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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Se o seu irmão pecar contra você...

Dentro do corpo de Cristo na terra não há ninguém perfeito ainda. Todos estão seguindo para o alvo, que é atingir a maturidade no conhecimento da justiça de Deus. No entanto, não basta só ter o conhecimento, é preciso colocá-lo em prática, pois sentimentos e desejos provenientes da carne precisam ser dominados em todo o tempo, para que uma pessoa alcance a maturidade na fé.

Então, apesar dos nossos esforços, vez ou outra podemos falhar e pecar contra alguém, ou alguém pode pecar contra nós, pois nem sempre conseguimos dominar a carne como gostaríamos. Porém, o Senhor Jesus não nos deixa sem instrução com relação a isso:

"Se o seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro. Se ele o ouvir, você ganhou seu irmão. Mas se ele não o ouvir, leve consigo mais um ou dois outros, de modo que ‘qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas’." (Mateus 18:15,16)

No trecho acima, Cristo alerta sobre a necessidade do arrependimento quando ofendemos nossos irmãos de alguma forma. O ensino de Cristo vale para todos, pois ninguém é melhor do que ninguém, e todos somos passíveis de cometer erros a qualquer momento.

Então o Senhor nos mostra que se algum ato de um irmão na fé está nos gerando algum desconforto, ou é algo recorrente, e que nos incomoda diretamente, a princípio devemos chamar a atenção desse indivíduo, com educação e em particular, apresentando-lhe os preceitos da justiça de Deus, para que haja arrependimento sincero.

O ideal seria que tal indivíduo se arrependesse nessa primeira conversa, mas isso pode não acontecer. E caso o sujeito não nos considere e continue a incomodar, o Senhor Jesus orienta que devemos fazer uma segunda tentativa de levar a pessoa ao arrependimento, conversando com ela na presença de mais uma ou duas pessoas de confiança.

Se mesmo assim, a pessoa que está sendo chamada à atenção ainda não considerar os fatos, o Mestre orienta que o caso deve ser exposto à congregação para que ela julgue a situação, e o irmão ou irmã seja admoestado(a) por todos. E se ainda assim, ele ou ela não se envergonhar nem se arrepender, deve ser tratado(a) por todos como uma pessoa descrente.

"Se ele se recusar a ouvi-los, conte à igreja; e se ele se recusar a ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano." (Mateus 18:17)

Esse conselho de Cristo é exclusivamente para os que estão congregando e prosseguindo em conhecer o Reino de Deus, portanto, não se aplica a descrentes ou simpatizantes da fé cristã que por ventura estejam frequentando as reuniões dos irmãos.

Assim sendo, se o comportamento de alguém, que se diz seguidor de Cristo, está transgredindo os princípios da justiça de Deus e incomodando ou ofendendo um ou mais irmãos dentro da congregação, tal pessoa é digna de ser confrontada e deve sim ser chamada à atenção, assim como o Senhor orienta, para que se arrependa e não atraia juízo sobre si.

"Digo-lhes a verdade: Tudo o que vocês ligarem na terra terá sido ligado no céu, e tudo o que vocês desligarem na terra terá sido desligado no céu." (Mateus 18:18)

Quando Jesus diz que tudo o que ligarmos ou desligarmos na terra terá sido ligado ou desligado nos Céus, Ele está mostrando que Deus nos dá autoridade para julgar. Se somos um com Cristo, e o Espírito Santo habita em nós, e estamos agindo de acordo com a reta justiça de Deus, então temos plena autoridade para julgar situações contrárias aos seus estatutos e, se for o caso, executar juízo sobre alguém.

No caso apontado aqui por Jesus, por exemplo, o juízo aplicado será "tratar a pessoa como um pagão ou publicano", caso ela não dê ouvidos e não se arrependa após a terceira admoestação. Pagãos e publicanos são considerados pessoas "descrentes" ou  que estão "fora da fé" em relação ao Reino de Deus, por isso Cristo dá essa orientação.

Lembrando que isso não significa que devemos ser indiferentes ou mal educados com os que não creem em Deus. Tratar a todos com educação e gentileza faz parte do fruto do espírito e é indispensável para testemunharmos corretamente o Reino a qualquer momento.

Cristo também diz:

"Se dois de vocês concordarem na terra em qualquer assunto sobre o qual pedirem, isso lhes será feito por meu Pai que está nos céus." (Mateus 18:19)

Dentro deste contexto, o verso acima nos mostra que, caso necessário, o Pai poderá executar um julgamento sobre alguma situação difícil pela qual a congregação irá apresentá-la a Deus, a fim de que Ele tome as devidas providências em tempo oportuno.

No livro de Atos dos apóstolos, uma situação chama a atenção quando falamos de julgamento e execução de juízo dentro da igreja do Senhor: o caso de Ananias e Safira. O casal vendeu um imóvel e decidiu entregar como oferta aos apóstolos somente uma parte do valor que haviam recebido, mas afirmando que era o valor total.

