sábado, 26 de março de 2022

A Crucificação - Considerações sobre Mateus 27 - Parte 3


Depois que Barrabás foi solto, e o Senhor foi açoitado em um outro espaço fora do Pretório, os soldados romanos levaram Jesus de volta àquele lugar, para iniciar os preparativos para a crucificação dos condenados à morte naquele dia. Em seguida, obrigando-o a levar sua própria cruz, conduziram-no ao Gólgota, para ser, finalmente, crucificado.

Vejamos a seguir o trecho do Evangelho de Mateus que narra esses acontecimentos:

Então, os soldados do governador levaram Jesus ao Pretório e reuniram toda a tropa ao seu redor. Tiraram-lhe as vestes e puseram nele um manto vermelho; fizeram uma coroa de espinhos e a colocaram em sua cabeça. Puseram uma vara em sua mão direita e, ajoelhando-se diante dele, zombavam: "Salve, rei dos judeus!" Cuspiram nele e, tirando-lhe a vara, batiam-lhe com ela na cabeça. Depois de terem zombado dele, tiraram-lhe o manto e vestiram-lhe suas próprias roupas. Então o levaram para crucificá-lo. Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e o forçaram a carregar a cruz. Chegaram a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer Lugar da Caveira, e lhe deram para beber vinho misturado com fel; mas, depois de prová-lo, recusou-se a beber. Depois de o crucificarem, dividiram as roupas dele, tirando sortes. E, sentando-se, vigiavam-no ali. Por cima de sua cabeça colocaram por escrito a acusação feita contra ele: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS. Dois ladrões foram crucificados com ele, um à sua direita e outro à sua esquerda. Os que passavam lançavam-lhe insultos, balançando a cabeça e dizendo: "Você que destrói o templo e o reedifica em três dias, salve-se! Desça da cruz, se é Filho de Deus!" Da mesma forma, os chefes dos sacerdotes, os mestres da lei e os líderes religiosos zombavam dele, dizendo: "Salvou os outros, mas não é capaz de salvar a si mesmo! E é o rei de Israel! Desça agora da cruz, e creremos nele. Ele confiou em Deus. Que Deus o salve agora, se dele tem compaixão, pois disse: ‘Sou o Filho de Deus!’" Igualmente o insultavam os ladrões que haviam sido crucificados com ele. (Mateus 27:27-44)

Antes de ser morto, o Senhor Jesus foi duramente castigado. Provavelmente, Cristo foi o único dos condenados a ser severamente açoitado, além de escarnecido publicamente e obrigado a levar a própria cruz onde seria crucificado, que era de madeira maciça e, por isso, muito pesada. 

No livro do profeta Isaías há um relato que confirma algumas das coisas que o Messias haveria de passar até sua morte:

Ele não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse, nada em sua aparência para que o desejássemos. Foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de tristeza e familiarizado com o sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima. Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças, contudo nós o consideramos castigado por Deus, por ele atingido e afligido. Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. Todos nós, tal qual ovelhas, nos desviamos, cada um de nós se voltou para o seu próprio caminho; e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. Ele foi oprimido e afligido, contudo não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado para o matadouro, e como uma ovelha que diante de seus tosquiadores fica calada, ele não abriu a sua boca. (Isaías 53:2-7)

Não há relatos em nenhum dos Evangelhos de que os outros condenados foram submetidos a tamanha tortura e crueldade. Em Marcos 15:16-20, encontramos uma narrativa similar à constante no Evangelho de Mateus 27:27-31, sobre esse acontecimento brutal.

Como o Senhor Jesus já estava bem debilitado, devido aos requintes de crueldade que havia sofrido, os guardas observaram que Ele não aguentaria carregar muito tempo o peso da cruz. Então, obrigaram a um homem que vinha passando ali no momento, voltando do campo, a carregar a cruz no lugar de Cristo.

O nome do homem era Simão, um judeu natural de Cirene, e ele tinha dois filhos, que se chamavam Alexandre e Rufo (Marcos 15:21). Cirene era uma cidade grega situada na Líbia, que naquele momento estava debaixo do domínio romano.

Sobre os filhos de Simão, não é à toa que estão listados no Evangelho de Marcos. Esses dois rapazes estiveram diretamente envolvidos na igreja do Senhor, alguns anos depois. Rufo, converteu-se a Cristo e fez parte da igreja de Roma. Lá ajudou ao Apóstolo Paulo, e isso vemos na carta de Paulo aos romanos, onde este lhe envia uma carinhosa saudação (Romanos 16:13).

Já Alexandre, era latoeiro/ferreiro (fabricava objetos de latão e ferro) e também era um dos judeus que acompanhavam os ensinamentos de Paulo na cidade de Éfeso (Atos 19:33,34). Apesar de passar cerca de dois anos ouvindo a mensagem do Evangelho, Alexandre, tempos depois, acabou endurecendo seu coração e causando muitos males ao Apóstolo, conforme podemos ler nas cartas de Paulo a Timóteo (1Timóteo 2:20, 2Timóteo 4:14)

Retomando nossa análise, vamos incluir aqui uma fala de Jesus, que acontece logo após o momento em que sua cruz é passada para Simão de Cirene. Esse momento encontra-se registrado apenas no Evangelho de Lucas.

Observando as mulheres que o seguiam, e que lamentavam por causa dele, Cristo se dirige a elas profetizando o que haveria de acontecer a Jerusalém quatro décadas após aquele dia:

Um grande número de pessoas o seguia, inclusive mulheres que lamentavam e choravam por ele. Jesus voltou-se e disse-lhes: "Filhas de Jerusalém, não chorem por mim; chorem por vocês mesmas e por seus filhos! Pois chegará a hora em que vocês dirão: ‘Felizes as estéreis, os ventres que nunca geraram e os seios que nunca amamentaram!’ "Então dirão às montanhas: ‘Caiam sobre nós!’ e às colinas: ‘Cubram-nos!’ Pois, se fazem isto com a árvore verde, o que acontecerá quando ela estiver seca?" (Lucas 23:27-31)

Nesta fala, Cristo cita um trecho do livro do Profeta Oséias, que profetiza a destruição de Jerusalém no futuro:

Os altares da impiedade, que foram os pecados de Israel, serão destruídos. Espinhos e ervas daninhas crescerão e cobrirão os seus altares. Então eles dirão aos montes: "Cubram-nos!", e às colinas: "Caiam sobre nós!" (Oséias 10:8)

Ele chama a atenção das mulheres para o severo juízo que aconteceria a Jerusalém, por causa da impiedade dos israelitas. Ao dizer "se fazem isto com a árvore verde, o que acontecerá quando ela estiver seca?", o Senhor está avisando que, se Ele estava presente ali e a situação de Israel já estava ruim, debaixo do domínio do Império Romano, uma situação muito pior se levantaria no futuro, quando Ele já não estivesse mais presente (fisicamente).

Esse ato de Jesus também foi profetizado por Jeremias, como veremos abaixo:

O que eu enxergo enche-me a alma de tristeza, de pena de todas as mulheres da minha cidade. (Lamentações 3:51)

Após esse episódio, Cristo chega ao local onde seria crucificado. Ali, segundo a narrativa constante no Evangelho de Marcos (Mc 15:23), antes de crucificarem Jesus, foi oferecida a ele uma porção de vinho misturado com mirra (em Mateus lemos "vinho com fel"), para diminuir o sofrimento dele na hora da crucificação, pois essa mistura iria deixá-lo entorpecido. No entanto, Cristo se recusa a beber, porque escolheu passar por todo o sofrimento decretado pelo Pai, por causa dos pecados de toda a humanidade.

Depois os soldados romanos tiraram novamente as roupas de Jesus (a primeira vez foi no Pretório, quando foi humilhado pelos soldados - Mt 27:28-31) e o crucificaram, totalmente despido.

Enquanto estava sendo crucificado, o Senhor pediu que o Pai perdoasse as pessoas que o estavam condenando e crucificando, pois não sabiam o que estavam fazendo: "Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo". (Lucas 23:34) Certamente, os líderes religiosos de Israel, o povo, Pilatos e seus soldados, não tinham ideia de quem Jesus realmente era.

Especialmente os líderes religiosos de Israel poderiam ter discernido o Cristo por causa do conhecimento que tinham das Escrituras, mas não conseguiram associar aquilo que foi profetizado acerca do Messias a Jesus. Seus corações estavam longe do Reino de Deus, e suas almas estavam totalmente ignorantes sobre esse lugar. Por terem se enchido de um conhecimento misturado com falsas doutrinas criadas entre eles mesmos, seu entendimento dos mandamentos instituídos por Deus foi pervertido e, consequentemente, sua percepção do Reino de Deus foi bloqueada.

Os doze Apóstolos, bem como os demais discípulos de Jesus, naquele momento, também não conseguiam ligar a pessoa de Jesus ao que estava escrito sobre Ele, por estarem na mesma situação dos líderes religiosos de Israel, ignorando a realidade e os preceitos do Reino de Deus, apesar de crerem na mensagem que Jesus anunciava.

De fato, mesmo após todos os avisos que Jesus lhes dera em dias anteriores, sobre o que iria acontecer, eles ficaram confusos, sem entender o que estavam presenciando. Somente após a ressurreição de Jesus, quando este reaparece entre eles, é que passam a entender o que aconteceu (Lucas 24:41-45).

A crucificação aconteceu às nove horas da manhã, segundo o relato do Evangelho de Marcos (Mc 15:25). As roupas de Jesus foram repartidas entre os soldados romanos, e sua túnica foi tomada por sorteio. No Evangelho de João encontramos esse momento descrito com detalhes:

Tendo crucificado Jesus, os soldados tomaram as roupas dele e as dividiram em quatro partes, uma para cada um deles, restando a túnica. Esta, porém, era sem costura, tecida numa única peça, de alto a baixo. "Não a rasguemos", disseram uns aos outros. "Vamos decidir por sorteio quem ficará com ela." Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura que diz: "Dividiram as minhas roupas entre si, e tiraram sortes pelas minhas vestes". Foi o que os soldados fizeram. (João 19:23,24)

No livro de Salmos podemos ler o que foi profetizado pelo Rei Davi sobre esse momento que Cristo passaria:

Cães me rodearam! Um bando de homens maus me cercou! Perfuraram minhas mãos e meus pés. Posso contar todos os meus ossos, mas eles me encaram com desprezo. Dividiram as minhas roupas entre si, e tiraram sortes pelas minhas vestes. (Salmos 22:16-18)

Na parte superior da cruz onde Cristo estava, os soldados colocaram uma placa, a mando de Pilatos, onde estava escrito "ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS" (Mt 27:37), em três idiomas. Esta placa deveria conter a acusação pela qual aquele réu havia sido condenado à morte, no entanto, Pilatos ordenou que a frase fosse escrita não como acusação, e sim como título, pois ele reconheceu que Jesus tinha realmente a autoridade de um rei.

