sorte que em toda a terra houve grande fome; E a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a Sarepta de Sidom, a uma mulher viúva. E muitos leprosos havia em Israel no tempo do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o siro. E todos, na sinagoga, ouvindo estas coisas, se encheram de ira. E, levantando-se, o expulsaram da cidade, e o levaram até ao cume do monte em que a cidade deles estava edificada, para dali o precipitarem. Ele, porém, passando pelo meio deles, retirou-se. E desceu a Cafarnaum, cidade da Galiléia, e os ensinava nos sábados. E admiravam a sua doutrina porque a sua palavra era com autoridade." (Lucas 4:14-32)

Lucas nos mostra informações importantes sobre como se deu o início do ministério de Jesus Cristo. Somadas às narrativas dos outros Evangelhos, sabemos que o Senhor deixou o deserto da Judéia e foi para a Galiléia, dando início oficialmente ao seu ministério em uma sinagoga de Nazaré, já acompanhado de muitos seguidores, como veremos em estudos posteriores. 

E ali, apesar da sabedoria que demonstrou ter diante de todos e dos milagres que realizou por lá, as pessoas se enfureceram com ele ao serem confrontadas com a verdade dos fatos.

Vejamos abaixo onde está inserido o trecho do livro do profeta Isaías lido por Jesus Cristo na sinagoga de Nazaré:

"O Espírito do Soberano Senhor está sobre mim porque o Senhor ungiu-me para levar boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros, para proclamar o ano da bondade do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; para consolar todos os que andam tristes, e dar a todos os que choram em Sião uma bela coroa em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de pranto, e um manto de louvor em vez de espírito deprimido. Eles serão chamados carvalhos de justiça, plantio do Senhor, para manifestação da sua glória." (Isaías 61:1-3)

Após mencionar Isaías, Jesus lembrou a verdadeira situação dos israelitas diante de Deus, mostrando sua necessidade de arrependimento perante a desobediência e incredulidade que viviam. 

Por isso, seguiu falando da viúva da cidade de Sarepta, que ficava em Sidom, regiões do Império Fenício (veja a história em 1Reis 16:29-34, 1Reis 17) e de Naamã, comandante do exército Sírio (veja a história em 2Reis 5:1-19), que, apesar de serem de outras nações (gentios), foram abençoados no lugar dos israelitas por considerarem mais a Deus.

Então, ao iniciar a pregação da mensagem do Reino na cidade em que fora criado desde a mais tenra infância, onde residia até aquele momento, e num lugar onde todos conheciam sua família e sua boa reputação, Jesus foi rapidamente rejeitado e expulso simplesmente por falar a verdade. 

As pessoas não entenderam o que viram e ouviram de Jesus, pois estavam longe de Deus, com os corações endurecidos. Ele só não foi assassinado por ter sido livrado pelo Pai do ódio da multidão, passando pelo meio das pessoas sem ser visto. Essa foi a forma como o ministério terreno de Jesus Cristo começou.

Por causa da indignação dos judeus nazarenos, Jesus saiu daquela cidade e foi continuar seu trabalho em Carfanaum, se mudando com sua família e seus discípulos para lá. A ida de Jesus para essa cidade foi predita pelo profeta Isaias, como observamos na passagem do Evangelho de Mateus citada no início deste texto. Vejamos o trecho de Isaías completo:

"Mas a terra, que foi angustiada, não será entenebrecida; envileceu nos primeiros tempos, a terra de Zebulom, e a terra de Naftali; mas nos últimos tempos a enobreceu junto ao caminho do mar, além do Jordão, na Galiléia das nações. O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz." (Isaías 9:1,2)

Sobre os prodígios que Jesus fez enquanto ainda morava em Nazaré, no Evangelho de João encontramos um trecho que mostra o primeiro milagre feito por Jesus ao iniciar seu ministério, que ocorreu em um vilarejo daquela localidade: 

"No terceiro dia houve um casamento em Caná da Galiléia. A mãe de Jesus estava ali; Jesus e seus discípulos também haviam sido convidados para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: "Eles não têm mais vinho". Respondeu Jesus: "Que temos nós em comum, mulher? A minha hora ainda não chegou". Sua mãe disse aos serviçais: "Façam tudo o que ele lhes mandar". Ali perto havia seis potes de pedra, do tipo usado pelos judeus para as purificações cerimoniais; em cada pote cabia entre oitenta a cento e vinte litros. Disse Jesus aos serviçais: "Encham os potes com água". E os encheram até à borda. Então lhes disse: "Agora, levem um pouco do vinho ao encarregado da festa". Eles assim o fizeram, e o encarregado da festa provou a água que fora transformada em vinho, sem saber de onde este viera, embora o soubessem os serviçais que haviam tirado a água. Então chamou o noivo e disse: "Todos servem primeiro o melhor vinho e, depois que os convidados já beberam bastante, o vinho inferior é servido; mas você guardou o melhor até agora". Este sinal miraculoso, em Caná da Galiléia, foi o primeiro que Jesus realizou. Revelou assim a sua glória, e os seus discípulos creram nele." (João 2:1-11)

