quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O início da criação - as dimensões eterna e física

Este é um estudo bíblico complementar para facilitar o entendimento do texto anterior onde explico sobre o juízo de Deus. A Bíblia Sagrada fornece as bases para todas as informações aqui contidas, de Gênesis a Apocalipse. E, com toda a certeza, vamos observar algumas delas nesse estudo.

Vamos começar observando a parte inicial do livro de Gênesis, para entendermos as existências das realidades eterna e física, e como foi que a maldade teve início, juntamente com o juízo de Deus sobre ela:

No princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz; e houve luz. E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas. E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro. E disse Deus: Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas. E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi. E chamou Deus à expansão Céus, e foi a tarde e a manhã, o dia segundo. E disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca; e assim foi. (Gênesis 1:1-9)

No trecho acima, inicialmente vemos como foram criadas as duas dimensões, eterna e física. Deus criou-as por completo em sete fases ou sete dias. 

Como podemos observar, o nosso Criador existe fora dessas duas dimensões, pois Ele as criou: e isso é algo difícil de compreender, pois não temos uma visão dessas duas realidades fora do nosso universo material. No entanto, podemos compreendê-las a partir das informações que as escrituras nos oferecem.

No versículo primeiro, o "céu" se refere à realidade/dimensão eterna ou realidade/dimensão espiritual, e a "terra" à realidade/dimensão física ou realidade/dimensão material. 

No versículo segundo, observamos que antes mesmo de Deus dar forma concreta à dimensão física (ela ainda estava sem forma e vazia), o conhecimento da maldade ou conhecimento do bem e do mal  já existia na dimensão eterna: são as "trevas"; e o "abismo" é a região na dimensão eterna onde este conhecimento foi gerado e exerce domínio, podendo também ser chamado de "reino das trevas". 

O termo "águas", no versículo segundo, está se referindo a região da dimensão eterna onde Deus se move ou habita. O Espírito de Deus, portanto, se move ou habita nessa região específica. 

Até aqui, portanto, podemos discernir a existência de duas dimensões criadas por Deus: uma espiritual, constituída por determinados elementos e estruturas que não conhecemos, e uma outra, a material, constituída por elementos que conhecemos, como átomos, moléculas, e substâncias e materiais formados por estes. E na dimensão espiritual, discernimos a existência de duas regiões: as "águas" e o "abismo".

No versículo terceiro, vemos a instituição do juízo de Deus sobre o conhecimento da maldade, antes mesmo que o universo material e o Reino de Deus fossem totalmente formados e estabelecidos: Deus fez a "luz". Nesse versículo, entendemos que a "luz" veio para desfazer ou julgar/punir a ação das "trevas". 

Deus criou a luz como uma forma de combater a maldade, e isto nós entendemos no versículo quarto, quando Deus faz separação entre a luz e as trevas. E a luz, assim como as trevas, também é um "conhecimento", que, mais tarde, tomou a forma humana: o "verbo" que se fez carne - Jesus Cristo, a fim de libertar toda a humanidade da escravidão da maldade.

A luz, portanto, é o conjunto de leis/mandamentos ou a legislação que rege a dimensão eterna, e que, por sua vez, também rege a dimensão física, visto que esta foi criada a partir da eterna.    

No quinto versículo, é concluída a primeira fase ou o primeiro dia da criação de Deus, que, como vemos, aconteceu antes do nosso universo material ser totalmente formado. 

O Criador concluiu esta parte dando nomes as duas situações que já existiam eternamente, chamando "dia" ao conjunto de todo o conhecimento criado na eternidade para combater as trevas, e chamando "noite" ao conjunto de todo o conhecimento relacionado as trevas.

É por isso que no Novo Testamento, encontramos uma passagem como esta: Mas vós, irmãos, já não estais em trevas, para que aquele dia vos surpreenda como um ladrão; Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas. Não durmamos, pois, como os demais, mas vigiemos, e sejamos sóbrios; Porque os que dormem, dormem de noite, e os que se embebedam, embebedam-se de noite. Mas nós, que somos do dia, sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da fé e do amor, e tendo por capacete a esperança da salvação. (1 Tessalonicenses 5:4-8)

No sexto versículo observamos o momento onde Deus dividiu as águas, ou dividiu a dimensão eterna em duas partes. Ele assim fez para que uma parte desse lugar permanecesse fixada na dimensão eterna (céu), e outra parte dele estivesse fixa na dimensão física (terra), e esta última parte funcionando como uma "embaixada" do lugar onde Deus habita na dimensão física. 

Por isso lemos que houve uma "expansão no meio das águas", que implicou numa "separação entre águas e águas". No momento que Deus criou essa expansão, ele começou a dar forma ao nosso universo ou realidade material, criando um grande vácuo entre as "águas". É por este motivo que os cientistas afirmam que o nosso universo está em constante "expansão", e essa situação, como podemos notar, está declarada nas escrituras bíblicas antes mesmo que os cientistas se dessem conta disso.

A dimensão física ou o nosso universo material, portanto, ganha forma oficialmente a partir do momento que Deus cria uma expansão ou um grande vácuo separando as "águas", fazendo com que uma parte do lugar onde Ele já habitava fosse estabelecida "debaixo da expansão" ou na dimensão física. Esse acontecimento observamos no versículo sétimo.

No versículo oitavo, Deus chama a expansão ou esse vácuo de "céus". Aqui se dá o desfecho da segunda parte ou do segundo dia da criação de Deus. 

E no nono versículo, finalmente Deus começa a modelar a dimensão material, ordenando que as águas "se juntassem"; com isso, elementos espirituais são transformados em materiais, e os átomos, moléculas e substâncias que conhecemos passam a existir. 

E depois disso, esses elementos foram adquirindo os estados físicos da matéria que conhecemos num "lugar determinado", debaixo da expansão; portanto, foi assim que o nosso Criador separou/formou a "porção seca" dentro do nosso universo material.


E chamou Deus à porção seca Terra; e ao ajuntamento das águas chamou Mares; e viu Deus que era bom. (Gênesis 1:10)

Com o versículo acima, podemos perceber como se iniciou a modelagem da dimensão material: o nosso Criador transforma uma parte "das águas" que já tinha dividido, e que antes estavam na sua forma original eterna, em algo físico, dividindo-as ainda em outras duas partes: uma parte sólida (a parte seca), que chamou de "Terra" e uma líquida (a parte úmida), que chamou de "Mares".

Curiosamente "debaixo da expansão" ou "no universo cósmico que conhecemos" só há um lugar onde terra e mares estão juntos: o planeta Terra.



Missionária Oriana Costa
     
     





terça-feira, 27 de agosto de 2019

O juízo de Deus

Falar sobre o juízo de Deus não é uma tarefa fácil, por ele ser proveniente de uma dimensão diferente da nossa, que é a dimensão eterna ou espiritual, mais comumente chamada de eternidade.

A princípio, precisamos lembrar que o juízo de Deus é executado apenas sobre a maldade. Partindo desse entendimento, também precisamos saber claramente o que é a maldade, de acordo com a realidade eterna (ela é um conhecimento de origem espiritual - leia a publicação "O que é a maldade", anterior a esta).

Também precisamos entender que a maldade, sendo um conhecimento de origem espiritual, não pode ser discernida por aparências ou dominada pela inteligência natural do homem, mas somente pode ser discernida e dominada por um outro conhecimento de origem espiritual, que é o conhecimento da justiça do Reino de Deus, que é a base da criação original de todo o universo material.

Então, uma vez que entra e se estabelece na mente/alma de um indivíduo, a maldade tem a capacidade de, literalmente, "se entranhar" na matéria, se misturando a ponto de não poder mais ser retirada dela. A partir daí, ela começa a direcionar o sujeito, e dessa forma, se não for discernida e bloqueada da forma correta, ela segue exercendo domínio sobre seus atos.

A maldade, ou conhecimento do bem e do mal, estabelecida na matéria viva criada por Deus (matéria com fôlego de vida/alma/inteligência), age produzindo nela pensamentos, sentimentos e desejos contrários aqueles anteriormente estabelecidos pelo Criador, pervertendo a maneira pela qual aquela matéria viva foi originalmente criada para funcionar.

Por esse motivo, a maldade é geradora de morte, tanto espiritualmente como materialmente falando; e essa morte, se processa nas duas dimensões da seguinte forma: espiritualmente, o conhecimento da maldade fica ligado ao indivíduo para sempre, retirando-o de dentro do Reino de Deus, o que caracteriza sua morte espiritual; fisicamente, ela domina sobre a matéria viva fazendo-a proceder de maneira diferente (hostil a si mesma) daquela que foi instituída pelo Criador.

E, deste modo, o juízo decretado por Deus eternamente sobre ela não poderia ser outro diferente da destruição, e este juízo foi instituído antes mesmo do nosso universo material existir. Em Gênesis 1:3,4 observamos que Deus cria uma luz, no entanto, essa luz não é aquela que nossos olhos captam no nosso mundo material, e sim uma legislação para julgar e condenar as trevas, ou julgar e condenar o conhecimento do bem e do mal onde quer que ele esteja instalado.

Então, voltando ao raciocínio do início do nosso texto, como na eternidade as coisas estão estabelecidas e funcionam de maneira diferente do nosso mundo material, se torna mesmo dificultosa a tarefa de explicar como se dá a aplicação das leis instituídas da realidade desse lugar para a nossa, visto que não estamos enxergando a dimensão eterna para poder estabelecer um padrão de comparação coerente entre as duas realidades.