Isso desagradou os líderes religiosos de Israel, pois soou como se eles estivessem cometendo um erro grave, condenando à morte aquele que deveria ser o rei deles. Esse momento está descrito no Evangelho de João:

Pilatos mandou preparar uma placa e pregá-la na cruz, com a seguinte inscrição: JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS. Muitos dos judeus leram a placa, pois o lugar em que Jesus foi crucificado ficava próximo da cidade, e a placa estava escrita em aramaico, latim e grego. Os chefes dos sacerdotes dos judeus protestaram junto a Pilatos: "Não escrevas ‘O Rei dos Judeus’, mas sim que esse homem se dizia rei dos judeus". Pilatos respondeu: "O que escrevi, escrevi". (João 19:19-22)

Um pouco depois de ter sido crucificado, algumas pessoas conhecidas estavam ali perto, e o Senhor Jesus percebeu que sua mãe também estava ali, e falou algo muito importante para ela. Essa fala de Cristo também está registrada no Evangelho de João:

Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã dela, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: "Aí está o seu filho", e ao discípulo: "Aí está a sua mãe". Daquela hora em diante, o discípulo a levou para casa. (João 19:25-27)

Jesus, ali, se despediu de sua mãe e passou a sua "filiação humana" oficialmente para o Apóstolo João. Os irmãos e irmãs de Jesus, naquele momento, não acreditavam nele, por isso Ele escolheu um de seus discípulos para receber em casa e cuidar de Maria, que era viúva e já não teria a presença do seu primogênito para cuidar dela.

Ele precisou agir dessa forma, pois, como Cristo existe desde antes dos seres humanos existirem, tendo inclusive participado da criação do homem, teria que se apartar da situação mortal na qual fora inserido de forma provisória e sobrenaturalmente (Cristo foi gerado no útero de uma jovem virgem), a fim de cumprir todas as exigências e mandamentos contidos nas escrituras para, só então, poder se entregar em sacrifício pelos pecados da humanidade.

O Senhor Jesus foi crucificado com dois outros homens, que eram ladrões: um estava a sua direita, e o outro a sua esquerda. Os evangelhos de Mateus e Marcos pontuam que os dois o insultaram, junto com as autoridades israelitas e outras pessoas que ali passavam (Mt 27:38-44, Mc 15:27-32).

Porém, no Evangelho de Lucas, observamos que um dos ladrões creu na mensagem do Reino de Deus, e, provavelmente, também creu que Jesus era o Messias, pois mesmo sabendo que Jesus ia morrer ali, pediu-lhe para que "lembrasse dele ao entrar no Seu Reino":

Um dos criminosos que ali estavam dependurados lançava-lhe insultos: "Você não é o Cristo? Salve-se a si mesmo e a nós!" Mas o outro criminoso o repreendeu, dizendo: "Você não teme a Deus, nem estando sob a mesma sentença? Nós estamos sendo punidos com justiça, porque estamos recebendo o que os nossos atos merecem. Mas este homem não cometeu nenhum mal". Então ele disse: "Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino". Jesus lhe respondeu: "Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso". (Lucas 23:39-43)

A fé que esse ladrão teve provavelmente foi a mais convicta de todas, visto que ele não duvidou da veracidade da mensagem do Reino, apesar de Jesus estar diante dele sem realizar nenhum milagre visível, além de vê-lo ser violentado, humilhado e ridicularizado diante de todos. Por isso, Jesus considerou as palavras daquele ladrão, e lhe deu a famosa resposta "eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso".

Quanto aos insultos que Jesus recebeu, assim como tantas outras coisas que aconteceram com Ele, esses também foram preditos no Antigo Testamento, no livro de Salmos:

Mas eu sou verme, e não homem, motivo de zombaria e objeto de desprezo do povo. Caçoam de mim todos os que me veem; balançando a cabeça, lançam insultos contra mim, dizendo: "Recorra ao Senhor! Que o Senhor o liberte! Que ele o livre, já que lhe quer bem!" Contudo, tu mesmo me tiraste do ventre; deste-me segurança junto ao seio de minha mãe. Desde que nasci fui entregue a ti; desde o ventre materno és o meu Deus. Não fiques distante de mim, pois a angústia está perto e não há ninguém que me socorra. Muitos touros me cercam, sim, rodeiam-me os poderosos de Basã. Como leão voraz rugindo escancaram a boca contra mim. (Salmos 22:6-13)

Para finalizar nosso estudo, gostaria de expor uma curiosidade: é muito comum vermos imagens e pinturas famosas de Jesus carregando a cruz com uma coroa de espinhos na cabeça e um manto vermelho sobre suas roupas. Outras exibem Jesus crucificado com um pano envolvendo as partes intimas e uma coroa de espinhos na cabeça.

Contudo, se analisarmos os textos dos evangelhos, vamos observar que antes dos sodados colocarem a cruz para Cristo carregar, eles tiraram dele o manto vermelho (ou manto de púrpura) de rei e o vestiram com suas próprias roupas (Mateus 27:27-31, Marcos 15:16-20). Isso quer dizer que muito provavelmente os outros acessórios que colocaram nele também foram retirados (a coroa de espinhos e o cetro improvisado).

Um outro detalhe é que, além de Cristo ter sido crucificado sem a coroa de espinhos sobre a cabeça, Ele estava nu, pois toda a sua roupa foi retirada (as quatro partes de sua roupa, mais a túnica! - veja em João 19:23). 

Missionária Oriana Costa

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

O Julgamento - Considerações sobre Mateus 27 - Parte 2


Dando continuidade ao estudo do capítulo 27 do Evangelho de Mateus, agora vamos entender o que aconteceu com o Senhor Jesus quando ele foi levado às autoridades romanas e, em seguida, foi condenado à morte. Para uma melhor compreensão do que se sucedeu nesses momentos, vamos agregar aqui mais alguns trechos correspondentes que se encontram nos outros três evangelhos.

Ao verificarmos os outros trechos que falam do mesmo assunto nos evangelhos de Marcos, Lucas e João, iremos nos deparar com informações complementares sobre o que aconteceu com Jesus um pouco antes de ser levado à presença do governador de Jerusalém e, também, quando já estava na presença deste.

Vejamos a narrativa do Evangelho de Mateus:

Jesus foi posto diante do governador, e este lhe perguntou: "Você é o rei dos judeus? " Respondeu-lhe Jesus: "Tu o dizes". Acusado pelos chefes dos sacerdotes e pelos líderes religiosos, ele nada respondeu. Então Pilatos lhe perguntou: "Você não ouve a acusação que eles estão fazendo contra você?" Mas Jesus não lhe respondeu nenhuma palavra, de modo que o governador ficou muito impressionado.
Por ocasião da festa era costume do governador soltar um prisioneiro escolhido pela multidão. Eles tinham, naquela ocasião, um prisioneiro muito conhecido, chamado Barrabás. Pilatos perguntou à multidão que ali se havia reunido: "Qual destes vocês querem que lhes solte: Barrabás ou Jesus, chamado Cristo?" Porque sabia que o haviam entregado por inveja. 
Estando Pilatos sentado no tribunal, sua mulher lhe enviou esta mensagem: "Não se envolva com este inocente, porque hoje, em sonho, sofri muito por causa dele". Mas os chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos convenceram a multidão a que pedisse Barrabás e mandasse executar a Jesus.
Então perguntou o governador: "Qual dos dois vocês querem que eu lhes solte?" Responderam eles: "Barrabás!" Perguntou Pilatos: "Que farei então com Jesus, chamado Cristo?" Todos responderam: "Crucifica-o!" "Por quê? Que crime ele cometeu?", perguntou Pilatos. Mas eles gritavam ainda mais: "Crucifica-o!"
Quando Pilatos percebeu que não estava obtendo nenhum resultado, mas, pelo contrário, estava se iniciando um tumulto, mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão e disse: "Estou inocente do sangue deste homem; a responsabilidade é de vocês". Todo o povo respondeu: "Que o sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos!" Então Pilatos soltou-lhes Barrabás, mandou açoitar Jesus e o entregou para ser crucificado. (Mateus 27:11-26)

Nas primeiras horas da manhã do dia seguinte a sua prisão, que aconteceu já bem tarde da noite do dia anterior (muito provavelmente entre as 22 e 23 horas), Cristo foi levado à presença do governador da província da Judeia, Pôncio Pilatos, a fim de ser julgado e condenado à morte por ele. Esse detalhe observamos no Evangelho de Marcos:

De manhã bem cedo, os chefes dos sacerdotes com os líderes religiosos, os mestres da lei e todo o Sinédrio chegaram a uma decisão. Amarrando Jesus, levaram-no e o entregaram a Pilatos. (Marcos 15:1)

Então, depois de passar a madrugada inteira sendo humilhado e acusado injustamente pelos sacerdotes e lideres religiosos de Israel, e sofrendo violência por parte dos soldados romanos que o prenderam, sem mais demoras, Ele é levado para ser julgado pelas autoridades romanas.

Jesus foi primeiro levado a Pilatos, que estava no Pretório em Jerusalém, e este o enviou a Herodes quando soube que Jesus era Galileu, pois Herodes governava aquela região. Herodes, por sua vez, não encontrando motivos para condenar Cristo, mandou-o de volta a Pilatos.

O Pretório era uma grande construção, parecida com um castelo, que, além de servir como residência para o governador, servia de prisão para os criminosos e também era o local onde eram realizados os julgamentos destes. Essa informação encontramos no Evangelho de João:

Em seguida, de Caifás os judeus levaram Jesus para o Pretório. Já estava amanhecendo e, para evitar contaminação cerimonial, os judeus não entraram no Pretório; pois queriam participar da Páscoa. (João 18:28)

Assim, os soldados romanos levaram Jesus para dentro daquele lugar e os líderes religiosos de Israel ficaram do lado de fora, pois, como o fechamento da celebração da Páscoa aconteceria exatamente no fim daquele dia, os judeus não deveriam se contaminar entrando em locais considerados "imundos" por eles.

No entanto, na Lei Mosaica não há quaisquer mandamentos que ordenem os israelitas a não entrarem em casas de gentios, prisões ou tribunais antes da celebração da Páscoa, a fim de não se contaminarem. 

Isso significa que, provavelmente, assim como o costume de "lavar as mãos antes das refeições" ou "estar desobrigado de sustentar os pais idosos, caso o dinheiro destinado a esse fim fosse entregue como oferta no templo", essa era mais uma prática criada pela tradição e agregada aos costumes judaicos como se fosse vinda de Deus.

Prosseguindo com nosso estudo, vamos focar agora no diálogo que houve entre Jesus e Pilatos, antes de sua condenação. Essa conversa aconteceu após Jesus ter sido enviado a Herodes, e este tê-lo mandado de volta a Pilatos, sem ter visto nele quaisquer motivos para acusá-lo. Enquanto esteve diante de Herodes, o Cristo se manteve calado, de acordo com o relato constante no Evangelho de Lucas:

Pilatos perguntou se Jesus era galileu. Quando ficou sabendo que ele era da jurisdição de Herodes, enviou-o a Herodes, que também estava em Jerusalém naqueles dias. Quando Herodes viu Jesus, ficou muito alegre, porque havia muito tempo queria vê-lo. Pelo que ouvira falar dele, esperava vê-lo realizar algum milagre. Interrogou-o com muitas perguntas, mas Jesus não lhe deu resposta. Os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei estavam ali, acusando-o com veemência. Então Herodes e os seus soldados ridicularizaram-no e zombaram dele. Vestindo-o com um manto esplêndido, mandaram-no de volta a Pilatos. Herodes e Pilatos, que até ali eram inimigos, naquele dia tornaram-se amigos. (Lucas 23:6-12)

Tanto Herodes quanto Pilatos esperavam que Cristo se defendesse de alguma forma, mas o réu não disse palavra alguma em sua defesa, o que surpreendeu especialmente o governador da província da Judeia. 