Caná era um pequeno vilarejo situado na cidade de Nazaré. As escrituras não deixam claro se Jesus fez esse milagre antes de ir à sinagoga naquela mesma cidade, onde leu o famoso trecho de Isaías (Is 61:1-3). 

Sobre o evento ocorrido no casamento em Caná, podemos fazer uma contextualização, para entendermos melhor o que ocorreu ali. 

Antes de mais nada, essa narrativa quebra um grande tabu sobre a ingestão de vinho (bebida alcoólica) dentre os cristãos, pois, de acordo com a história, Jesus realmente transformou água em vinho, que era a principal bebida servida nos casamentos judaicos daquela época. Se Cristo fosse contra a ingestão dessa bebida, e se realmente fosse pecado beber vinho, Ele jamais teria feito aquele prodígio.

O segundo ponto, é que Maria ainda não cria em Jesus como Messias naquela ocasião, segundo o relato dos Evangelhos. Ela só veio crer em Jesus dessa forma quando já estava próximo o momento do sacrifício dele na cruz. Nas bodas de Caná, ela comentou com Jesus que o vinho tinha acabado por ele ser o chefe da família (José já havia falecido), e acreditou que ele ajudaria a resolver o problema junto com os outros homens que estavam ali. O que ela não esperava é que Jesus resolveria o problema fazendo um milagre.

Sobre a resposta que Jesus deu a sua mãe "Que temos nós em comum, mulher? A minha hora ainda não chegou" (versão NVI), a colocação das palavras pode soar como uma falta de respeito ou uma grosseria da parte de Jesus, mas não foi isso o que aconteceu ali. 

De fato, Jesus chamou a atenção para algo espiritual quando disse "minha hora ainda não chegou", pois há um significado profético entre a cerimônia de um casamento judaico e o sacrifício de Jesus, e que Maria certamente não teria como entender naquele momento.

No casamento judaico, o vinho entrava em duas ocasiões. No primeiro momento, entrava no início do contrato de casamento, onde o noivo e a noiva bebiam o vinho no mesmo cálice, selando o pacto do noivado. Após um ou dois anos de preparação, os noivos novamente se encontravam para confirmar definitivamente o acordo no casamento, e voltavam a beber o vinho no mesmo cálice no primeiro dia da cerimônia, e esse cálice logo em seguida era quebrado. 

Maria comentou com Jesus que o vinho tinha acabado, esperando que Ele ajudasse a resolver o problema junto com os outros homens que estavam na festa. Mas, Jesus não estava vendo aquela situação da mesma forma que sua mãe, por isso disse "o que temos nós em comum?". 

Na verdade, o que Jesus estava querendo mesmo dizer a sua mãe era o seguinte: "você quer ofertar vinho para essa festa, mas o meu sangue é o vinho que todos realmente precisam para entrarem em aliança com o Pai, contudo, ainda não chegou a hora do meu sacrifício".

O que aconteceu bem depois daquele evento foi que Jesus estabeleceu uma aliança entre Ele e a Sua Noiva, que é o Seu Povo ou a Sua Igreja, quando bebeu vinho no mesmo cálice com os Apóstolos no momento da celebração da última Páscoa, onde ficou estabelecido o mandamento da Santa Ceia. 

Por isso, a celebração da Santa Ceia é tão importante, pois traz à memória que Jesus vai retornar para consumar sua aliança de Vida Eterna com Seu Povo para sempre.

Para o povo de Israel, o milagre da transformação de água em vinho nas bodas de Caná foi um sinal claro de que o Seu Justificador havia chegado, mas, que eles não foram capazes de entender. Curiosamente, a água e o vinho eram dois dos demais elementos que faziam parte dos rituais ordenados por Deus a Moisés para a purificação dos sacerdotes e do povo (Êx 29:38-46, Êx 30:17-21)

Missionária Oriana Costa.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Jejuando no deserto - Considerações sobre Mateus capítulo 4 - parte 1


Neste texto vamos fazer a análise do momento em que Jesus Cristo vai para o deserto da Judéia, e ali passa por uma fase de provação antes de iniciar seu trabalho de anunciação do Reino de Deus, para, finalmente, se oferecer como sacrifício em nosso favor diante do Pai.