Contudo, na Bíblia Sagrada, a existência e funcionalidade da dimensão eterna é explicada de uma forma engenhosa, por meio das parábolas ditas por Jesus Cristo. Através delas Ele estabelece uma maneira eficiente de comparação que usa apenas situações que conhecemos em nosso mundo, porém, nos dando uma visão objetiva de como Deus julga a ação do mal fisicamente falando.

Então, usar o método de explicação por parábolas, portanto, mostra maior eficácia a fim de nos dar uma noção de como a justiça do Reino de Deus funciona sobre a maldade, e como tal julgamento sobre o mal acontece em nosso mundo.

O juízo de Deus sobre a maldade em nosso mundo, portanto, pode ser entendido da seguinte maneira:

Imagine que um pai de família, todos os dias, antes de dormir, fazia uma inspeção em sua despensa, olhando o interior dos armários de sua cozinha, para ver se estava tudo em ordem. Então, certa noite, ao averiguar os mantimentos guardados na cozinha, observou que alguns sacos de grãos e de cereais estavam furados, e alguns alimentos, mordidos e roídos. 

Sua cozinha estava sendo invadida por ratazanas. Elas vinham já bem tarde, quando todos estavam dormindo na casa, e assim ninguém conseguia vê-las; somente se via o rastro de destruição que estavam deixando. Assim sendo, antes que aqueles roedores destruíssem e devorassem todos os mantimentos, e também trouxessem enfermidades para todos na família, aquele homem tomou as providências: ele armou algumas ratoeiras especiais ao redor da casa, a fim de exterminar aquela praga. Essas tais ratoeiras podiam ser condideradas infalíveis, então era a morte certa das ratazanas.


Após armar as ratoeiras, ele avisou a sua família sobre o que estava acontecendo, e contou a todos onde as ratoeiras estavam armadas, e como elas funcionavam, advertindo expressamente aos seus filhos que não encostassem nelas, pois ofereciam grande perigo: uma vez que alguém encoste em alguma delas desapercebidamente, ela se desarma sobre a presa, fazendo-a sofrer com muitas dores até a morte. E elas só soltam a presa mediante o reconhecimento da voz do administrador.


Seus filhos entenderam o aviso e foram se deitar. No dia seguinte, todos se levantaram e foram fazer suas atividades rotineiras. O tempo foi passando, e alguns dos filhos daquele homem se esqueceram das ratoeiras, e, passando pelos locais onde elas estavam armadas sem prestarem a devida atenção aonde estavam pisando, encostaram nelas, e começaram a gritar de dor. Eles não podiam tirá-las de seus corpos, pois se tentassem fazê-lo iam arrancar um pedaço de sua carne.


Até que o pai ouvisse os seus gritos e chegasse para socorrê-los, e finalmente dar o comando de voz, eles permaneceram sofrendo.


A parábola acima, portanto, serve para que possamos entender alguns pontos importantes sobre o juízo de Deus:
  • Primeiro: o juízo de Deus não foi feito para o homem, mas para ser aplicado somente sobre a maldade.
  • Segundo: quando o homem está longe de seu Criador, ignorando a justiça do Reino de Deus, não é capaz de ver sua condição espiritualmente, e, consequentemente, fica sem condições de discernir a presença da maldade em sua alma e em seu corpo para dominá-la; assim, ele sofre o juízo que seria para ser aplicado somente sobre a maldade.
  • Terceiro: a maldade não foi criada por Deus.
  • Quarto: Deus nunca desejou nem deseja o nosso sofrimento e a nossa morte, e, definitivamente, Ele não é o responsável pelas enfermidades, prejuízos e enganos que sofremos neste mundo por não estarmos atentos à realidade eterna a qual estamos submissos.
  • Quinto: Deus sempre quer o nosso bem, sempre deseja nos livrar da ação do mal, e nos manter livres da escravidão que a maldade nos impõe. E mesmo após o homem cair no domínio da maldade, Ele não poupou esforços para livrar sua criação desse terrível prejuízo. 
              
Missionária Oriana Costa
     

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Você sabe o que é a MALDADE?


Certamente você deve ter aprendido o que é maldade vivenciando ou experimentando situações diversas aqui neste mundo. E, nesse caso, o conceito de maldade que você deve ter em mente é aquele relacionado à prática da violência, do crime, da traição, etc.

No entanto, segundo o conteúdo bíblico, a maldade não é, a princípio, "ações", mas, antes delas, a maldade é um CONHECIMENTO de origem espiritual ou eterna. Este conhecimento, por sua vez, tem a capacidade de corromper ou perverter a sabedoria de Deus, e, ao contrário desta, trazer destruição ao seu possuidor.

Por agir contrariando a justiça de Deus, a maldade é o poder gerador do que conhecemos biblicamente como "pecado", que é a transgressão da Lei, ou transgressão da justiça do Reino de Deus, estabelecida pelo nosso Criador desde a eternidade, antes que o nosso universo fosse formado.

A maldade age fazendo-se semelhante à justiça de Deus na sua aparência, mas, por trás, sempre apresentará uma intenção ou um sentido contrário aquilo que Deus estabeleceu; por isso, inicialmente, as sugestões e ações geradas por ela podem ter "uma boa aparência", mostrando-se "inofensivas".

E, uma vez que ela entrou no homem, está, até agora, fazendo dele um hospedeiro permanente: infiltrada em sua mente e em seu corpo, não sairá mais dele, a não ser que seja devidamente bloqueada por um outro conhecimento, que tenha o mesmo tipo de origem: a espiritual. Dentro do homem a maldade sempre estará influenciando seus pensamentos e desejos; ela prossegue sendo disseminada por todos os seus descendentes, até que seu tempo chegue ao fim.

Dentro de alguém que é conhecedor de Deus, a maldade é geradora de morte, pois, o juízo decretado sobre ela eternamente, antes que o homem fosse formado, é a destruição. É por este motivo que, no livro de Gênesis, uma determinada árvore é citada: ela se encontrava no meio do jardim do Éden e era chamada "árvore do conhecimento do bem e do mal"; Deus advertiu a Adão que, se ele comesse do fruto daquela árvore, iria morrer.



Essa árvore é, na verdade, uma simbologia do criador da maldade, cujo nome é Lúcifer ou Satanás. A maldade, portanto, nasceu no coração dessa entidade, e não no coração do homem. E uma vez que Adão deixou o conhecimento da maldade - ou conhecimento do bem e do mal - entrar em sua mente, e descer ao seu coração, ele começou a enxergar as coisas que Deus criou de uma forma distorcida, o que lhe fez sentir desejos e impulsos contrários àqueles que Deus projetou para sua vida originalmente.

Tais impulsos e desejos contrários, ao serem atendidos, levam o homem a transgredir a justiça de Deus. É por este motivo que, após Adão receber o conhecimento da maldade, "seus olhos se abriram", ou seja, ele viu que Deus estava certo e querendo proteger sua vida quando lhe advertiu, e agora, ele sabia que estava condenado por causa do erro grave que havia cometido. 

Devido a maldade ser um fenômeno de origem espiritual ou eterna, ela não é visível aos olhos naturais, para que, enxergando-a,  possamos saber onde ela está, a fim de bloqueá-la, antes que se transforme em ações. A única maneira de sabermos onde ela está é através das suas mais variadas manifestações em nosso meio ou em nós mesmos.

Mas, para que tenhamos certeza de que uma ação ou comportamento está se originando da maldade, é necessário o entendimento da justiça de Deus, pois, como falei anteriormente, a manifestação do mal pode se passar por uma "ação justa", confundindo nosso julgamento sobre ela.

A justiça de Deus é o padrão de retidão que Deus usa para agir e pelo qual formou todo o universo material. De posse desse conhecimento, qualquer pessoa se torna capaz de discernir o que está vindo da operação da maldade e o que não está.

Assim sendo, a sabedoria de Deus está acessível a toda a humanidade pelo ensino de Cristo. No Novo Testamento da Bíblia, é possível acompanhar as falas de Jesus nos evangelhos, onde ele explica sobre o Seu Reino e a justiça que opera nele, bem como a doutrina dos apóstolos, que repassaram, através de cartas dirigidas às igrejas, todo o restante das explicações recebidas de Jesus, e que são necessárias para o entendimento da justiça de Deus.


Conhecer a justiça de Deus e colocá-la em prática, portanto, é a única forma de bloquear o mal. O conhecimento da justiça de Deus, também conhecido como "verdade" é o único poder capaz de vencer a ação da maldade, também chamada de "mentira". Então, uma vez que alguém conhece a verdade - a justiça de Deus - se torna apto para discernir a maldade e sua ação e, desta forma, resisti-la e rejeitá-la corretamente, até que consiga se ver livre dela totalmente.

É por isso que Jesus disse: "E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará". (João 8:32) e "Digo-lhes a verdade: Todo aquele que vive pecando é escravo do pecado." (João 8:34)

Missionária Oriana Costa


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Depoimento - Parte 2 - Como foi pastorear igrejas sem saber da minha condição dentro do espectro autista


Acredito que muitas pessoas estão sofrendo nesse momento, sem entender o que estão vivenciando, por não saberem de suas reais condições e não se conhecerem bem, achando que nunca vão conseguir "encontrar os seus lugares ao sol". É bem provável que muitos indivíduos, aqui no Brasil, sejam homens e mulheres aspies e não tenham ideia disso, enfrentando situações muito desgastantes para si mesmos e sendo mal interpretados pelos que estão ao redor.