De fato, antes mesmo de conversar com Jesus, Pilatos sabia que todas as acusações contra ele eram falsas, pois já estava ciente da inveja que os líderes religiosos de Israel tinham dele, como lemos em Mateus 27:18, e por isso não tinha motivos para condenar o Senhor. No evangelho de Marcos vemos um relato similar:

"Vocês querem que eu lhes solte o rei dos judeus? ", perguntou Pilatos, sabendo que fora por inveja que os chefes dos sacerdotes lhe haviam entregado Jesus. (Marcos 15:9,10)

Na conversa que Pilatos teve com o Senhor, antes de se dirigir à multidão, apesar de ter notado que Jesus não se defendeu das acusações, ele ouviu algumas palavras que o deixaram temeroso de condenar aquele réu. Nos dois trechos abaixo podemos conferir as respostas de Cristo:

Pilatos então voltou para o Pretório, chamou Jesus e lhe perguntou: "Você é o rei dos judeus?" Perguntou-lhe Jesus: "Essa pergunta é tua, ou outros te falaram a meu respeito?" Respondeu Pilatos: "Acaso sou judeu? Foram o seu povo e os chefes dos sacerdotes que entregaram você a mim. Que é que você fez?" Disse Jesus: "O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui". "Então, você é rei!", disse Pilatos. Jesus respondeu: "Tu dizes que sou rei. De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todos os que são da verdade me ouvem". "Que é a verdade?", perguntou Pilatos. Ele disse isso e saiu novamente para onde estavam os judeus e disse: "Não acho nele motivo algum de acusação". (João 18:33-38)

Os judeus insistiram: "Temos uma lei e, de acordo com essa lei, ele deve morrer, porque se declarou Filho de Deus". Ao ouvir isso, Pilatos ficou ainda mais amedrontado e voltou para dentro do palácio. Então perguntou a Jesus: "De onde você vem?", mas Jesus não lhe deu resposta."Você se nega a falar comigo?", disse Pilatos. "Não sabe que eu tenho autoridade para libertá-lo e para crucificá-lo?" Jesus respondeu: "Não terias nenhuma autoridade sobre mim, se esta não te fosse dada de cima. Por isso, aquele que me entregou a ti é culpado de um pecado maior". Daí em diante Pilatos procurou libertar Jesus, mas os judeus gritavam: "Se deixares esse homem livre, não és amigo de César. Quem se diz rei opõe-se a César". (João 19:7-12)

Pilatos temeu que alguns dos motivos pelos quais Jesus estava sendo acusado pelos líderes religiosos fossem, na verdade, motivos para respeitá-lo e reverenciá-lo. Muito provavelmente Pilatos temeu que Ele fosse mesmo o Cristo (o Messias) que os judeus esperavam, pois observou autoridade e sabedoria nas respostas de Jesus.

A própria esposa de Pilatos enviou-lhe uma mensagem antes que ele desse o veredito, pedindo ao seu marido para não se envolver naquele julgamento, por ter recebido em sonho a revelação de que aquele homem era inocente, e que na ocasião havia sofrido muito por causa dele (Mateus 27:19)

Então, a fim de evitar um tumulto desnecessário, que poderia tomar proporções maiores e violentas, e que certamente levaria muitos judeus à prisão e à morte, Pôncio Pilatos não viu outra saída senão condenar Jesus, mas deixando claro que não via nele culpa para isso.

Foi por estes motivos que, ao terminar o julgamento de Jesus, Pilatos se esquivou da responsabilidade da condenação daquele homem inocente à morte, e entregou-a oficialmente aos judeus, lavando as mãos diante deles (Mateus 27:24).

Dentre as muitas acusações que as lideranças religiosas de Israel fizeram diante de Herodes e Pilatos, os evangelhos ressaltam as seguintes:

  • Encontramos este homem subvertendo a nossa nação. Ele proíbe o pagamento de imposto a César e se declara ele próprio o Cristo, um rei. (Lucas 23:2)
  • Quem se diz rei opõe-se a César. (João 19:12)
  • Ele está subvertendo o povo em toda a Judeia com os seus ensinamentos. Começou na Galileia e chegou até aqui. (Lucas 23:5)
  • Temos uma lei e, de acordo com essa lei, ele deve morrer, porque se declarou Filho de Deus. (João 19:7)

No Antigo Testamento, encontramos alguns trechos que se referem à maneira como Jesus iria se comportar diante das autoridades no momento de seu julgamento, e que Ele seria julgado injustamente:

Como um cordeiro foi levado para o matadouro, e como uma ovelha que diante de seus tosquiadores fica calada, ele não abriu a sua boca. Com julgamento opressivo ele foi levado. (Isaías 53:7,8)

Como um surdo, não ouço, como um mudo, não abro a boca. Fiz-me como quem não ouve, e em cuja boca não há resposta. (Salmos 38:13,14)

Pois homens ímpios e falsos dizem calúnias contra mim, e falam mentiras a meu respeito. Eles me cercaram com palavras carregadas de ódio; atacaram-me sem motivo. Em troca da minha amizade eles me acusam, mas eu permaneço em oração. Retribuem-me o bem com o mal, e a minha amizade com ódio. (Salmos 109:2-5)

Com relação ao povo escolher um rebelde/assassino para ser solto no lugar de Jesus, foi algo inusitado, pois a tendência dos judeus naquele evento seria escolher alguém que segundo a Lei Mosaica não fosse digno de morte. 

Barrabás era muito conhecido (Mateus 27:16), ou seja, já tinha um histórico de se meter em confusão. Naquele momento, ele estava preso por ter participado de uma rebelião contra o Império Romano, onde havia matado pessoas, e isso já era o suficiente para que Jesus fosse escolhido para ser solto, e não Barrabás.

Segundo a Lei Mosaica, um assassino deveria ser condenado à morte:

Quem matar uma pessoa terá que ser executado como assassino mediante depoimento de testemunhas. Mas ninguém será executado mediante o depoimento de apenas uma testemunha. Não aceitem resgate pela vida de um assassino; ele merece morrer. Certamente terá que ser executado. (Números 35:30,31)

No entanto, o ódio e a inveja que os líderes religiosos tinham do Senhor chegou ao extremo de negarem os mandamentos da Lei descaradamente e em público, optando por devolver à liberdade um indivíduo perigoso para a sociedade, em vez de libertarem Jesus.

Essa situação expôs o que realmente estava nos corações daquelas lideranças israelitas: eles não tinham qualquer temor a Deus, e colocavam a satisfação das suas próprias vontades acima da obediência aos mandamentos dados a eles por Seu Criador, em quem diziam crer.

Sobre a fala da multidão no fechamento do julgamento de Jesus Cristo "que o sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos!", foram palavras ditas com ironia, no entanto, o povo não tinha ideia do peso que elas tinham, haja vista que estavam julgando o Filho de Deus, o Seu Rei, que estava totalmente inocente. Com tal declaração os habitantes de Jerusalém decretaram para si um rigoroso juízo, que, de fato, já havia sido predito pelos profetas no Antigo Testamento, e que aconteceu ali 40 anos após (clique aqui para saber mais sobre a destruição de Jerusalém em 70 d.C.).

Missionária Oriana Costa

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Judas Iscariotes - Considerações sobre Mateus 27 - Parte 1


Vamos começar lendo o trecho a seguir:

De manhã cedo, todos os chefes dos sacerdotes e líderes religiosos do povo tomaram a decisão de condenar Jesus à morte. E, amarrando-o, levaram-no e o entregaram a Pilatos, o governador. Quando Judas, que o havia traído, viu que Jesus fora condenado, foi tomado de remorso e devolveu aos chefes dos sacerdotes e aos líderes religiosos as trinta moedas de prata. E disse: "Pequei, pois traí sangue inocente". E eles retrucaram: "Que nos importa? A responsabilidade é sua". Então Judas jogou o dinheiro dentro do templo, saindo, foi e enforcou-se. Os chefes dos sacerdotes ajuntaram as moedas e disseram: "É contra a lei colocar este dinheiro no tesouro, visto que é preço de sangue". Então decidiram usar aquele dinheiro para comprar o campo do Oleiro, para cemitério de estrangeiros. Por isso ele se chama campo de Sangue até o dia de hoje. Então se cumpriu o que fora dito pelo profeta Jeremias: "Tomaram as trinta moedas de prata, preço em que foi avaliado pelo povo de Israel, e as usaram para comprar o campo do Oleiro, como o Senhor me ordenou. (Mateus 27:1-10)

Neste texto, vamos entender melhor o momento em que Judas "se arrepende" de ter traído Jesus. Esse é um dos assuntos polêmicos acerca da vida e morte do Messias, pois há duas correntes de pensamento acerca do que aconteceu com Judas, por ele ter traído o Cristo e depois ter desistido de viver.

A primeira corrente defende que Judas foi salvo, mesmo tendo atentado contra a própria vida, porque se arrependeu do que tinha feito. A segunda é que não houve salvação para ele, mesmo tendo se arrependido, porque cometeu suicídio. É bom lembrar que estas duas correntes são provenientes de julgamentos que se baseiam na "aparência da situação".

No entanto, ao julgarmos o acontecido pelos parâmetros da justiça de Deus, teremos uma ideia do que realmente se sucedeu. Para tanto, em primeiro lugar, levaremos em consideração as falas de Jesus e dos Apóstolos e o que a Lei Mosaica apresenta sobre esse caso específico.

Vale lembrar que, quando Judas traiu o Senhor e em seguida cometeu suicídio, a Lei Mosaica ainda estava em vigor, pois naquele momento o Messias não havia sido crucificado nem ressuscitado, e a segunda aliança entre Deus e os homens ainda não estava estabelecida.

Por isso, tudo o que ele fez, assim como tudo o que outras pessoas fizeram contra o Cristo naquele tempo, movidas por suas incredulidades à mensagem do Reino, será julgado por Deus segundo o rigor da Lei de Moisés. A mensagem de salvação – mensagem do Reino ou mensagem do Evangelho, como é mais conhecida –, já havia sido anunciada pelos antigos profetas (que foram assassinados pelo próprio povo de Israel!) até João Batista e, depois, foi proclamada pelo próprio Jesus.

Levando em consideração as palavras do Senhor Jesus, veremos que, apesar de ter-se arrependido do que fez, Judas Iscariotes "não deveria ter nascido", "era um diabo" e "se perdeu", e por isso sabemos que ele foi condenado, como veremos abaixo:

O Filho do homem vai, como está escrito a seu respeito. Mas ai daquele que trai o Filho do homem! Melhor lhe seria não haver nascido. (Mateus 26:24)

Então Jesus respondeu: "Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um diabo!" (Ele se referia a Judas, filho de Simão Iscariotes, que, embora fosse um dos Doze, mais tarde haveria de traí-lo) (João 6:70,71)

Enquanto estava com eles, eu os protegi e os guardei pelo nome que me deste. Nenhum deles se perdeu, a não ser aquele que estava destinado à perdição, para que se cumprisse a Escritura. (João 17:12)

Essas afirmações do Senhor Jesus, portanto, põem abaixo a crença de que Judas Iscariotes não foi salvo por ter se suicidado, pois antes mesmo de tirar a própria vida, ele já estava condenado. Contudo, é importante ressaltar que, ao contrário do que é ensinado por alguns, as profecias sobre Judas não significam que Deus determinou que ele se perdesse e o reservou para o inferno. Mas simplesmente mostram que o Pai já sabia o que aconteceria e assim o revelou.