Esse momento foi curto, durou quarenta dias, porém, foi intenso, no qual Jesus foi provado até o limite da sua vida, ficando sem comer durante todo esse período. Chegando ao fim do jejum, já com o corpo bem enfraquecido, Ele precisou estar seguro com relação à vontade do Pai e ao conteúdo das escrituras, para não sair do plano no qual manter a sua integridade era fundamental.

Abaixo vamos ler o trecho do Evangelho de Mateus que relata essa fase especial da vida e ministério do Senhor Jesus:

"Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome. O tentador aproximou-se dele e disse: "Se você é o Filho de Deus, mande que estas pedras se transformem em pães". Jesus respondeu: "Está escrito: ‘Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus’". Então o diabo o levou à cidade santa, colocou-o na parte mais alta do templo e lhe disse: "Se você é o Filho de Deus, jogue-se daqui para baixo. Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra’". Jesus lhe respondeu: "Também está escrito: ‘Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus’". Depois, o diabo o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o seu esplendor. E lhe disse: "Tudo isto lhe darei, se você se prostrar e me adorar". Jesus lhe disse: "Retire-se, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus e só a ele preste culto’". Então o diabo o deixou, e anjos vieram e o serviram." (Mateus 4:1-11)

Um pouco antes de ir para o deserto e iniciar esse período de provação, o Senhor havia passado pelo batismo no Rio Jordão, como vimos no estudo anterior - O batismo de Jesus. E assim como o batismo de Jesus está ligado aos acontecimentos passados publicados no Antigo Testamento, o tempo em que Ele foi provado no deserto também está.

Estes dias que Jesus passou no deserto foi um sinal importante para os israelitas. Essa fase do ministério de Cristo se relacionou ao tempo  em que o povo de Israel passou quarenta anos no deserto do Sinai, até que finalmente pudessem entrar em Canaã, a terra prometida. 

A seguir, vejamos um trecho no livro de Salmos que nos revela o porquê do povo ter sido mantido no deserto por quatro décadas:

"Hoje, se vocês ouvirem a sua voz, não endureçam o coração, como em Meribá, como aquele dia em Massá, no deserto, onde os seus antepassados me tentaram, pondo-me à prova, apesar de terem visto o que eu fiz. Durante quarenta anos fiquei irado contra aquela geração e disse: "Eles são um povo de coração ingrato; não reconheceram os meus caminhos". Por isso jurei na minha ira: "Jamais entrarão no meu descanso"". (Salmos 95:7-11)

Depois que o povo foi liberto da escravidão no Egito, infelizmente não se manteve focado em Deus. Os israelitas endureceram o coração, se tornaram ingratos e não reconheceram os preceitos da reta justiça de Deus (não reconheceram seus caminhos, ou, não reconheceram sua autoridade), segundo o que lemos no trecho bíblico contido no parágrafo anterior. 

Então, o Senhor manteve o povo no deserto sem poder entrar em Canaã, até que aquela geração que havia sido liberta tivesse morrido. Somente a geração seguinte foi autorizada a conquistar a terra prometida a Moisés e possuí-la, exatamente porque reconheceu a autoridade de Deus. Assim, Deus falou o seguinte ao sucessor de Moisés:

"Depois da morte de Moisés, servo do Senhor, disse o Senhor a Josué, filho de Num, auxiliar de Moisés: "Meu servo Moisés está morto. Agora, pois, você e todo este povo, preparem-se para atravessar o rio Jordão e entrar na terra que eu estou para dar aos israelitas. Como prometi a Moisés, todo lugar onde puserem os pés eu darei a vocês. Seu território se estenderá do deserto ao Líbano, e do grande rio, o Eufrates, toda a terra dos hititas, até o mar Grande, no oeste. Ninguém conseguirá resistir a você, todos os dias da sua vida. (...) Tenha o cuidado de obedecer a toda a lei que o meu servo Moisés lhe ordenou; não se desvie dela, nem para a direita nem para a esquerda, para que você seja bem sucedido por onde quer que andar. Não deixe de falar as palavras deste Livro da Lei e de meditar nelas de dia e de noite, para que você cumpra fielmente tudo o que nele está escrito. Só então os seus caminhos prosperarão e você será bem sucedido. Não fui eu que lhe ordenei? Seja forte e corajoso! Não se apavore, nem se desanime, pois o Senhor, o seu Deus, estará com você por onde você andar". (Josué 1:1-9)

A relação entre o que aconteceu aos israelitas no deserto e a provação de Jesus num lugar semelhante é que, ao contrário do que sucedeu ao povo de Israel naqueles quarenta anos, estando eles num território inóspito (Dt 8:15,16), contudo, sem que Deus não lhes deixasse faltar nada (Nm 9:21) - ainda que muitas vezes desprezassem seus decretos (desdenhando sua autoridade) e não obedecessem a Ele como deveriam -, Jesus foi para o deserto da Judéia passar quarenta dias, porém, sendo tentado por Satanás e sem comer nada, sem estar numa casa ou numa tenda, e cercado de animais selvagens. 