Alguns portadores de TEA leve, principalmente as mulheres, conseguem camuflar o que sentem e se comportar como pessoas neurotípicas quando estão socializando, mas por dentro estão numa luta muito difícil consigo mesmos, sem entenderem o que está acontecendo. O escape para essas pessoas é ocupar a mente com alguma atividade que lhes agrade (geralmente com artes, jogos ou mesmo estudos) para esquecerem por alguns momentos de seus dilemas. Alguns parágrafos à frente vou relatando um pouco dessa luta com detalhes. 

Não são poucas as vezes que, por causa da limitação perceptiva, dificuldade de mudar rapidamente de uma tarefa para outra e dificuldade de socializar, tais pessoas são desqualificadas para diversas vagas de emprego e acabam ficando na dependência dos familiares, ou mesmo passando necessidade. Quando têm sorte e conseguem encontrar trabalhos onde possam focar numa só tarefa, cujo assunto lhes interesse muito, fazem um sucesso gigantesco, superando os resultados de qualquer pessoa normal que desempenhe a mesma tarefa.



Os aspies tem o chamado "hiper-foco", que lhes permite realizar tarefas que exigem extrema concentração com uma precisão invejável, no entanto, eles precisam se interessar pelo assunto da tarefa. Quando o serviço está relacionado a um assunto que não é de seu interesse, o aspie até se esforça para aprender e fazer, no entanto, não terá muito êxito. Quando se interessam por um determinado assunto ou tema, sozinhos pesquisam muito sobre ele e são capazes de armazenar muito conhecimento a respeito, chegando até mesmo ao ponto de palestrarem sobre o tema escolhido com muita facilidade.

Antes de prosseguir com meu depoimento, quero que os leitores saibam que as informações que se seguem estão relacionadas a minha pessoa somente, em como as coisas se passaram dentro de mim mesma. O foco deste texto está em meus próprios sentimentos, e não no todo do que aconteceu. Para expor os resultados de uma forma global, farei um outro texto em seguida, mostrando como as pessoas que interagiram comigo reagiram e o que aconteceu a elas.

Depois que comecei a seguir a Cristo e frequentar o meio evangélico junto com meu esposo, conheci melhor a Bíblia Sagrada e seu conteúdo se tornou meu objeto de interesse particular; desse modo, passei a fazer muitas pesquisas sobre vários assuntos contidos nela e, especialmente, passei a me dedicar a conhecer a Deus através das escrituras. Concomitantemente, também passei a compartilhar as informações que estava obtendo tanto em pregações nas igrejas como na internet.

Buscando ao Senhor me surpreendi com tantas informações maravilhosas e que fizeram toda a diferença na minha vida, como também sei que Deus usou e tem usado o conhecimento que tenho compartilhado até agora para abençoar as vidas de outras pessoas. O feed-back das pessoas que acompanham nosso trabalho (Ministério Águios) tem sido muito positivo.

Em contrapartida, meu envolvimento com os irmãos nas igrejas sempre foi muito desgastante (especialmente para mim), pois quando meu relacionamento tomava o caminho para deixar de ser superficial e se tornar mais próximo, eu simplesmente retrocedia, devido à estranheza da minha parte e não aceitação de muitas coisas; eu desejava continuar na minha solidão e no meu silêncio de sempre, pois é desta forma que eu ficava - e fico - tranquila. Apesar de tentar parecer uma pessoa normal e me esforçar para praticar o ensino de Cristo, a minha condição aspie sempre estava lá para me atrapalhar, e eu não tinha ideia disso.

Muitas vezes, fui interpretada como carnal, como se eu estivesse bloqueando ou me afastando das pessoas por prazer ou por gostar de fazer isso, mas, de fato, não é isso que acontece; meu bem-estar e minha tranquilidade dependem do silêncio e do isolamento. Dessa forma, por estar sendo mal interpretada, e também porque não entendia minha real condição, acabei aceitando que eu estava errada no meu comportamento e fiz um esforço sobre-humano para me socializar como uma pessoa normal o faz, chegando até a assumir um trabalho pastoral. O que eu não sabia era que essa atitude ia me desgastar até me deixar depressiva, sem que eu entendesse o porquê.

Atender a chamada pastoral foi para mim como seria para uma criança de dois anos tentar alcançar a prateleira mais alta da estante de sua casa: enquanto para um adulto isso é absolutamente fácil, para a criança exige um esforço bem maior, pois terá que subir numa cadeira ou em outros objetos que lhe sirvam de degraus, para, enfim, alcançar a prateleira. No início, a criança está compelida pela curiosidade ou por conquistar para si seu objeto de desejo; no entanto, isso é perigoso para ela, pois tentando alcançar seu objetivo, fatidicamente, ela poderá levar uma queda de um lugar alto e se prejudicar com isso. Foi o que aconteceu comigo.

Tenho que deixar claro aqui que Deus não tem culpa alguma do que me aconteceu. De fato, Ele avisou antes e de diversas formas que aquilo não era para mim, só que eu não entendi, muito menos meu esposo. Na realidade, a chamada pastoral foi para ele e não para mim, só que nós interpretamos como se fosse para os dois, pois no momento que ele assumisse, inevitavelmente, eu teria que dar um suporte mais intenso, visto que íamos iniciar duas congregações a partir do zero, como missionários, e sem muita ajuda. Portanto, a responsabilidade de decidir prosseguir com esse trabalho foi inteiramente minha, e ninguém, muito menos Deus, teve culpa de nada. 

No íntimo do meu ser, eu sabia que meu marido estava plenamente apto para lidar com as pessoas e assumir o chamado, mas eu, por algum motivo que não discernia ainda, não estava. Mas, resolvi passar por cima de mim mesma e achei que suportaria tudo o que estava por vir, pois eu entendia que apenas tinha alguns defeitos dos quais eu poderia me arrepender e me livrar com o tempo, que eu era uma pessoa normal e estava certíssima que Deus me capacitaria para fazer tudo o que teria que fazer.

Realmente, apesar de eu estar executando um trabalho que não era para mim, Deus me livrou muitas vezes e me capacitou sobrenaturalmente para trabalhar no meio eclesiástico e suportar situações que eu mesma, na minha condição real, não teria suportado por muito tempo (eu ainda consegui passar seis anos no trabalho pastoral ao lado do meu esposo). Deus sabia que a minha intenção era dar suporte ao meu marido naquele chamado, mesmo que ainda eu sentisse que não tinha condições de estar fazendo aquilo. Eu não poderia vê-lo precisando de ajuda e ficar de braços cruzados.

Como as igrejas estavam iniciando, e não tínhamos muita ajuda para fazer todos os serviços nas duas congregações, eu me sentia na obrigação de colaborar em tudo o que eu podia, inclusive, assumindo eu mesma a liderança de uma das duas igrejas que tínhamos fundado.

Dentre todos os trabalhos que tínhamos a realizar no exercício pastoral, além de fazer a parte de louvor, pregação, limpar e abrir a igreja, receber as pessoas na porta, ensinar os obreiros suas atribuições etc., o que eu achava mais desgastante era ter que lidar diretamente com as pessoas, ter que ouvi-las e dar atenção, ter que visitar e também recebê-las na minha casa; esses são, sem dúvida alguma, os principais serviços de um pastor. Eu deveria ficar muito alegre por poder servir à igreja do Senhor Jesus Cristo dessa maneira e, no início, eu realmente me sentia muito feliz, fazia tudo com muito prazer.

Mas, após alguns meses, eu estava pedindo ao Senhor para não pastorear mais, pois, antes mesmo de ir encontrar os irmãos, eu já ficava angustiada. Quando eu estava com eles, não via a hora de ir embora, ou que eles fossem embora, para eu me sentir bem novamente. Essa situação me deixava muito confusa e me levava a pensar que eu era uma pessoa muito má, e que precisava mesmo me arrepender daquilo. 

Congregar deve ser uma coisa prazerosa para os que estão em Cristo, mas, para mim, se tornou um pesadelo, eu não entendia o porquê, nem tinha como desabafar isso com ninguém. Se eu dissesse ao meu marido muito provavelmente ele iria me corrigir, pois iria interpretar que eu estava desdenhando o chamado ou desanimando de prosseguir na obra de Deus. O tempo foi passando e eu fui prosseguindo nesse dilema, calada, e cada vez mais me frustrando comigo mesma e entrando num estado depressivo, sem saber.

Quando eu assumi a liderança da segunda igreja que fundamos, já não estava bem de saúde, apresentando muitos sintomas de ansiedade e procurando tratá-los com medicamentos paliativos. Eu orava para ser curada, mas os sintomas não saiam. E não saiam porque eu não tivesse fé, mas porque eu não deveria estar fazendo aquilo. Eu não fui projetada para cuidar de muitas pessoas e fazer muitas tarefas e sim, para ajudar uma ou, no máximo, duas pessoas por vez, focando somente nelas, e não por muito tempo. O excesso de barulho e informação me desgasta e me leva a estressar mais rápido que pessoas neurotípicas.