Estar "destinado à perdição" significa que isso era o que aconteceria com Judas, por não ter crido em Cristo. Assim também todo aquele que crê será salvo, mas todo o que rejeitar o evangelho será condenado (Marcos 16:16). O destino de qualquer que rejeita a Cristo, pela incredulidade, está estabelecido por Deus, contudo não é Deus quem escolhe em nosso lugar, pois Deus é bom e deseja que todos se salvem (1 Timóteo 2:4).

Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. (João 3:18)

Agora, examinando a Lei Mosaica, encontramos o seguinte, sobre esse assunto:

Não se envolva em falsas acusações nem condene à morte o inocente e o justo, porque não absolverei o culpado. Não aceite suborno, pois o suborno cega até os que têm discernimento e prejudica a causa do justo. (Êxodo 23:7,8)

Há algo sobre o arrependimento de Judas que devemos notar: aquele remorso não foi proveniente da fé naquilo que Jesus estava anunciando, que era a mensagem do Reino de Deus, mas vinha de si mesmo ou de sua carne.

Judas não conseguiu ver Jesus como o Messias, pois não acreditava nas Escrituras nem aceitou ou concordou com o que Ele anunciou. Se tivesse sido assim, ele não teria traído o Cristo, mas teria se juntado aos demais Apóstolos, para esperar o cumprimento dos avisos dados pelo Senhor.

E sobre o remorso que Judas sentiu e que o fez procurar suicídio, temos uma explicação na própria Bíblia sobre isso. O Apóstolo Paulo fala bem sobre esse assunto, como veremos a seguir:

A tristeza segundo Deus produz um arrependimento que leva à salvação e não remorso, mas a tristeza segundo o mundo produz morte. (2 Coríntios 7:9)

No capítulo 26 de Mateus, vemos que um outro discípulo falhou com Jesus no momento em que Ele foi preso, não cumprindo sua promessa de lealdade para com o Senhor, e, quando reconheceu seu erro, ficou demasiadamente amargurado. No entanto, sua culpa não o fez se separar dos demais ou procurar tirar sua própria vida.

Ao invés de trilhar o mesmo caminho de Judas, aquele homem aceitou o perdão de Deus e simplesmente continuou junto aos que tinham fé em Cristo, se esforçando para atender o chamado de Deus para sua vida. Nos quatro Evangelhos há relatos similares do que aconteceu com ele. Esse homem foi Simão Pedro.

O arrependimento desse discípulo se deu por causa de sua fé na mensagem do Reino, por isso continuou firme. Ele creu realmente em Jesus e foi convencido de seu erro pelas palavras que ouviu de seu mestre antes d'Ele ser preso. E esse mesmo discípulo de Cristo foi usado por Deus para orientar as pessoas com relação à lacuna que Judas deixou, na primeira formação da igreja:

Naqueles dias Pedro levantou-se entre os irmãos, um grupo de cerca de cento e vinte pessoas, e disse: "Irmãos, era necessário que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo predisse por boca de Davi, a respeito de Judas, que serviu de guia aos que prenderam Jesus. Ele foi contado como um dos nossos e teve participação neste ministério". (Com a recompensa que recebeu pelo seu pecado, Judas comprou um campo. Ali caiu de cabeça, seu corpo partiu-se ao meio, e as suas vísceras se derramaram. Todos em Jerusalém ficaram sabendo disso, de modo que, na língua deles, esse campo passou a chamar-se Aceldama, isto é, campo de Sangue.) "Porque", prosseguiu Pedro, "está escrito no Livro de Salmos: ‘Fique deserto o seu lugar, e não haja ninguém que nele habite’; e ainda: ‘Que outro ocupe o seu lugar’. (...) Então indicaram dois nomes: José, chamado Barsabás, também conhecido como Justo, e Matias. Depois oraram: "Senhor, tu conheces o coração de todos. Mostra-nos qual destes dois tens escolhido para assumir este ministério apostólico que Judas abandonou, indo para o lugar que lhe era devido". Então tiraram sortes, e a sorte caiu sobre Matias; assim, ele foi acrescentado aos onze apóstolos. (Atos 1:15-26)

Pedro se guiou pelas profecias contidas nas escrituras, para escolher alguém dentre os que estavam perto para substituir Judas, e ele fez isso porque cria no conteúdo da Torah, pois entendeu que ele é verdadeiro.

Nos salmos de Davi, citados por Pedro, podemos encontrar diversos trechos falando de Cristo, e também encontramos trechos que falam sobre o que aconteceria a Judas:

Fique deserto o lugar deles; não haja ninguém que habite nas suas tendas. (Salmos 69:25)

Seja a sua vida curta, e outro ocupe o seu lugar. (Salmos 109:8)

Ora, Judas sabia que Jesus era inocente, mas não resistiu à oportunidade de ganhar dinheiro através do ódio que as lideranças religiosas de Israel tinham do Senhor. Ele simplesmente se aproveitou da situação para lucrar.

E quando se encheu de remorso, ele avisou às lideranças que Jesus era inocente, antes de cometer suicídio, e rejeitou as trinta moedas de prata que tinha recebido, porém isso não o justificou diante do Pai, porque ele não creu na mensagem de salvação.

Uma curiosidade: de acordo com o trecho do Evangelho de Mateus que estamos estudando, a profecia que se refere às trinta moedas de prata, pagas a Judas pela vida de Jesus, foi feita pelo profeta Jeremias. 

No entanto, esse profeta cita a "casa do oleiro" e não o "campo do oleiro", de forma que não encontramos no livro de Jeremias nenhuma menção a esse campo ou às trinta moedas de prata. Se alguma palavra foi proferida por esse profeta sobre esse assunto, provavelmente se perdeu. Contudo, no livro do profeta Zacarias há uma menção similar, como veremos abaixo:

Eu lhes disse: Se acharem melhor assim, paguem-me; se não, não me paguem. Então eles me pagaram trinta moedas de prata. E o Senhor me disse: "Lance isto ao oleiro", o ótimo preço pelo qual me avaliaram! Por isso tomei as trinta moedas de prata e as atirei no templo do Senhor para o oleiro. (Zacarias 11:12,13)

Missionária Oriana Costa

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Testemunhos falsos - Considerações sobre Mateus 26 - Parte 5


Neste texto, faremos a conclusão da análise do capítulo 26 do Evangelho de Mateus. No estudo anterior, entendemos melhor como se deu o momento da prisão do Senhor Jesus Cristo. Agora, veremos o episódio seguinte, onde o Mestre é levado à presença do Sumo Sacerdote e, enquanto isso acontece, Pedro nega conhecer o Senhor, temendo ser preso. 

Vejamos o trecho a seguir:

Os chefes dos sacerdotes e todo o Sinédrio estavam procurando um depoimento falso contra Jesus, para que pudessem condená-lo à morte. Mas nada encontraram, embora se apresentassem muitas falsas testemunhas.
Finalmente se apresentaram duas que declararam: "Este homem disse: ‘Sou capaz de destruir o santuário de Deus e reconstruí-lo em três dias’ ". Então o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus: "Você não vai responder à acusação que estes lhe fazem?" Mas Jesus permaneceu em silêncio. O sumo sacerdote lhe disse: "Exijo que você jure pelo Deus vivo: se você é o Cristo, o Filho de Deus, diga-nos". "Tu mesmo o disseste", respondeu Jesus. "Mas eu digo a todos vós: chegará o dia em que vereis o Filho do homem assentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu". 
Foi quando o sumo sacerdote rasgou as próprias vestes e disse: "Blasfemou! Por que precisamos de mais testemunhas? Vocês acabaram de ouvir a blasfêmia. Que acham?" "É réu de morte!", responderam eles. Então alguns lhe cuspiram no rosto e lhe deram murros. Outros lhe davam tapas e diziam: "Profetize-nos, Cristo. Quem foi que lhe bateu?" 
Pedro estava sentado no pátio, e uma criada, aproximando-se dele, disse: "Você também estava com Jesus, o galileu". Mas ele o negou diante de todos, dizendo: "Não sei do que você está falando". Depois, saiu em direção à porta, onde outra criada o viu e disse aos que estavam ali: "Este homem estava com Jesus, o Nazareno". E ele, jurando, o negou outra vez: "Não conheço esse homem!" Pouco tempo depois, os que estavam por ali chegaram a Pedro e disseram: "Certamente você é um deles! O seu modo de falar o denuncia". Aí ele começou a se amaldiçoar e a jurar: "Não conheço esse homem!" Imediatamente um galo cantou. Então Pedro se lembrou da palavra que Jesus tinha dito: "Antes que o galo cante, você me negará três vezes". E, saindo dali, chorou amargamente. (Mateus 26:59-75)

Vamos iniciar nossa análise com um versículo que pode ser encontrado em dois livros da Lei, no qual há um mandamento que se refere ao "falso testemunho":

Não darás falso testemunho contra o teu próximo. (Êxodo 20:16, Deuteronômio 5:20)

Os líderes religiosos de Israel precisavam de, pelo menos, duas testemunhas convincentes para acusar e condenar Cristo, por causa da especificação contida na Lei, como veremos adiante. 

Então, apesar de estarem cientes de que não existiam motivos para a acusação do Senhor, pois sempre que os procuravam nunca conseguiam encontrá-los, os fariseus e mestres da Lei se empenharam em arranjar, pelo menos, duas testemunhas falsas para assim conseguirem exterminar o Mestre do meio deles.

Portanto, o que fizeram ao Senhor Jesus foi, sem sombra de dúvida, o descumprimento do mandamento que proíbe o falso testemunho. E não cumprir esse mandamento, segundo a Lei Mosaica, resulta em uma determinada punição, como veremos a seguir:

Uma só testemunha não é suficiente para condenar alguém de algum crime ou delito. Qualquer acusação precisa ser confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas. Se uma testemunha falsa quiser acusar um homem de algum crime, os dois envolvidos na questão deverão apresentar-se ao Senhor, diante dos sacerdotes e juízes que estiverem exercendo o cargo naquela ocasião. Os juízes investigarão o caso e, se ficar provado que a testemunha mentiu e deu falso testemunho contra o seu próximo, deem-lhe a punição que ele planejava para o seu irmão. Eliminem o mal do meio de vocês. O restante do povo saberá disso e terá medo, e nunca mais se fará uma coisa dessas entre vocês. Não tenham piedade. Exijam vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé. (Deuteronômio 19:15-21)

De acordo com o trecho acima, todos os que se acomunaram para condenar e matar o Senhor Jesus – que era inocente daquelas acusações – deveriam morrer crucificados, assim como estavam planejando fazer com Ele, isso se fossem levados a julgamento naquele momento, de acordo com o mandamento da Lei. 

No entanto, Cristo veio não para condenar, mas para salvar. O Pai desejou fazer um acordo de paz com toda a humanidade, e estava disposto a nos perdoar, mediante a nossa fé na mensagem que Seu Filho Unigênito estava anunciando e também no sacrifício para o qual havia sido designado a fazer por toda a humanidade. E Ele foi até o fim nessa empreitada, porque amou o homem que criou e não desejava a sua destruição, como também ama todo o restante da Sua grandiosa criação.