Nos Evangelhos de Marcos e Lucas encontramos os trechos que complementam as informações contidas em Mateus:

"Logo após, o Espírito o impeliu para o deserto. Ali esteve quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Estava com os animais selvagens, e os anjos o serviam." (Marcos 1:12,13)

"Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde, durante quarenta dias, foi tentado pelo diabo. Não comeu nada durante esses dias e, ao fim deles, teve fome." (Lucas 4:1,2)

Jesus suportou passar quarenta dias sendo tentado pelo Diabo, sem comer, sem conforto, e cercado de perigos, por estar cheio do Espírito Santo, e estar convicto da vontade do Pai. Ele tinha uma missão especial a cumprir, e isso ia requerer dele uma postura incorruptível e plenamente justa, que o povo de Israel infelizmente não apresentou logo após ser liberto da escravidão no Egito. Por isso, Ele precisou ser provado dessa forma antes de começar a anunciar o Seu Reino.

Lembrando que tudo o que houve com Jesus, desde o momento em que Maria engravidou do Espírito Santo até a ressurreição, foi devidamente predito nas escrituras. Tudo o que aconteceu com Cristo estava intimamente relacionado ao início da criação, ao Dilúvio, aos mandamentos da Lei Mosaica e às palavras dos profetas, no entanto, se sucedendo de forma abreviada. 

Assim sendo, enquanto os israelitas passaram quarenta anos no deserto do Sinai sendo provados (Dt 8:2,3), Jesus passou quarenta dias. Cada dia de Cristo ali equivale a um ano dos israelitas no tempo de Moisés.

Retomando a análise da fase em que Cristo esteve no deserto jejuando, ao final de quarenta dias sem comer, Ele teve fome. Para quem nunca jejuou ou não tem conhecimento sobre jejum, pode parecer estranho que o Senhor só tenha sentido fome após todo esse tempo sem comer. 

Mas, o que ocorre normalmente é que, no início do jejum o indivíduo sente fome, contudo, à medida que o tempo passa, essa fome reduz e aquieta, de modo que a pessoa não sente mais o incômodo.

Porém, depois de algum tempo sem comer, só tomando água, isso varia de pessoa para pessoa - quarenta dias é o tempo máximo que um adulto pode suportar vivo sem se alimentar -, a fome volta de uma maneira muito forte, sinalizando que se a pessoa não repor as energias naquele momento, o corpo não vai mais aguentar vivo.

Então, foi sentindo a fome de uma inanição, com o corpo totalmente fraco, que Jesus suportou a pior tentação que Satanás lhe fez durante aqueles quarenta dias, lembrando que as escrituras esclarecem que Jesus foi tentado por Satanás durante todo o tempo do jejum (Mc 1:13 e Lc 4:2). 

Mesmo enfraquecido e com uma fome insuportável para um ser humano comum, Ele foi capaz de resistir às tentações, mantendo sua integridade diante do Pai, e adorando ao Pai (ou seja, mantendo-se totalmente submisso a Ele) sem se desviar do propósito para o qual sua vida estava designada desde o início da criação.

Observando os relatos dos Evangelhos, vemos que Satanás não tentou Jesus de qualquer forma, na sua última investida. Ele o fez com base em três pontos chaves da fé em Deus que estão contidos na Lei Mosaica, aquela mesma que foi entregue aos israelitas no deserto do Sinai e eles, movidos por seus desejos carnais, a desobedeceram. 

O Diabo estava na expectativa de que o Filho de Deus também a transgredisse em algum momento, movido pelo desespero, visto que seu corpo estava desconfortável e fraco, beirando a morte.

Vejamos abaixo, quais foram os três  mandamentos da Lei que o Maligno tentou fazer o Cristo infringir:

1-Ele tentou fazer Cristo desprezar a palavra de Deus.