Sempre gostei de crianças e amo estar com elas, mas, com o tempo, cheguei a um ponto que só de pensar que eu ia ficar no departamento infantil, já me dava desespero. Eu não suportava mais o barulho que elas faziam. Por causa disso, não demorou muito para eu passar a coordenação do departamento infantil para outras pessoas. Isso foi um desastre em alguns aspectos, pois as pessoas para as quais eu passei o cargo não tinham condição de assumi-lo, contudo, era o que eu tinha à disposição.

Quando minha filha, que ainda era bem jovem, assumiu o trabalho infantil na primeira igreja que fundamos, fiquei muito aliviada e feliz. Ela sempre teve vocação para lidar com crianças e, apesar de ser ainda bem jovem, isso se notava no bom desempenho dela no trabalho naquela área. Todas as crianças a amavam. Ainda hoje ela ajuda no departamento infantil da igreja que congrega.

No meio de tantos trabalhos que eu tinha para executar, eu me esforçava ao máximo para dar o meu melhor, pois não estava fazendo aquilo tudo por minha causa ou somente por causa das pessoas e sim, primeiramente, por causa de Jesus: eu queria atender ao chamado e servir como podia.

Ao assumir a liderança da segunda igreja que fundamos, era necessário que eu estivesse lá todos os fins-de-semana para administrá-la. Para tanto, tinha que sair da cidade que eu residia para outro município que distava cerca de 50 minutos de viagem, todas as sextas-feiras pela manhã, e só voltar para casa nos domingos à noite ou nas segundas-feiras pela manhã. E isso foi a gota d'água que faltava para eu iniciar também um estado depressivo, que começou no meio do ano de 2016 e culminou num "meltdown" (crise de depressão com ansiedade) no início do ano de 2017.

Ao fim do ano de 2016, infelizmente, fomos forçados a fechar as duas igrejas, por falta de condições de exercer o pastoreio. Naquele momento eu já não podia mais assumir a liderança da segunda igreja por estar enfrentando uma crise muito forte, chorando diariamente sem uma causa aparente e sentindo muitos sintomas ruins em meu corpo: labirintite (com tonturas todos os dias e várias vezes ao dia), urticária (todos os dias), digestão ruim (frequente acúmulo de gases), insônia persistente, mal-humor, taquicardias frequentes (todos os dias, várias vezes por dia) - eu me assustava com qualquer coisa e com frequência, e cada susto era uma palpitação que me dava, dores nas articulações, engasgos frequentes (todos os dias e todas as vezes que eu me alimentava), dentre outros. Todos os sintomas juntos caracterizavam esse quadro de meltdown em que eu me encontrava.

Por causa do meu estado, que se agravava dia a dia, e sem ter quem nos substituísse, meu marido não viu outra saída senão terminar com os trabalhos nas duas igrejas, para que pudesse me dar maior atenção e cuidar de mim. Nós achávamos que ao parar o trabalho pastoral minha saúde iria melhorar, mas isso não aconteceu. Como continuei piorando, mesmo estando somente em casa, fui buscar ajuda profissional. Em março de 2017 iniciei um tratamento para depressão com ansiedade, que foi muito bom para mim, aliado ao descanso que fui obrigada a ter.

O tratamento durou cerca de um ano e, em abril de 2018, eu já estava sem mais nenhum dos sintomas do meltdown, e não precisei mais continuar com a medicação. No entanto, minha condição asperger não havia sido diagnosticada, mesmo que ainda durante as consultas eu falasse como me sentia e o que acontecia comigo. Hoje eu sei o motivo: a pessoa que estava fazendo o meu tratamento, apesar de ser uma excelente profissional, não era capacitada para dar um diagnóstico de TEA. 

Descobri que os profissionais capacitados para isso são os que fazem cursos específicos na área do espectro autista (nem todos fazem!), e que o laudo não pode ser emitido por um profissional apenas, mas por uma equipe multidiciplinar, formada por, pelo menos, um psicólogo, um neurologista e um psiquiatra, todos já com experiência no diagnóstico dessa condição.

Foi durante o tempo do tratamento que comecei a pesquisar sobre neuroatipias, pois eu desconfiava que meu caso era especial. Quando terminei a medicação, eu já estava ciente de que era aspie, mesmo sem ter feito o diagnóstico com um profissional, pois passei todo aquele tempo do tratamento assistindo vídeos e lendo artigos médicos sobre várias condições até me identificar com o quadro do portador de TEA. 

Quando eu finalmente disse ao meu marido o que achava que tinha, ele não aceitou. Ele me achava normal, embora uma pessoa um tanto difícil de conviver. Só que, eu não me sentia normal, quando me comparava com os outros. Por fim, ele mesmo foi pesquisar sobre o assunto e chegou à conclusão que eu estava mesmo dentro do espectro autista.

Foi preciso toda uma série de acontecimentos para que, enfim, descobríssemos que havia algo diferente no meu corpo e que, ao contrário do que pensávamos, eu não estava de má vontade para servir a Deus. 

Saiu um peso de mim e hoje estou em paz com relação ao que posso ou não fazer, sem me condenar por não poder fazer alguma coisa. Meu desejo é que pessoas que possam estar na situação em que eu me encontrava e que hoje estão sofrendo sem entender o que se passa com elas possam saber a verdade sobre si mesmas e finalmente levarem uma vida tranquila.

Muitas vezes pensei em desistir de servir ao Senhor, por não entender o que se passava comigo. No entanto, Ele sempre levantou pessoas para me ajudar a continuar, e meu esposo, apesar de sofrer com meu comportamento estranho, foi a pessoa que mais Deus usou e continua usando para me animar e ensinar. Sou muito grata ao Senhor pela vida dele.



Tenho consciência que durante todo esse processo de auto-descoberta, Deus estava ao meu lado, me livrando e cuidando de mim. Ele mesmo me mostrou claramente como eu deveria proceder, especialmente no momento da crise, pois fiquei num estado em que não sabia mais o que fazer, com quem falar ou para onde ir, e meu marido muito menos. Nós não dizíamos a ninguém o que estava se passando comigo, para não escandalizar as pessoas. Eu podia ser mal interpretada, visto que as demais pessoas do nosso convívio me viam como alguém aparentemente normal.

Posso atestar que Jesus Cristo realmente nos guiou no meio de toda essa experiência. Sei que Ele não desejava que tivéssemos passado por todo esse sofrimento, mas, de certa forma, foi necessário para que finalmente compreendêssemos como deveríamos atender corretamente ao nosso chamado. Ele é bom e paciente!

Missionária Oriana Costa

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Depoimento - Parte 1 - O TEA na minha vida...

Este é um texto especial. Ainda em toda a minha vida não escrevi nada do gênero. Venho tratar aqui de algo que está em minha mente, mais precisamente em meu cérebro, desde que fui gerada no útero da minha mãe, contudo, nem ela e nem eu sabíamos disso: sou portadora de TEA (Transtorno do Espectro Autista).

Minha vida sempre foi um grande dilema. Muitas coisas que aconteciam comigo e aconteciam ao meu redor eu não entendia. Sempre me achei muito diferente da maioria das pessoas, mas não compreendia o porquê. Às vezes, me achava muito capaz para algumas coisas, outras vezes me achava uma tola, uma idiota, uma excluída. Meus pais nunca me disseram nada a respeito, apesar de eu notar um certo esforço da minha mãe em querer saber porque eu me comportava de maneira tão diferente do resto das crianças no tempo de escola.

Sofri a minha infância, adolescência e juventude inteiras, me sentindo incompreendida pelos meus pais e por outras pessoas, me sentindo mal quando estava perto de muita gente ou em lugares com muito barulho (eu era obrigada a estar nesses lugares), passando meus dias enclausurada no meu quarto e sem amigos - estar sozinha, ou com pouca gente perto de mim, me fazia muito bem e ainda hoje me faz.

Creio que as pessoas na escola e na faculdade deviam me achar muito estranha, mas não tinham coragem de me dizer. Quando eu era adolescente, tinha mais amizade com crianças do que com pessoas da minha idade. Eu achava mais fácil me relacionar com elas. Elas não exigiam muito e gostavam de mim do jeito que eu era. Eu realmente não tinha assunto para as pessoas da minha idade. Se fosse para falar de coisas relacionadas à escola, de estudos, até conseguia conversar, mas, quando passava disso, já não me interessava mais e assim eu tendia a fugir de conversas mais maduras.

Eu amava poesia (e cheguei a fazer várias), artes plásticas de uma forma geral, música e teatro. No entanto, por ser criada de uma forma muito presa, não podia ir fundo com nenhuma das coisas que gostava. Meus pais não me deixavam sair para passear com amigos, e eles mesmos não gostavam de sair. Os únicos lugares que eu podia ir eram: escola, dentista, médico, às compras, sozinha ou na companhia deles. Minha família sempre foi muito reservada e o passeio que eles faziam sempre era para um pequeno sítio situado num município vizinho à cidade que morávamos, para o qual iam todos os fins de semana. Foi nesse ambiente "de claustro" que eu cresci.

Hoje, graças a Deus, consigo enxergar porque fui criada tão presa: percebi que meu pai está dentro do espectro autista, sendo dele que herdei tal condição.