O problema foi que aquela mentira ofendia profundamente todos os irmãos, além de ofender o Senhor diretamente. Então, quando Pedro confrontou Ananias no momento em que recebia a oferta, ele e os outros apóstolos já estavam sabendo por quanto o imóvel havia sido vendido. Assim, por causa da gravidade da situação, o casal foi direta e rapidamente julgado pelo Pai, que estava sondando seus corações e não viu arrependimento neles.

Então, para concluir, o Senhor Jesus nos lembra que se apenas duas pessoas estiverem juntas e unidas em Nome dele em qualquer lugar, Ele estará ali com elas em espírito (veja em Mateus 18:20).

Com isso, Ele está advertindo que, por causa da presença dele, nossos atos serão julgados com mais rapidez e também com maior rigor. O apóstolo Paulo lembra essa situação em sua primeira carta aos cristãos de Corinto, quando fala sobre a ceia do Senhor (leia 1Corintios 11:23-32). 

Saber e entender estes princípios é de crucial importância para que nossas atitudes sempre gerem louvor ao Pai em qualquer ocasião, especialmente quando convivemos uns com os outros por causa da fé.

Texto: Missionária Oriana Costa

Revisão: Pr. Wendell Costa





segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Depoimento - Parte 2 - Como foi pastorear igrejas sem saber da minha condição dentro do espectro autista


Acredito que muitas pessoas estão sofrendo nesse momento, sem entender o que estão vivenciando, por não saberem de suas reais condições e não se conhecerem bem, achando que nunca vão conseguir "encontrar os seus lugares ao sol". É bem provável que muitos indivíduos, aqui no Brasil, sejam homens e mulheres aspies e não tenham ideia disso, enfrentando situações muito desgastantes para si mesmos e sendo mal interpretados pelos que estão ao redor.

Alguns portadores de TEA leve, principalmente as mulheres, conseguem camuflar o que sentem e se comportar como pessoas neurotípicas quando estão socializando, mas por dentro estão numa luta muito difícil consigo mesmos, sem entenderem o que está acontecendo. O escape para essas pessoas é ocupar a mente com alguma atividade que lhes agrade (geralmente com artes, jogos ou mesmo estudos) para esquecerem por alguns momentos de seus dilemas. Alguns parágrafos à frente vou relatando um pouco dessa luta com detalhes. 

Não são poucas as vezes que, por causa da limitação perceptiva, dificuldade de mudar rapidamente de uma tarefa para outra e dificuldade de socializar, tais pessoas são desqualificadas para diversas vagas de emprego e acabam ficando na dependência dos familiares, ou mesmo passando necessidade. Quando têm sorte e conseguem encontrar trabalhos onde possam focar numa só tarefa, cujo assunto lhes interesse muito, fazem um sucesso gigantesco, superando os resultados de qualquer pessoa normal que desempenhe a mesma tarefa.

Os aspies tem o chamado "hiper-foco", que lhes permite realizar tarefas que exigem extrema concentração com uma precisão invejável, no entanto, eles precisam se interessar pelo assunto da tarefa. Quando o serviço está relacionado a um assunto que não é de seu interesse, o aspie até se esforça para aprender e fazer, no entanto, não terá muito êxito. Quando se interessam por um determinado assunto ou tema, sozinhos pesquisam muito sobre ele e são capazes de armazenar muito conhecimento a respeito, chegando até mesmo ao ponto de palestrarem sobre o tema escolhido com muita facilidade.

Antes de prosseguir com meu depoimento, quero que os leitores saibam que as informações que se seguem estão relacionadas a minha pessoa somente, em como as coisas se passaram dentro de mim mesma. O foco deste texto está em meus próprios sentimentos, e não no todo do que aconteceu. Para expor os resultados de uma forma global, farei um outro texto em seguida, mostrando como as pessoas que interagiram comigo reagiram e o que aconteceu a elas.

Depois que comecei a seguir a Cristo e frequentar o meio evangélico junto com meu esposo, conheci melhor a Bíblia Sagrada e seu conteúdo se tornou meu objeto de interesse particular; desse modo, passei a fazer muitas pesquisas sobre vários assuntos contidos nela e, especialmente, passei a me dedicar a conhecer a Deus através das escrituras. Concomitantemente, também passei a compartilhar as informações que estava obtendo tanto em pregações nas igrejas como na internet.

Buscando ao Senhor me surpreendi com tantas informações maravilhosas e que fizeram toda a diferença na minha vida, como também sei que Deus usou e tem usado o conhecimento que tenho compartilhado até agora para abençoar as vidas de outras pessoas. O feed-back das pessoas que acompanham nosso trabalho (Ministério Águios) tem sido muito positivo.

Em contrapartida, meu envolvimento com os irmãos nas igrejas sempre foi muito desgastante (especialmente para mim), pois quando meu relacionamento tomava o caminho para deixar de ser superficial e se tornar mais próximo, eu simplesmente retrocedia, devido à estranheza da minha parte e não aceitação de muitas coisas; eu desejava continuar na minha solidão e no meu silêncio de sempre, pois é desta forma que eu ficava - e fico - tranquila. Apesar de tentar parecer uma pessoa normal e me esforçar para praticar o ensino de Cristo, a minha condição aspie sempre estava lá para me atrapalhar, e eu não tinha ideia disso.