Satanás aproveita o estado de fraqueza física do Senhor, e sugere a ele transformar pedras em pães (Mt 4:3 e Lc 4:3), para que, agindo por medo de morrer e pelo desespero da fome, colocasse a palavra de Deus em segundo plano. Porém, Cristo rebate citando um trecho do livro de Deuteronômio. 

Vejamos onde está inserida a resposta que o Senhor deu ao Diabo:

"Lembre-se de como o Senhor, o seu Deus, os conduziu por todo o caminho no deserto, durante estes quarenta anos, para humilhá-los e pô-los à prova, a fim de conhecer suas intenções, se iriam obedecer aos seus mandamentos ou não. Assim, ele os humilhou e os deixou passar fome. Mas depois os sustentou com maná, que nem vocês nem os seus antepassados conheciam, para mostrar-lhe que nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca do Senhor." (Deuteronômio 8:2,3)

Se Jesus tivesse cedido àquela tentação, não teria dado o sinal de integridade que o Pai esperava receber dele, que deveria contrariar o comportamento reprovável dos israelitas no passado.

2-Ele tentou fazer Cristo ficar confuso e duvidar do Pai.

Usando um trecho bem conhecido do livro de Salmos, e que é profético, o Diabo tenta persuadir o Cristo a duvidar que o Pai o livraria da morte, colocando-o no ponto mais alto do templo e sugerindo que ele testasse se realmente o Pai iria livrá-lo, se atirando de lá (Mt 4:5,6 e Lc 4:9-11):

"Porque a seus anjos ele dará ordens a seu respeito, para que o protejam em todos os seus caminhos; com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra." (Salmos 91:11,12)

E Jesus, mais uma vez, resiste à tentação com um trecho da Lei:

"Não ponham à prova o Senhor, o seu Deus, como fizeram em Massá. Obedeçam cuidadosamente aos mandamentos do Senhor, o seu Deus, e aos preceitos e decretos que ele lhes ordenou." (Deuteronômio 6:16,17)

Massá foi o lugar do deserto do Sinai onde os israelitas, após terem sido libertos da escravidão no Egito, se desesperaram por causa da sede que sentiam, e começaram a agir por incredulidade, colocando à prova se Deus realmente estava agindo em favor deles ou não:

"O povo estava sedento e reclamou a Moisés: "Por que você nos tirou do Egito? Foi para matar de sede a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?" Então Moisés clamou ao Senhor: "Que farei com este povo? Estão a ponto de apedrejar-me!" Respondeu-lhe o Senhor: "Passe à frente do povo. Leve com você algumas das autoridades de Israel, tenha na mão a vara com a qual você feriu o Nilo e vá adiante. Eu estarei à sua espera no alto da rocha que está em Horebe. Bata na rocha, e dela sairá água para o povo beber". Assim fez Moisés, à vista das autoridades de Israel. E chamou aquele lugar Massá e Meribá, porque ali os israelitas reclamaram e puseram o Senhor à prova, dizendo: "O Senhor está entre nós, ou não?" (Êxodo 17:3-7)

3-Ele tentou fazer Jesus desistir de ser sacrificado para justificar toda a humanidade.

Na última tentação, buscando fazer o homem Jesus desejar reinar sobre toda a terra sem ser sacrificado, o Maligno mostra-lhe todos os reinos do mundo, pois naquele momento eles estavam sob seu domínio. No entanto, a condição para que Jesus reinasse ali era reconher somente a autoridade do Diabo sobre sua vida, e não a do Pai, tão somente se inclinando com o rosto em terra em sinal de total submissão (Mt 4:8-10 e Lc 4:5-8).

A forma correta de adorar ou de se reconhecer uma autoridade suprema naquela época era reclinando o corpo de joelhos com a face totalmente voltada para o chão, sinalizando que ali aquela pessoa tinha pleno poder sobre sua vida, e confirmando total submissão a ela.

Se Jesus tivesse se deixado levar pela oferta, a humanidade não teria uma justificação disponível para seus pecados, e ele seria destruído pelo Pai junto com Satanás, pois, assim como foi a resposta de Cristo ao Diabo, a Lei declara:

"Temam o Senhor, o seu Deus, e só a ele prestem culto, e jurem somente pelo seu nome. Não sigam outros deuses, os deuses dos povos ao redor; pois o Senhor, o seu Deus, que está no meio de vocês, é Deus zeloso; a ira do Senhor, o seu Deus, se acenderá contra vocês, e ele os banirá da face da terra." (Deuteronômio 6:13-15)

Terminada a prova, Satanás deixou Jesus por algum tempo e os anjos vieram cuidar do Senhor, pois Ele estava muito fraco e isolado, longe das cidades e sem acesso à ajuda humana. Logo após sua reabilitação, Ele se dirigiu à Galiléia e ficou um pouco de tempo em Nazaré, onde iniciou seu trabalho de anunciação do Reino, e, logo após, foi morar em Carfanaum.