Então, para que esse acordo entre Deus e os homens fosse estabelecido de uma vez por todas, Cristo precisava cumprir tudo o que havia sido profetizado à respeito d'Ele, pois somente assim TODOS (inclusive aqueles que estavam envolvidos no processo de sua morte) teriam a chance de se arrepender de seus pecados, após seu sacrifício na cruz, mediante a fé na mensagem do Reino, tendo assim acesso à justificação disponibilizada gratuitamente pelo nosso Criador.

O sofrimento pelo qual o Senhor Jesus teria que passar, até sua morte, está predito no Antigo Testamento em muitos lugares. Um dos profetas maiores, Isaías, predisse o que o Messias teria que passar de uma forma surpreendente (leia o capítulo 53 de Isaias). Abaixo vamos conferir três trechos que, como aqueles contidos no livro de Isaías, apontam que o Messias seria acusado injustamente e que Ele não iria se defender:

Testemunhas maldosas enfrentam-me e questionam-me sobre coisas de que nada sei. Elas me retribuem o bem com o mal e procuram tirar-me a vida. Contudo, quando estavam doentes, usei vestes de lamento, humilhei-me com jejum e recolhi-me em oração. Saí vagueando e pranteando, como por um amigo ou por um irmão. Eu me prostrei enlutado, como quem lamenta por sua mãe. Mas, quando tropecei, eles se reuniram alegres; sem que eu o soubesse, ajuntaram-se para me atacar. Eles me agrediram sem cessar. Como ímpios caçoando do meu refúgio, rosnaram contra mim. (Salmos 35:11-16)

Ó Deus, a quem louvo, não fiques indiferente, pois homens ímpios e falsos dizem calúnias contra mim, e falam mentiras a meu respeito. Eles me cercaram com palavras carregadas de ódio; atacaram-me sem motivo. Em troca da minha amizade eles me acusam, mas eu permaneço em oração. Retribuem-me o bem com o mal, e a minha amizade com ódio.(Salmos 109:1-5)

Estou calado! Não posso abrir a boca, pois tu mesmo fizeste isso. Afasta de mim o teu açoite; fui vencido pelo golpe da tua mão. (Salmos 39:9,10)

Enquanto Cristo enfrentava as autoridades de Jerusalém naquela noite, dois discípulos de Jesus permaneceram por perto, observando os acontecimentos, segundo nos revela o Evangelho de João, no capítulo 18. Eles conseguiram entrar no pátio da casa do Sumo Sacerdote, Caifás, pois um deles era seu conhecido.

Um desses discípulos era Pedro, que veria com seus próprios olhos o cumprimento de uma palavra que recebeu do Senhor Jesus, horas antes de sua prisão: "Asseguro-lhe que ainda esta noite, antes que o galo cante, três vezes você me negará". (Mt 26:34)

No Evangelho de Lucas lemos um trecho que revela o que aconteceu no pátio da casa de Caifás, logo após o cantar do galo:

O Senhor voltou-se e olhou diretamente para Pedro. Então Pedro se lembrou da palavra que o Senhor lhe tinha dito: "Antes que o galo cante hoje, você me negará três vezes". Saindo dali, chorou amargamente. (Lucas 22:61,62)

Isso significa que o Mestre estava vendo os seus dois discípulos ali perto, e viu também que eles não tinham coragem de se apresentar ao Sinédrio para lhe defenderem, pois eles estavam com medo de serem silenciados devido ao ódio que todos tinham do Senhor. Cristo, em contrapartida, não falou que ali estavam duas testemunhas de que ele era inocente, a fim de que tudo o que foi predito à respeito d'Ele fosse cumprido, e também para protegê-los.

Missionária Oriana Costa

sábado, 6 de novembro de 2021

A prisão - Considerações sobre Mateus 26 - Parte 4


Nos momentos que antecederam sua crucificação, o Senhor Jesus é preso por um grupo, às ordens dos líderes judeus. Sendo traído pelo apóstolo Judas, e já prestes a passar pelo injusto julgamento, ainda opera dois sinais, à vista de todos.

Assim como outras passagens do Evangelho de Mateus, cujas análises se encontram aqui no blog, para ser bem entendido, o trecho que vamos estudar agora também carece ser comparado com as outras passagens relacionadas a esse mesmo episódio, contidas nos outros Evangelhos.

Vejamos a seguir:

"Levantem-se e vamos! Aí vem aquele que me trai!" Enquanto ele ainda falava, chegou Judas, um dos Doze. Com ele estava uma grande multidão armada de espadas e varas, enviada pelos chefes dos sacerdotes e líderes religiosos do povo. O traidor havia combinado um sinal com eles, dizendo-lhes: "Aquele a quem eu saudar com um beijo, é ele; prendam-no". Dirigindo-se imediatamente a Jesus, Judas disse: "Salve, Mestre!", e o beijou. Jesus perguntou: "Amigo, que é que o traz?" Então os homens se aproximaram, agarraram Jesus e o prenderam. Um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou a espada e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Disse-lhe Jesus: "Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão. Você acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos? Como então se cumpririam as Escrituras que dizem que as coisas deveriam acontecer desta forma?" Naquela hora Jesus disse à multidão: "Estou eu chefiando alguma rebelião, para que vocês venham prender-me com espadas e varas? Todos os dias eu estava ensinando no templo, e vocês não me prenderam! Mas tudo isso aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas". Então todos os discípulos o abandonaram e fugiram. Os que prenderam Jesus o levaram a Caifás, o sumo sacerdote, em cuja casa se haviam reunido os mestres da lei e os líderes religiosos. Mas Pedro o seguiu de longe até o pátio do sumo sacerdote, entrou e sentou-se com os guardas, para ver o que aconteceria. (Mateus 26:46-58)

Sobre o local em que Cristo estava quando foi encontrado por Judas, de acordo com o Evangelho de João, era um olival situado perto do vale do Cedrom. Esse vale – também chamado de Vale de Josafá – se estende ao longo do muro oriental de Jerusalém, separando o Monte do Templo do Monte das Oliveiras. Portanto, o Senhor e os Apóstolos não estavam mais no Getsêmani quando foram encontrados por Judas, mas num lugar ali próximo, provavelmente mais perto do Monte do Templo.

Outra informação importante, é que não era somente os Apóstolos que estavam com Jesus naquela hora. Havia, também, outras pessoas, e sabemos disso por causa do relato do Evangelho de Marcos, que cita o momento inusitado em que um jovem, que estava perto deles vestindo apenas um lençol de linho, perdeu sua veste e ficou nu, enquanto fugia, para não ser levado preso junto com Jesus.

Quanto às pessoas que vieram ao encontro de Jesus, os evangelhos de Mateus e Marcos relatam que era "uma multidão armada de espadas e varas, enviada pelos chefes dos sacerdotes, mestres da lei e líderes religiosos" (Mt 26:47, Mc 14:43).

No entanto, o Evangelho de Lucas mostra que, no momento em que foi encontrado, Jesus falou diretamente aos "chefes dos sacerdotes, aos oficiais da guarda do templo e aos líderes religiosos" (Lc 22:52) que tinham ido procurá-lo.

Já no Evangelho de João, está escrito que a multidão que seguiu Judas, para procurar Jesus, era composta de "um destacamento de soldados e alguns guardas enviados pelos chefes dos sacerdotes e fariseus" (Jo 18:3), que levavam tochas, lanternas e armas.

O consenso dessas informações nos leva a crer que aquela multidão, que saiu tarde da noite à procura de Jesus, era formada por representantes de alguns dos chefes dos sacerdotes, dos mestres da lei e dos demais líderes religiosos, como também algumas dessas autoridades em pessoa, somado aos oficiais da guarda do templo e um destacamento de soldados romanos, provavelmente composto por cerca de dez homens bem armados.

No Antigo Testamento há trechos que indiretamente falam acerca do momento em que o Senhor Jesus é encontrado e levado preso. O beijo de Judas, por exemplo, é profetizado no livro de Provérbios:

Quem fere por amor mostra lealdade, mas o inimigo multiplica beijos. (Pv 27:6)

O momento em que Jesus é encontrado pela multidão, que queria prendê-lo e matá-lo, também foi profetizado pelo Rei Davi em um de seus Salmos:

As cordas da morte me enredaram; as torrentes da destruição me surpreenderam. As cordas do Sheol me envolveram; os laços da morte me alcançaram. (Salmos 18:4,5)

Depois que o Senhor Jesus é encontrado, Ele ainda realiza dois sinais miraculosos diante dos seus Apóstolos, de seus seguidores e da multidão que veio prendê-lo. O primeiro sinal se dá quando Ele sai do olival e se dirige à multidão, perguntando pela primeira vez a quem eles estavam procurando. Quando a multidão responde "a Jesus de Nazaré", e Ele responde "Sou Eu", todas aquelas pessoas são lançadas para trás e caem sem forças no chão (Jo 18:4-7). Esse acontecimento é encontrado somente no Evangelho de João.

O segundo sinal acontece depois que Pedro se defende, com uma espada, dos que estavam tentando prender Jesus, decepando a orelha direita de um servo do sumo sacerdote. O Senhor Jesus, ao ver o que tinha acontecido, repreende Pedro e cura o homem, recolocando a orelha no lugar. O ferimento do servo do sumo sacerdote, que se chamava Malco, pode ser lido nos quatro evangelhos, porém, o momento em que Jesus coloca a orelha do homem no lugar encontra-se descrito somente no Evangelho de Lucas (Lc 22:51).

Quando o Senhor foi preso, os Apóstolos e todos os seus seguidores fugiram para não serem presos junto com Ele. Essa situação já havia sido predita por Jesus naquela mesma noite, durante o jantar de celebração da Páscoa (Mt 26:31). Mas, apesar da fuga dos discípulos ser um ato de covardia da parte deles, o fato deles conseguirem fugir foi o cumprimento de uma petição que o Senhor Jesus fez ao Pai a respeito deles (Jo 18:8,9), minutos antes de ser preso, no momento em que, orando, intercedia pela igreja no Getsêmani:

Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um. Enquanto estava com eles, eu os protegi e os guardei pelo nome que me deste. Nenhum deles se perdeu, a não ser aquele que estava destinado à perdição, para que se cumprisse a Escritura. Agora vou para ti, mas digo estas coisas enquanto ainda estou no mundo, para que eles tenham a plenitude da minha alegria. (João 17:11-13)

Ainda que temendo a situação, dois discípulos decidiram ficar por perto, para observar o que iria acontecer com Seu Mestre. Apesar dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas informarem que apenas Pedro seguiu o Senhor após sua prisão, de acordo com o Evangelho de João, foram dois homens, e um deles era Pedro; o outro não tem seu nome revelado, mas muito provavelmente era o próprio apóstolo João.