Meu pai sempre foi um homem muito solitário e amargo, só se sentia bem longe de tudo e de todos. Nos fins de semana, se retirava para o seu pequeno sítio de três hectares. Após fazer um concurso para escriturário em um banco, passando em segundo lugar no ano de 1977, ainda quando eu era pequena, trabalhou ali até se aposentar, cerca de trinta anos depois. Ele sempre foi fascinado por matemática e lógica, o que ajudou para que ele se desse muito bem no seu trabalho. O hiperfoco é uma das características de pessoas que se enquadram no perfil do TEA; porém, no meu caso, sempre tive um foco onde eu podia usar minhas habilidades criativas.

Então, de segunda a sexta, meu pai passava o dia trabalhando, fazendo cálculos no banco e, à noite, voltava para casa para jantar e dormir; ao voltar para casa não falava muito com ninguém, simplesmente se isolava. Não tinha amigos, a não ser os colegas de trabalho, que vez perdida apareciam para nos visitar.

Meus pais muito dificilmente saiam para visitar outras pessoas, mesmo seus parentes. E muito dificilmente estes apareciam em nossa casa, pois geralmente as pessoas gostam de ir fazer visitas umas às outras nos fins de semana e, nesses dias, nós estávamos longe, isolados num sítio, onde meu pai gostava de estar. Geralmente, as pessoas que costumavam ir ao sítio vez ou outra e ficar nos fins de semana conosco eram as irmãs do meu pai, minhas tias.

Uma delas ficou viúva muito cedo e uma outra era casada com um marido esquizofrênico, de forma que encontravam nesses passeios em família uma forma de abrandarem aquele vazio da ausência dos maridos. A presença do meu pai servia para suprir a falta dos pais dos meus primos.

Dessa forma, me acostumei a ficar só a maior parte do tempo e, quando muito, na companhia da minha família, sem muito papo com meus pais, vivendo num mundo de sonhos, cores, formas e sons, um mundo só meu, que eu não compartilhava com absolutamente ninguém.

Quando eu e meus pais conversávamos, sempre era para resolver alguma coisa, tomar alguma decisão e só. Eles não demonstravam nenhum tipo de afeto com pessoas, nem mesmo comigo ou com minha irmã; especialmente o meu pai só conseguia demonstrar afeto pelos bichos de estimação que criava. Quando eu questionava minha mãe sobre isso ela respondia que não precisávamos ser carinhosos uns  com os outros para estarmos bem; e também sempre me dizia: "amigos só põem a gente a perder, não precisamos de amigos", talvez numa tentativa de me consolar. Foi nesse contexto que passei toda a minha infância, adolescência e parte da minha juventude. Essa era a minha normalidade.

No entanto, apesar das minhas limitações, eu sentia que não era bom levar a vida daquele jeito. De fato, aquela maneira de viver me oprimia e eu me sentia sempre desvalorizada e incompreendida pelos meus pais. Por não conversarmos muito, em muitas ocasiões eu acabava tomando minhas decisões sem comunicar a eles e fazia muitas coisas às escondidas. Na escola e na faculdade, ninguém tinha ideia do estilo de vida que eu tinha.

A partir dos 14 anos, iniciava e terminava namoros (muitas vezes, sem que meus pais soubessem), sempre na tentativa de que algum deles desse certo e eu finalmente saísse daquela prisão. Mas, eu me aborrecia rapidamente com os comportamentos dos rapazes e logo abandonava os relacionamentos. O que eu não sabia era que eu tinha um problema neurológico e, mesmo que eu casasse e saísse de casa, o fato de eu estar casada e morando longe dos meus pais não iria melhorar muito minha vida. Fatidicamente, descobri isso passando por mais sofrimentos depois de me casar, ainda muito jovem, com 20 anos. Aos 21 anos, alguns meses antes de descobrir minha primeira gravidez, deixei Jesus Cristo entrar em meu coração e passei a aprender Sua palavra. Este é o motivo de eu ainda estar viva hoje e conseguir superar os sintomas do TEA, o que me faz parecer uma pessoa normal.

Por não ter muita noção de perigo, muitas vezes me envolvi em situações que poderiam ter terminado tragicamente, se não fosse a intervenção de Deus me protegendo, pois, como eu não tinha amigos e não dizia nada a ninguém, qualquer coisa poderia me acontecer e muito provavelmente as pessoas só iriam saber quando já fosse tarde demais. Com o tempo, fui aprendendo a não ficar sozinha em todo o tipo de lugar, porque, antigamente, eu não sentia medo de absolutamente nada.

Fui tratada como uma pessoa normal (neurotípica) esses anos todos da minha vida e isso me custou muito sofrimento e frustrações. Certamente, se eu tivesse sido diagnosticada na infância, muitos transtornos e situações desgastantes que passei teriam sido evitados e eu teria tido uma melhor qualidade de vida. Vejo que o que realmente está fazendo a diferença hoje é saber a verdade sobre mim mesma. Antes tarde do que nunca, mas ainda considero que não seja tão tarde, apesar de já ter passado dos quarenta. Pelo menos agora estou mais consciente de quem realmente sou e das minhas limitações e posso dizer alguma coisa concreta às pessoas se precisar explicar minha conduta.

Os vizinhos da casa onde morávamos durante minha adolescência estranhavam minha maneira de ser e achavam que eu era orgulhosa, porque, ao sair na rua, não cumprimentava as pessoas que passavam perto de mim. E ainda hoje, pode ser que algum vizinho do lugar onde moro me ache estranha, visto que nem sempre saio de casa disposta a falar ou cumprimentar as pessoas, mas tenho me esforçado para agir como uma pessoa normal e educada.

Tenho sempre que me policiar ao sair de casa, pois como meu jeito de ser é diferente, posso ferir alguém com minhas palavras ou meu comportamento sem perceber. Tento parecer o mais normal possível, mas isso é muito cansativo para mim, demanda muita renúncia e paciência. Por isso reluto tanto para sair de casa às vezes, especialmente quando é para socializar. Preciso sempre tomar muito cuidado com o que digo ou faço para não ser mal interpretada, ainda assim, vez por outra, escorrego nas ações e nas palavras e aí, já era.

Festas, reuniões, locais com muita gente e muito barulho são sempre muito desgastantes para mim, tanto por causa da vigilância que eu tenho que ter com meu próprio comportamento, quanto pelos estímulos sensoriais ao meu redor (mudanças climáticas, cheiros, sons, luz, movimentos, cores, formas, etc.), que muitas vezes me incomodam e até me assustam. 

Até para ir à igreja ou visitar meus pais, preciso fazer um esforço extra, pois, como já falei aqui, socializar é algo muito desgastante para mim; mas, ainda que eu não me sinta muito confortável, eu procuro estar lá por crer em Deus e saber, pela palavra d'Ele, que é necessário congregar para manter a fé e que também não devo abandonar meus pais. Minha forma de ver o mundo é muito diferente do normal, mais aguçada em alguns aspectos e deficiente em outros; meus sentimentos são diferentes, isso muitas vezes me atrapalha e se apresenta como um obstáculo gigantesco na hora de realizar algumas tarefas, mas não me impede de fazer o que é certo quando eu sou instruída sobre o que é certo fazer. 

Com toda a certeza, eu acabo fazendo um esforço muito maior do que uma pessoa normal precisa fazer para executar trabalhos comuns, mas procuro ser perseverante. Contudo, muitas vezes, preciso escolher se vou continuar com algumas coisas ou não, por causa da sobrecarga mental. Parar trabalhos no meio do caminho é muito frustrante para mim, mas muitas vezes sou obrigada a fazer por causa da minha saúde física e mental. Isso ocorreu, por exemplo, quando precisei interromper a faculdade que eu amava, a fim de cuidar da saúde do meu marido, num momento em que ele enfrentava uma enfermidade que o impedia de fazer tarefas rotineiras normalmente. Eu simplesmente escolhi cuidar dele, pois estudar e cuidar de uma pessoa enferma me sobrecarregava. E assim, acabei abandonando a faculdade que eu tanto gostava.

Não conseguia estudar e conciliar isso com os cuidados que tinha que ter com a saúde do meu marido, que na época chegou a ficar muito tempo doente, de cadeira de rodas, e acabei renunciando minha vaga na universidade. Deixei a faculdade que eu tanto gostava por não ter condições de agir como uma mulher normal. Os anos passaram e acabei desistindo de outra graduação.

Tenho problemas com relação a discernir fisionomias; não foram poucas as vezes que senti repulsa com os rostos e comportamentos de algumas pessoas, em vários lugares diferentes, que para outros indivíduos ao meu redor (como para meu marido, por exemplo) são percebidas como pessoas absolutamente normais. Ou seja, uma pessoa de aparência normal pode parecer monstruosa (exagerando aqui na palavra para que me possa fazer entender) ou bem estranha para mim, dependendo de como eu a percebo.

Consigo discernir quando uma pessoa está triste ou está alegre, se está cansada ou está pensativa/preocupada, mas certos tipos de posturas e jeitos de olhar podem me causar estranheza e podem me fazer ficar bem afastada de alguns indivíduos, sem que estas pessoas sequer tenham interagido comigo. 

Não tenho muito sucesso ao fazer leitura labial, é um desastre eu estar numa situação difícil em que alguém tente me comunicar alguma coisa apenas mexendo os lábios, sem emitir nenhum som: nada entendo e a pessoa perde seu tempo.