Missionária Oriana Costa.

terça-feira, 26 de julho de 2022

O batismo de Jesus - Considerações sobre Mateus capítulo 3 - parte 2


Em seu ministério, João Batista anunciava o Reino de Deus, e ele o fazia pregando o arrependimento de pecados para a salvação, e concomitantemente ia preparando o povo para a chegada do Messias. À medida que as pessoas iam crendo na mensagem anunciada, João cumpria um certo ritual, onde batizava as pessoas por imersão.

O batismo por imersão acontece quando os crentes mergulham totalmente seus corpos num local com bastante água (tanque, lago, lagoa, rio, etc) e depois saem rapidamente dela. Então, chegou o momento em que o Senhor Jesus também veio até João para ser batizado, como veremos no trecho a seguir:

"A ele vinha gente de Jerusalém, de toda a Judéia e de toda a região ao redor do Jordão. Confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão. (...) "Eu os batizo com água para arrependimento. Mas depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de levar as suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo. (...) Então Jesus veio da Galiléia ao Jordão para ser batizado por João. João, porém, tentou impedi-lo, dizendo: "Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?" Respondeu Jesus: "Deixe assim por enquanto; convém que assim façamos, para cumprir toda a justiça". E João concordou. Assim que Jesus foi batizado, saiu da água. Naquele momento os céus se abriram, e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e pousando sobre ele. Então uma voz dos céus disse: "Este é o meu Filho amado, em quem me agrado"". (Mateus 3:5-17)

Nos Evangelhos de Marcos, Lucas e João encontramos trechos que confirmam e também trazem informações complementares ao trecho bíblico acima.

Em Marcos 1:9-11 e Lucas 3:21-23, lemos a confirmação de que no momento em que Jesus saiu da água os céus se abriram, e Cristo viu o Espírito de Deus vindo até ele em forma de uma pomba. Provavelmente, as pessoas que ali estavam também puderam presenciar esse acontecimento sobrenatural. 

Ambos também relatam que uma voz soou do céu dizendo "Tu és o meu Filho amado; em ti me agrado", como se o Pai falasse apenas com Jesus. No Evangelho de Mateus, contudo, observamos que essa frase é dita como se o Pai estivesse apresentando Jesus aos que estavam ali, dando a entender que o Pai falou audivelmente a todos. Por isso, é provável que quando os céus se abriram, o Espírito de Deus veio até Jesus em forma de pomba, e o Pai falou, todos os que se encontravam ali testemunharam esses acontecimentos.

Em João 3:22-26 e 4:1,2 observamos o relato de que não apenas João estava batizando, mas os discípulos de Jesus também o faziam, e que João não batizou apenas no Rio Jordão, mas também em Enom, perto de Salim. Nesse Evangelho também percebemos que os discípulos de Jesus começaram a aumentar em quantidade, enquanto os de João começaram a diminuir, e o próprio profeta, quando indagado a respeito, explica o porquê disso estar acontecendo. Vejamos os trechos abaixo:

"Depois disso Jesus foi com os seus discípulos para a terra da Judéia, onde passou algum tempo com eles e batizava. João também estava batizando em Enom, perto de Salim, porque havia ali muitas águas, e o povo vinha para ser batizado. (Isto se deu antes de João ser preso.) Surgiu uma discussão entre alguns discípulos de João e um certo judeu, a respeito da purificação cerimonial. Eles se dirigiram a João e lhe disseram: "Mestre, aquele homem que estava contigo no outro lado do Jordão, do qual testemunhaste, está batizando, e todos estão se dirigindo a ele". A isso João respondeu: "Uma pessoa só pode receber o que lhe é dado do céu. Vocês mesmos são testemunhas de que eu disse: Eu não sou o Cristo, mas sou aquele que foi enviado adiante dele. A noiva pertence ao noivo. O amigo que presta serviço ao noivo e que o atende e o ouve, enche-se de alegria quando ouve a voz do noivo. Esta é a minha alegria, que agora se completa. É necessário que ele cresça e que eu diminua". (João 3:22-30)

"Os fariseus ouviram falar que Jesus estava fazendo e batizando mais discípulos do que João, embora não fosse Jesus quem batizasse, mas os seus discípulos. Quando o Senhor ficou sabendo disso, saiu da Judéia e voltou uma vez mais à Galiléia." (João 4:1-3)

Então, João Batista deixou claro para todos quem era ele mesmo e quem era Jesus, apesar de nem todos entenderem o que ele dizia e o que realmente estava acontecendo ali. 