E, para concluir, o primeiro lugar para onde Jesus foi levado após sua prisão não foi para a casa de Caifás, o Sumo Sacerdote, mas foi para a casa do sogro dele, o fariseu Anás, segundo o relato do Evangelho de João. Vejamos, abaixo, o trecho desse Evangelho, que confirma os dois discípulos que acompanharam o Senhor após sua prisão e o momento em que Cristo é levado até Anás:

Assim, o destacamento de soldados com o seu comandante e os guardas dos judeus prenderam Jesus. Amarraram-no e o levaram primeiramente a Anás, que era sogro de Caifás, o sumo sacerdote naquele ano. Caifás era quem tinha dito aos judeus que seria bom que um homem morresse pelo povo. Simão Pedro e outro discípulo estavam seguindo Jesus. Por ser conhecido do sumo sacerdote, este discípulo entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote, mas Pedro teve que ficar esperando do lado de fora da porta. O outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, voltou, falou com a moça encarregada da porta e fez Pedro entrar. (João 18:12-16)

Missionária Oriana Costa

domingo, 10 de outubro de 2021

O Getsêmani - Considerações sobre Mateus 26 - Parte 3


Vamos dar continuidade ao nosso estudo do Evangelho de Mateus analisando o trecho a seguir:

Então Jesus lhes disse: "Ainda esta noite todos vocês me abandonarão. Pois está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersas’. Mas, depois de ressuscitar, irei adiante de vocês para a Galileia". Pedro respondeu: "Ainda que todos te abandonem, eu nunca te abandonarei!" Respondeu Jesus: "Asseguro-lhe que ainda esta noite, antes que o galo cante, três vezes você me negará". Mas Pedro declarou: "Mesmo que seja preciso que eu morra contigo, nunca te negarei". E todos os outros discípulos disseram o mesmo. Então Jesus foi com seus discípulos para um lugar chamado Getsêmani e disse-lhes: "Sentem-se aqui enquanto vou ali orar". Levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Disse-lhes então: "A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem comigo". Indo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: "Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres". Então, voltou aos seus discípulos e os encontrou dormindo. "Vocês não puderam vigiar comigo nem por uma hora? ", perguntou ele a Pedro. "Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca". E retirou-se outra vez para orar: "Meu Pai, se não for possível afastar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade". Quando voltou, de novo os encontrou dormindo, porque seus olhos estavam pesados. Então os deixou novamente e orou pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras. Depois voltou aos discípulos e lhes disse: "Vocês ainda dormem e descansam? Chegou a hora! Eis que o Filho do homem está sendo entregue nas mãos de pecadores." (Mateus 26:31-45)

Acabada a celebração da última Páscoa que Jesus participou com os Apóstolos, e tendo Ele instituído nesse evento os dois mandamentos que embasam a fé cristã (o Seu Amor como parâmetro essencial da fé cristã – Jo 13:34,35 e a celebração da Santa Ceia – Mt 26:26-28; Mc 14:22-24; Lc 22:19,20), Cristo foi para Monte das Oliveiras.

No caminho, o Senhor avisa aos apóstolos o que aconteceria em breve: eles iriam abandoná-lo (veja também em Mc 14:27-31; Jo 16:32). No entanto, eles não acreditaram no Mestre, apesar de terem ouvido da própria boca d'Ele o trecho do livro do profeta Zacarias, que fala exatamente desse acontecimento:

"Levante-se, ó espada, contra o meu pastor, contra o meu companheiro!", declara o Senhor dos Exércitos. "Fira o pastor, e as ovelhas se dispersarão, e voltarei minha mão para os pequeninos." (Zacarias 13:7)

Sobre o momento em que Cristo seria abandonado pelos seus discípulos, as escrituras dizem:

Tiraste de mim os meus amigos e os meus companheiros; as trevas são a minha única companhia. (Salmos 88:18)

Ele afastou de mim os meus irmãos; até os meus conhecidos estão longe de mim. Os meus parentes me abandonaram e os meus amigos esqueceram-se de mim. Os meus hóspedes e as minhas servas consideram-me estrangeiro; veem-me como um estranho. Chamo o meu servo, mas ele não me responde, ainda que eu lhe implore pessoalmente. (Jó 19:13-16)

Foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de tristeza e familiarizado com o sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima. (Isaías 53:3)

Então, por ainda não conseguirem ligar os fatos que estavam acontecendo ao que estava escrito, mesmo tendo sido avisados diversas vezes pelo Senhor, Pedro e os demais apóstolos, ingenuamente, disseram que jamais abandonariam o seu Mestre.

Nos Evangelhos de Lucas (Lc 22:31-47) e de João (especialmente neste, há muitas informações, que vão do capítulo 13 ao 18), esse mesmo momento é descrito de forma diferente, nos mostrando mais detalhes do episódio. Vejamos, abaixo, dois trechos contidos no Evangelho de João:

Simão Pedro lhe perguntou: "Senhor, para onde vais?" Jesus respondeu: "Para onde vou, vocês não podem me seguir agora, mas me seguirão mais tarde". Pedro perguntou: "Senhor, por que não posso seguir-te agora? Darei a minha vida por ti!" Então Jesus respondeu: "Você dará a vida por mim? Asseguro-lhe que, antes que o galo cante, você me negará três vezes!" (João 13:36-38)

Aproxima-se a hora, e já chegou, quando vocês serão espalhados cada um para a sua casa. Vocês me deixarão sozinho. Mas, eu não estou sozinho, pois meu Pai está comigo. "Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo". (João 16:32,33)

Estando acompanhado de Pedro e dos dois filhos de Zebedeu – Tiago e João –, o Senhor Jesus iniciou um clamor por Si mesmo e pela igreja ali no Monte das Oliveiras, em um lugar específico, chamado Getsêmani. Esse local escolhido por Jesus para orar era um jardim que ficava no sopé daquele monte. O lugar ainda hoje existe em Israel, mas, por causa da ação do homem, e também do próprio tempo, não está mais com a mesma aparência dos tempos de Cristo. A palavra "Getsêmani" é de origem hebraica e significa "prensa de azeite", e não por acaso, Jesus ficou ali em grande aflição, experimentando uma angústia extrema, enquanto aguardava pelo momento onde teria início seu martírio.

Assim, como está descrito no Evangelho de Mateus, esse momento é retratado de forma similar no Evangelho de Marcos. Vejamos a seguir:

Então foram para um lugar chamado Getsêmani, e Jesus disse aos seus discípulos: "Sentem-se aqui, enquanto vou orar". Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a ficar aflito e angustiado. E lhes disse: "A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem". Indo um pouco mais adiante, prostrou-se e orava para que, se possível, fosse afastada dele aquela hora. E dizia: "Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres". (Marcos 14:32-36)

Sobre esse momento, há vários trechos no Antigo Testamento, que falam a respeito. Abaixo, vejamos três deles:

Enquanto não raia o dia e as sombras não fogem, irei à montanha da mirra e à colina do incenso. (Cânticos 4:6)

As cordas da morte me envolveram, as angústias do Sheol vieram sobre mim; aflição e tristeza me dominaram. Então clamei pelo nome do Senhor: "Livra-me, Senhor!" (Salmos 116:3,4)

Gritei como um andorinhão, como um tordo; gemi como uma pomba chorosa. Olhando para os céus, enfraqueceram-se os meus olhos. Estou aflito, ó Senhor, vem em meu auxílio! Mas, que posso dizer? Ele falou comigo, e ele mesmo fez isso. (Isaías 38:14,15)

Durante o tempo em que clamava, o Filho do Homem chegou a suar sangue, tamanha era sua aflição por causa das coisas que haveria de sofrer dali por diante. O Pai, vendo a aflição de Cristo, enviou um anjo para animá-lo pessoalmente. Esse acontecimento se encontra descrito somente no Evangelho de Lucas, como veremos abaixo:

Ele se afastou deles a uma pequena distância, ajoelhou-se e começou a orar: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua". Apareceu-lhe então um anjo do céu que o fortalecia. Estando angustiado, ele orou ainda mais intensamente; e o seu suor era como gotas de sangue que caíam no chão. Quando se levantou da oração e voltou aos discípulos, encontrou-os dormindo, dominados pela tristeza. (Lucas 24:41-45)

Sobre o momento em que o Pai vem falar com Cristo, há também um trecho no Antigo Testamento que fala sobre isso, uma narrativa feita pelo profeta Jeremias no livro de Lamentações:

"Clamei pelo teu nome, Senhor, das profundezas da cova. Tu ouviste o meu clamor: "Não feches os teus ouvidos aos meus gritos de socorro". Tu te aproximaste quando a ti clamei, e disseste: "Não tenha medo". (Lamentações 3:55-57)

Como já vimos em parágrafos anteriores, quando estava clamando no Getsêmani, o Senhor Jesus intercedeu por Si mesmo e pela igreja. A intercessão que Jesus fez por Si mesmo pode ser encontrada nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, de forma resumida, e no Evangelho de João, mais detalhada.

Analisando as palavras de Jesus, enquanto pedia ao Pai por Si mesmo, observamos que o Filho do homem não queria passar por todo aquele sofrimento e ser sacrificado. Ele pediu ao Pai que O livrasse daquele momento terrível, se fosse possível, dizendo “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a Tua”. Isso mostra que se Ele tivesse deixado se levar pelo medo, teria mudado de ideia e abortado o plano de salvação ali mesmo. No entanto, Ele escolheu se submeter à vontade de Seu Pai, e, apesar de estar sofrendo muito, confiou que Suas promessas seriam cumpridas, e suportou tudo até o fim.

Quanto à intercessão que Cristo fez por Sua igreja, essa parte só pode ser encontrada no Evangelho de João, por todo o capítulo 17. Ali podemos notar o cuidado que o Rei Jesus tem com Seu povo e também ter a certeza de que Suas promessas com relação a nós, os que verdadeiramente cremos n'Ele, seguem se cumprindo e realmente se cumprirão todas. Vejamos abaixo um pequeno trecho desse momento marcante:

“Eu rogo por eles. Não estou rogando pelo mundo, mas por aqueles que me deste, pois são teus. Tudo o que tenho é teu, e tudo o que tens é meu. E eu tenho sido glorificado por meio deles. Não ficarei mais no mundo, mas eles ainda estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um. Enquanto estava com eles, eu os protegi e os guardei pelo nome que me deste. (…) Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. Eles não são do mundo, como eu também não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como me enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo. Em favor deles eu me santifico, para que também eles sejam santificados pela verdade. "Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.” (João 17:9-21)

Também sabemos que, nesse momento de intercessão, Cristo deu dois intervalos, dividindo-o em três partes, através dos Evangelhos de Mateus e Marcos. Nas três vezes que voltou da oração para falar com os três apóstolos que o estavam acompanhando, Jesus os encontrou dormindo. Segundo o relato contido nos evangelhos, eles estavam entristecidos com as palavras duras que ouviram de Jesus, acerca do que estava para acontecer em breve, no entanto, não tiveram noção de que tudo teria início diante deles em pouquíssimo tempo.

Conforme as Escrituras, ao chegar o dia do sacrifício do cordeiro para a celebração da Páscoa, tudo deveria ser feito e concluído com uma certa rapidez:

Digam a toda a comunidade de Israel que no décimo dia deste mês todo homem deverá separar um cordeiro ou um cabrito, para a sua família, um para cada casa. (…) Guardem-no até o décimo quarto dia do mês, quando toda a comunidade de Israel irá sacrificá-lo, ao pôr-do-sol. (…) Naquela mesma noite comerão a carne assada no fogo, juntamente com ervas amargas e pão sem fermento. Não comam a carne crua, nem cozida em água, mas assada no fogo: cabeça, pernas e vísceras. Não deixem sobrar nada até pela manhã; caso isso aconteça, queimem o que restar. Ao comerem, estejam prontos para sair: cinto no lugar, sandálias nos pés e cajado na mão. Comam apressadamente. Esta é a Páscoa do Senhor. (Êxodo 12:3-11)

Então, os apóstolos simplesmente não haviam entendido que aquela reunião em Betânia, para a celebração da Páscoa, era uma despedida e que seu Mestre os estava preparando para várias coisas futuras, mas, especialmente, para enfrentarem momentos bem difíceis, dentro de algumas horas. Assim, eles não captaram o quanto o Senhor estava aflito e, ao invés de se juntarem a Ele em oração, durante todo aquele tempo, não suportaram e acabaram adormecendo.