Também não me apego a pessoas ou coisas facilmente; só sinto falta de alguém se tal pessoa estiver convivendo comigo há muitos anos diariamente, ou se o indivíduo estiver ligado a mim de uma forma mais forte, como meu marido e meus dois filhos. E mesmo assim, a saudade ainda é um sentimento que não conheço muito bem. 

Não sou de ficar mandando mensagens para as pessoas ou querendo saber da vida delas; isso pode soar como indiferença, mas o fato é que, em todo o tempo, estou envolta na minha rotina, sempre silenciosa (eu não falo muito) e buscando me concentrar nos meus afazeres. Este é um motivo pelo qual tenho dificuldade de manter amizades, mas Deus realmente tem me ajudado com isso.

Às vezes, para mim, ficar em filas é bem complicado, especialmente se estiverem conversando atrás de mim ou muito próximos a mim. Sinto cócegas com alguns tipos de sons emitidos nas minhas costas e isso incomoda bastante. Esse é um tipo de percepção sonora que eu acho bem estranho em mim. 

Se faço apenas um tipo de serviço (ainda que minucioso) em que preciso me concentrar bem nele, me sinto confortável, no entanto, se tenho que fazer muitos serviços um atrás do outro, ou tenho que mudar de um para outro rapidamente, isso já me desgasta, me trava, pois minha mente sobrecarrega rápido - por isso sou tão lenta para serviços domésticos (essa é uma característica bem masculina que tenho). Contudo, amo cozinhar, pois nesse serviço posso usar bastante minha criatividade. 

Um dos momentos mais difíceis da minha vida foi quando eu tive que cuidar dos serviços da casa, de mim mesma, do marido e dos meus dois filhos concomitantemente, quando meus filhos ainda eram pequenos, coisa que eu sei que realmente não consegui fazer bem. Nessa época não tínhamos uma boa condição financeira, e não tínhamos condições de contratar pessoas para me ajudar. Então, eu acabei optando somente por cuidar dos filhos e do marido, e ainda assim me sobrecarregando, deixando a casa e os cuidados comigo mesma sempre para depois. Por isso eu acabei ficando com a saúde fragilizada e a a casa vivia bagunçada a maior parte do tempo. 

Eu não sabia como explicar o motivo de eu me sentir tão cansada o tempo todo apenas por cuidar dos meus dois filhos e do marido, se eu não estava doente. Fui mal interpretada muitas vezes pela minha própria mãe, que me dizia que eu estava de má vontade para cuidar da casa; durante toda a minha adolescência e início da minha juventude, ela me chamou por várias vezes de imprestável e de inútil, por não conseguir fazer tudo o que ela me pedia, na velocidade que ela queria, e isso me entristecia muito. Mas, ao aprender o ensino de Cristo, eu a perdoei, pois sei que ela me interpretou mal por não entender o que se passava comigo.

Aconteceu que, por três anos seguidos, enquanto meus filhos ainda eram pequenos (eles tinham apenas um ano de diferença de um para o outro), eu só conseguia cuidar deles dois e não conseguia cuidar de mim (especialmente não conseguia descansar ou dormir o suficiente, nem me alimentar direito). Não havia quem me ajudasse na maior parte do tempo, meu marido passava muito tempo fora de casa por causa da faculdade e do trabalho e meus pais moravam longe.

À medida que o tempo foi passando, fui ficando fraca e um dia fui levada para o hospital às pressas com uma grave infecção que quase me levou a óbito. Não morri naquele momento porque fui livrada por Deus. Passei uma semana internada até ter condições de receber alta e ir para casa. Depois disso, vendo meu estado de saúde fragilizado, meus pais resolveram me ajudar contratando uma pessoa para me auxiliar nos serviços domésticos, pois naquele tempo eu não podia pagar. Ninguém desconfiava que aquilo tudo estava acontecendo por causa de uma limitação neurológica que eu tinha. Esse foi, sem dúvida, um dos piores momentos que passei em minha vida por causa do TEA.

Sair da rotina sempre foi muito desgastante para mim, isso inclui toda e qualquer mudança no andamento natural das minhas coisas cotidianas. Quando sei que vou ter que viajar (mesmo que seja a passeio) ou ir visitar alguém (dependendo do motivo da visita), geralmente fico muito ansiosa e perco o sono antes e durante todo o decorrer do evento. É muito comum eu voltar de viagens exausta, se não tomar medicamentos para aliviar a ansiedade, pois só consigo dormir bem ao chegar em casa.

Não entendo todo tipo de piadas e muitas coisas ou situações que fazem as pessoas rirem, para mim, são indiferentes ou não têm graça nenhuma. Não consigo achar pessoas se acidentando algo engraçado - é assim que soa para mim as famosas "videocassetadas" -, enquanto os outros estão rolando de rir, eu fico séria.

Essas são algumas das situações que passei, e continuo passando, no meu dia-a-dia, desde a minha infância até agora. Muitas pessoas não entendem minhas reações diante de algumas situações, mas creio que se alguém que me conhece estiver lendo esse texto vai passar a me entender melhor a partir de agora. 

São muitas as limitações de uma pessoa que está dentro do espectro autista, por causa da sua percepção diferente das coisas ao redor, e realmente não sei se estaria casada por todos esses anos (agora 24 anos) com a mesma pessoa, se Deus não tivesse agido em nossas vidas para nos fazer aceitar um ao outro. Também não sei se suportaria atender ao chamado de Deus na minha vida, sendo uma pessoa anti-social por natureza, pois na igreja preciso lidar com pessoas que me procuram para conversar ou para aconselhamento, fazer coisas em equipe e ouvir sons muito altos (quando atuo na parte musical), tendo que passar muitas situações difíceis para mim, se o Senhor Jesus não me ajudasse muito e poderosamente.

Muitas vezes fiquei sem entender, ou entendi errado, comportamentos e falas do meu marido e, tantas outras vezes, meu marido ficou sem me entender ou entendeu errado minhas falas e meu comportamento. Isso resultou em muito desgaste em nosso casamento; creio que se não fosse a intervenção do nosso Criador, certamente não estaríamos mais juntos. Pelo conhecimento de Cristo aprendemos a perdoar e suportar um ao outro e praticamos o perdão mútuo mais do que um casal normal o faz em seu cotidiano, e digo com todas as letras que é isso que nos tem ajudado a prosseguir em paz e alegria.

Hoje estamos indo em busca de um acompanhamento profissional, pois o próprio Deus nos abriu os olhos para a existência do TEA em minha vida e tem nos direcionado a lidar com essa situação da forma correta. Graças ao cuidado do Senhor para conosco, meu marido está me compreendendo melhor e agora eu estou me sentindo mais segura; quando alguém é constantemente incompreendido pelos outros, tal pessoa se torna um ser que vive insatisfeito, inseguro e frustrado o tempo todo (era assim que eu me sentia).

O que posso dizer, enfim, é que Deus muda quadros e contraria as situações para que Seu Nome seja glorificado. Estamos vencendo! Em breve vou publicar outro texto com mais detalhes de como foi enfrentar o pastoreio de igrejas sem saber da minha condição, e como isso me afetou. Até lá!  

Oriana Costa

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Rastros e resultados


É muito comum na nossa vida cotidiana tomarmos decisões com base na aparência das coisas ou com base no que sentimos no momento. Isso é absolutamente natural e até nos livra de acidentes e outras coisas que atentam contra o nosso bem-estar. Muitas das nossas reações, se não forem rápidas, podem custar caro para nossas vidas ou para as vidas dos que nos rodeiam, podendo até mesmo finalizá-las.

No entanto, algumas vezes precisamos de um tempo a mais para agir ou para fazer uma escolha. Nós precisamos analisar os rastros e os resultados daquilo que vamos nos associar, apoiar ou usar. Precisamos saber se nossas decisões serão de fato boas não somente naquele momento em que estamos optando, mas também nos dias futuros.

Um dos problemas que enfrentamos nesses momentos é que em algumas situações não temos como saber ou discernir se as informações que chegam até nós sobre aquele assunto são mesmo verdadeiras, outras vezes, não temos como ter acesso às informações que precisamos. Em certas ocasiões, porém, nós somos levados a tomar decisões embasados pelo que ouvimos falar, mas não pesquisamos sobre o assunto; é muito comum, para a maioria das pessoas, seja por comodismo ou por falta de tempo, ou até mesmo por falta de paciência para pesquisar, aceitar de imediato a opinião de pessoas influentes ou mais letradas como sendo corretas do que ouvir ou ler a respeito e depois ir estudar um pouco sobre o tal assunto.



Pessoas que tomam como verdade ou acreditam de imediato na primeira coisa que ouvem ou leem, e não procuram analisar depois as informações que tiveram acesso, são enganadas e tomam decisões erradas para suas vidas mais facilmente do que aquelas que ouvem ou leem, mas em seguida procuram se informar mais sobre o que ficaram sabendo, na medida do possível.

É claro que existem pessoas nas quais depositamos nossa confiança cegamente, por assim dizer, pois sabemos que elas jamais mentiriam ou passariam a nós quaisquer informações equivocadas. A opinião dessas pessoas para nós é muito importante, e porque não dizer, até crucial, nos momentos de decidirmos alguma coisa. Porém, somos limitados e falhos: ninguém sabe de tudo e, muitas vezes, apesar da muita vivência, indivíduos podem se enganar ao emitir suas opiniões na tentativa de ajudar. Sem esquecer, obviamente, que nem tudo o que serve para uma pessoa, necessariamente, servirá para outra.