Muitas vezes, fui interpretada como carnal, como se eu estivesse bloqueando ou me afastando das pessoas por prazer ou por gostar de fazer isso, mas, de fato, não é isso que acontece; meu bem-estar e minha tranquilidade dependem do silêncio e do isolamento. Dessa forma, por estar sendo mal interpretada, e também porque não entendia minha real condição, acabei aceitando que eu estava errada no meu comportamento e fiz um esforço sobre-humano para me socializar como uma pessoa normal o faz, chegando até a assumir um trabalho pastoral. O que eu não sabia era que essa atitude ia me desgastar até me deixar depressiva, sem que eu entendesse o porquê.

Atender a chamada pastoral foi para mim como seria para uma criança de dois anos tentar alcançar a prateleira mais alta da estante de sua casa: enquanto para um adulto isso é absolutamente fácil, para a criança exige um esforço bem maior, pois terá que subir numa cadeira ou em outros objetos que lhe sirvam de degraus, para, enfim, alcançar a prateleira. No início, a criança está compelida pela curiosidade ou por conquistar para si seu objeto de desejo; no entanto, isso é perigoso para ela, pois tentando alcançar seu objetivo, fatidicamente, ela poderá levar uma queda de um lugar alto e se prejudicar com isso. Foi o que aconteceu comigo.

Tenho que deixar claro aqui que Deus não tem culpa alguma do que me aconteceu. De fato, Ele avisou antes e de diversas formas que aquilo não era para mim, só que eu não entendi, muito menos meu esposo. Na realidade, a chamada pastoral foi para ele e não para mim, só que nós interpretamos como se fosse para os dois, pois no momento que ele assumisse, inevitavelmente, eu teria que dar um suporte mais intenso, visto que íamos iniciar duas congregações a partir do zero, como missionários, e sem muita ajuda. Portanto, a responsabilidade de decidir prosseguir com esse trabalho foi inteiramente minha, e ninguém, muito menos Deus, teve culpa de nada. 

No íntimo do meu ser, eu sabia que meu marido estava plenamente apto para lidar com as pessoas e assumir o chamado, mas eu, por algum motivo que não discernia ainda, não estava. Mas, resolvi passar por cima de mim mesma e achei que suportaria tudo o que estava por vir, pois eu entendia que apenas tinha alguns defeitos dos quais eu poderia me arrepender e me livrar com o tempo, que eu era uma pessoa normal e estava certíssima que Deus me capacitaria para fazer tudo o que teria que fazer.

Realmente, apesar de eu estar executando um trabalho que não era para mim, Deus me livrou muitas vezes e me capacitou sobrenaturalmente para trabalhar no meio eclesiástico e suportar situações que eu mesma, na minha condição real, não teria suportado por muito tempo (eu ainda consegui passar seis anos no trabalho pastoral ao lado do meu esposo). Deus sabia que a minha intenção era dar suporte ao meu marido naquele chamado, mesmo que ainda eu sentisse que não tinha condições de estar fazendo aquilo. Eu não poderia vê-lo precisando de ajuda e ficar de braços cruzados.

Como as igrejas estavam iniciando, e não tínhamos muita ajuda para fazer todos os serviços nas duas congregações, eu me sentia na obrigação de colaborar em tudo o que eu podia, inclusive, assumindo eu mesma a liderança de uma das duas igrejas que tínhamos fundado.

Dentre todos os trabalhos que tínhamos a realizar no exercício pastoral, além de fazer a parte de louvor, pregação, limpar e abrir a igreja, receber as pessoas na porta, ensinar os obreiros suas atribuições etc., o que eu achava mais desgastante era ter que lidar diretamente com as pessoas, ter que ouvi-las e dar atenção, ter que visitar e também recebê-las na minha casa; esses são, sem dúvida alguma, os principais serviços de um pastor. Eu deveria ficar muito alegre por poder servir à igreja do Senhor Jesus Cristo dessa maneira e, no início, eu realmente me sentia muito feliz, fazia tudo com muito prazer.

Mas, após alguns meses, eu estava pedindo ao Senhor para não pastorear mais, pois, antes mesmo de ir encontrar os irmãos, eu já ficava angustiada. Quando eu estava com eles, não via a hora de ir embora, ou que eles fossem embora, para eu me sentir bem novamente. Essa situação me deixava muito confusa e me levava a pensar que eu era uma pessoa muito má, e que precisava mesmo me arrepender daquilo. 

Congregar deve ser uma coisa prazerosa para os que estão em Cristo, mas, para mim, se tornou um pesadelo, eu não entendia o porquê, nem tinha como desabafar isso com ninguém. Se eu dissesse ao meu marido muito provavelmente ele iria me corrigir, pois iria interpretar que eu estava desdenhando o chamado ou desanimando de prosseguir na obra de Deus. O tempo foi passando e eu fui prosseguindo nesse dilema, calada, e cada vez mais me frustrando comigo mesma e entrando num estado depressivo, sem saber.