Nos evangelhos de Mateus e Marcos, notamos que, ao encontrar seus discípulos dormindo pela primeira vez, Jesus lhes disse: “vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”. Já no Evangelho de Lucas, o Senhor alerta os discípulos, antes deles adormecerem e na última vez que os encontra dormindo, dizendo-lhes: “orem para que vocês não caiam em tentação".

Cristo deu esse alerta porque, apesar de crerem n'Ele, seus discípulos ainda estavam imaturos na fé, não compreendendo quem realmente era Jesus e o que as escrituras diziam d'Ele. Então, espiritualmente eles estavam prontos, por já terem iniciado na fé salvadora, mas mentalmente ainda não. Isso significa que, por causa dessa falta de entendimento e também por não compreenderem as instruções de seu Mestre naquele momento, os discípulos estavam vulneráveis a agir pela carne, ou seja, agir segundo seus próprios sentimentos, quando se vissem em situações difíceis.

De fato, o Senhor fez sua parte em alertá-los, contudo sabia que eles não entenderiam o alerta, não orariam com Ele, e iriam cair na tentação de abandoná-lo e também de mentir, movidos pelo medo de serem pegos, quando notassem que Ele estava sendo preso e condenado à morte, como de fato aconteceu.


Missionária Oriana Costa

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A Santa Ceia - Considerações sobre Mateus 26 - Parte 2


Dando continuidade ao estudo do capítulo 26 do Evangelho de Mateus, vamos observar, agora, os aspectos envolvidos no momento em que Cristo celebra a última Páscoa com os Apóstolos e o momento em que Ele avisa que há alguém ali que irá traí-lo.

Vamos conferir o trecho abaixo:
No primeiro dia da festa dos pães sem fermento, os discípulos dirigiram-se a Jesus e lhe perguntaram: "Onde queres que preparemos a refeição da Páscoa?" Ele respondeu dizendo que entrassem na cidade, procurassem um certo homem e lhe dissessem: "O Mestre diz: ‘O meu tempo está próximo. Vou celebrar a Páscoa com meus discípulos em sua casa". Os discípulos fizeram como Jesus os havia instruído e prepararam a Páscoa. Ao anoitecer, Jesus estava reclinado à mesa com os Doze. E, enquanto estavam comendo, ele disse: "Digo-lhes que certamente um de vocês me trairá".
Eles ficaram muito tristes e começaram a dizer-lhe, um após outro: "Com certeza não sou eu, Senhor!" Afirmou Jesus: "Aquele que comeu comigo do mesmo prato há de me trair. O Filho do homem vai, como está escrito a seu respeito. Mas ai daquele que trai o Filho do homem! Melhor lhe seria não haver nascido". Então, Judas, que haveria de traí-lo, disse: "Com certeza não sou eu, Mestre!" Jesus afirmou: "Sim, é você". Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o, e o deu aos seus discípulos, dizendo: "Tomem e comam; isto é o meu corpo". Em seguida tomou o cálice, deu graças e o ofereceu aos discípulos, dizendo: "Bebam dele todos vocês. Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para perdão de pecados. Eu lhes digo que, de agora em diante, não beberei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo com vocês no Reino de meu Pai". Depois de terem cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras. (Mateus 26:17-30)

Entre os versículos 17 e 19, vemos a preparação da última Páscoa que Jesus participa com seus discípulos, momento que ficou conhecido entre os cristãos como a Santa Ceia. Esse episódio aconteceu em Jerusalém, no primeiro dia da festa dos pães ázimos, (o decimo quarto dia do primeiro mês judaico) na casa de um certo homem, cujo nome não é revelado nos evangelhos.

Pedro e João foram designados para entrar naquela cidade e procurarem a pessoa indicada por Jesus, para que os preparativos da Páscoa fossem feitos.

Isso sugere que, como já não aparecia publicamente, a fim de que não fosse encontrado pelas lideranças religiosas de Israel antes do tempo, Jesus, juntamente aos seus discípulos, naquele momento, já não estava mais em Betânia e, provavelmente, permaneceu acampado em algum lugar ali próximo à entrada de Jerusalém. Em Lucas 22:7-13 e Marcos 14:12-17, podemos ler relatos similares.

Para melhor entendermos o que aconteceu naquele momento, devemos ver o que Deus ordenou aos israelitas, na Lei Mosaica, acerca da Páscoa e da festa dos pães ázimos (pães sem fermento):

O Senhor disse a Moisés e a Arão, no Egito:
"Este deverá ser o primeiro mês do ano para vocês. Digam a toda a comunidade de Israel que no décimo dia deste mês todo homem deverá separar um cordeiro ou um cabrito (...). Guardem-no até o décimo quarto dia do mês, quando toda a comunidade de Israel irá sacrificá-lo, ao pôr-do-sol. (...) "Este dia será um memorial que vocês e todos os seus descendentes o comemorarão como festa ao Senhor. Comemorem-no como decreto perpétuo. (...) "Celebrem a festa dos pães sem fermento, porque foi nesse mesmo dia que eu tirei os exércitos de vocês do Egito. Celebrem esse dia como decreto perpétuo por todas as suas gerações. No primeiro mês comam pão sem fermento, desde o entardecer do décimo quarto dia até o entardecer do vigésimo primeiro."
(Êxodo 12:1-18)

Entre os versículos 20 e 25, durante a celebração da Páscoa, o Senhor alerta seus discípulos para a existência de alguém, que estava entre eles, mas que não creu na mensagem do Reino, que era Judas Iscariotes.

De fato, apesar de Jesus tê-los avisado sobre a proximidade do momento de sua morte e da presença do traidor, eles não entenderam que Jesus estava há poucas horas de ser crucificado, e que seria aquele mesmo apóstolo que o entregaria às lideranças religiosas de Israel.

O único que entendeu o alerta e já sabia que tinha sido descoberto foi o próprio Judas. Foi por esse motivo que os demais apóstolos nada fizeram para impedi-lo. O momento em que o Senhor avisa sobre seu traidor também pode ser encontrado nos Evangelhos de Marcos 14:18-21, Lucas 22:21-23 e João 13:21-26. No livro de Salmos há uma profecia relacionada a esse acontecimento:

Até o meu melhor amigo, em quem eu confiava e que partilhava do meu pão, voltou-se contra mim. (Salmos 41:9)

Na realidade, Jesus só avisou que seria traído no fim da ceia, depois de lavar os pés dos Apóstolos. Esse episódio é relatado unicamente no Evangelho de João, no capítulo 13.

O momento em que o Senhor Jesus lava os pés dos apóstolos após a ceia simboliza o que está escrito no Salmo 51:

Lava-me de toda a minha culpa e purifica-me do meu pecado. Pois eu mesmo reconheço as minhas transgressões, e o meu pecado sempre me persegue. (...) Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e mais branco do que a neve serei. (Salmos 51:1-7)

Também somente naquele Evangelho é que está explicado o porquê dos apóstolos não terem entendido o aviso de Cristo.

Após o bocado, entrou nele Satanás. Disse, pois, Jesus: O que fazes, faze-o depressa. E nenhum dos que estavam assentados à mesa compreendeu a que propósito lhe dissera isto. Porque, como Judas tinha a bolsa, pensavam alguns que Jesus lhe tinha dito: Compra o que nos é necessário para a festa; ou que desse alguma coisa aos pobres. E, tendo Judas tomado o bocado, saiu logo. E era já noite. (João 13:27-30)

Unicamente no Evangelho de João é que observamos que Judas só participa da Páscoa até o momento em que recebe um pedaço de pão do próprio Cristo, quando Ele já tinha lavado os pés dos apóstolos e a celebração propriamente dita já tinha terminado. Tão logo recebe o bocado do Senhor, ele sai para fazer o que havia combinado com os líderes religiosos de Israel.

Podemos ver ali, também, que, após a saída de Judas, a reunião de Jesus com os apóstolos se continua por mais algum tempo, onde podemos ler algumas instruções importantes dadas pelo Senhor a eles, logo após a Ceia e a oração intercessória de Jesus pela igreja, antes de finalmente irem para o Monte das Oliveiras.

Do capítulo 13 do Evangelho de João até o capítulo 17, observamos mais detalhes do que foi ensinado pelo Senhor Jesus aos apóstolos na celebração de sua última Páscoa. Como se trata de um trecho longo, com muitas informações, após o término dos estudos sobre o Evangelho de Mateus, vamos fazer um estudo à parte, comentando o que Cristo ensina em cada um desses capítulos.

Sobre a celebração dessa Páscoa, citada no capítulo 26 de Mateus, ela se desenrolou de uma forma diferente das anteriores que Jesus participou, pois naquele momento, sua morte e ressurreição estavam próximas de acontecer. 

Era preciso sinalizar não somente que as profecias relacionadas a Ele estavam para se cumprir, mas também deixar para a igreja, após Sua ascensão aos céus, o mandamento que seria usado como memorial para lembrar sua morte pelos nossos pecados, o qual deve ser continuamente cumprido até que Ele volte pela segunda vez.

Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o, e o deu aos seus discípulos, dizendo: "Tomem e comam; isto é o meu corpo". Em seguida tomou o cálice, deu graças e o ofereceu aos discípulos, dizendo: "Bebam dele todos vocês. Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para perdão de pecados. Eu lhes digo que, de agora em diante, não beberei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo com vocês no Reino de meu Pai". (Mateus 26:26-29)

Através do cumprimento do mandamento da Santa Ceia, portanto, a igreja tem celebrado, através dos tempos, o acesso gratuito, disponibilizado por Deus aos homens pelo sacrifício de Cristo – que é a justificação –, que livra os crentes da condenação à morte eterna.

O apóstolo Paulo, em sua primeira carta dirigida aos cristãos da cidade de Corinto, ensina alguns aspectos envolvidos na celebração da Santa Ceia, que todo cristão deve saber (1 Coríntios 11). Por se tratar de um assunto extenso, assim como aqueles contidos no Evangelho de João, referentes aos vários ensinamentos de Jesus durante a celebração da Páscoa, esse terá também um estudo à parte, após o término dos estudos do Evangelho de Mateus.

Para concluir, é preciso lembrar também que esse mandamento deixado por Jesus Cristo é superior àquele contido em Êxodo 12, pois, como o Messias veio e o cumpriu este em Si mesmo, já não se faz mais necessário sacrificar qualquer animal ou mesmo fazer os outros tipos de sacrifícios contidos na Lei mosaica, que são relacionados aos pecados dos homens.