Por este motivo, não devemos ficar somente com uma opinião sobre um assunto, ou com a opinião de um grupo isolado, especialmente quando a decisão a ser tomada vai interferir de maneira forte em nossos futuros. E não somente isso, mas devemos procurar, sozinhos, nos informar melhor sobre o assunto. Temos hoje a internet à nossa disposição e, fazendo bom uso dela, podemos acessar com rapidez as informações que necessitamos, analisando racionalmente todos os lados possíveis das histórias ou todas as facetas, boas e más, que os assuntos possam apresentar.

Essas ações devem estar ancoradas num parâmetro importante: precisamos ter à disposição uma fonte absolutamente confiável de informações, onde possamos, a partir dela fazer, comparações com as demais fontes que nos emitem conhecimento. Deve ser uma fonte precisa, imutável, justa, imparcial, universal. Mas, onde encontrar tal fonte? Será que essa fonte existe? 

Bem, a resposta é que a fonte existe e é fácil de encontrar. Seu nome é "Bíblia Sagrada", também conhecida como a "Palavra de Deus". Ela não é somente um conjunto de livros religiosos. Antes disso, é um livro histórico. As informações contidas nela têm a capacidade de nortear nossas vidas da maneira correta, nos livrando de muitos males e prejuízos. O conteúdo da Bíblia é absolutamente íntegro e confiável, ao contrário do que muitos imaginam, e pode ser tomado como padrão de comparação em qualquer situação.



A Palavra de Deus apresenta centenas de situações e seus resultados, mostrando como elas aconteceram e porque aconteceram. Também mostra que desde o princípio da criação as coisas continuam se sucedendo da mesma maneira, só mudando a roupagem ou, a tecnologia. Ela realmente aguça o discernimento de quem investe tempo em buscar nela conhecimento e entendimento sobre os mais variados assuntos.

O conteúdo bíblico nos socorre prontamente na hora de enxergar o que é verdadeiramente bom e o que é de fato ruim para nós. Quem toma decisões adotando como parâmetro o conhecimento de Deus não se decepciona, é livrado do mal e tem sucesso em tudo o que faz. A própria palavra de Deus diz o seguinte:

"Como são felizes os que andam em caminhos irrepreensíveis, que vivem conforme a lei do Senhor! Como são felizes os que obedecem aos seus estatutos e de todo o coração o buscam! Não praticam o mal e andam nos caminhos do Senhor. Tu mesmo ordenaste os teus preceitos para que sejam fielmente obedecidos. Quem dera fossem firmados os meus caminhos na obediência aos teus decretos. Então não ficaria decepcionado ao considerar todos os teus mandamentos.” (Salmos 119:1-6)

"A tua palavra, Senhor, para sempre está firmada nos céus. A tua fidelidade é constante por todas as gerações; estabeleceste a terra, que firme subsiste. Conforme as tuas ordens, tudo permanece até hoje, pois não há nada que não esteja a teu serviço. Se a tua lei não fosse o meu prazer, o sofrimento já me teria destruído. Jamais me esquecerei dos teus preceitos, pois é por meio deles que preservas a minha vida." (Salmos 119:89-93)

"Tenho constatado que toda perfeição tem limite; mas não há limite para o teu mandamento. Como eu amo a tua lei! Medito nela o dia inteiro. Os teus mandamentos me tornam mais sábio que os meus inimigos, porquanto estão sempre comigo. Tenho mais discernimento que todos os meus mestres, pois medito nos teus testemunhos. Tenho mais entendimento que os anciãos, pois obedeço aos teus preceitos." (Salmos 119:96-100)

Os três trechos acima grafados estão localizados no Salmo 119, constante no Antigo Testamento da Bíblia Sagrada. Eles constituem a fala do Rei Davi, onde ele, ao mesmo tempo em que dá seu depoimento com relação ao que comprovou através do uso da instrução de Deus, também conversa com Ele. E não é somente ele que chega a estas conclusões ao tomar como padrão para sua vida os princípios estabelecidos por Deus, mas todos aqueles que acessam este conhecimento de todo o coração concordam unânimes com o parecer desse famoso rei.


Oriana Costa - Missionária

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Um sentimento puxa outro, um conhecimento leva a outro, uma atitude leva a outra


Nestes meus 44 anos de caminhada na Terra, tenho aprendido muito a cada dia, especialmente depois que passei dos trinta. E graças ao conhecimento da palavra de Deus, tenho discernido melhor as coisas ao meu redor.

Atualmente, vivendo ainda no meu país, e observando tudo o que vem acontecendo, não somente em minha nação, como também em muitas outras, percebo como os pensamentos e desejos individuais das pessoas tem passado por cima da verdade que as rodeia e levado muitos a mergulharem numa grande confusão gerada por conceitos egoístas e imediatistas. Valores imutáveis e constantes que antes norteavam as pessoas em suas decisões, e lhes traziam equilíbrio e paz, não só individualmente como socialmente falando, hoje, são colocados de lado para dar lugar a valores inconstantes, que mudam a cada instante dependendo da aparência das situações, das emoções e das formas de pensar muito pessoais de cada indivíduo.

Cada pessoa tem sua maneira de pensar e ver as coisas, como também nossas emoções variam de acordo com cada circunstância que enfrentamos diariamente, e isso não é ruim. O problema é que fatores que mudam com facilidade não podem servir de base para se criar leis e se tomar decisões, pois leis são criadas (ainda que aqui na terra elas mudem de acordo com nossas vontades) e decisões são tomadas para interferir em nossos futuros para sempre, de uma forma ou de outra.

Algumas leis e decisões não têm tanta força para mudar nossas rotinas a ponto de nos fazer modificar a forma de viver e de se relacionar com os outros, mas outras têm muito poder para fazer isso acontecer, de forma a interferir tanto para o nosso bem quanto para o nosso mal, seja individualmente seja coletivamente. E essas coisas eu observei estudando a Bíblia e usando como fator de comparação a Palavra de Deus, que não muda e não falha, e não usando apenas os acontecimentos ao meu redor ou meus próprios sentimentos e desejos pessoais. Aliás, percebi, pelo conhecimento da Palavra de Deus, que muitas decisões que tomei, levada por meus próprios sentimentos, me fizeram sofrer muito mais na vida do que se, simplesmente, eu tivesse conhecido e colocado em evidência a verdade de Cristo no momento de agir.

Muitas vezes criei regras para mim mesma, como por exemplo: "agora só vou amar apenas quem me ama e só vou valorizar quem me valoriza"; comecei a praticar tais regras, contudo, elas se basearam em sofrimentos passei. O resultado foi mais sofrimento, pois isso me levou a guardar mágoas, ficar sempre lembrando o que as pessoas fizeram de ruim comigo e não perdoar de verdade o meu próximo, mesmo que eu falasse que já tinha perdoado. Cristo nos ensina exatamente o contrário do que eu pensava levada por meus sentimentos e experiências ruins: "Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus." (Mateus 5:44, ACF)



O que Cristo falou não é somente um bom conselho, mas é a lei que opera em seu Reino, e é a forma como os verdadeiros filhos de Deus se comportam. Filhos de Deus não vão se comportar de maneira diferente da que Cristo ensina e, se por acaso contrariam essa conduta, logo se arrependem, pois lembram e colocam a Palavra de Deus em primeiro lugar em suas vidas. Somente ela pode representar um fator de ensino e correção justos na vida de alguém, para que tal pessoa seja livrada de sofrimentos vãos, esteja em paz consigo mesma e "esteja em paz com os outros ao seu redor" (na medida do possível, pois como falei no início "cada pessoa pensa de uma forma diferente", e por isso tem formas diferentes de interpretar os fatos; por este motivo há tanta perseguição aos cristãos - os que não conhecem o ensino de Cristo muitas vezes interpretam as atitudes dos cristãos de forma equivocada).

Observei, ao longo desses anos de vida, que existem coisas que, por mais que as pessoas neguem movidas por seus sentimentos e desejos pessoais, sempre serão o que são e nada poderá mudá-las; como exemplo temos: a terra girando em torno do sol, o sol trazendo calor à terra, a terra produzindo ervas verdes, animais e plantas formando ecossistemas perfeitos, a lua girando em torno da terra, seres vivos nascendo e seres vivos morrendo. Para todas essas coisas acontecerem sem falhar, existem leis que foram criadas, estabelecidas em seus devidos locais e nunca mudam, como por exemplo, a lei da gravidade. Quem criou essa lei perfeita e muito poderosa, como também todo o universo, não foi o homem nem o acaso, mas Deus.

A lei da gravidade não foi criada pelo homem e sim, descoberta e pesquisada por ele, para ser melhor entendida e usada. E ela é tão perfeita e tão bem estabelecida que, se qualquer ser humano tentar mudá-la não conseguirá. A única coisa que os seres humanos podem fazer é se adaptarem a ela em cada lugar que ela age. Quando alguém tenta desafiá-la sem se proteger adequadamente, achando que nada lhe acontecerá, fica à mercê de seus efeitos, pois ela não para da funcionar onde está estabelecida em nenhum momento.