Como vimos no estudo anterior, todas as profecias relacionadas à vinda de João Batista, e qual seria o seu serviço, bem como à vinda de Jesus, se cumpriram à risca. Porém, a maioria das pessoas, especialmente os mestres da Lei e fariseus, foram incapazes de verificar que o conteúdo das escrituras estava se cumprindo diante deles. 

Prosseguindo com o nosso estudo, há dois significados que precisamos entender com relação ao batismo. O primeiro se refere ao porquê do próprio Jesus ter se batizado.

Para entendermos isso, é preciso termos em mente que, antes de qualquer coisa, o batismo por imersão é um sinal divino e profético para todos nós. João batizou, e os discípulos de Jesus também o fizeram sob às ordens dele, porque esse ritual tem a ver com o cumprimento de uma promessa do Pai feita a Noé, e, consequentemente, feita também a toda a humanidade. Através dessa promessa o Pai indiretamente discrimina a forma como a maldade seria julgada após o Dilúvio:

"Depois Noé construiu um altar dedicado ao Senhor e, tomando alguns animais e aves puros, ofereceu-os como holocausto, queimando-os sobre o altar. O Senhor sentiu o aroma agradável e disse a si mesmo: "Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, pois o seu coração é inteiramente inclinado para o mal desde a infância. E nunca mais destruirei todos os seres vivos como fiz desta vez. "Enquanto durar a terra, plantio e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite jamais cessarão".(Gênesis 8:20-22)

"Estabeleço uma aliança com vocês: Nunca mais será ceifada nenhuma forma de vida pelas águas de um dilúvio; nunca mais haverá dilúvio para destruir a terra"."(Gênesis 9:11)

Antes de continuarmos nosso estudo, é importante termos em mente que, ao sair da arca com sua família, Noé realizou um ritual de purificação, sacrificando animais sobre um altar dedicado ao Senhor. Noé, apesar de se esforçar para andar na justiça de Deus (por isso ele foi considerado justo por Deus, e escapou do juízo com sua família), sabia que havia maldade em seu corpo e também nos corpos de seus familiares, que ainda não havia sido justificada. 

Esse holocausto era feito especialmente como um sinal desse reconhecimento (e também como forma de demonstrar arrependimento sincero diante de alguns tipos de pecado), além de ser feito também como ações de graças diante de alguma conquista material (veja Gênesis 4:4, Genesis 12:7,8). Por isso, após a realização desse ritual feito por Noé, que para Deus foi agradável, o Criador decidiu que o juízo sobre a maldade não aconteceria mais com um dilúvio.

Dando prosseguimento ao nosso raciocínio e voltando agora para o batismo, através dele Deus estava avisando a todos na época de Jesus que uma nova aliança entre o Criador e a humanidade estava para ser estabelecida, e somente através dela é que se poderia receber livramento (a justificação) de um severo e definitivo juízo que viria no futuro sobre as transgressões de todos os seres humanos. 

Porém, nesse julgamento final, Deus não mais destruiria a vida no planeta com uma grande inundação, como fez anteriormente, mas faria se cumprir sua justiça unicamente através de um holocausto especial, num ato equivalente aquele feito por Noé ao sair da arca com sua família. Esse holocausto se cumpriria na morte e ressurreição de Seu Filho Unigênito, Jesus Cristo, que aceitou ser julgado e condenado em nosso lugar.

Por isso, o batismo em si é um aviso pelo qual sabemos que aquele juízo sofrido pelo mundo no Dilúvio, onde todo o planeta ficou submerso em água por um tempo e depois ressurgiu modificado para ser novamente repovoado por Noé e sua família, foi substituído por um outro tipo de juízo, que começou com a morte de Jesus na cruz (João 3:16-19), e terminará com a iniquidade e todos quantos não se desvincularam dela sendo devorados eternamente por um fogo que nunca se apaga, assim como o holocausto feito por Noé foi finalizado com os corpos dos animais mortos sendo completamente queimados no fogo do altar. 

No episódio do Dilúvio a justiça de Deus foi cumprida freando a maldade que tomou conta do mundo, sem destruí-la definitivamente, a fim de dar aos seres humanos uma chance de salvação no futuro. 