Quando eu assumi a liderança da segunda igreja que fundamos, já não estava bem de saúde, apresentando muitos sintomas de ansiedade e procurando tratá-los com medicamentos paliativos. Eu orava para ser curada, mas os sintomas não saiam. E não saiam porque eu não tivesse fé, mas porque eu não deveria estar fazendo aquilo. Eu não fui projetada para cuidar de muitas pessoas e fazer muitas tarefas e sim, para ajudar uma ou, no máximo, duas pessoas por vez, focando somente nelas, e não por muito tempo. O excesso de barulho e informação me desgasta e me leva a estressar mais rápido que pessoas neurotípicas.

Sempre gostei de crianças e amo estar com elas, mas, com o tempo, cheguei a um ponto que só de pensar que eu ia ficar no departamento infantil, já me dava desespero. Eu não suportava mais o barulho que elas faziam. Por causa disso, não demorou muito para eu passar a coordenação do departamento infantil para outras pessoas. Isso foi um desastre em alguns aspectos, pois as pessoas para as quais eu passei o cargo não tinham condição de assumi-lo, contudo, era o que eu tinha à disposição.

Quando minha filha, que ainda era bem jovem, assumiu o trabalho infantil na primeira igreja que fundamos, fiquei muito aliviada e feliz. Ela sempre teve vocação para lidar com crianças e, apesar de ser ainda bem jovem, isso se notava no bom desempenho dela no trabalho naquela área. Todas as crianças a amavam. Ainda hoje ela ajuda no departamento infantil da igreja que congrega.

No meio de tantos trabalhos que eu tinha para executar, eu me esforçava ao máximo para dar o meu melhor, pois não estava fazendo aquilo tudo por minha causa ou somente por causa das pessoas e sim, primeiramente, por causa de Jesus: eu queria atender ao chamado e servir como podia.

Ao assumir a liderança da segunda igreja que fundamos, era necessário que eu estivesse lá todos os fins-de-semana para administrá-la. Para tanto, tinha que sair da cidade que eu residia para outro município que distava cerca de 50 minutos de viagem, todas as sextas-feiras pela manhã, e só voltar para casa nos domingos à noite ou nas segundas-feiras pela manhã. E isso foi a gota d'água que faltava para eu iniciar o estado depressivo, que começou no meio do ano de 2016 e culminou num "meltdown" no início do ano de 2017.

Ao fim do ano de 2016, infelizmente, fomos forçados a fechar as duas igrejas, por falta de condições de exercer o pastoreio. Naquele momento eu já não podia mais assumir a liderança da segunda igreja por estar enfrentando uma crise muito forte, chorando diariamente sem uma causa aparente e sentindo muitos sintomas ruins em meu corpo: labirintite (com tonturas todos os dias e várias vezes ao dia), urticária (todos os dias), digestão ruim (frequente acúmulo de gases), insônia persistente, mal-humor, taquicardias frequentes (todos os dias, várias vezes por dia) - eu me assustava com qualquer coisa e com frequência, e cada susto era uma palpitação que me dava, dores nas articulações, engasgos frequentes (todos os dias e todas as vezes que eu me alimentava), dentre outros. Todos os sintomas juntos caracterizavam o quadro de meltdown em que eu me encontrava.

Por causa do meu estado, que se agravava dia a dia, e sem ter quem nos substituísse, meu marido não viu outra saída senão terminar com os trabalhos nas duas igrejas, para que pudesse me dar maior atenção e cuidar de mim. Nós achávamos que ao parar o trabalho pastoral minha saúde iria melhorar, mas isso não aconteceu. Como continuei piorando, mesmo estando somente em casa, fui buscar ajuda profissional. Em março de 2017 iniciei um tratamento para depressão, que foi muito bom para mim, aliado ao descanso que fui obrigada a ter.

O tratamento durou cerca de um ano e, em abril de 2018, eu já estava completamente curada da depressão, sem mais nenhum dos sintomas do meltdown (eles pararam completamente com cerca de três meses após o início do tratamento) e não precisei mais continuar com a medicação. No entanto, minha condição asperger não havia sido diagnosticada, mesmo que ainda durante as consultas eu falasse como me sentia e o que acontecia comigo. Hoje eu sei o motivo: a pessoa que estava fazendo o meu tratamento, apesar de ser uma excelente profissional, não era capacitada para dar um diagnóstico de TEA. 

Descobri que os profissionais capacitados para isso são os que fazem cursos específicos na área do espectro autista (nem todos fazem!), e que o laudo não pode ser emitido por um profissional apenas, mas por uma equipe multidiciplinar, formada por, pelo menos, um psicólogo, um neurologista e um psiquiatra, todos já com experiência no diagnóstico dessa condição.

Foi durante o tempo do tratamento que comecei a pesquisar sobre neuroatipias, pois eu desconfiava que meu caso era especial. Quando terminei a medicação, eu já estava ciente de que era aspie, mesmo sem ter feito o diagnóstico com um profissional, pois passei todo aquele tempo do tratamento assistindo vídeos e lendo artigos médicos sobre várias condições até me identificar com o quadro do portador de TEA. 

Quando eu finalmente disse ao meu marido o que achava que tinha, ele não aceitou. Ele me achava normal, embora uma pessoa um tanto difícil de conviver. Só que, eu não me sentia normal, quando me comparava com os outros. Por fim, ele mesmo foi pesquisar sobre o assunto e chegou à conclusão que eu estava mesmo dentro do espectro autista.