Agora faço a seguinte pergunta: como alguém pode saber que roubar é errado de fato e parar de roubar para nunca mais voltar a fazê-lo? Somente por alguém lhe dizer que roubar é errado? Somente por saber dos danos que roubar causam ao próximo? Somente por que sabe que se roubar poderá ser penalizado ou castigado por isso? Se essas afirmações fossem suficientes para fazer com que as pessoas que roubam parassem definitivamente de roubar, então não teríamos tantos ladrões agindo hoje em nosso país e no mundo, e as penitenciarias, especialmente no Brasil, não estariam tão cheias de ladrões de todas as classes sociais.

Alguém que rouba precisa comparar o ato de roubar com algum outro comportamento ou conceito que lhe faça mais sentido ou, desta forma, tal pessoa não verá vantagem alguma em parar de tomar à força, ou às escondidas, as coisas dos outros. Quem rouba não se envergonha do que faz, a menos que diante de tal indivíduo seja colocado um fator verdadeiro, imutável e constante, com resultados totalmente benéficos, que conduza ao arrependimento sincero de sua prática. O único parâmetro de comparação capaz de fazer alguém repensar sua conduta e se arrepender realmente é o ensino de Cristo - a Verdade de Deus -, não há outro. Não é pela força que se converte realmente o mal pensamento de alguém em um bom pensamento e sim pelo conhecimento da verdade das coisas.



A verdade das coisas vem do nosso Criador e este nos apresenta um padrão de justiça puro e que não varia conforme as situações, que está manifesto em Cristo. E Cristo, por sua vez, nos revela tal informação por seu ensino.

Oriana Costa - Missionária

Quer assistir um bom vídeo explicativo sobre o Reino de Deus? Clique no link a seguir:
https://youtu.be/S7x-GYma9zY - clicando nesse link você terá acesso ao canal do Ministério Águios.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Meu devocional - Salmo segundo

Muitas pessoas entre as nações e seus governos investem contra Jesus Cristo perseguindo os cidadãos de seu Reino, desprezando sua palavra e ridicularizando sua autoridade, sem, no entanto, entenderem bem porque estão fazendo isso. 

Equivocadamente acusam a Cristo, culpando-o de agir com relação ao mundo com um julgo duro e colocar sobre as pessoas um fardo pesado. Porém, estão enganados pelo príncipe desse  mundo, Satanás. 

O Senhor Jesus, que vive e reina eternamente, está vendo e ouvindo essas coisas, e fazendo chacota de tudo isso. A verdade é que Ele foi estabelecido no trono do governo das nações para sempre, e ninguém pode tirá-lo de lá. O Pai entregou a Ele este encargo, dando-lhe todo o poder sobre a terra e os céus, para decidir acerca de tudo e julgar todas as coisas com rigor e imparcialidade, de acordo com os decretos estabelecidos pelo Pai Criador antes da fundação do mundo. 

Essa é a realidade que aterroriza os principados e potestades nas regiões celestiais, e que no dia do juízo será vista claramente em ação. 

Os que se tornam cidadãos do Reino de Deus discernem perfeitamente essas coisas e tem feito a sua parte, advertindo as lideranças da terra que reconsiderem e sejam prudentes; que procurem se aproximar de Deus e conhecer a Cristo, adorando-o e alegrando-se por causa dEle, pois nele está o livramento da destruição que se aproxima: aqueles que, se submetendo ao Maligno, não se arrependem da maldade e negam esta realidade, estão contra Cristo e já estão condenados para sempre. 

Felizes são os que nele se refugiam.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Meu devocional - Salmo primeiro

Não seguirei os conselhos da impiedade nem me deixarei influenciar pela conduta pecaminosa, e nem irei me juntar aos que apontam o dedo para criticar e zombar.

Sou filha de Deus, amo a Sua justiça e por causa disso serei feliz para sempre, abençoada em todas as áreas da minha vida.

Minha plena satisfação está na justiça do Reino de Deus, e nela penso dia e noite. Neste mundo, andar na retidão da justiça de Deus faz com que eu seja como uma árvore frutífera plantada na margem de um rio que nunca seca: dou meus frutos no tempo certo e minhas folhas nunca murcham; sou próspera em tudo o que faço.

De modo contrário, quem segue a impiedade, fazendo suas próprias vontades, vive como a palha que o vento carrega e no fim de todas as coisas não sobreviverão ao julgamento.

Por isso, os que consentem com a maldade não permanecerão juntos para sempre dos que foram justificados pelo sangue de Jesus.

A diferença entre os que foram justificados por Cristo e os que não foram, é esta: os primeiros buscam conhecer a Cristo e alcançam vida para sempre, e os que vivem conforme seus próprios desejos somente aumentam dia a dia a maldade dentro de seus corações e seguem para a destruição sem se darem conta. 

sábado, 8 de setembro de 2018

O melhor sonho

Quando somos crianças nós queremos brincar, queremos comer algodão doce e ir ao parque; nessa época da vida o que mais queremos é diversão e muito movimento. E então, nós sonhamos em brincar o dia todo em todos os brinquedos do parque; nós também sonhamos em ganhar o brinquedo mais maravilhoso para nós, e também com os presentes que vamos receber no aniversário e no Natal. Os sonhos de uma criança são assim.

Aí, um dia nos tornamos adolescentes. Nossos sonhos mudam. Passamos a querer escolher nossas próprias roupas, e não queremos mais varrer a casa e lavar a louça como queríamos quando éramos crianças. Agora nós sonhamos em ir passear com nossos amigos no shopping, e o parque já não nos interessa mais. Sonhamos também em não ter que arrumar o quarto quando chegarmos em casa, e sonhamos com o momento em que vamos poder sair com os amigos para passear e voltar para casa a hora que bem quisermos. Os sonhos de um adolescente são assim.

Então, o tempo passa e nos tornamos jovens. Saímos do ensino médio e entramos na faculdade. Os que não entram na faculdade vão trabalhar. Agora, os sonhos são outros. Começamos a pensar em ter nossa própria vida, nossa independência. Então, sonhamos em conseguir um diploma universitário, um bom trabalho, um salário decente. Sonhamos encontrar alguém para casar e constituir família. E sonhamos também em viver grandes aventuras pelo mundo afora. Pois é, jovens sonham assim.

Depois, mais uns anos se passam, e ficamos mais velhos. Entramos na casa dos "enta" e outros sonhos começam a ocupar o lugar dos sonhos anteriores. Estamos cansados de muitas coisas, e sonhamos em parar um pouco para respirar, porque trabalhamos tanto e temos tão pouco tempo para descansar. Nós começamos a sonhar com a aposentadoria. Sonhamos com aquela viagem de férias prolongadas. Sonhamos com uma velhice tranquila.

Entre uma fase e outra da vida, muitos outros sonhos se formam dentro das mentes das pessoas. As que passam fome, sonham em poder comer bem todos os dias. As que não tiveram oportunidade de estudar, sonham em um dia poderem ir à escola e à universidade. As que não se deram bem no casamento, em encontrar alguém que lhe complete. As que não conseguiram ter filhos, sonham em um dia tê-los.

Outros sonham em ir assistir ao show do seu ídolo e poder conhecê-lo pessoalmente. Outros ainda sonham em poder viajar o mundo inteiro. Alguns sonham com o momento de reencontrar seus parentes distantes, outros não vêem a hora de ir embora e acabar com o sofrimento. Outros sonham em ficar curados e se verem livres das medicações, e outros sonham em conseguir pagar suas dívidas.

Nós passamos a vida inteira querendo, sonhando com muitas coisas. Se pararmos para pensar, vamos perceber que nossos sonhos vivem mudando, conforme mudam as fases e situações das nossas vidas. Eles mudam, e passam, assim como as circunstâncias. Podem se tornar mais intensos ou perderem a força de uma hora para outra. E eles podem se realizar ou não.

Ter sonhos e estabelecer metas faz parte da mente humana desde a infância. Porém, muitas vezes vamos precisar abrir mão deles, seja por um motivo seja por outro, porque, como disse há pouco, eles mudam conforme mudam as situações. O importante não é realizar todos os sonhos e cumprir todas as metas. O que mais importa em todo o processo da vida é saber lidar com a mudança de situação, pois elas mudam e com elas os sonhos e as metas. Se a nossa felicidade estiver em realizar sonhos e ter necessariamente que ver nossas metas cumpridas sempre, então seremos infelizes por toda a vida, e insatisfeitos com tudo.

O verdadeiro sábio põe sua confiança não em si mesmo ou em sua própria força, mas em algo que não mude, não pereça e seja eterno; ele põe sua confiança em algo que seja estável e que lhe dê segurança.

Já sabemos que o mundo e tudo o que há nele, inclusive nós mesmos, está mudando o tempo todo e é instável por natureza. Assim sendo, quem é de fato sábio constrói o alicerce da sua vida em Deus, pois esse é o único que não muda e não falha.

Quem está seguro em Deus, ainda que venha a adversidade, pois ela sempre acontece (mesmo que nos cerquemos de muitos esquemas para impedí-la), se mantém confiante, e seu principal objetivo não muda: pois o sonho único e constante dos que acreditam e confiam em Deus é poderem se encontrar com Ele, e estarem com Ele para sempre vendo-o face a face.

Missionária Oriana Costa.



Antes de escolher os apóstolos - Parte 3.5 - O Sermão da montanha

Dando continuidade ao nosso estudo do Evangelho de Mateus, agora prosseguimos com uma parte bastante sensível do ensino de Cristo no Sermão ...