A vinda de Jesus, portanto, é para que se cumpra essa salvação, no entanto, através dele agora a justiça não vem para somente frear, mas sim decreta a destruição definitiva da maldade, e isso sabemos devido à promessa de seu retorno, onde a situação de pureza do homem será completamente restaurada, e a maldade destruída de uma vez por todas num local chamado de "Lago de fogo que arde com enxofre", citado em vários trechos do livro de Apocalipse (Veja Ap 19:20, 20:10, 20:14, 21:8)

Ao ser batizado nas águas, Jesus declarou publicamente que o juízo ou castigo sobre os pecados de toda a humanidade recairia terminantemente sobre Ele mesmo, para que todos alcancem a justificação de suas transgressões contra a reta justiça de Deus através do sacrifício dele, e escapem da condenação eterna já decretada sobre a maldade. Então, por isso Jesus se batizou por imersão no Rio Jordão.

O segundo significado do batismo nas águas tem a ver com a ordem dada por Jesus Cristo, para que aquele trabalho feito por João Batista se continue, e todos os que crerem na mensagem de salvação até seu retorno afirmem sua fé publicamente. 

Aqui, portanto, o batismo nas águas, além de apontar para a consumação do juízo sobre a maldade, assim como já vimos em parágrafos anteriores, passa também a ser um mandamento ligado à Nova aliança estabelecida entre Deus e os homens, que serve como confirmação pública de que o indivíduo realmente está arrependido de seus pecados e aceitou o sacrifício de Cristo por sua vida. 

Após o batismo, o sujeito deve estar ciente de que empenhou sua palavra diante de Deus e dos homens, de forma que dali em diante terá que se esforçar para aprender a justiça de Deus, para que viva de acordo com a realidade de pureza do Reino de Deus, e não mais de acordo com a realidade de injustiça do mundo.

"Então, Jesus aproximou-se deles e disse: "Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos"". (Mateus 28:18-20)

Lembrando que o ritual do batismo em si, não impede a pessoa de pecar e nem tem poder para salvar da condenação à morte eterna! Ele é um sinal divino e profético, e também uma confirmação pública, que devem ser dados após a entrada do indivíduo no Reino de Deus pela fé verdadeira em Jesus Cristo, mediante o ARREPENDIMENTO SINCERO de seus pecados. 

Para finalizar nosso estudo, vamos falar de um sinal curioso que foi dado por Deus após o Senhor Jesus sair da água, quando foi batizado no rio Jordão, onde, no momento em que ele estava orando, o Espírito de Deus aparece em forma de uma pomba, voando e pousando sobre ele. 

"Quando todo o povo estava sendo batizado, também Jesus o foi. E, enquanto ele estava orando, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como pomba". (Lucas 3:21,22)

Talvez, algumas pessoas, ao lerem esse trecho, podem ter se perguntado porque o Espírito de Deus se apresentou dessa forma, contudo, sem obterem respostas. No entanto, a resposta para isso está em Genesis, quando Noé solta uma pomba para averiguar se já era o momento de sair da arca e repovoar a terra.

Quando o planeta realmente tinha ficado livre das águas, a pomba não retornou mais a ele, dando a entender que já era o momento de deixar a nau e prosseguir com o recomeço do mundo. Por isso, ali Deus ordenou a Noé que esvaziasse totalmente a arca para iniciar o repovoamento do planeta, dando à humanidade uma chance única de ser justificada no futuro. 

"Esperou ainda outros sete dias e de novo soltou a pomba, mas desta vez ela não voltou. No primeiro dia do primeiro mês do ano seiscentos e um da vida de Noé, secaram-se as águas na terra. Noé então removeu o teto da arca e viu que a superfície da terra estava seca. No vigésimo sétimo dia do segundo mês, a terra estava completamente seca. Então Deus disse a Noé: "Saia da arca, você e sua mulher, seus filhos e as mulheres deles". (Gênesis 8:12-16)

Portanto, o Espírito de Deus pousando em Jesus em forma de uma pomba significa que agora, assim como foi possível um recomeço de vida na Terra após o juízo do Dilúvio, é possível sermos novas criaturas espiritualmente, e vivermos em novidade de vida no mundo através da fé em Jesus Cristo.

"Jesus declarou: "Digo-lhe a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo". Perguntou Nicodemos: "Como alguém pode nascer, sendo velho? É claro que não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer!" Respondeu Jesus: "Digo-lhe a verdade: Ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito". (João 3:3-5)

"Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!" (2Coríntios 5:17)


Missionária Oriana Costa.

Antes de escolher os apóstolos - Parte 3.3 - O Sermão da montanha.

Dando continuidade ao estudo do Evangelho de Mateus, vamos analisar a parte do Sermão da Montanha em que o Senhor Jesus alerta sobre o cumpr...