Foi preciso toda uma série de acontecimentos para que, enfim, descobríssemos que havia algo diferente no meu corpo e que, ao contrário do que pensávamos, eu não estava de má vontade para servir a Deus. Saiu um peso de mim e hoje estou em paz com relação ao que posso ou não fazer, sem me condenar por não poder fazer alguma coisa. Meu desejo é que pessoas que possam estar na situação em que eu me encontrava e que hoje estão sofrendo sem entender o que se passa com elas possam saber a verdade sobre si mesmas e finalmente levarem uma vida tranquila.

Muitas vezes pensei em desistir de servir ao Senhor, por não entender o que se passava comigo. No entanto, Ele sempre levantou pessoas para me ajudar a continuar, e meu esposo, apesar de sofrer com meu comportamento estranho, foi a pessoa que mais Deus usou e continua usando para me animar e ensinar. Sou muito grata ao Senhor pela vida dele.



Tenho consciência que durante todo esse processo de auto-descoberta, Deus estava ao meu lado, me livrando e cuidando de mim. Ele mesmo me mostrou claramente como eu deveria proceder, especialmente no momento da crise, pois fiquei num estado em que não sabia mais o que fazer, com quem falar ou para onde ir. Nós não dizíamos a ninguém o que estava se passando comigo, para não escandalizar as pessoas. Eu podia ser mal interpretada, visto que as demais pessoas do nosso convívio me viam como alguém aparentemente normal.

Posso atestar que Jesus Cristo realmente nos guiou no meio de toda essa experiência. Sei que Ele não desejava que tivéssemos passado por todo esse sofrimento, mas, de certa forma, foi necessário para que finalmente compreendêssemos como deveríamos atender corretamente ao nosso chamado. Ele é bom e paciente!

Missionária Oriana Costa

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Depoimento - Parte 1 - O TEA na minha vida...

Este é um texto especial. Ainda em toda a minha vida não escrevi nada do gênero. Venho tratar aqui de algo que está em minha mente, mais precisamente em meu cérebro, desde que fui gerada no útero da minha mãe, contudo, nem ela e nem eu sabíamos disso: sou portadora de TEA (Transtorno do Espectro Autista).

Minha vida sempre foi um grande dilema. Muitas coisas que aconteciam comigo e aconteciam ao meu redor eu não entendia. Sempre me achei muito diferente da maioria das pessoas, mas não compreendia o porquê. Às vezes, me achava muito capaz para algumas coisas, outras vezes me achava uma tola, uma idiota, uma excluída. Meus pais nunca me disseram nada a respeito, apesar de eu notar um certo esforço da minha mãe em querer saber porque eu me comportava de maneira tão diferente do resto das crianças no tempo de escola.

Sofri a minha infância, adolescência e juventude inteiras, me sentindo incompreendida pelos meus pais e por outras pessoas, me sentindo mal quando estava perto de muita gente ou em lugares com muito barulho (eu era obrigada a estar nesses lugares), passando meus dias enclausurada no meu quarto e sem amigos - estar sozinha, ou com pouca gente perto de mim, me fazia muito bem e ainda hoje me faz.

Creio que as pessoas na escola e na faculdade deviam me achar muito estranha, mas não tinham coragem de me dizer. Quando eu era adolescente, tinha mais amizade com crianças do que com pessoas da minha idade. Eu achava mais fácil me relacionar com elas. Elas não exigiam muito e gostavam de mim do jeito que eu era. Eu realmente não tinha assunto para as pessoas da minha idade. Se fosse para falar de coisas relacionadas à escola, de estudos, até conseguia conversar, mas, quando passava disso, já não me interessava mais e assim eu tendia a fugir de conversas mais maduras.

Eu amava poesia (e cheguei a fazer várias), artes plásticas de uma forma geral, música e teatro. No entanto, por ser criada de uma forma muito presa, não podia ir fundo com nenhuma das coisas que gostava. Meus pais não me deixavam sair para passear com amigos, e eles mesmos não gostavam de sair. Os únicos lugares que eu podia ir eram: escola, dentista, médico, às compras, sozinha ou na companhia deles. Minha família sempre foi muito reservada e o passeio que eles faziam sempre era para um pequeno sítio situado num município vizinho à cidade que morávamos, para o qual iam todos os fins de semana. Foi nesse ambiente "de claustro" que eu cresci.

Hoje, graças a Deus, consigo enxergar porque fui criada tão presa: percebi que meu pai está dentro do espectro autista, sendo dele que herdei tal condição.

Meu pai sempre foi um homem muito solitário e amargo, só se sentia bem longe de tudo e de todos. Nos fins de semana, se retirava para o seu pequeno sítio de três hectares. Após fazer um concurso para escriturário em um banco, passando em segundo lugar no ano de 1977, ainda quando eu era pequena, trabalhou ali até se aposentar, cerca de trinta anos depois. Ele sempre foi fascinado por matemática e lógica, o que ajudou para que ele se desse muito bem no seu trabalho. O hiperfoco é uma das características de pessoas que se enquadram no perfil do TEA; porém, no meu caso, sempre tive um foco onde eu podia usar minhas habilidades criativas.