Sobre isso, há muitos trechos nas cartas aos Hebreus e aos Gálatas que são esclarecedores. Abaixo, podemos conferir dois trechos, um de cada carta, que dizem o seguinte:

Quando Cristo veio como sumo sacerdote dos benefícios agora presentes, ele adentrou o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito pelo homem, isto é, não pertencente a esta criação. Não por meio de sangue de bodes e novilhos, mas pelo seu próprio sangue, ele entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, e obteve eterna redenção. Ora, se o sangue de bodes e touros e as cinzas de uma novilha espalhadas sobre os que estão cerimonialmente impuros os santificam de forma que se tornam exteriormente puros, quanto mais, então, o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu de forma imaculada a Deus, purificará a nossa consciência de atos que levam à morte, de modo que sirvamos ao Deus vivo! Por essa razão, Cristo é o mediador de uma nova aliança para que os que são chamados recebam a promessa da herança eterna. (Hebreus 9:11-15)

(...) sabemos que o ninguém é justificado pela prática da lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo. Assim, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pela prática da lei, porque pela prática da lei ninguém será justificado. (Gálatas 2:16)

Que o Senhor ilumine o teu coração, para a compreensão destas importantes verdades!

Missionária Oriana Costa

Revisão: Pr. Wendell Costa

terça-feira, 24 de agosto de 2021

A conspiração - Considerações sobre Mateus 26 - Parte 1


Após ensinar seus discípulos no Monte das Oliveiras sobre as coisas que haveriam de acontecer à igreja e ao mundo, antes de seu retorno, e sobre os três princípios que servirão de base para o julgamento que terá início com o resgate dos verdadeiros cristãos dentre as nações da terra, quando Ele retornar, Cristo continua a preparar seus discípulos para o dia de sua morte e ressurreição.

O Senhor já vinha preparando seus discípulos sobre o que lhe aconteceria em ocasiões anteriores, como podemos ver no Evangelho de Mateus nos capítulos 17 e 20, por exemplo.

A partir desse estudo, portanto, veremos especialmente o cumprimento das profecias feitas acerca do Messias ao longo dos séculos, antes de seu nascimento, e que constam nos livros do Antigo Testamento.

Vamos começar com o primeiro trecho do capítulo 26, que fala de três momentos importantes: o início da conspiração dos líderes religiosos de Israel para matar Jesus, o episódio do frasco de óleo perfumado que é derramado sobre a cabeça de Cristo, e o início da traição de Judas Iscariotes.

Tendo dito essas coisas, disse Jesus aos seus discípulos: "Como vocês sabem, estamos a dois dias da Páscoa, e o Filho do homem será entregue para ser crucificado". Naquela ocasião os chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos do povo se reuniram no palácio do sumo sacerdote, cujo nome era Caifás, e juntos planejaram prender Jesus à traição e matá-lo. Mas diziam: "Não durante a festa, para que não haja tumulto entre o povo". Estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso, aproximou-se dele uma mulher com um frasco de alabastro contendo um perfume muito caro. Ela o derramou sobre a cabeça de Jesus, quando ele se encontrava reclinado à mesa. Os discípulos, ao verem isso, ficaram indignados e perguntaram: "Por que este desperdício? Este perfume poderia ser vendido por alto preço, e o dinheiro dado aos pobres". Percebendo isso, Jesus lhes disse: "Por que vocês estão perturbando essa mulher? Ela praticou uma boa ação para comigo. Pois os pobres vocês sempre terão consigo, mas a mim vocês nem sempre terão. Quando derramou este perfume sobre o meu corpo, ela o fez a fim de me preparar para o sepultamento. Eu lhes asseguro que onde quer que este evangelho for anunciado, em todo o mundo, também o que ela fez será contado, em sua memória". Então, um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, dirigiu-se aos chefes dos sacerdotes e lhes perguntou: "O que me darão se eu o entregar a vocês?" E eles lhe fixaram o preço: trinta moedas de prata. Desse momento em diante Judas passou a procurar uma oportunidade para entregá-lo. (Mateus 26:1-16)

Antes de iniciar a análise do nosso texto, existem algumas informações importantes que devemos saber. Uma delas é que nesse momento Jesus não se expunha mais publicamente como antes, pois estava ciente de que poderia ser preso e sacrificado a qualquer hora. Ele só se entregou de fato no tempo que o Pai já havia determinado e anunciado na Antiga Aliança (que ainda estava em vigor), através dos mandamentos que entregou a Moisés e Arão.

O Senhor disse a Moisés e a Arão, no Egito: (...) Digam a toda a comunidade de Israel que no décimo dia deste mês todo homem deverá separar um cordeiro ou um cabrito, para a sua família, um para cada casa. (...) O animal escolhido será macho de um ano, sem defeito, e pode ser cordeiro ou cabrito. Guardem-no até o décimo quarto dia do mês, quando toda a comunidade de Israel irá sacrificá-lo, ao pôr-do-sol. (...). Esta é a Páscoa do Senhor. (Êxodo 12:1-11)

Outra informação importante é que a conspiração para matar Jesus já tinha surgido bem antes dos acontecimentos mostrados em Mateus 26, no momento em que Lázaro fora ressuscitado. Logo após o acontecido, as lideranças religiosas, com medo de perderem as posições privilegiadas que tinham na sociedade e suas boas relações com as lideranças de Roma, convocaram o sinédrio, que se reuniu para tomar uma posição em unidade. Esse acontecimento se encontra descrito com detalhes no capítulo 11 do Evangelho de João.

Nessa reunião, mesmo sem entender quem realmente era Jesus, o próprio Caifás, que era o sumo sacerdote naquela ocasião, acabou profetizando acerca do Messias:

Então um deles, chamado Caifás, que naquele ano era o sumo sacerdote, tomou a palavra e disse: "Nada sabeis! Não percebeis que vos é melhor que morra um homem pelo povo, e que não pereça toda a nação". Ele não disse isso de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus morreria pela nação judaica, e não somente por aquela nação, mas também pelos filhos de Deus que estão espalhados, para reuni-los num povo. (João 11:49-52)

Por isso, antes de voltar à Betânia, após a ressurreição de Lázaro, Jesus se refugiou com seus discípulos no povoado de Efraim, região próxima dali. Sobre isso, falou o profeta Jeremias:

Ó Jerusalém, lave o mal do seu coração para que você seja salva. Até quando você vai acolher projetos malignos no íntimo? Ouve-se uma voz proclamando desde Dã, desde os montes de Efraim se anuncia calamidade. (Jeremias 4:14,15)

Dessa forma, faltando cerca de uma semana para a celebração da Páscoa, Cristo voltou à cidade de Betânia, e ali dois sinais interessantes e muito parecidos aconteceram diante dos discípulos, anunciando-lhes que seu Mestre seria sacrificado em breve. Um deles, o segundo, está descrito no trecho que estamos analisando aqui.

O primeiro sinal aconteceu seis dias antes (no oitavo dia do primeiro mês judaico), quando Cristo estava hospedado na casa de Lázaro, a quem Ele ressuscitou dos mortos. Ali Ele foi perfumado pela primeira vez, por Maria, irmã de Lázaro, durante um jantar (João 12:1-9). Ela derramou nos pés do Senhor um frasco de nardo puro, enxugando, em seguida, com seus próprios cabelos. Nessa ocasião, Judas Iscariotes posicionou-se contra o acontecido, alegando que "o frasco de nardo poderia ter sido vendido e o dinheiro dado aos pobres".

Quatro dias depois, agora na casa de Simão, o leproso, aconteceu uma situação similar. Enquanto Jesus estava reclinado à mesa, uma mulher aproximou-se e derramou sobre a sua cabeça um frasco de alabastro cheio de um perfume muito caro (Mateus 26:6-13, Marcos 14:3). O perfume escorreu por todo o seu corpo. Desta vez, todos os que estavam presentes se indignaram com a ação da mulher, alegando que "o perfume poderia ter sido vendido e o dinheiro dado aos pobres".

O fato de Jesus ter sido perfumado ou ungido com óleo pela segunda vez, faltando 2 dias para a celebração da Páscoa (no décimo segundo dia do primeiro mês judaico), foi uma sinalização dupla da parte do Pai para os israelitas de que Seu Filho, o Messias, estava ali para pagar de uma vez por todas a dívida de transgressão eterna, cumprindo definitivamente o mandamento relacionado àquele fim e também para reinar para sempre sobre o Seu povo.

Então, ao contrário do que muitos pensam, Jesus foi perfumado com óleo essencial de nardo não somente uma vez na proximidade de sua morte, mas duas vezes.

Sobre essas mulheres que perfumaram Jesus, há no Antigo Testamento, no livro de Cantares, trechos relacionados:

A fragrância dos seus perfumes é suave; o seu nome é como perfume derramado. Não é à toa que as jovens o amam! (Cânticos 1:3)

Enquanto o rei estava em seus aposentos, o meu nardo espalhou a sua fragrância. (Cânticos 1:12)

No livro de Salmos também há um trecho que fala desse acontecimento:

Numa visão falaste um dia, e aos teus fiéis disseste: "Cobri de forças um guerreiro, exaltei um homem escolhido dentre o povo. Encontrei o meu servo Davi; ungi-o com o meu óleo sagrado. A minha mão o susterá, e o meu braço o fará forte. (Salmos 89:19-21)

A primeira vez que Jesus foi ungido com óleo de nardo (também por uma mulher) aconteceu logo após Ele ter escolhido dentre os seus discípulos os doze Apóstolos, estando com eles na cidade de Naim, na casa de um fariseu que o convidou para uma refeição (Lucas 7:36-50).

Prosseguindo com nosso estudo, agora vamos analisar a traição de Judas Iscariotes. Com a proximidade da celebração da Páscoa, estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso, os chefes dos sacerdotes e os lideres religiosos do povo se reuniram novamente no palácio do sumo sacerdote, Caifás, para tomarem uma decisão em definitivo.

Já que não conseguiam achar no Senhor nenhum motivo para justa acusação, resolveram oferecer recompensa para quem lhes entregasse Jesus, a fim de obterem um resultado mais rápido.

Sabendo disso, Judas Iscariotes, que não tinha entendido a mensagem do Reino e estava ali com Cristo sem ter nutrido em seu coração a fé verdadeira (lembrando que ele presenciou todos os milagres feitos por Cristo enquanto o acompanhava em seu ministério!), se sentiu tentado com a possibilidade de ganhar algum dinheiro e adquirir prestígio social, e então sucumbiu à tentação. Assim, ele procurou os líderes religiosos para fazer um acordo com eles (Marcos 14:10,11; Lucas 22:1-6).

Nos livros de Salmos e Zacarias, que estão no Antigo Testamento, podemos ler dois trechos que se referem a esse acontecimento:

Os meus inimigos dizem maldosamente a meu respeito: "Quando ele vai morrer? Quando vai desaparecer o seu nome?" Sempre que alguém vem visitar-me, fala com falsidade, enche o coração de calúnias e depois sai espalhando-as. Todos os que me odeiam juntam-se e cochicham contra mim, imaginando que o pior me acontecerá: "Uma praga terrível o derrubou; está de cama, e jamais se levantará". Até o meu melhor amigo, em quem eu confiava e que partilhava do meu pão, voltou-se contra mim. (Salmos 41:5-9)

Eu lhes disse: Se acharem melhor assim, paguem-me; se não, não me paguem. Então eles me pagaram trinta moedas de prata. (Zacarias 11:12)

Missionária Oriana Costa

Revisão: Wendell Costa

Antes de escolher os Apóstolos - Parte 3.1 - O Sermão da montanha

Neste estudo vamos iniciar a análise de um dos momentos em que o Senhor Jesus começa a explicar com mais detalhes alguns princípios importan...