Então, de segunda a sexta, meu pai passava o dia trabalhando, fazendo cálculos no banco e, à noite, voltava para casa para jantar e dormir; ao voltar para casa não falava muito com ninguém, simplesmente se isolava. Não tinha amigos, a não ser os colegas de trabalho, que vez perdida apareciam para nos visitar.

Meus pais muito dificilmente saiam para visitar outras pessoas, mesmo seus parentes. E muito dificilmente estes apareciam em nossa casa, pois geralmente as pessoas gostam de ir fazer visitas umas às outras nos fins de semana e, nesses dias, nós estávamos longe, isolados num sítio, onde meu pai gostava de estar. Geralmente, as pessoas que costumavam ir ao sítio vez ou outra e ficar nos fins de semana conosco eram as irmãs do meu pai, minhas tias.

Uma delas ficou viúva muito cedo e uma outra era casada com um marido esquizofrênico, de forma que encontravam nesses passeios em família uma forma de abrandarem aquele vazio da ausência dos maridos. A presença do meu pai servia para suprir a falta dos pais dos meus primos.

Dessa forma, me acostumei a ficar só a maior parte do tempo e, quando muito, na companhia da minha família, sem muito papo com meus pais, vivendo num mundo de sonhos, cores, formas e sons, um mundo só meu, que eu não compartilhava com absolutamente ninguém.

Quando eu e meus pais conversávamos, sempre era para resolver alguma coisa, tomar alguma decisão e só. Eles não demonstravam nenhum tipo de afeto com pessoas, nem mesmo comigo ou com minha irmã; especialmente o meu pai só conseguia demonstrar afeto pelos bichos de estimação que criava. Quando eu questionava minha mãe sobre isso ela respondia que não precisávamos ser carinhosos uns  com os outros para estarmos bem; e também sempre me dizia: "amigos só põem a gente a perder, não precisamos de amigos", talvez numa tentativa de me consolar. Foi nesse contexto que passei toda a minha infância, adolescência e parte da minha juventude. Essa era a minha normalidade.

No entanto, apesar das minhas limitações, eu sentia que não era bom levar a vida daquele jeito. De fato, aquela maneira de viver me oprimia e eu me sentia sempre desvalorizada e incompreendida pelos meus pais. Por não conversarmos muito, em muitas ocasiões eu acabava tomando minhas decisões sem comunicar a eles e fazia muitas coisas às escondidas. Na escola e na faculdade, ninguém tinha ideia do estilo de vida que eu tinha.

A partir dos 14 anos, iniciava e terminava namoros (muitas vezes, sem que meus pais soubessem), sempre na tentativa de que algum deles desse certo e eu finalmente saísse daquela prisão. Mas, eu me aborrecia rapidamente com os comportamentos dos rapazes e logo abandonava os relacionamentos. O que eu não sabia era que eu tinha um problema neurológico e, mesmo que eu casasse e saísse de casa, o fato de eu estar casada e morando longe dos meus pais não iria melhorar muito minha vida. Fatidicamente, descobri isso passando por mais sofrimentos depois de me casar, ainda muito jovem, com 20 anos. Aos 21 anos, alguns meses antes de descobrir minha primeira gravidez, deixei Jesus Cristo entrar em meu coração e passei a aprender Sua palavra. Este é o motivo de eu ainda estar viva hoje e conseguir superar os sintomas do TEA, o que me faz parecer uma pessoa normal.

Por não ter muita noção de perigo, muitas vezes me envolvi em situações que poderiam ter terminado tragicamente, se não fosse a intervenção de Deus me protegendo, pois, como eu não tinha amigos e não dizia nada a ninguém, qualquer coisa poderia me acontecer e muito provavelmente as pessoas só iriam saber quando já fosse tarde demais. Com o tempo, fui aprendendo a não ficar sozinha em todo o tipo de lugar, porque, antigamente, eu não sentia medo de absolutamente nada.

Fui tratada como uma pessoa normal (neurotípica) esses anos todos da minha vida e isso me custou muito sofrimento e frustrações. Certamente, se eu tivesse sido diagnosticada na infância, muitos transtornos e situações desgastantes que passei teriam sido evitados e eu teria tido uma melhor qualidade de vida. Vejo que o que realmente está fazendo a diferença hoje é saber a verdade sobre mim mesma. Antes tarde do que nunca, mas ainda considero que não seja tão tarde, apesar de já ter passado dos quarenta. Pelo menos agora estou mais consciente de quem realmente sou e das minhas limitações e posso dizer alguma coisa concreta às pessoas se precisar explicar minha conduta.

Os vizinhos da casa onde morávamos durante minha adolescência estranhavam minha maneira de ser e achavam que eu era orgulhosa, porque, ao sair na rua, não cumprimentava as pessoas que passavam perto de mim. E ainda hoje, pode ser que algum vizinho do lugar onde moro me ache estranha, visto que nem sempre saio de casa disposta a falar ou cumprimentar as pessoas, mas tenho me esforçado para agir como uma pessoa normal e educada.

Tenho sempre que me policiar ao sair de casa, pois como meu jeito de ser é diferente, posso ferir alguém com minhas palavras ou meu comportamento sem perceber. Tento parecer o mais normal possível, mas isso é muito cansativo para mim, demanda muita renúncia e paciência. Por isso reluto tanto para sair de casa às vezes, especialmente quando é para socializar. Preciso sempre tomar muito cuidado com o que digo ou faço para não ser mal interpretada, ainda assim, vez por outra, escorrego nas ações e nas palavras e aí, já era.

Festas, reuniões, locais com muita gente e muito barulho são sempre muito desgastantes para mim, tanto por causa da vigilância que eu tenho que ter com meu próprio comportamento, quanto pelos estímulos sensoriais ao meu redor (mudanças climáticas, cheiros, sons, luz, movimentos, cores, formas, etc.), que muitas vezes me incomodam e até me assustam. 

Até para ir à igreja ou visitar meus pais, preciso fazer um esforço extra, pois, inacreditavelmente, apesar de gostar muito dos meus irmãos e dos meus pais, eu não sinto falta; mas, ainda que eu não me sinta muito confortável, eu procuro estar lá por crer em Deus e saber, pela palavra d'Ele, que é necessário congregar para manter a fé e que também não devo abandonar meus pais. Minha forma de ver o mundo é muito diferente do normal, mais aguçada em alguns aspectos e deficiente em outros; meus sentimentos são diferentes, isso muitas vezes me atrapalha e se apresenta como um obstáculo gigantesco na hora de realizar algumas tarefas, mas não me impede de fazer o que é certo quando eu sou instruída sobre o que é certo fazer. 

Com toda a certeza, eu acabo fazendo um esforço muito maior do que uma pessoa normal precisa fazer para executar trabalhos comuns, mas procuro ser perseverante. Isso não significa que, muitas vezes, eu não desista de continuar com algumas coisas. Se for para o meu bem ou para o bem da minha família, certamente, desistirei. Isso ocorreu, por exemplo, quando precisei interromper a faculdade que eu amava, a fim de conciliar outras situações importantes na minha vida.

Não conseguia estudar e conciliar isso com os cuidados que tinha que ter com a saúde do meu marido, que na época chegou a ficar muito tempo doente, de cadeira de rodas, e acabei renunciando minha vaga na universidade. Estou há nove anos longe do meu curso do coração (Artes Visuais, UFRN), mas ainda sonho em retomá-lo e terminá-lo. E creio que este sonho está mais perto de se realizar agora.

Tenho problemas com relação a discernir fisionomias; não foram poucas as vezes que senti repulsa com os rostos e comportamentos de algumas pessoas, em vários lugares diferentes, que para outros indivíduos ao meu redor (como para meu marido, por exemplo) são percebidas como pessoas absolutamente normais. Ou seja, uma pessoa de aparência normal pode parecer monstruosa (exagerando aqui na palavra para que me possa fazer entender) ou bem estranha para mim, dependendo de como eu a percebo.

Consigo discernir quando uma pessoa está triste ou está alegre, se está cansada ou está pensativa/preocupada, mas certos de tipos de posturas e jeitos de olhar podem me causar estranheza e podem me fazer ficar bem afastada de alguns indivíduos, sem que estas pessoas sequer tenham interagido comigo. 

Não tenho muito sucesso ao fazer leitura labial, seria um desastre eu estar numa situação difícil em que alguém tente me comunicar alguma coisa apenas mexendo os lábios, sem emitir nenhum som: nada entenderia e a pessoa perderia seu tempo.

Também não me apego a pessoas ou coisas facilmente; só sinto falta de alguém se tal pessoa estiver convivendo comigo há muitos anos diariamente, ou se o indivíduo estiver ligado a mim de uma forma mais forte, como meu marido e meus dois filhos. E mesmo assim, a saudade ainda é um sentimento que não conheço muito bem. Não sou de ficar mandando mensagens para as pessoas ou querendo saber da vida delas; isso pode soar como indiferença, mas o fato é que, em todo o tempo, estou envolta na minha rotina, sempre silenciosa (eu não falo muito) e buscando me concentrar nos meus afazeres. Este é um motivo pelo qual tenho dificuldade de manter amizades, mas Deus realmente tem me ajudado com isso.

Às vezes, para mim, ficar em filas é bem complicado, especialmente se estiverem conversando atrás de mim ou muito próximos a mim. Sinto cócegas com alguns tipos de sons emitidos nas minhas costas e isso incomoda bastante. Esse é um tipo de percepção sonora que eu acho bem estranho em mim. 

Se faço apenas um tipo de serviço (ainda que minucioso) em que preciso me concentrar bem nele, me sinto confortável, no entanto, se tenho que fazer muitos serviços um atrás do outro, ou tenho que mudar de um para outro rapidamente, isso já me desgasta, me trava, pois minha mente sobrecarrega rápido - por isso sou tão lenta para serviços domésticos (essa é uma característica bem masculina que tenho). Contudo, amo cozinhar, pois nesse serviço posso usar bastante minha criatividade. Quase sempre estou inventando novas receitas de bolos e outras guloseimas, para a alegria dos que me cercam.

Um dos momentos mais difíceis da minha vida foi quando eu tive que cuidar dos serviços da casa e dos meus dois filhos, quando eram pequenos, coisa que eu realmente não conseguia fazer; deste modo, acabava optando somente por cuidar deles e deixava a casa sempre para depois (por isso a casa vivia bagunçada a maior parte do tempo).

Eu não sabia como explicar o motivo de eu me sentir tão cansada o tempo todo apenas por cuidar dos meus dois filhos, se eu não estava doente. Fui mal interpretada muitas vezes pela minha própria mãe, que me dizia que eu estava de má vontade para cuidar da casa; durante toda a minha adolescência e início da minha juventude, ela me chamou por várias vezes de imprestável e de inútil, por não conseguir fazer tudo o que ela me pedia, na velocidade que ela queria, e isso me entristecia muito. Mas, ao aprender o ensino de Cristo, eu a perdoei, pois sei que ela me interpretou mal por não entender o que se passava comigo.

Aconteceu que, por três anos seguidos, enquanto meus filhos ainda eram pequenos (eles tinham apenas um ano de diferença de um para o outro), eu só conseguia cuidar deles dois e não conseguia cuidar de mim (especialmente não conseguia descansar ou dormir o suficiente, nem me alimentar direito). Não havia quem me ajudasse na maior parte do tempo, meu marido passava muito tempo fora de casa por causa da faculdade e do trabalho e meus pais moravam longe.

À medida que o tempo foi passando, fui ficando fraca e um dia fui levada para o hospital às pressas com uma grave infecção que quase me levou a óbito. Não morri naquele momento porque fui livrada por Deus. Passei uma semana internada até ter condições de receber alta e ir para casa. Depois disso, vendo meu estado de saúde fragilizado, meus pais resolveram me ajudar contratando uma pessoa para me auxiliar nos serviços domésticos, pois naquele tempo eu não podia pagar. Ninguém desconfiava que aquilo tudo estava acontecendo por causa de uma limitação neurológica que eu tinha. Esse foi, sem dúvida, um dos piores momentos que passei em minha vida por causa do TEA.

Sair da rotina sempre foi muito desgastante para mim, isso inclui toda e qualquer mudança no andamento natural das minhas coisas cotidianas. Quando sei que vou ter que viajar (mesmo que seja a passeio) ou ir visitar alguém (dependendo do motivo da visita), geralmente fico muito ansiosa e perco o sono antes e durante todo o decorrer do evento. É muito comum eu voltar de viagens exausta, se não tomar medicamentos para aliviar a ansiedade, pois só consigo dormir bem ao chegar em casa.

Não entendo todo tipo de piadas e muitas coisas ou situações que fazem as pessoas rirem, para mim, são indiferentes ou não têm graça nenhuma. Não consigo achar pessoas se acidentando algo engraçado - é assim que soa para mim as famosas "videocassetadas" -, enquanto os outros estão rolando de rir, eu fico séria.

Essas são algumas das situações que passei, e continuo passando, no meu dia-a-dia, desde a minha infância até agora. Muitas pessoas não entendem minhas reações diante de algumas situações, mas creio que se alguém que me conhece estiver lendo esse texto vai passar a me entender melhor a partir de agora. 

São muitas as limitações de uma pessoa que está dentro do espectro autista, por causa da sua percepção diferente das coisas ao redor, e realmente não sei se estaria casada por todos esses anos (24 anos) com a mesma pessoa, se Deus não tivesse agido em nossas vidas para nos fazer aceitar um ao outro. Também não sei se suportaria atender ao chamado de Deus na minha vida, sendo uma pessoa anti-social por natureza, e tendo que lidar com pessoas, trabalhar em equipe, ouvir sons altos e ter que passar muitas situações difíceis para mim, se o Senhor Jesus não me ajudasse muito e poderosamente.

Muitas vezes fiquei sem entender, ou entendi errado, comportamentos e falas do meu marido e, tantas outras vezes, meu marido ficou sem me entender ou entendeu errado minhas falas e meu comportamento. Isso resultou em muito desgaste em nosso casamento, creio que se não fosse a intervenção do nosso Criador, certamente não estaríamos mais juntos. Pelo conhecimento de Cristo aprendemos a perdoar e suportar um ao outro e praticamos o perdão mútuo mais do que um casal normal o faz em seu cotidiano, e digo com todas as letras que é isso que nos tem ajudado a prosseguir em paz e alegria.

Hoje estamos indo em busca de um acompanhamento profissional, pois o próprio Deus nos abriu os olhos para a existência do TEA em minha vida e tem nos direcionado a lidar com essa situação da forma correta. Graças ao cuidado do Senhor para conosco, meu marido está me compreendendo melhor e agora eu estou me sentindo mais segura; quando alguém é constantemente incompreendido pelos outros, tal pessoa se torna um ser que vive insatisfeito, inseguro e frustrado o tempo todo (era assim que eu me sentia).

O que posso dizer, enfim, é que Deus muda quadros e contraria as situações para que Seu Nome seja glorificado. Estamos vencendo! Em breve vou publicar outro texto com mais detalhes de como foi enfrentar o pastoreio de igrejas sem saber da minha condição, e como isso me afetou. Até lá!  

Oriana Costa

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